domingo, 16 de agosto de 2015

Amigo Adorno

Vicente Adorno
No dia 10 de dezembro de 2013 alguém entra na minha linha do tempo e escreve: "Bernardo, muito legal o seu blog". Era Vicente Adorno, a quem eu não conhecia. Agradeci, nos adicionamos e fui fuçar seu perfil, onde encontrei jóia trás jóia de deleite cultural e sensorial.


Éramos irmãos espirituais e acabávamos de descobrir. Gostos semelhantes, temperamentos parecidos, a mesma empolgação e entusiasmo com a música, o cinema e o teatro... No dia 24 de dezembro, ou seja, duas semanas depois dele me abordar para comentar o meu blog, estou voltando de metrô não sei de onde, e em dada estação entra no trem um sujeito como eu, óculos, bermudão, camiseta, um livro debaixo do braço e se senta próximo. Olho bem para ele, penso, olho de novo... e não deu outra:

- Vicente??
O sujeito vira pra mim:
- Oi?

Era Vicente! Reconheci-o pelas fotos do Face! Não bastasse que nossas afinidades o atraíssem para meu blog, o cosmos ainda preparou, como presente de Natal, um encontro absolutamente acidental e improvável. Rimos como crianças da coincidência, nos abraçamos, proseamos o caminho todo como velhos amigos que já éramos e nos prometemos novos encontros para breve. Deu-me seus telefones. Mandei-lhe um torpedo festejando nosso encontro e observando como este mundo é pequeno... Sua resposta: "De fato o mundo é pequeno, o ser humano é que é grande rs rs rs rs"...

No meio tempo o Face foi nossa trincheira. Era Vicente publicando aquelas músicas clássicas lindas, era eu recordando-o de peças que ele assistiu em Londres ainda na década de 80, era ele falando de Descalvado, era eu perguntando a ele sobre filmes, era ele publicando números musicais antológicos, era eu publicando trecho de "Vênus" com Peter O'Toole e Leslie Philips, atores que ele, é evidente - e para minha suprema inveja - já vira no teatro! Era coisa que nos unia: a utilização da Internet para usufruir da cultura gigantesca, verdadeiramente monstruosa que ela disponibiliza, e à qual não tínhamos acesso em décadas anteriores.

Certa vez publiquei Marilyn Mulvey cantando "Meine lippen sie kussen so heiß", de Franz Léhar. Citei Vicente no post. Ele ouviu e trouxe sua linda erudição: "Danke, Bernardo! Também adoro essa ária... porém a gravação dela de que mais gosto é a de Elisabeth Schwarzkopf, para mim insuperável no chamado repertório leve vienense. No CD Elisabeth Schwarzkopf singt Lieder aus Operetten ela canta deliciosamente essa maravilha e também outra ária esplêndida, Ich schenk mein Herz (da opereta Die Dubarry, de Karl Millöcker) que aparece numa cena muito reveladora do belíssimo filme Mephisto. Esse CD da imortal Schwarzkopf é absolutamente irresistível."

O Amleto de Vittorio Gassman
Da Alemanha para a Itália, publico em dado momento um comentário sobre o "Amleto" de Vittorio Gassman, que acabara de assistir. Vicente, legítimo oriundi, vibrou e enriqueceu dez vezes minha modesta postagem:

Bernardo, não vi mas já gostei rs rs rs. Onde estão essas maravilhas? No Youtube? Você se lembra de uma sequência absolutamente hilária entre Gassman e seu grande amigo, o também muito talentoso Gigi Proietti, no filme "O casamento", de Robert Altman? Gassman conta em sua autobiografia "Un bel avvenire dietro le spalle" que Altman deu total liberdade aos dois, eles improvisaram à vontade e, como pedia a situação do filme, atiraram um contra o outro as piores ofensas possíveis e imagináveis que existem no idioma italiano. No fim, os dois quase morreram de rir de si mesmos e dos personagens. Mas a maioria dos presentes ao estúdio não sacou nada, porque muito poucos entendiam italiano. Essa sequência é pra mim a melhor do filme, de que gosto muito. É um dos melhores do Altman pra mim, junto com "Assassinato em Gosford Park" -- aqui no Brasil, "assassinado" por legendas cretinas rs rs rs rs.

Gassman e Proietti no filme citado por Vicente
Silvio Poggi Nunes entra na dança: "Gassman fazendo um estereótipo de Da Vinci, em Il Arcidiavolo, e ainda com Mickey Rooney de escada, o máximo". Vicente arremata: "Eu trouxe o DVD de L'arcidiavolo da Itália, é uma tremenda gozação. Mais um triunfo da dupla Gassman-Ettore Scola. Falar nisso, quem ainda não viu o último Scola, Estranho chamar-se Federico, homenagem dele a Fellini, tem de ir correndo".

Da Itália para o Japão, comento, em 10 de junho de 2014, que muito me impressionara o Hamlet de Tatsuya Fujiwara, encenado em 2003 e que o tornara o Hamlet mais jovem do teatro japonês. Vicente entra para agregar, como sempre: "Tremenda pesquisa! Parabéns! Vc viu o Hamlet russo, de 64, com tradução de Boris Pasternak, direção de Grigori Kozintsev e Iosif Shapiro, e com Innokenty Smoktunovsky como Hamlet? É dos mais bonitos que já vi. De lambuja, trilha sonora do gênio Dimitri Shostakovitch". Respondo que sim e que inclusive escrevera a respeito desse filme em um de meus artigos sobre Hamlet. Vicente leu o artigo inteiro (um artigo enorme, que assusta qualquer um) e me presenteou com esta pérola de sua bondade:

Tatsuya Fujiwara
Bernardo, li tudo de cabo a rabo, com imenso prazer. Até pensei como seria interessante se minha Grande Mestra Mrs. Stevens (que nos deu um curso maravihoso sobre Shakespeare na FFLCH-USP no início dos anos 1970) pudesse ler as tuas análises desses filmes. Parabéns pelo esplêndido e minucioso trabalho. É uma alegria enorme ver coisas assim. Grande abraço e tks very much.

Agradeço-lhe com a humildade do aluno: "Eu que te agradeço, Vicente. Comentários como o teu são o estímulo para continuar escrevendo essas análises, que são realmente despretensiosas. E se a Internet tem algo de maravilhoso é ter universalizado montagens de Shakespeare que de outra forma estariam perdidas em cinematecas e arquivos empoeirados por aí". O que a Internet tem de maravilhoso, realmente, é a convivência com pessoas iluminadas como Vicente.

O Hamlet de Maximilian Schell
Ainda em Hamlet, publico, um dia: "A duras penas consigo o Hamlet alemão raríssimo de Maximilian Schell, lançado em 1961, e a cópia não apenas vem dublada em inglês, como ainda vem com uma tradução simultânea em RUSSO! E o que é pior: é costume entre os russos, assistir assim os filmes. Não com a dublagem tradicional sincronizada, mas com o som original audível e a tradução em cima. É simplesmente bizarro". Vicente despeja inteligência e bom-humor em minha reclamação:

Très, très bizarre, caro Bernardo! Mas não tão raro assim. Tenho uma versão esplêndida em DVD do "Don Giovanni", de Mozart, dirigida por Joseph Losey, que tem legendas dos versos de Lorenzo Da Ponte em não sei quantas línguas... menos em ITALIANO, idioma em que a ópera é cantada! E um DVD de de "Alta sociedade", com legendas em inglês de todos os diálogos, menos dos versos das deliciosas canções de Cole Porter usadas no filme. E por aí afora. Os "detentores" da cultura neste mundo já deveriam ter sido substituídos há muito tempo por pessoas menos ignorantes e menos insensíveis.

No dia 31 de dezembro de 2013 publico uma brincadeira sobre antiga boate paulistana chamada Hugo: "Acabo de saber que no reveillon de 1950 para 51 Lucienne Boyer está na boate HUGO (nome dos mais sugestivos para um local onde se enche a cara a noite toda), lá na Xavier de Toledo, e estou à pampa de ouvi-la cantando Parlez-moi d'amour". Da Itália para a França, prato cheio para Vicente: "Vraiment le nom idéal pour une place où on va toujours se souler et écouter Lucienne Boyer kkkkkkkkk. Bonne Année!"...

Chaplin e Groucho Marx, observados
por Danny Kaye
Ele podia ser sério, também. Comentando uma foto do encontro entre Chaplin e Groucho Marx, quando o inglês foi aos Estados Unidos receber um Oscar honorário, em 72, aproveito para fazer um jabá de meu artigo sobre a perseguição sofrida por Chaplin, e sua conseqüente expulsão dos EUA, no fim dos anos 40 e início dos 50. Vicente comentou:

Esplêndida a matéria sobre Chaplin, Bernardo! Os americanos pediram perdão a Chaplin com a concessão de um Oscar especial a ele em 1972 e, claro, a permissão pra voltar a pisar em território americano. Antes tarde do que nunca... mas essas concessões tardias só demonstram o quanto somos enganados por ondas de preconceitos, como foi o caso de tantos americanos que queriam "ver a caveira" de Chaplin. O pior é que, mesmo diante desse e de tantos outros exemplos da estupidez dos preconceitos, eles continuam por aí, cada vez mais fortes, nas mais diferentes formas, como atualmente nos infames ditames do "politicamente correto" e outras bobagens. A frase de Schopenhauer -- "A única coisa que pode nos dar uma ideia concreta do infinito é a estupidez humana" -- continua mais atual do que nunca.

Guétary, Gene e Oscar Levant
Hollywood, entre tantas outras coisas, era sua seara. Em abril de 2014 postei "By Strauss", cantado por George Guétary no filme An American in Paris e comentei que "o filme tem tantos momentos clássicos e magníficos que esta pérola acabou se perdendo no meio das outras. Vamos relembrá-la. O vibrato incomparável de Georges Guétary, o carisma fluvial de Gene Kelly e Oscar Levant... que beleza". Foi a bola levantada para Vicente cortar:

Com a requintada produção de Arthur Freed (o "homem que sabia reunir talentos") e a direção leve, segura e com aquele "olho pictórico" fenomenal que era a marca registrada de Vincente Minnelli, esse filme teve 8 indicações ao Oscar e levou 6, num tempo em que ainda dava para levar esse prêmio a sério. É desses filmes que melhora ainda mais cada vez que a gente o revê. Filmes que quase ninguém sabe mais fazer.

E não parou por aí:

Este teu post me fez ouvir de novo o Brothers Gershwin Songbook, que Ella Fitzgerald gravou em 1959 com arranjos e regência de Nelson Riddle. É um dos maiores e mais perfeitos tesouros artísticos já gravados em disco, difícil imaginar que um dia vai aparecer coisa igual (melhor, impossível). E tem pra descarregar na internet. Ella Fitzgerald interpreta essa canção "By Strauss" com uma letra ainda mais engraçada, em que o autor, Ira Gershwin, faz gozações com o autor da melodia, seu irmão George, e outros grandes do teatro musical: Irving Berlin, Jerome Kern, Cole Porter... O pequenino no tamanho e imenso no talento Ira Gershwin é um dos maiores letristas de todos os tempos, pelas doses certas de humor, ironia e lirismo que caracterizavam sua produção.

Em post de 1º de junho de 2014, divulgando meu blog com a antiga coluna musical de J. Pereira para os Diários Associados, no qual o jornalista falava sobre a gênese dos discos infantis, Vicente permitiu-se regressar à Descalvado de sua infância:

Bernardo, meus irmãos e eu "ensandecíamos" quando meu pai chegava à nossa casa no interior, em Descalvado, depois de uma viagem a S.Paulo. Ele sempre trazia discos (ainda de 78 r.p.m até o fim dos anos 50), com o incrível repertório de clássicos infantis e congêneres da Continental, em particular as maravilhas "perpetradas" pelo grande Braguinha (João de Barro) e seu bando de supercompetentes. Por que esses tesouros nunca foram lançados em CD, que eu saiba? Mais uma vez, eita país sem memória etc.

Imperio Argentina
Vicente transformou postagens diárias em um absoluto prazer. Em outra ocasião publiquei uma foto em que aparecia, jovem e linda, a antiga cantora Imperio Argentina, com o título jocoso de "mais uma para a momentosa série Mulheres que viveram nos anos 20 e 30, por quem tenho uma atração perfeitamente insalubre". Vicente comentou, impagável: "Insalubre nada... Eu também tenho! kkkkk"...

Em fevereiro de 2015, em meio ao furor causado pela versão cinematográfica do ridículo "50 Tons de Cinza" Vicente postou um comentário que fiz questão de compartilhar. Escrevi em minha linha do tempo: "Comentário brilhante do amigo Vicente Adorno":

P.T. (olha as iniciais!) Barnum, empresário do ramo circense, fundador do Barnum & Bailey, circo a que deu o epíteto de "O maior espetáculo da Terra" -- sim, o circo dele é que aparece no filme homônimo de Cecil B. DeMille -- dizia: "Ninguém nunca perdeu dinheiro subestimando a inteligência do público" e "Nunca dê uma chance decente a um otário". Assim ele explicava por que basta criar uma boa publicidade e apresentar um produto bem vagabundo que vai ter muita gente que vai engolir. É o caso desse tal de"Cinquenta tons de cinza", que está batendo recordes de bilheteria. Vi-o, entre bocejos e gargalhadas, numa cópia que já circula pela internet. É daquele tipo de filme que, como diz meu sábio amigo e guru cinematográfico Antonio Mendes Americano, "é tão ruim que é ótimo", por tornar-se involuntariamente cômico. Vai entender...

No Inbox a prosa seguia. Recomendações culturais de parte à parte... ainda ontem me marcava em uma de suas deliciosas postagens musicais...

Mais do que tudo, ele era um cavalheiro impecável. Exemplar. Como pouquíssimos que conheci. Tinha por ele admiração e respeito. Um homem que pairava sobre os adjetivos... inteligente, elegante, educado, gentil, doce, lhano, bem-humorado... pessoas como Vicente fazem a vida valer a pena. Melhoram nossa existência com sua personalidade tolerante e positiva. São cada vez mais raros. Mais difíceis de encontrar. Contam-se nos dedos da mão...

Sinto tristeza e amargura em pensar que ele foi retirado de nosso convívio com apenas 67 anos. Merecia viver muito mais. E nós, privilegiados compartilhadores de sua amizade, merecíamos o prêmio maravilhoso de sua convivência, de seu carinho, de sua sabedoria por muito mais.

Vá com Deus, amigo querido e admirável.
Venceste de lavada a batalha da vida. Com a fibra dos guerreiros e a classe dos mestres.
Obrigado por TUDO!

Bernardo Schmidt
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Do que me lembro dele? Do sorriso. Vai com Deus, as portas do céu estarão
abertas pra ti... (Sophia Camargo)

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