segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O dia em que conheci Jânio


Já não lembro mais quem me disse, certa vez, que embora morasse em uma mansão no Morumbi, Jânio era extremamente simples e apreciava o contato direto com o povo, razão pela qual não eram raros os relatos de pessoas que apareciam, tranqüilamente, na rua Acutiranha, sem qualquer apresentação, e eram recebidos pelo ex-presidente. Fascinado com Jânio desde a infância, comecei a fazer visitas esporádicas à sua residência, ao lado do clube Paineiras, no finzinho da década de 80. Pode-se dizer, entretanto, que cheguei tarde demais. Os seguranças – aqueles que pertenciam à casa e outros mandados pela PF, dentro da lei que obriga o governo a proteger os ex-presidentes – foram sempre muito simpáticos e me confirmaram a informação: se acordava de bom humor, Jânio recebia quem o procurasse, mesmo não tendo idéia de quem se tratava. Só que naquela época ele já estava às voltas com os derrames que minaram sua resistência, e receber quem quer que fosse não dependia mais de seu humor, mas do estado de saúde em que se encontrava. Anos depois vim a saber que em junho de 90 o poeta amparense Marcelo Henrique, munido de uma carta de apresentação do prefeito de Amparo, foi uma das pessoas que conseguiu o que eu tantas vezes tentei.

Não tive sucesso em minhas tentativas. Conheci Dona Eva, a devotada empregada de Jânio e Eloá, que em uma dessas visitas foi até a porta para ver quem queria falar com Jânio. Foi docílima e praticamente se desculpou por não poder me atender. Num outro dia um enfermeiro de nome Sílvio foi até o portão. “O Dr. Jânio não está bem hoje. Tente semana que vem”. Em outra ocasião, enquanto proseava com um dos seguranças, estacionou um carro na porta e dele desceu uma velhotinha. O segurança me cutucou: “Olha, essa aí é a Dona Kalime, secretária do Jânio. Veio visitar o velho”. Já ouvira falar de Kalime Gadia e a cumprimentei polidamente, sem ter, ainda, idéia da importância daquela mulher nas vidas de Jânio e Quintanilha Ribeiro. Ela morreu semanas depois. Terá sido essa a última vez em que os dois se viram?

Jânio e Kalime despachando no Ibirapuera

Sem poder entrar, eu me contentava em conversar com os seguranças, que também gostavam de um bom papo, na pasmaceira que era fazer a segurança da casa durante o dia. Só tinham elogios para Jânio e Eloá. Alguns já trabalhavam com o casal há mais tempo e rememoravam, melancólicos, os bons momentos. Os mais chegados a Jânio sofriam, mesmo. O ex-presidente não estava inválido mas sua têmpera ativa e agitada era agora lembrança, por conta dos problemas de visão e locomoção. O golpe de misericórdia veio em julho: Jânio teve seu segundo AVC e ficou preso a uma cadeira de rodas. Com Eloá a situação era bem pior. O câncer, detectado em 1984, vinha piorando a cada dia e a mansão da Acutiranha se transformara em um entra e sai constante de médicos.

Com Tutu, em agosto de 1990
Em agosto de 1990 encontrei Tutu acidentalmente na Bienal do Livro. Ela estava lançando seu livro de receitas, Delícias de Tutu (Paz e Terra, 1990), e comparecera ao stand da editora para dar autógrafos. Abordei-a e falei-lhe de meu desejo de conhecer seu pai. Ao invés de dispensar-me com uma resposta padronizada no estilo “ele não pode”, “ele não tem tempo”, “me deixa seu telefone”, percebi que a filha de Jânio ficou satisfeita. Não só por ver um moleque de 18 anos perguntando com tanto interesse por seu pai, já considerado, então, um dinossauro da política, mas porque ela, de fato, incentivava esse tipo de visita. Sabia o quanto Jânio gostava desse contato epidérmico com seus correligionários (embora eu não me enquadrasse exatamente nesse molde) e era contra mantê-lo escondido do povo, fechado, egoisticamente. Ela foi gentil, mas eu já sabia o que ia me responder: “É uma questão de dignidade. Quanto mais a saúde dele e de minha mãe pioram, mais difícil se torna, para ele, receber gente com o humor e com a elegância com que sempre recebeu”. Concluiu com a frase que me aterrorizava e ainda me aterroriza: “Espera um pouquinho e tenta de novo”.

Eloá, Jânio e Tutu em 1960

A espera não ajudou em nada. Em novembro Dona Eloá morreu e em menos de um mês, Tutu tirou Jânio da mansão na Acutiranha e o levou para um flat na rua Haddock Lobo. A Folha de S. Paulo noticiou a mudança, no início de 1991 e colocou uma foto do flat na capa do jornal. Guardei-o comigo. Aproximava-se o 74º aniversário de Jânio. Ciente de que Tutu estava, agora, morando com o pai no flat, escrevi duas cartas, uma para ela e uma para ele, dizendo basicamente a mesma coisa: queria conhecê-lo, conversar com ele, ter o privilégio de apertar sua mão. Na manhã do dia 25 de janeiro, não tive dúvidas: munido da edição da Folha que mostrava o flat, fui até a Haddock Lobo e percorri a rua, começando na Estados Unidos, até encontrar o referido prédio. Não demorou, ele ficava na segunda ou terceira quadra. Na portaria, tive a sorte de encontrar o enfermeiro Sílvio, com quem já conversara na Acutiranha. Ele sorriu, como se lesse minha mente: “Ah, conseguiu encontrar?” Depois perguntou, à queima-roupa: “Você vem na festa, hoje?” Respondi-lhe timidamente que nem sabia que haveria uma festa. No mais, não tinha qualquer intimidade nem com Jânio nem com a família e não me atreveria a aparecer de bicão. Ele descera até a portaria justamente para recolher flores e cartões deixados para o ex-presidente e eu aproveitei e lhe entreguei minhas cartas.

Outubro de 1990, posando para a Folha
de S. Paulo no dia da eleição estadual. Talvez
a última foto de Jânio e Eloá juntos

Fui embora feliz. Entregar as cartas a Sílvio era a certeza de que pelo menos Jânio leria – ou alguém leria para ele – a carta que lhe escrevi. Já não importava mais que eu o conhecesse ou não. A bem da verdade, eu não estava sequer preparado para um encontro daquela magnitude. Não tinha a cultura política e histórica necessária para me defrontar com alguém como Jânio. Pensava nisso, totalmente distraído, quando cheguei em casa e meu irmão logo disparou: “Escuta, o assessor da Tutu Quadros ligou aqui”. Referia-se ele a Rivaldo Chinem, na época assessor de Tutu na Câmara dos Deputados. Eu evidentemente deixara telefone e endereço nas cartas que escrevi. “Disse que a Tutu lembrou do encontro com você na Bienal, que ela e o Jânio adoraram o que você escreveu e te convidaram para a recepção que ocorrerá hoje no restaurante do flat onde ele mora”. Fiquei chocado. Convivia com política desde os 13 anos e já conhecera dezenas de políticos, inclusive prefeitos e governadores, mas conhecer Jânio era algo inimaginável. Comecei a me dar conta do quanto haviam sido absurdas minhas visitas à Acutiranha. Só as encarava com aquela calma toda porque no fundo nunca acreditei que conseguiria entrar. E agora era uma questão de tempo até estar na presença do velho Jânio.

Em sentido horário: Robertão, Brasil Vita,
Farabulini Jr. e José Aparecido de Olivieira
À noite fui para lá com a mente enevoada. Sérgio Viotti descreveu seu encontro com Dulcina como um encontro com “a história do teatro”. Encontrar-me com Jânio era mais do que me encontrar com a história do Brasil. Era como ser teleportado para a São Paulo de 1950. Era surrealista, completamente. Quando cheguei, o restaurante se via iluminado, de fora. Nenhuma aglomeração, nenhum curioso, nada. Apenas dois seguranças, que sequer me olharam quando entrei. A agitação, se houve alguma, ocorreu antes. A reunião já tinha começado há pelo menos uma hora. Lá dentro, dou de cara com Robertão, Roberto Cardoso Alves, amigo de Jânio desde sempre. Mais à frente Brasil Vita, amigo de infância, vizinho do ex-presidente no Cambuci, sendo Jânio cinco anos mais velho. José Aparecido de Oliveira também estava lá, mas não o vi. Havia provavelmente muitos outros velhos janistas, mas naquele tempo eu não os reconheceria. Farabulini Jr. eu fiz questão de abraçar. Sua fidelidade a Jânio é lendária e os olhos marejados desse querido pelejador mostravam claramente sua emoção. Cumprimentei todos e segui andando até que fiquei, finalmente, de frente para Jânio. Ele estava no meio do salão, em uma cadeira de rodas, de tênis e um conjunto esporte azul-claro. Havia uma fila esperando para falar-lhe e uma roda de gente em torno dele. Percebi, com alegria, que ele sorria. Estava com a cabeça baixa, mas segurava a mão da pessoa com quem conversava e respondia qualquer coisa de quando em quando. Com alguns secretários de seu último mandato como prefeito chegou a fazer gracejos.

A festa era na verdade um jantar, só que os pratos quentes sumiam diante das maravilhas de sobremesas. O ramo da culinária que atraía (e ainda atrai) Tutu era dos doces, e havia, ali, uma profusão de tortas, bolos, pudins, guloseimas e demais maravilhas que fariam a Holandesa corar de vergonha. Abracei Tutu e lhe agradeci do fundo do coração o privilégio de poder estar ali. Ela me agradeceu por comparecer, estava de ótimo humor e vez por outra levava seu cigarro à boca de Jânio. Quando via a brasa arder, Tutu tirava o cigarro e pouco depois Jânio expirava a fumaça. O poeta amparense Marcelo Henrique, presente à recepção antes de minha chegada, contou anos depois que Jânio também bebeu champagne e comeu um pedaço de bolo que tinha conhaque no recheio. “Não jogue fora, papai, fui eu mesma que fiz”, foi a divertida recomendação da filha de Jânio. Ao agradecer a presença dos convidados, Tutu afirmou: “Papai está bem, está forte, e só precisa descansar”.

Por uma dessas leis de Murphy que nos levam ao suicídio, eu não pude levar uma câmera fotográfica à festa. Desesperado, cutuquei o fotógrafo da Manchete, único representante da mídia presente ao aniversário. Implorei-lhe pelo sangue de Jesus que tirasse uma foto minha com o ex-presidente. O sujeito não se comoveu nem um pouco: “Isso aqui é cromo. Não tenho como tirar uma foto e te mandar”. Sem ter idéia do que era um “filme de cromo”, sentei-me resignado, em uma das mesas e aguardei minha vez de falar com Jânio. Do meu lado, uma velha assessora do ex-presidente. Simpática, falou-me da amizade que tinha há anos com Jânio e mostrou-me um pequeno álbum de fotos. Pareciam ser da década de 70. Em todas elas, Jânio, sozinho, com ela, com amigos. Ao lado do álbum, uma pequena câmera. Tomei coragem e perguntei se ela não se importaria de me fotografar com Jânio. Fui dramático e suplicante, relatando inclusive meu malfadado diálogo com o sujeito da Manchete. Ela riu de minha desgraça e concordou em tirar a foto.

A foto com Jânio, 25/01/1991
Pouco depois chegou minha vez. Agachei-me, tomei a mão direita de Jânio e identifiquei-me como a pessoa que mandara as duas cartas, pela manhã. As conversas e as gargalhadas corriam soltas, portanto disse-lhe ao pé do ouvido, para que ouvisse bem, que era um privilégio conhecê-lo, que por muito tempo eu havia desejado expressar-lhe pessoalmente minha admiração, que estávamos todos rezando para que ele se recuperasse e retornasse ao seio do povo que sempre o amou e o prestigiou. Jânio, de cabeça baixa, ouvia, somente, sem responder. Segui dizendo-lhe coisas que lhe aquecessem a alma, quando senti que ele puxou lentamente minha mão em direção à sua boca e começou a beijá-la. Fiquei sem ação por um instante. Como poderia eu, aos 18 anos, compreender a carência abismal em que se encontrava o velho ex-presidente, e o quanto a demonstração sincera de carinho, vinda de um jovem que não lhe pedia emprego ou dinheiro, poderia tocar seu coração combalido? Tentei puxar minha mão e lhe disse: “Presidente, eu é que devo beijar sua mão”, o que, então, fiz, diversas vezes. Disse-lhe outras palavras de admiração e me despedi. Jânio recebeu os cumprimentos de mais algumas pessoas e se retirou, acompanhado de um enfermeiro.

Paulo de Tarso Santos
Em 2001 conversei extensamente com Paulo de Tarso Santos. Contei a esse janista da velha guarda sobre meu encontro com Jânio e ele arregalou os olhos. Respondeu-me então que estava rompido com o ex-presidente há mais de 20 anos quando recebeu o convite de Tutu para essa mesma festa de 1991. Sabendo que Eloá estava morta e que Jânio estava entrevado, deixou de lado as mágoas e compareceu ao flat da Haddock Lobo (quando eu cheguei ele já tinha ido embora). A mesma coisa se repetiu. Paulo sentou-se ao lado de Jânio e falou com a amizade de antigamente, “Jânio, vim te dar um abraço, estamos aqui, juntos como sempre”, etc., e qual não foi a surpresa de Paulo quando Jânio lhe beijou a mão. No caso do ex-governador de Brasília, não era só a carência, mas também a alegria de estar rodeado de alguns de seus velhos amigos, os amigos de uma época em que Jânio era o rei.

Para coroar aquela noite, a velha assessora disse que tirara uma ótima foto do momento em que falei com Jânio. Não vi mais qualquer razão para permanecer na festa. Despedi-me de Tutu e fui embora. Era tamanho o meu choque que peguei o ônibus errado e tive que andar por quase 40 minutos. Tanto melhor, porque me ajudou a digerir a enormidade do que acabara de acontecer.

Estava nos Estados Unidos quando soube que Jânio tinha morrido, no dia 16 de fevereiro de 1992. De certa forma respirei aliviado. Sua morte foi lenta e cruel. Seis anos depois, no vazio de nossa bibliografia histórica, tomei para mim a tarefa de biografá-lo. Prometi a mim mesmo que me desvestiria de quaisquer sentimentos pessoais ou subjetivos por Jânio na hora de esquadrinhar sua personalidade e sua obra política e administrativa. Não precisei; a pesquisa, ao longo dos anos, se encarregou de fazê-lo por mim. Tenho atualmente a mais perfeita noção de sua humanidade, ou seja, a equivalência de suas grandes qualidades e de seus defeitos múltiplos.

Hoje, 25 de janeiro de 2011, meu encontro com Jânio completa 20 anos. No tempo que me separa daquele longínquo 25 de janeiro de 1991, conheci centenas e centenas de políticos, atores, cientistas, escritores, esportistas, compositores, juristas, músicos, professores e etc. Nenhum deles me provocou a emoção de estar frente à frente com Jânio Quadros.
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Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia
Vol I: "Um Moço Bem Velhinho"
Bernardo Schmidt
Editora O Patativa
350 pgs ilustradas
R$ 30,00 (Frete incluso para todo o Brasil)

Compre através do e-mail editora.opatativa@gmail.com
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Ver também:


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6 comentários:

  1. Bernardo, que depoimento emocionante. Me fez chorar. Não há pessoa no mundo que não se derreta frente as suas palavras. Você é o verdadeiro gentleman! Um beijo grande.

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  2. Oi Bernardo, demais seu texto bicho! Também sou admirador do Jânio, acho ele uma figuraça da São Paulo dos anos 50. Aguardo sua biografia sobre ele.

    Matheus Trunk
    www.violaosardinhaepao.blogspot

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  3. Amigo, senti arrepios de emoção ao ler o seu relato. Continuo com a firme convicção de que vc, Bernardo, é uma pessoa capaz de escrever sobre qualquer ser humano, tal a sua capacidade de isenção, qualidade raríssima. Abs e sucesso sempre.

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  4. Fiquei emocionada de ver a foto de Dna. Kalime no seu blog. Não tenho nenhuma foto dela. Fui homenageada com este nome lindo, pela amizade que meu avô tinha com Dna. Kalime. Sou sua "xará" como me chamava e tive poucos contatos com ela no gabinete. Eram passeios muito divertidos, Dna. Kalime adorava bolo de chocolate, igualzinho a mim... e tb achava legal ver a chuteira do corinthians na porta do Prefeito...kkk enfim... criada em um lar "janista", ouvindo "varre, varre vassourinha..." suas palavras me remeteram a minha infância... parabéns pelo previlégio deste dia magnífico da presença do Sr. Jânio... abs, da Kaliminha....

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  5. Bernardo, parabéns pelo texto. Parei aqui por acidente, entre pesquisas no Google, após ler o livro A Renúncia de Jânio, de Carlos Castello Branco. Li a entrevista de Dirce Tutu Quadros no Roda Viva, de 1988. Como gostaria de conhecê-la pessoalmente. Gosto de historiografia, e a foto de Tutu ainda criança com Jânio segurando a vassoura, essa queria ver. Entre folclores e verdades, só na eternidade saberemos.

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  6. Olá Bernardo, li seu texto e fiquei impressionada com a riqueza de detalhes com que você descreveu sua experiência. Senti - me transportada para sua história mesmo ainda sem alcançar a dImensão de sua admiração por Jânio. Fantástico. Parabéns!

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