sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Minestrone Cultural VII


OTHON BASTOS

Othon no Persona in Foco, foto de Jair Magri

Costumo dizer isto sobre Bibi e digo também sobre Othon com o maior prazer: são poucas as pessoas que me fazem sentir orgulho de ser brasileiro. Pouquíssimas. Othon Bastos é uma delas. Quando Atilio Bari me avisou que ele gravaria o "Persona em Foco", fiz questão de comparecer. E quando soube que minha amada Sonia Loureiro seria uma das entrevistadoras, a obrigação revestiu-se de ainda mais prazer.

Sônia Loureiro, Othon e Rubens Ewald
A carreira de Othon é absolutamente modelar. Foi levado ao teatro pelas mãos eruditas e operosas de Paschoal Carlos Magno; fundou o Teatro Vila Velha com a esposa e atriz Martha Overbeck; participou dos quatro espetáculos mais importantes do Oficina; produziu e protagonizou as melhores peças de resistência à ditadura, escritas por Guarnieri.

No cinema esteve no "Pagador de Promessas", o filme de Anselmo Duarte premiado com a Palma de Ouro em Cannes; foi alterego de Glauber Rocha, protagonizou obras-primas de Ruy Guerra e Leon Hirszman, marcou presença indispensável no ressurgimento do Cinema Brasileiro em filmes de Walter Salles e Lais bodanski. Na TV foi do Teatrinho Trol e do Grande Teatro Tupi até "Os Imigrantes", "Roque Santeiro" e "Éramos Seis".

Com Gracindo Jr. e Othon no Teatro dos 4, depois da representação de
"Meus Prezados Canalhas", 1994

A gravação, em maio, foi um verdadeiro deleite. Othon, com sua cara séria, sua pose marcial e sua voz grave e ameaçadora, é um brincalhão, um piadista de primeira, bem humorado e de bem com a vida, feliz por receber, aos 83 anos, tanto carinho dos jovens presentes. Falou de sua cidade natal, da infância, da escola, das primeiras experiências de palco. Alternou-se entre o cômico e o comovente. Sempre com a lágrima prestes a transbordar, cheio de poesias e citações na ponta da língua. Com Sônia, sua colega e parceira de tantos trabalhos, Othon bateu uma bola redondíssima. Com Rubens Ewald a coisa demorou a engrenar, mas quando engrenou, foi uma beleza.

Othon é um dos maiores atores brasileiros? Sem dúvida nenhuma. Ele é o Teatro Brasileiro? Não. Ele é MAIOR do que o teatro. Ele é a ARTE brasileira. O que o povo brasileiro tem de melhor.

Assistam.



Reclamo novamente, como já reclamei quando da apresentação do programa com Fagundes, da tesoura que tolhe, desbasta e limita em 59 minguados minutos, uma gravação que ultrapassou as duas horas e meia. Othon tem 60 anos de carreira, participou em primeiro plano de tudo de mais significativo que se fez nesse período. E para nossa imensa satisfação, ele é inteligente, articulado, torrencial, gosta de falar, fala bem e é um contador de histórias primoroso. Simplesmente não me conformo com o absurdo e o pecado de querer espremer em uma única hora algo tão maravilhoso, apenas para que uma reprise qualquer comece no horário certo, lá pela meia noite e meia!

TV Cultura, por favor! DANEM-SE as reprises. Othon é nosso passado e nosso presente. Vamos valorizá-lo AGORA, pelo amor de Deus. (15/08/2016)

ANGUS MCBEAN

Angus Macbean
No dia 19 foi Dia da Fotografia, ou dia do fotógrafo, um dos dois. Sobre o papel da fotografia na minha própria vida não vou nem falar porque não pararia mais. Ano passado falei de Chico Albuquerque. Este ano eu pretendia falar de três imensos fotógrafos franceses do século XIX - Nadar, Carjat e Mulnier - mas me vi perdido num oceano de fotos magníficas, retratos, em sua maioria, e não consegui escolher.

Resolvi então aproveitar que no mesmo dia comemora-se o Dia do Ator e fico com Angus Macbean (1904/1990), certamente o maior fotógrafo do Teatro Inglês no século XX. É graças à sua lente que podemos hoje conhecer de perto a caracterização de todos os mestres - Olivier, Vivien Leigh, Gielgud, Peggy Ashcroft, Richardson e etc. - em seus melhores papéis shakespeareanos.

Foi também retratista de algumas das maiores celebridades de Hollywood e - soube recentemente - é de sua câmera a capa de "Please Please Me", dos Beatles.

Gênio.


Há centenas de fotos magníficas de MacBean. Merecem um artigo à parte. Acima, o "Tito Andrônico" de Olivier e Vivien, 1955, que Kenneth Tynan definiu como "an unforgettable concerto of grief".
(21/08/2016)

MIMI WO SUMASEBA (1995)

Ampliando um pouco o leque de maravilhas que vem do Ghibli, assisti みみ を すませば, "Sussurros do Coração", com roteiro de Miyazaki e direção de Yoshifumi Kondô.

Eu andava um pouco desconfiado porque depois de ser maravilhado seqüencialmente por jóias de Myiazaki como "Kaze no tani no Naushika" ("Nausicaä do Vale do Vento"), "Tonari no Totoro" ("Meu Amigo Totoro"), "Sen to Chihiro no kamikakushi" ("A Viagem de Chihiro") e "Gake no ue no Ponyo" ("Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar"), confesso que não tive a mesma catarse com "Majo no takkyûbin" ("O Serviço de Entregas da Kiki"), "Kurenai no buta" ("Porco Rosso") e "Mononoke-hime" ("Princesa Mononoke"). Estes últimos três são brilhantes, originais, tem imagens belíssimas (sobretudo Kurenai), são manancial de inspiração para filmes que vieram depois (sobretudo Takkûbin) e devo revê-los quando puder, mas não foram a lufada violenta de genialidade dos primeiros. Talvez minha opinião mude depois de uma segunda chance.

A desconfiança seguiu quando assisti Hotaru no haka - verdadeiro vale de lágrimas, apelativo demais e que provavelmente teria funcionado melhor como filme e não como desenho - e Omohide poro poro, este mais leve e contemplativo (alcançando aqui e ali picos de grandeza nas cenas que envolvem a divertidíssima Taeko na juventude), mas também mais efetivo se fosse filme, e não animação, ambos de Isao Takahata, nº2 do Ghibli.

Cheguei então a Mimi wo sumaseba, que desfia as idas e vindas da menina Shizuku e seus tormentos adolescentes. O tema seria suficiente para afastar qualquer adulto, mas quando se trata de algo escrito por um gênio, o receio desaparece. E esta animação é uma pérola. Myiazaki é tão sutil, tão inteligente que transforma uma simples história de "comin of age", repleta de clichês, namoricos e bobagens em um épico de fantasia e sensibilidade. Seu célebre talento em criar as mais adoráveis personagens femininas infanto-juvenis está inteiro em Shizuku. Há humor, há drama e há música. Não sei se foi idéia de Myiazaki ou do diretor incluir no filme e na própria trama e música "Country Roads", de John Denver, mas a brincadeira é responsável por dois dos melhores momentos de toda a produção.


Eu seria profundamente injusto, porém, se desse todo o crédito ao roteirista e esquecesse o diretor Yoshifumi Kondô. Receber um diamante bruto de alguém como Myiazaki e entregá-lo polido e radioso é para quem tem a centelha do gênio. Ele trabalhou como produtor de animação de quase todos os filmes do Ghibli, e Myiazaki o preparava para ser seu sucessor no estúdio. Estreou com Mimi wo sumaseba, que foi um extraordinário sucesso de crítica e público mas não pôde dar seqüência ao que seria uma linda carreira, porque teve um aneurisma e morreu três anos depois. Tinha 47 anos.

Mas seu filme ficará para sempre.

Recomendo. (21/08/2016)

KARI-GURASHI NO ARIETTI

Mais uma jóia do Ghibli. Direção de Hiromasa Yonebayashi e roteiro de Myiasaki, baseado em "The Borrowers", de Mary Norton.

Embora seja originalmente falado em japonês, é uma parceria do Ghibli com a Disney, então a canção-tema é em inglês. Música linda, por sinal, composta e cantada pela francesa Cécile Corbel.

Encontrei o video abaixo no Vimeo (o Youtube proibiu a reprodução da música por conta de direitos autorais). Além de trazer a canção, é uma homenagem ao Ghibli. (04/09/2016)



THE HOLLOW CROWN

Ben Whishaw como Ricardo

Belíssima produção da BBC! Como não soube dela antes? Primeira vez que vejo Ricardo II e Henry IV levados à TV (evitei as montagens da BBC na década de 70, geralmente ruinzinhas).

A performance de Ben Whishaw como Ricardo II é exemplar! Há tempos o trabalho de um ator não me impressionava tanto. Jeremy Irons está ótimo como sempre. Simon Russell Beale está ok como Falstaff. Talento sem carisma, infelizmente. Já Tom Hiddlestone, tão comentado, ultimamente, me decepcionou. É o contrário de Beale. Tem um rosto marcante, algum carisma, mas está longe de poder lapidar um diamante interpretativo como Hal. É, como tantos, um ator moderno. Falta-lhe estofo para Shakespeare.

Ainda estou na primeira temporada. Voltarei para comentar a segunda, que continua a saga dos Plantagenetas. (09/09/2016)

FALSTAFF (1965)

Ou "Chimes at Midnight", citando a fala de Falstaff a Shallow no fim do Henry IV. Versão restaurada, finalmente, de mais um dos trabalhos exemplares de Welles que estão esquecidos por conta de décadas de má conservação dos negativos. Assisti há uns quinze anos mas a cópia em video era da pior qualidade.

Volto a assistir agora, restaurado, e confesso que é bom vê-lo na sequência do contemporâneo "The Hollow Crown". Welles costura de maneira algo anárquica as cenas de Falstaff nas duas peças e a série da BBC me refrescou na memória a cronologia de Ricardo II e os duas partes de Henry IV.

O elenco tem semelhanças e qualidades curiosas; Welles é o melhor Falstaff de todos os tempos, então nem sequer sobra espaço para que lembremos de Simon Beale. E como Maxine Peake, mesmo sendo ótima, poderia competir com Jeanne Moreau? Já o Henrique de Jeremy Irons, natural e decadente, está muito mais crível do que o sempre gongórico e declamativo John Gielgud. Quanto a Margaret Rutherford e Julie Walters, são Mistress Quickly diferentes, mas com igual talento.

Jeanne Moreau e Orson Welles

No caso do jovem Hal, ocorre a triste coincidência de tanto Tom Hiddleston quanto Keith Baxter serem equivalentes em sua mediocridade e não conseguirem - apesar de intenso esforço e boa-vontade - convencer na pele do boêmio e inconsequente Hal.

Recomendo. (10/09/2016)

1940

Magnífica propaganda da Antarctica para o Carnaval de 1940. Que beleza! (15/09/2016)


Obra prima apenas para anunciar nos jornais o sorteio da Loteria Federal na primeira quinzena de 1940. (14/09/2016)


1940 - Carnaval. Tenho que descobrir quem era o artista, ou os artistas que faziam esses desenhos. Uma coisa espetacular. (15/09/2016)


ELKE

Com Elke no Pequi, 2002

Em maio foi Cauby... hoje foi Elke que subiu aos céus. Mortes fortemente simbólicas. Pessoas doces e coloridas. Nunca foram contra nada. Ao contrário, eram a favor de tudo. Verdadeiros exemplos para determinados movimentos ressentidos e vingativos que pregam, com o mesmo preconceito e sectarismo que condenam, os direitos deste ou daquele. Para eles tudo e todos tinham seu espaço. Não precisaram criar trincheiras, adversários, inimigos figadais para transmitir sua liberalidade. Acredito que pela simples e prosaica razão de que eram felizes e amavam o ser humano, em primeiro lugar. Eram verdadeiros humanistas, verdadeiros democratas.

Elke começou como modelo, se tornou atriz e não por coincidência virou uma espécie de guru e mascote dos Dzi Croquetes. Era o embrião do hoje tão decantado (e mal definido) pansexualismo. Elke não tinha uma tribo. Tinha TODAS. Era respeitada e bem recebida em todos os lugares. E por quê? Porque dentro dela havia um ser humano pensante, inteligente, fino, sofisticado, antenado com o momento. Poucos percebiam isso, por conta de sua persona televisiva, extravagante e espalhafatosa, mas Elke estava a anos-luz de ser só uma comediante, uma mera drag queen barulhenta e divertida. Era cultíssima, lida, viajada, vivida.

Encontrei Elke duas vezes. Uma vez num avião, quando tinha uns nove ou dez anos. Fui pedir-lhe um autógrafo. Ela assinou e beijou o papelucho que lhe dei. Agradeci e saí andando quando escuto, altíssimo: "E O MEU BEIJO???" Voltei envergonhadíssimo e levei uma carimbada de Elke na bochecha. Ao longo dos anos lembrei-me dela com carinho e simpatia. O programa do Chacrinha é parte fundamental de minha adolescência e toda a semana eu tinha um encontro inadiável com ela, com as chacretes e com o Velho Guerreiro. Na seqüência ela foi trabalhar com Sílvio Santos. E assim foi: nunca um escândalo, nunca uma fofoca, nunca uma maledicência, nunca uma polêmica. A figura mais "outrageous" de nossa TV era discreta e tranqüila. Vivia para divertir os outros e a si mesma. Sem jaça, sem maldade. Só alegria.

Em 2002 (creio), estou com os amigos no constante e saudoso PEQUI, na esquina da Alameda Santos com a Peixoto Gomide, o chamado "bar teatral" da época, quando entram Leão Lobo e Elke (lembra, Glaucia?). Vindos de uma gravação, talvez. Leão eu via toda hora nos teatros, por aí (como até hoje, por sinal), mas Elke eu não via há pelo menos 20 anos. Pedi licença a Leão, literalmente, para "tietá-la". "Fique à vontade", respondeu ele rindo, e abracei Elke, que trazia seu sorriso imenso e os lábios vermelhíssimos como sempre. Conversamos, falamos do Velho Guerreiro, de sua célebre participação na "Xica da Silva" de Cacá Diegues, de seus colegas jurados, papo de tiete, mesmo. Como esquecer sua gargalhada?

Aprendi muito sobre tolerância e generosidade humana observando o exemplo dela e de Cauby. Na página de Elke, hoje, no Face, há uma mensagem que termina com uma frase que certamente é dela. Frase tão certeira, que a define tão perfeitamente, e que considero uma pérola:

"CRIANÇAS, CONVIVER É O GRANDE BARATO DA VIDA. APROVEITEM E CONVIVAM". (16/08/2016)

VEM COMIGO


Com Goulart, 2001 (creio)

Goulart, meu Deus.... que ano terrível!... toda semana um necrológio...

Não há pessoa da geração dos anos 70 que não tenha crescido sob o impacto das reportagens cruas e marcantes de Goulart de Andrade no "Comando da Madrugada". E não pelo sensacionalismo de algumas matérias, ou pela ocasional nudez (sempre muito bem-vinda), mas porque ele era um repórter tão competente e tão carismático, que conseguia transformar em palatável e informativo algo que nas mãos de qualquer outra pessoa seria de escandaloso mau-gosto.

Além de ser o mais versátil de todos. Lembro-me até hoje de sua antológica reportagem com Andrea de Maio e as travestis de rua, aplicando silicone ali mesmo, em frente à câmera do fiel Capeta, da maneira mais tosca e insalubre possível. Em outra ocasião Goulart acompanhou Zeketti a uma clínica de urologia e os exames no velho compositor foram mostrados candidamente, sem cortes (minha mãe cobriu os olhos, gritando, "que horror!!!!"). E depois disso mostrava tranqüilamente uma visita ao restaurante de Marcos Bassi, ou mostrava a Cinemateca e ria de encontrar fitas de si mesmo na década de 60, ou celebrava o centenário de Chaplin falando a mesma língua do melhor cinéfilo. Misturava o mundo sofrido e cão ao mundo burguês, ou ao mundo artístico, intelectual, sempre com suavidade, bom humor, bom astral, de forma impecável. Conhecia tudo e todos.

Goulart era O repórter. E um prazer imenso e constante de assistir, madrugada adentro.

Essa foto é de 2000 ou 2001. Ele andava meio sumido, na época, e adorei conhecê-lo. Mais de uma década depois ele aparece na Gazeta, ensinando reportagem a estudantes da Cásper. Que fim mais lindo, mais digno, mais perfeito para ele, que era um vade-mécum de jornalismo e reportagem.

Um grande beijo, mestre!

E OBRIGADO! (23/08/2016)

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"If you want to view paradise, simply look around and view it.
Anything you want to, do it. Wanna change the world?
There's nothing to it".

"Pure Imagination", de Leslie Bricusse e Anthony Newley, cantada por Gene. E ninguém poderia ter interpretado melhor essa música. Porque embora fosse um homem sério, pragmático e não considerasse Wonka seu melhor papel, ele certamente mudou nosso mundo. Para muito melhor. (31/08/2016)

Gene e Mel, em 1974, filmando "Young Frankenstein", e em 2007,
na estréia do musical baseado no filme

Quando soube da morte de Gene Wilder, Mel Brooks tuitou: "He blessed every film we did together with his special magic and he blessed my life with his friendship".

Já Wilder, quando perguntado sobre como era trabalhar com Brooks, nos três filmes que fizeram juntos, respondeu: "Heaven on a stick".

Na foto, os dois em 1974, durante as filmagens de "Young Frankenstein" e 33 anos depois, quando o filme virou musical e Wilder compareceu a uma apresentação com Mel.

Tenho pensado muito em Gene Wilder. Vou escrever sobre ele em breve. (04/09/2016)

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A deliciosa "Crazy", canção que abre o filme Stir Crazy - segunda colaboração de Gene e Richard Pryor, desta vez dirigidos por Sidney Poitier em 1980 - foi escrita por Michael Masser e Randy Goodrum, e no filme é cantada pelo próprio Gene Wilder.

Mais uma lembrança doce e divertida - como praticamente tudo que vinha de Gene - tendo como pano de fundo uma Nova York molhada e fria - e pra lá de caótica - e ainda assim aconchegante, do fim dos anos 70. (13/09/2016)

GENE

2008, lançando "The woman who wouldn't" em Hollywood

Como tantas pessoas da minha geração, pensei que Gene Wilder tinha se aposentado do cinema por não conseguir superar a perda de sua esposa, a atriz Gilda Radner, morta em 1989 depois de três anos de uma batalha cruel contra um câncer no ovário. A verdade, entretanto, era completamente outra. Dois anos após a morte de Gilda, Gene se casou novamente com aquele veio, de fato, a ser o grande amor de sua vida: Karen Boyer, que ele conheceu fazendo laboratório para o filme See no Evil, Hear no Evil em uma instituição para surdos. Feliz e tranqüilo no amor, decepcionou-se com os roteiros que recebeu nos anos seguintes, que considerou medíocres, cheios de palavrões, sexo gratuito, violentos demais ou apinhados de efeitos especiais, em suma, tudo aquilo de que foge um ator sério como Gene, forjado no Actor’s Studio de Lee Strasberg, e experimentado nos palcos desde muito cedo, interpretando textos dos maiores dramaturgos de todos os tempos.

Em 1999 teve seu próprio rendez vous com o câncer, um linfoma não-hodgkin, que tratou e venceu. No primeiro lustro do novo século descobriu o prazer pela escrita, lançou suas memórias e mais quatro ou cinco livros de ficção, todos muito bem recebidos. Apreciou a transformação em musical de duas de suas colaborações com Mel Brooks — The Producers e Young Frankenstein — e deplorou, com toda a razão, o horroroso remake de Tim Burton para “Willy Wonka and the Chocolate Factory”. Em entrevistas disse que não descartava uma volta ao cinema desde que o roteiro fosse de seu agrado. Chegou a mencionar Judy Dench como uma das atrizes com quem gostaria de trabalhar. Recentemente desenvolveu o Mal de Alzheimer. Ouvi dizer que Spielberg o teria convidado para interpretar o papel principal em The BFG, baseado no livro de Roald Dahl — mesmo autor de Willy Wonka — mas já era tarde. Pra variar, Hollywood só acordou quando Wilder já não tinha mais condições de trabalhar. O papel foi para o competente mas insípido e inodoro Mark Rylance.

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Qualquer coisa que eu disser sobre Willy Wonka e o efeito que teve sobre mim como criança será redundante. Sobre os 40 ou 50 minutos de filme antes de Wonka aparecer. Sobre sua entrada antológica, memorável, na qual finge ser um manco e acaba dando uma cambalhota que encanta a todos (e que mais tarde soube ter sido idéia do próprio Wilder). As “nevascarangas”, da (ótima) dublagem em português. O pátio central, na qual ele canta “Pure Imagination”. Oompa Loompas. O que dizer sobre a cena do refrigerante que fazia todos levantarem vôo? A arrepiante e sensacional cena do túnel... não preciso falar que tive medo. Ou que havia um certo pavor na desgraça de cada uma das crianças, cada vez que recebiam sua justa punição. Tudo é fantástico, tudo é mágico. A cena final, o everlasting gobstopper, a revelação de Wonka, o carinho e o elevador... ah, o elevador. Aprendi com esse filme o que era chorar de emoção. Melhor não falar. Como disse, tudo é redundante quando se fala do que atinge as raias da perfeição.

Meu segundo encontro com Gene veio quando eu entrava na adolescência. Foi em Silver Streak, que a Globo transmitiu em algum sábado à noite. Lembro-me de rir até secar as lágrimas. Rir de não conseguir respirar. De passar o resto da noite e os dias seguintes comentando o filme com meus irmãos. Gene e Richard Pryor eram dia e noite, café com leite, queijo e goiabada e todas as analogias possíveis que descrevam aquilo que não necessariamente se encaixa, mas aumenta. Eram complementares mas não no sentido de um suprir as faltas do outro, mas de somar sem obstruir. Não eram os novos Gordo e o Magro, ou Martin e Lewis, porque nenhum deles era o straight man. Ambos eram protagonistas cômicos equivalentes. Diferentes mas compatíveis. Como dizia o próprio Gene, sempre fazendo a ressalva humorística de que não desejava ser mal compreendido, a relação poderia ser comparada ao sexo, em termos de que a química interpretativa entre ambos era incontrolável. Não paravam de improvisar, de criar, de divertir, enquanto estavam juntos em cena. E Silver Streak é um banquete de humor, onde sobram risos, uma trama policial excelente e um belo romance entre Gene e Jill Claybourgh. Gene era um leading man completo.

Gene e Richard Pryor

No Inside the Actor's Studio, 1996
Willy Wonka e Silver Streak foram tão importantes na minha vida, que nada feito por Wilder depois conseguiu superá-los. Pelo menos para mim. Woman in Red eu vi no cinema. Muito divertido, Kelly Lebrock era uma visão do paraíso para um adolescente como eu, de 14 ou 15 anos. Mas não passava disso. Lembro-me de ver Funny About Love, quando saiu em vídeo. Um belo romance dramático, mas não dei maior atenção. Another You, sua última e melancólica parceria com Pryor, até hoje nunca assisti. E o tempo passou. Sua entrevista a James Lipton no Inside the Actor’s Studio, em 96, por aí, foi muito marcante. Gene estava trabalhando pouco, alguns filmes para TV, e sua falta estava sendo imensamente sentida. Quando entrou no palco me emocionei às lágrimas. Era tão bom vê-lo rindo, contando as histórias extraordinárias por trás de cada uma das obras-primas de que participou nos anos 70. Foi ali que percebi, também, que ele era o anti-celebridade. Era simples, pés completamente no chão, inteligentíssimo, o exato oposto do que se vê hoje em Hollywood ou no meio artístico em geral. Compreendi perfeitamente por que não estava trabalhando como sempre. Tinha vida fora do cinema.

No lançamento de "Kiss me like a Stranger"
em Londres, 2005
Há uns dez anos, mais ou menos, soube por uma menina, no Orkut, que ele lançara suas memórias. Senti com força a saudade de ver novamente sua maravilhosa figura nos divertindo e nos emocionando no cinema. Do pouco que chegava até nós, na TV a cabo e naquele pedregoso início de youtube, eu tinha a satisfação de ver que ele estava muito bem. Sua saúde estava boa e ele se dizia mais feliz do que nunca com a nova profissão. Gostava, genuinamente, de escrever. Por volta de 2013 senti mais uma vez, essa saudade. Era como se de vez em quando eu tivesse um “encontro de alma” com Gene. Morando em Paris, aparentemente, naquela época, ele não pôde estar presente para a cerimônia do AFI Life Achievement Award, dedicado a Mel Brooks. Mandou uma mensagem gravada. Fiquei preocupado. Achei-o frágil, como nunca o vira antes. Sim, estava com 80 anos, mas até aí, Mel estava com quase 90 na homenagem e parecia um garoto, agitado e falastrão.

Assisti, então, de uma única vez, The Producers, Young Frankenstein e Blazing Saddles. O primeiro é ótimo. O segundo é uma obra-prima com alguns deslizes. E o terceiro é uma idiotice com alguns bons momentos. Aproveitei o embalo e vi outros dois filmes que estavam, por sorte, inteiros no youtube (e não estão mais, pelo que sei): o simpático e esquecível Start the Revolution Without Me, de 1970, direção de Bud Yorkin, com Gene e Donald Sutherland em papéis duplos; e o desconhecido e estranhíssimo Rhinoceros, de 1974, segunda e última colaboração entre Gene e Zero Mostel, dirigida por Tom O'Horgan a partir da peça de Ionesco. Para se ter uma idéia, não tive saco para ver até o fim. Com tudo para dar certo, o filme é simplesmente chato.

No ano passado, novo encontro de alma. Fui varejar o agora bem fornido youtube com tudo que pudesse achar, de Gene. Entre outras, assisti sua magnífica entrevista a Ernie Manouse, de 2006, por ocasião do lançamento de suas memórias, e seus dois bate-papos com Robert Osborne, do TCM, em 2013 e 2014. Foi agridoce. Nestas últimas sua saúde já se mostrava precária. Gene, sempre tão articulado e tão brilhante ao expor suas opiniões, estava cansado, lento, fragilizado. O gênio estava lá, mas já não tinha mais vontade ou força para se mostrar inteiro. E no dia 29 de agosto deste ano ele se foi. Treze dias depois do grande Arthur Hiller, diretor de Silver Streak.

Queria, evidentemente, ter tido o prazer de poder abraçá-lo pessoalmente e agradecer-lhe por ter sido quem foi e por ter premiado nossa vida com seu talento. Mais do que isso, porém, já me contentaria com a certeza de que ele tinha pelo menos noção do quanto fez bem a todos nós com seu trabalho. Gene era tão honesto, tão pragmático que não sei se ele alguma vez parou para considerar isso. Espero que o grande amor e admiração que todos lhe devotávamos tenha sido fonte de conforto para ele em todos os momentos.

Muito obrigado, amado amigo, lembrança mais doce de nossa infância, referência eterna de talento, modelo de inteligência, exemplo de honestidade... OBRIGADO!



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