sábado, 30 de maio de 2015

A Temporada de Ernesto Rossi no Brasil em 1871 — Parte 2/3


Ernesto Rossi como Othello, em desenho do artista Hatiniere

É grande esse artista! Grande como o ideal e santo como a inspiração! A natureza dotou-o com a maior profusão e liberalidade. Um bloco de Fídias seria menos robusto que o seu harmonioso tronco. É o Apolo! É a visão de Praxíteles encarnada em um homem! Para concebê-lo foi necessária, talvez, ao seio materno a intervenção daquela noite mitológica em que dizem que foi procriado o semi-divino Hércules. (Diário do Rio de Janeiro, 11/5/71)

Falar de um artista assim, perfeição suprema, vulto radioso nos páramos da arte, é uma temeridade. Elogiá-lo, estupenda insânia. Rossi não conquista aplausos, impõe ovações. Quando aparece aquela fronte soberba e senhoril, onde se reverberam os reflexos de uma luz imensa e desconhecida, o espectador, deslumbrado, pasma de estupefação. Não encanta, seduz; não delicia, atrai; não prende, subjuga! (Diário de Notícias, 12/5/71)

Digamo-lo primeiro que tudo: Rossi é um gênio. É preciso desabafar nesse grito, para depois falarmos desses prodígios de artes, dessas enormes revelações de sentimento, desse belo, adorável e majestoso, que nos alucina e nos derruba. Nunca assistimos a um espetáculo semelhante. (...) Vê-lo de chapa é ver as pupilas de um leão. Treme-se, e ao mesmo tempo há um doce enlevo a coar-se-nos pelas fibras; o coração aperta-se mas não sei que bálsamo nos unge, que viva claridade nos alaga. Entrevimos paragens desconhecidas, porque nos rasgam novos horizontes; a luz atrai-nos, sentimos que nos fere, que nos cega, mas não deixamos de a contemplar. E Rossi é um gênio. (Eduardo Augusto Vidal, Diário de Notícias, 20/5/71)

O Sr. Rossi tem a suprema habilidade (e parece-nos que é isso o ideal da arte) de transmitir ao auditório as suas idéias e sensações, não só nas grandes cenas, o que não é muito difícil, mas naquilo que parece mais insignificante. O espectador ouvindo-o, julga que aqueles sons vêm da própria consciência, do próprio coração, e diz consigo: “Nestas circunstâncias eu faria o que este homem está fazendo, diria exatamente o que ele diz”. E aquele que vai ao teatro com o coração e a inteligência, sentir e extasiar-se, é surpreendido pelo descer do pano, e só então se lembra que está assistindo a um espetáculo, e não a uma cena da vida real. (Ferreira de Araújo, O Guarany, 21/5/71)

Rossi é a última, a suprema encarnação da peregrina Deusa! Hoje é ela que vem submissa de amores, implorar ao grande gênio, um dos seus olhares cintilantes. Ver a seus pés uma população inteira, palpitante de entusiasmo, pronta a galgar o impossível, a uma palavra dos seus lábios, eis o que é o gênio, eis o que é Rossi no esplêndido sólio (trono) das suas glórias imortais! (...) Fiquem, porém, sabendo os meus leitores que, de hoje em diante, não se diz mais “ver Nápoles e morrer”. Agora é “ver Rossi e depois soltar o vôo para a eternidade”. (Diário de Notícias, 17/5/71)

Rossi, como todos os gênios, é inadjetivável; achamos mesmo insuficiente conferir-lhe o título que conferiu o Egito a Ésquilo, a quem considerava um colosso: Pimander, inteligência superior. (O Guarany, 21/5/71)

Desculpe-me o leitor. Ainda não há vinte e quatro horas que assisti à representação de Othello... Estou trôpego. (Mundo da Lua, 13/5/71)

Quem admira Ernesto Rossi tem orgulho de ser homem. (Guimarães Junior, Diário do Rio de Janeiro, 14/5/71)

Ernesto Rossi não há esquecê-lo; (...) o gênio é assim! Nas suas criações sublimes nós, pobres mediocridades, não admiramos o homem, adoramos Deus! (Diário de Notícias, 25/5/71)


Giulio Carcano
No dia 11 a companhia de Rossi acabou com a espera dos brasileiros e encenou, por fim, o Othello de Shakespeare, na tradução do escritor e político italiano Giulio Carcano (1812/1884). Rossi no papel título, Celestina de Paladini interpretando Desdêmona, Giacomo Brizzi como Iago, A. Cottin como Emília, Raphael Rigatti como Cássio, Ercole Cavara como Brabâncio, Flávio Andó como Roderigo e Carlo Perruchetti como o Dodge, entre outros. Era o carro-chefe da companhia de Rossi. A crítica ficou extasiada. Shakespeare, Othello, Rossi, a companhia, tudo era infinitamente maior e mais impressionante do que poderiam ter imaginado. E, é claro, sobraram patadas a Ducis: “Celebrou-se ante-ontem no Teatro Lyrico Fluminense a segunda vitória de Ernesto Rossi. Coube a honra ao Othello de Shakespeare, o verdadeiro, o ciumento, o estrangulador Othello do velho clássico inglês e não às pálidas imitações da tragédia típica, já exibidas no palco brasileiro pelo talento irradiante de João Caetano”. (DRJ, 13/5/71) O articulista de A Reforma foi sincero, por sinal, em admitir que a peça o chocou, a princípio, tão habituado estava ele ao pastiche do francês:


Se foi tardia para as nossas platéias a revelação do gênio de Shakespeare, foi por tal modo esplêndida que jamais se riscará da memória dos que assistiram ante-ontem a primeira representação da tragédia Othello. Acostumados à pálida, à insípida e absurda imitação de Ducis, a obra robusta do grande poeta dramático pareceu a princípio singular, para não dizer extravagante e incompreensível. Entretanto, a pouco e pouco, clareou aos lampejos da paixão o arcabouço do grande drama. Rutilou no diálogo a poesia ardente, a linguagem colorida cujo segredo como ninguém possuiu ele. O público, arrebatado, sorveu a longos haustos (goles) os perfumes embriagadores daquele ciúme oriental. (13/5/71)

Nos comentários sobre o espetáculo há alguns consensos. Primeiramente, Shakespeare encontrara o intérprete ideal de sua poesia: “Othello de Shakespeare interpretado por Ernesto Rossi é o mais belo sonho de arte que seja dado gozar a um poeta. É vendo e ouvindo Rossi nesses cinco atos (...) que se compreendem as simpatias ardentes, as admirações delirantes que ele deixa por toda a parte. De fato, que sublime interpretação a desse papel!” (AR, 13/5/71)

O Diário do Rio de Janeiro concorda: “A figura de Othello campeia sobre a forma escultural, realizando a idéia shakespeariana de uma maneira metódica e fiel. Ernesto Rossi, desde que penetra em cena, revela o poder miraculoso do seu gênio na tradução do ideal de Shakespeare. A cabeça do mouro destaca-se como um relevo em bronze ou mármore escuro; é de uma admirável, sangrenta fidelidade, por assim dizer”. (13/5/71) E o Diário de Notícias ratifica: “Amor, ciúme, vingança, eis as paixões vorazes que abalam sobre o tablado com toda a fidelidade o desditoso Othello, de Othello sim, porque em cena não se vê Rossi, mas a própria criação de Shakespeare. Mas que amor! Que ciúme! Que afeto marital!” (13/5/71)

Guimarães Junior elabora: “Só a ousadia de Rossi teria o poder de arrancar à mina shakespeariana o enorme diamante Othello! O tempo vale menos que o fulgor tempestuoso do gênio, e a alma de Rossi é como que o transumpto [reflexo] da posteridade onde já brilha com toda a justiça o nome monumental do poeta de Hamleto e do sonhador de Julieta e Romeu! Ernesto Rossi é incomparável na interpretação do poema de Shakespeare. Digamos melhor: Rossi só é comparável a Shakespeare”. (DRJ, 14/5/71)

Desenho de Rossi na cena do
suicídio de Othello
Em segundo, a transformação de Rossi em mouro estava perfeita, como também surpreendeu a alteração de sua personalidade, “generoso, cavalheiresco, bom, familiar, cheio de confiança, meigo nos dois primeiros atos”, e nos três últimos atingindo “aos extremos limites da paixão e do desespero”. (AR, 13/5/71) Segundo o Diário de Notícias, “gestos, posições, palavras, frases, voz e fisionomia são sempre em Rossi irrepreensíveis de exatidão, e à fantasia humana é dado transportar-se até representar no espírito as cenas violentas do Othello, que só no homem como o esposo de Desdêmona se podiam excitar”. (13/5/71) Sobraram paralelos da interpretação de Rossi nos momentos de fúria, com o comportamento de felinos selvagens como o leão e o jaguar:

Quando cai na alma impetuosa e arrogante do mouro a primeira centelha do atroz ciúme que o levará ao assassinato e ao suicídio, causa estupefação e assombro o trabalho do trágico italiano. O público arqueja e desmaia de admiração e horror. Ernesto Rossi é inexcedível na grande tragédia; possui todas as cóleras do leão africano e todas as ternuras do mais puro, apaixonado e entusiástico sentimento do coração humano. (DRJ, 13/5/71)

Quando as palavras envenenadas de Iago começam a perturbar-lhe a serenidade do espírito, sob as vestes bordadas do general da sereníssima república reaparece o pelo fulvo da besta fera. A ingenuidade daquele coração quase infantil transforma-se em ódio feroz. Já não fala, ruge; já não caminha, salta; já não tem mãos, tem garras. Os olhos parecem luzir, sedentos de carniça; os dentes alvejam e rangem por entre os lábios arregaçados por uma contração medonha. A voz não tem mais som humano; é o grito do leão faminto. (...) Pouco a pouco, ora com palavras dúbias, ora com insinuações mal disfarçadas, Iago vai agitando aquela grande alma. O leão desperta; e no seu primeiro ímpeto quase a primeira vítima é o traidor. É uma cena medonha essa: Iago está quase esmagado sob os joelhos de Othello, no entanto que as garras parecem hesitar, ainda. (AR, 13/5/71)

Rossi com o provável figurino da chegada de Othello a Chipre
Fonte: "The Italian Shakespearians", de Marvin Carlson, apud RHINOW, 2007

Assusta e deslumbra o perfil monstruosamente belo do mouro na tragédia imortal! É completa a transfiguração do artista. O jaguar é que possui aquela carícia de ponta de garra; o abismo é que tem no seio aqueles gemidos profundos e roucos; a glória, a glória e não a arte!, é que conserva em si a fortaleza que o trágico italiano espalha de sua pessoa como uma transpiração ideal. (...) O Othello de Shakespeare não se descreve. É o poema do leão ferido; a epopéia do amor bruto e selvagem, como a natureza africana. Mas Rossi chega a quase fazer esquecer o nome do autor da tragédia, porque ninguém que leu Shakespeare imaginou aquilo. (DRJ, 14/5/71)

Por fim está toda a excelência de sua interpretação, que alguns salientaram não se tratar de um trabalho meramente intuitivo, mas fruto de apurado estudo:

Nas transições, nos monólogos, na explosão dos afetos encontrados, nos impulsos frenéticos, nos acessos de cólera, rugindo como o rei do deserto, em tudo é grandioso, em tudo se eleva incontestavelmente à altura do gênio. Nos últimos três atos do Othello é onde há mais de maravilhoso, onde os dotes artísticos do trágico se apresentam em todo o fulgor. As situações são surpreendentes, e são nesses quadros vivos que Rossi logra, para a sua coroa de verdadeiro artista, novíssimos florões; cada frase é acompanhada de atitude mais eloqüente, mais expressiva, que só o muito estudo guiado por muito gênio podia criar. (DN, 13/5/71)

O Othello de Rossi e o lenço de Desdêmona
Fonte: "Otello" (Teatro Alla Scalla de Milão, 2004), apud RHINOW, 2007

O que escolher de preferência nos inúmeros tesouros da interpretação do artista? A luta com Iago? Os diálogos terríveis e trêmulos com Desdêmona? A cena pavorosa da estrangulação? As últimas palavras e gestos do suicida agonizante? É o poema do terror, essa tragédia; e em cada estrofe assume mais altas, mais extraordinárias proporções o gênio maravilhoso do primeiro artista da Itália. O público, ao terminar a tragédia, subiu ao delírio da vivacidade das ovações e nas chamadas ao proscênio. Triunfo mais espontâneo e justo jamais teve o teatro. (DRJ, 13/5/71)

O comentário de A Reforma sobre o 5º ato vem repassado em emoção:

As cenas que constituem o último ato do grandioso poema dramático estão escritas com lágrimas. É o patético e o terrível no seu auge. A agonia de Desdêmona estrangulada pelas mãos do selvagem; o castigo de Iago, ferido por Othello; finalmente a morte deste degolando-se, são cenas como nunca as viu o nosso teatro. Não há palavras para descrevê-las, nem para pintar a última entrevista de Othello e de Desdêmona; as súplicas angustiosas desta, os seus veementes protestos de inocência e os rugidos da fera que vê naquelas lágrimas a prova da sua desonra e da traição. Quando caem as cortinas da alcova e continuam a ouvir-se os sarridos (asfixia) da vítima e os gritos hediondos do algoz, um imenso calafrio correu por todo o auditório. Houve uma pausa que pareceu um século... por fim tornaram a abrir-se as cortinas e saiu daquela alcova um monstro, hirto, medonho, caminhando como um ébrio e tendo em cada gesto uma imprecação e um remorso.

Ao saber da inocência de Desdêmona, Othello corre a abraçar-se ao cadáver da mulher amada. Cobre de carícias, de beijos ferventes aqueles restos inanimados, e depois surge armado do terrível alfanje para vingá-la. Ernesto Rossi desde a primeira à última cena de Othello é uma perfeição ideal. É um assombro vê-lo e ouvi-lo. Os aplausos frenéticos, continuados das platéias são pequena recompensa a tamanho esforço. É um artista sublime. O que nos havia revelado Adelaide Ristori está excedido de muito pelo que nos revela agora Ernesto Rossi. Alia ele a suprema naturalidade ao grandioso e ao belo da arte. Atinge aos máximos efeitos trágicos sem nunca deixar de ser verdadeiro. É colosso, mas é homem; sente, e não se diverte a fazer posições para ferir os olhos antes de tocar o coração. E entretanto, que escultor! Não há um momento só em que não possa ser copiado. (13/5/71)

(ML, 26/5/71) O Diário de Notícias comentou: "O Mundo da Lua vem hoje curiosíssimo. Traz uma chistosa caricatura do trágico Rossi, representando-o no último ato do Othello. Os seus proprietários, julgando que alguns apreciadores queiram fazer aquisição do trabalho, mandaram tirar alguns exemplares especiais, que se acham à venda no escritório, Largo da Carioca, 18" (27/5/71)

Celestina de Paladini e Giacomo Brizzi também foram elogiados: “A Sra. de Paladini interpretou com toda a paixão e exuberância de talento a parte difícil de Desdêmona. Nas últimas cenas do 4º e 5º atos a distinta atriz esteve esplêndida. O Sr. Brizzi granjeou merecidos aplausos e teve excelentes rasgos de artista”. (DRJ, 13/5/71). “Sejamos justos dizendo que ao seu lado conquistou merecidos aplausos a Sra. Celestina de Paladini no papel de Desdêmona. No 4º ato, na cena com Othello, teve ela um magnífico lance dramático. O Sr. Brizzi também interpretou o papel de Iago com inteligência e energia. O mesmo diremos da Sra. Cottin que no papel de Emília conquistou aplausos no último ato”. (AR, 13/5/71) O Diário de Notícias foi efusivo; registre-se que o autor da crítica era o próprio dono do jornal, Clímaco dos Reis, que escrevera o comentário movido pela intensa admiração que nutria por Rossi desde sua chegada:

Paladini é digna discípula de Rossi. Tem voos artísticos de mérito inconcebível. No Othello, por vezes arrancou bravos à platéia entusiasmada. Na situação em que protesta contra o infundado ciúme do esposo, a exímia artista parecia a personificação animada dessas imagens que julgamos só um Buonarroti ou um Sanzio podia evocar das trevas do passado, para destacar sobre a tela ou esculpir sobre o mármore. Brizzi, na parte de Iago, correspondeu à devida interpretação, e o público coroou-lhe os esforços, assim como à Sra. Cottin. (13/5/71)

Celestina de Paladini, 1875
Curiosíssimo é o comentário de A Comédia Social, que teve a admirável coragem de destoar da unanimidade e criticar, efetivamente, de forma construtiva e respeitosa, as performances de Rossi e Giacomo Brizzi:

A crítica imparcial e reta exige que digamos que essa representação esteve longe de fazer justiça à peça. Esta não só sofreu bastante pelos cortes e modificações que lhe deram, como também teve a infelicidade de não ser interpretada corretamente pelos artistas incumbidos dos papéis principais. O papel de Iago foi o que teve o pior desempenho. O Sr. Brizzi soube personificar o velhaco astuto, mas sempre lhe faltava alguma coisa para ser Iago; e não conseguiu revestir-se das diversas máscaras com que este personagem disfarça a sua natureza verdadeira.

O articulista cuida de elogiar Rossi preliminarmente, considerando que o ator “se houvesse com maravilhosa habilidade em muitos lances de elevada ordem dramática” apresentando “uma personificação completa e perfeita do Othello concebido por Shakespeare”. Mas acusa-lhe o excesso de fúria no momento em que Iago começa a envenená-lo, aludindo à desonestidade de sua esposa:

Na cena, por exemplo, em que o ardiloso Iago profere cautelosamente as primeiras indefinidas e quase imperceptíveis intimações implicando a fidelidade de Desdêmona, o espírito leal, altivo e majestoso de Othello não sente nem pode sentir os zelos ardentes que lhe atribui o ator. Pelo contrário, Othello, não confessando nem a si mesmo, as suspeitas cujo germe lhe acaba de ser implantada na alma, mal as deixa transparecer; o que é retratado com aquela delicadeza de toque que só Shakespeare possuía. (...) Podíamos apontar outros senões e belezas, porém limitamo-nos a censurar o estilo exagerado que leva os atores a mostrarem fogo onde mais convinha a calma.

Dali em diante o articulista elogia Rossi: “Na segunda parte desta cena, porém, quando o marido de Desdêmona se acha já rendido às tormentas do ciúme, o desempenho foi magnífico. Nada podia ser melhor do que o modo por que o ator recitou o grito de desespero — o mais belo trecho da peça — em que Othello se despede dos prazeres, da pompa e da glória da posição que tinha conquistado”. Engraçadíssimo é o fim do artigo, em que o articulista diz que “estamos dispostos a perdoar muito a uma companhia que no todo representa tão bem peças da ordem de Othello, e desejamos fervorosamente que semelhantes espetáculos sirvam para melhorar o gosto do público e elevar a arte dramática no Rio de Janeiro”. (13/5/71)

A Vida Fluminense caracteriza jocosamente
a cena do "Villain, be sure thou prove my love
a whore", em que Rossi mantinha o Iago de Giacomo Brizzi sob seu joelho, como um leão atacando um cachorro: "Os espectadores, vendo que não havia ali grade de ferro que separasse a cena da platéia, tremeram como caniços" (A Vida Fluminense, 20/5/71, apud RHINOW, 2007)

Mais uma vez, o teatro não estava super-lotado como todos esperavam. Na comparação, vê-se que Rossi foi chamado à cena de seis a oito vezes, enquanto Emília Adelaide — não obstante tratar-se de sua festa artística — recebeu nada menos do que vinte cortinas, no Antony. A imprensa, entretanto, ainda considerava aquilo meramente o início lento daquilo que viria a ser uma apoteose. E o que ficou da primeira representação de Othello para os brasileiros foram os comentários maravilhados do Mundo da Lua e de Guimarães Junior no Diário do Rio de Janeiro:

Eu sinto-me embaraçado e até medroso perante o colossal monumento humano, que a Itália nos enviou! Kean foi um prodígio. Mas o que dizer de Othello? Ainda o público vibra sob a magnética impressão produzida pela obra selvagem de Shakespeare! O temor que aquele divino Rossi fez pesar nas nossas almas pasmas não se descreve, nem comenta. É a vitória da tragédia; a vitória do gênio; a vitória do homem, feito à imagem de Deus! Othello tocou a linha que marca o impossível nas raias da compreensão humana! (ML, 13/5/71)

Ernesto Rossi conquistou para sempre a estupefação pública. Othello é o que há de mais pavoroso e sublime em interpretação artística. (...) Eu não sei mesmo porque enchi tanto papel para dar notícia da representação de Othello. Bastava dizer !!!Rossi!!! As interjeições foram inventadas para ele! (DRJ, 14/5/71)

A terceira peça apresentada pela companhia de Rossi chamava-se Um Defeito de Educação (“Un vizio di educazione”) e foi escrita especialmente para o trágico pelo afamado dramaturgo italiano Achille Montignani (1819/1879). Vencedor do concurso dramático de Turim em 1864 e encenado no sábado, 13 de maio, o texto, “por intermédio de um estilo simples, claro eloqüente, narra-nos o escritor um episódio de família, buscado na interminável tese social da incompatibilidade de gênios e incompatibilidade de educação”. (DRJ, 15/5/71)

Por se tratar de obra hoje inteiramente esquecida, a sinopse publicada pelo Diário do Rio de Janeiro no dia 15 torna-se valiosa:

A marquesa de Santa Ella (A. Cottin) educa seu filho, Carlos de Santa Ella (Rossi), longe dos bulícios da sociedade onde teme que se perca o espírito do mancebo, adorado por sua alma generosa e excessivamente maternal. O marquês Carlos de Santa Ella cresce, pois, à sombra das asas de sua mãe como uma virgem, alheio às perfídias brilhantes do mundo e aos traquejos da sociedade. É puro o coração; mas a cabeça é tão pura como ele, isto é: ignorante.

O casamento revela-se à marquesa de Santa Ella como uma necessidade urgente; casá-lo é providencialmente salvar o filho das loucuras que a mocidade mais tarde ou cedo forçá-lo-á a tentar. O moço viu em um baile uma formosa donzela (Celestina de Paladini) e enamorou-se com o pudor virginal de sua alma pelo porte e gentileza da elegante. Essa elegante vive á sombra dos conselhos de seu tio (imagino que seja o “Dr. Sarredo” de Ercole Cavara), um velho gamenho (frívolo), um solteirão de bom gosto, que esquece da cor de seus grisalhos cabelos para imaginar unicamente a cor do jaleco de jockey com que se apresentará no primeiro turf. É um desmiolado, cheio de cortesias e ridículas pretensões.

O contrário do que exige a marquesa de Santa Ella à educação de seu filho, aconselha à sobrinha o velho brincalhão. O baile, a festa, as distrações e o luxo, eis o que atua constantemente no ânimo fútil da donzela. É essa a mulher com quem se liga o ingênuo marquês de Santa Ella, e o resultado de tal ligação é fácil de prever. A jovem marquesa entregava-se de novo, ou antes, continua sua existência leviana e brilhante; o coração frio a todas as santas expansões íntimas não se volve ao esposo, mas sim ao louco burburinho dos saraus. O conde de Rivera (Flávio Andó) encontra-a e faz-lhe a côrte; a marquesa aceita o requesto com a vaidade de uma mulher bonita a quem lisonjeiam os mais poderosos sentimentos.


Carlos de Santa Ella desespera-se com a frieza da esposa; mas guarda o aparente sossego até a hora em que cai-lhe na alma a centelha do ciúme e a verdade do que se passa. Procura um meio de insultar o conde de Rivera e mata-o. Em seguida declara à mulher tudo o que se há passado; prometendo-lhe um eterno desprezo e forçando-a ao mesmo tempo a ocultar sob a máscara da alegria o que acontece para que sua mãe, sua mãe que ele adora, não desconfie, nem suspeite, sequer.

Dessa hora em diante começa o martírio da jovem marquesa, em cuja alma o amor pelo marido faz o primeiro choque, e Carlos atira-se à vida tumultuosa da sociedade, para vingar-se e para esquecer. Termina a peça magnificamente e o marquês, certo do arrependimento e da completa transformação da esposa, perdoa-a.

O texto parece ter agradado: “O Defeito de Educação é um drama que honra a moderna literatura italiana. O diálogo é vivo, colorido, a ação bem travada e bem desenvolvida; os caracteres traçados com verdade”. (AR, 17/5/71) E a performance de todos foi elogiada: “O desempenho foi em geral esplêndido. O Sr. Ernesto Rossi provou nesse drama que o seu gênio é tamanho na tragédia como no drama. É o sublime Proteu que em cada transfiguração manifesta-se com igual exuberância de alma e de descomunal talento. A Sra. Celestina de Paladini trabalhou magistralmente na parte da jovem marquesa de Santa Ella. A Sra. Cottin compreendeu com todo o sentimento o tipo severo e terno da velha marquesa. O general de Lucca, o duque de Riaro, o Dr. Sarredo portaram-se com a maior galhardia e distinção, sendo dignos de nota os Srs. Brizzi e Cavara, dois perfeitos artistas. O drama foi montado esplendidamente. É uma das melhores peças do teatro moderno que se tem aqui representado e não foi em vão que a premiaram no concurso de Turim”. (DRJ, 15/5/71)

Aquele que ainda há pouco fazia tremer com os seus rugidos de fera personificando o mouro de Veneza, enverga agora uma casaca e calça uma luva de pelica com todos os ademanes de um homem da melhor sociedade moderna. Na voz, no gesto, nas entonações, no andar, revela-se inteira a índole do novo personagem, misto de timidez e de distinção, alma apaixonada que receia ser compreendida. (AR, 17/5/71)

Não houve tempo para maiores apreciações porque no dia seguinte, domingo, 14 de maio, a companhia estreou novo espetáculo: Os Dois Sargentos, que figura nos anúncios como sendo de Carlo Roti, mas pelo jeito não passa de uma tradução italiana de “Les deux sergents”, melodrama em três atos de Jean-Marie-Theodore d'Aubigny, surgido em 1823. A crítica torceu sutilmente o nariz para a escolha. Depois de Dumas, Shakespeare e um drama contemporâneo escrito só para ele, não se via o sentido de encenar um dramalhão manjado e lacrimoso: “O drama não pertence à fina escola literária, nem se recomenda por valiosos títulos ao mundo das letras. É todavia um quadro de profundo sentimento e moralidade à toda prova. (...) Os Dois Sargentos é propriamente um drama de coração, cuja vitória está nas lágrimas ardentes que arranca à platéia palpitante de dor”. (DRJ, 16/5/71). “Os Dois Sargentos é uma peça do antigo repertório, e que há bons trinta anos tem sido representada em todos os nossos teatros e por quantas companhias públicas ou particulares têm neles trabalhado”. (AR, 17/5/71)

Baseia-se todo o entrecho, cheio de peripécias cômicas e dramáticas, sobre um ponto único: a luta de uma nobre e robusta alma com o coração e o dever. Rossi foi sublime de sentimento, de entusiasmo, de admirável alcance artístico. A platéia, convulsa de dor e de piedade, acompanhou com lágrimas e aplausos veementes todo o trabalho do mais eminente ator dramático do mundo. O segundo ato é um triunfo como o último é uma glória.  (DRJ, 16/5/71)

Havia consenso, porém, de que Rossi, no papel do sargento Guilherme, tirara leite de pedra:

O grande artista compraz-se em lutar com o impossível; e de um papel vulgar, pálido, monótono, tira ele uma criação luminosa, resplandecente de paixão e poesia. Pigmalião da arte dramática, o anjo da inspiração dá a vida às criações do seu gênio. (...) Sombrio, resignado no 1º ato, no 2º, ao despedir-se da família para ir morrer, o sublime artista faz vibrar uma a uma todas as cordas do coração do espectador. Não há olhos que se conservem enxutos ante aqueles beijos convulsivos, ante aquelas carícias supremas repartidas pela mulher e pelos filhos. Cada gesto, cada olhar, cada monossílabo contém um poema de angústias, uma eternidade de dores. Os filhos já lhe saíram dos braços, que ele ainda os beija e acaricia; parece que a alma do pai já os abraça no mundo das sombras. Ao saber que está passada a hora, e que o amigo morrerá em seu lugar, que indescritível desespero, que ímpetos tremendos os daquela consciência para a qual a honra vale mais do que a vida! Tantas e tais belezas não se analisam. Todas as platéias as admiram. (AR, 17/5/71)

Ferreira de Araújo (1848/1900), que vinha aos poucos se tornando figura das mais importantes de nosso jornalismo, escreveu um longo artigo sobre as performances de Rossi até então. Tomando por base a interpretação do ator na peça contemporânea, de fundo militar, traçou um delicado paralelo entre Rossi e Ristori: "Foi mais uma prova que tivemos da superioridade artística do Sr. Rossi sobre a Sra. Ristori. Na Soror Thereza [de Luigi Camoletti], a Sra. Ristori, que aliás era admirável nesse papel, conservava o andar majestoso, o tom declamatório de que usava na tragédia. Quem conhece no sargento Guilherme o bárbaro Othello? Pode haver maior naturalidade que a da narração do primeiro ato?". Sua análise é das mais interessantes:

José Ferreira de Souza Araújo
A verdade é tanta que o espectador julga assistir à cena que o artista descreve, compreende a razão do procedimento dos dois sargentos, aplaude de coração o que eles fizeram, mas não ousa revoltar-se contra a condenação proferida pelo conselho de guerra, ouvindo o tom de funda convicção com que o Sr. Rossi observa que as leis militares são severas e que foi justa a sentença. (...) O segundo ato, não há descrevê-lo. (...) Aquele homem, que abraça com frenesi mulher e filhos, que se regozija com um momento de júbilo depois de cinco anos de padecimento, deixa ver na imensa alegria da volta a funda mágoa da próxima e eterna separação. O olhar vai até ao fundo das almas como que para saciar-se, porque sabe que é essa a última vez; os beijos longos parecem de alguém que quer guardar nos lábios vestígios deles; e, no meio de tudo isso, o sorriso forçado a impor uma tranqüilidade que o mártir não sente, as palavras entrecortadas do homem que não sabe mentir, o desviar dos olhos quando a esposa amante, que parece adivinhar a horrível verdade, procura interrogá-lo.

Adelaide Ristori como Soror Thereza, de
Camoletti, em NY. Foto de Napoleon Sarony, 1867
Onde há aí coração, por mais insensível que seja, que se não comova ante aquele espetáculo! Sobem involuntariamente as lágrimas aos olhos, e, no entanto, o espectador está tão consubstanciado com o personagem reproduzido pelo Sr. Rossi, que não simpatiza com a ação do aspirante Gustavo, que o quer salvar a todo o transe. A entrada final no terceiro ato é admirável; lê-se-lhe no rosto a satisfação pelo cumprimento do dever, compreende-se a grande fadiga, revelada ainda pela dificuldade com que o braço se dobra para tirar de entre os dentes a cruz de honra. Além destas grandes cenas, em que a situação ajuda o efeito, as outras todas, as que parecem insignificantes, arrebatam o espectador. Citaremos, entre outras coisas admiráveis, o movimento de nobre orgulho com que o condenado à morte veste a farda de capitão, de que estivera injustamente privado durante os cinco anos. Enfim, descrever o que faz o Sr. Rossi é a tarefa que consideramos superior às nossas forças; tivemos apenas em vista consignar aqui um voto de ardente e entusiástica admiração que tributamos ao mais consumado artista que temos conhecido. (O Guarany, 21/5/71)

Celestina de Paladini e o resto do elenco foram fartamente elogiados; a revista A Rabeca não se furtou inclusive de uma comparação lisonjeira, mas algo maldosa: “Nos Dois Sargentos Franceses ainda cabem as honras da glória ao Rossi e à Paladini, que leva vantagem à Emília Adelaide”, mas aparentemente quem roubou a cena foi Leopoldo Vestri, que pela primeira vez apresentou a peça cômica depois do drama. Numa paródia ao Baile de Máscaras de Verdi, o ator conquistou público e crítica: “O Vestri na paródia Un Ballo in Maschera mostrou que além de ser um ator de primeira ordem, era dotado de um verdadeiro talento artístico”. (20/5/71)

Em seguida aos Dois Sargentos franceses apresentou-se em cena o Sr. Leopoldo Vestri, talento especial no gênero cômico, recitando e cantando uma brilhante cena cômica sobre o Ballo in Maschera, ópera de Verdi. O Sr. Vestri é notável artista e foi recebido com universais e espontâneas ovações. Cumpre mencionar também a sua bela voz de tenor, o que concorreu bastante para o sucesso do seu trabalho original e picante. (DRJ, 16/5/71)

Na cena cômica intitulada Un Ballo in Maschera, paródia da ópera desse nome, fez a sua verdadeira estréia o primeiro ator cômico da companhia, o Sr. Leopoldo Vestri, que já tão agradável impressão nos havia deixado no papel do príncipe de Gales do Kean. Tem um mérito real e notável este artista. (AR, 17/5/71)

Homenagem a Leopoldo Vestri e seus muitos personagens (ML, 22/4/71)

Infelizmente, já não era mais possível esconder o óbvio: o teatro estava longe de atingir a lotação. Desde o início de sua temporada brasileira Rossi não tivera uma única casa cheia, ou um único triunfo comparável à Ristori ou Emília Adelaide. O público simplesmente não estava comparecendo às peças, mesmo com a quantidade considerável de anúncios e o absoluto deslumbramento da crítica. Escritores, dramaturgos e a intelectualidade assistiam, horrorizados, a indiferença com que o povo vinha recebendo o grande trágico. Até as companhias ditas “rivais” estavam tomadas por um notório mal-estar diante daquilo; vaidade desenfreada e permanente concorrência eram comuns entre atores e companhias, mas Rossi pairava sobre eles e o fracasso de sua visita ao Brasil constituía uma vergonha para toda a classe teatral.


A propaganda da Phenix, anunciando
um espetáculo em homenagem a Rossi
A Phenix deu o pontapé inicial na tentativa de reverter a situação. No dia 15, segunda-feira, em que o trágico faria uma primeira reprise do Othello, Jacintho Heller inseriu um aviso importante em sua propaganda diária: “Nesta semana grande festa artística em homenagem a Ernesto Rossi”. Era normal as companhias realizarem festas para os artistas estrangeiros que vinham em turnê ao país, mas essa pareceu um tanto prematura. E não era só isso: naquela mesma noite, a companhia da Phenix e alguns elementos do São Luiz foram assistir Rossi e pela primeira vez o Lyrico ficou lotado. A extraordinária performance de Rossi, naquele crescendo que já havia sido apontado pela crítica, maravilhou o público e provocou as mais violentas e ensurdecedoras ovações. Segundo o Diário do Rio de Janeiro, “os espectadores compreenderam o artista e o aplauso assumiu as proporções da febre e do delírio. Do terceiro ato em diante, que é quando aquele prodigioso artista abre os horizontes aos vôos do seu gênio, o frenesi manifestou-se nas inúmeras e múltiplas ovações do público eletrizado. O palco ficou literalmente atapetado de ramos e flores desfolhadas”. (19/5/71)

Terminado o espetáculo, o público, em êxtase, o chamou inúmeras vezes para mais palmas. Em meio à beleza inefável daquele momento, subiram ao palco, sem aviso, Emília Adelaide e Furtado Coelho, que ofereceram “um lindíssimo ramalhete de flores de penas ao grande artista”. Na seqüência vieram Ismênia dos Santos e todo o elenco da Phenix, presenteando Rossi com uma luxuosa coroa de louros. Dezenas de outros ramalhetes foram oferecidos pelos ocupantes dos camarotes mais próximos ao palco. O público beirava a histeria, de tanta emoção: “A platéia desprendia-se em bravos e palmas, as senhoras acenavam com os lenços, chapéus até voavam para o palco e os ramos caíam como chuva torrencial; era um entusiasmo sem limites, um delirar imenso. (...) Nem há descrever tais ovações; o espírito ofuscado por semelhantes resplendores recolhe-se, em adorado êxtase, e arremessa-se por aí além, em busca do desconhecido. A terra é pequena demais para compreender a grandiosidade que lhe tumultua no íntimo”. (DN, 17/5/71)


Emília Adelaide (O Guarany, 16/4/71)
De um dos camarotes foi pedido silêncio; todos os presentes se viraram para o local e depois de algum esforço conseguiram divisar Rozendo Muniz Barreto (1845/1897), poeta baiano muito querido. Ele improvisou uma linda poesia em louvor a Rossi — e que desgraçadamente não encontrei reproduzida em nenhum dos jornais a que tive acesso — encerrando com chave de ouro e aplausos sinceros essa homenagem tão merecida. Só que a festa continuou. Público e atores das diferentes companhias saíram do teatro juntos ao ator, onde os esperava uma banda de músicos italianos. Empunhando tochas, a multidão reunida acompanhou Rossi até seu hotel, o “Hotel da Europa”, na rua do Ouvidor, ao som agradável da banda. O jornalista do Diário de Notícias estava lá e descreve com fidelidade a comoção que se apoderou de todos:

Rozendo Muniz Barreto (SI, 12/8/66)
Desde o Lyrico até ao hotel da Europa, os vivas repercutiam soberbamente unânimes. O público acompanhava passo a passo o prodigioso Prometeu que lhe havia despertado n’alma sentimentos que até hoje ignorava. (...) E íamos todos presos àquele centro magnético, a cujas douradas chispas sentíamos efervescer o crânio em “bravos” delirantes e calorosos. Rossi desde o Lyrico sustentou uma luta renhida: descer do carro e acompanhar a pé os seus amigos, era o seu desejo. Firmes, porém, em nosso posto, não arredamos um passo; Rossi à nossa beira, e como nós, a pé, era ficarmos parados diante do portento, não avançarmos um palmo de terreno; era enchê-lo de abraços, cobri-lo de beijos, ensurdecê-lo de vivas, matá-lo de entusiasmo.

Ernesto Rossi a todos falava, abraçava, apertava as mãos; as lágrimas saltavam-lhe dos olhos e a palavra saía-lhe entrecortada de soluços; a gratidão nunca se exprimiu assim; deslumbrava! (...) Chegamos, infelizmente, ao nosso destino; o sol vai deixar de resplandecer, no abismo da nossa mediocridade. Rossi por hoje despede-se de nós. Formamos alas entre nossos braços, o eterno triunfador ergueu a voz inspirada; em poucas mas eloqüentíssimas palavras agradeceu ao público fluminense a ovação que acabava de tributar-lhe. O que se passou então não sei; quando despertei achava-me na rua do Ouvidor a saudar ainda o herói do maior triunfo que tenho presenciado.

Sinto-me ainda enfebrecido; a pena percorre o papel trêmula e agitada e torvelinham tantos e encontrados sentimentos no meu cérebro, que nem sei se escrevo ou estou ainda a vitoriar o gênio assombrosamente deslumbrante de Ernesto Rossi. Dormir agora é impossível; envolvido ainda nos perfumes daquela atmosfera de glórias, sinto o espírito delirante, a alma a querer desprender-se da matéria. O pulso, porém, fatigado, não há exigir-lhe mais. (17/5/71)

“O que se passou” e que o jornalista já não sabia, pela perturbação que lhe causara aquela jornada, é que Rossi agradeceu com a voz embargada, secando as lágrimas e erguendo um sonoro “Viva” à nação brasileira. Adelaide Ristori recebeu uma homenagem semelhante quando esteve no Brasil. Havia, porém, um tratamento muito mais cerimonioso e distante com a eminente trágica; Rossi era mais acessível e não se incomodava em cumprimentar a todos, um por um, e ser abraçado e acarinhado pelo povo.

Homenagem a Ristori (Vida Fluminense, 28/8/69)

Essa, por sinal, a razão para a crítica ter tanta adoração por Rossi. Não se tratava apenas de seu talento; era muito mais do que isso. Ele possuía qualidades raras, que geralmente andam de braços dados com um talento superior como o dele: gentileza, humildade e simpatia. Seria perfeitamente compreensível, por exemplo, que ele respondesse àquela homenagem com polida indiferença, dada a maneira com que vinha sendo tratado pelo público brasileiro. Ocorria o contrário. Quanto mais o público o ignorava, mais afinco e dedicação ele colocava em suas performances. Era um artista consumado com ou sem público. Ele próprio era seu triunfo, estivesse o teatro cheio ou vazio. E a noite de 15 de maio lavou a alma da crítica e do reduzido público que o vitoriava todas as noites. O Diário de Notícias, aliás, aproveitou para falar de uma vez aquilo que a imprensa toda levava preso à garganta:

A celebridade européia, que temos a honra de hospedar em nosso seio, é destes seres privilegiados que, por onde passam, levam após si as multidões absortas, extáticas de admiração e de respeito. No entanto o Lyrico, à exceção de hoje, tem estado, por assim dizer, quase vazio. Somente os verdadeiros amadores do belo, as almas que sabem discernir todos os mil encantos que esparge, regiamente, o gênio portentoso de Rossi, iam, reverentes de fé, queimar o incenso da sua admiração no altar do sublime prodígio; o público conservava-se indiferente, nem a curiosidade lhe excitava os brios. Mercê de Deus, vai acordando agora; e ninguém mais do que eu acredita neste bom público, admirador constante e fervoroso de tudo quanto é belo e grande. o Lyrico ainda há de regurgitar de espectadores, atraídos pelos brilhantíssimos triunfos que o Sr. Rossi já tem conquistado... não digo bem... já tem imposto à escolhida sociedade que o admira desde a sua estréia. (17/5/71)

Na quarta-feira, 17 de maio, havia nova performance de Othello agendada para o Lyrico, às oito da noite. Mas às onze da manhã Rossi adentrava os portões da residência imperial. Pedro II estava enlutado pela morte da filha e partiria em viagem internacional no dia 25, mas não queria deixar o Brasil sem conhecer o trágico italiano. Convidou-o para um almoço regado à cultura. A imprensa comentou apenas que Rossi “recitará ante à família imperial algumas passagens de poemas de Dante e Byron” (DN, 17/5/71). Conforme o repertório do italiano isso equivaleria a “cantos da Divina Comédia”, no caso de Dante, e talvez trechos do Sardanapalo de Byron, ou poemas do inglês que simplesmente não constavam do repertório. Pedro II era um profundo conhecedor de poesia e não se furtava de pedir suas preferidas quando se defrontava com os grandes atores de seu tempo. Prova disso é que propagandas posteriores da companhia italiana anunciariam Os Últimos Momentos de Cristóvão Colombo (“Ultimi momenti di Cristoforo Colombo”), de Antonio Gazzoletti (1813/1866) — ausente no repertório original — como poesia que Rossi “já teve a honra de recitar perante S. M. o Imperador”.

Pedro II, em foto da época em que veio Rossi
A homenagem da Phenix aconteceu quinta-feira, 18 de maio. O Diário de Notícias daquele dia foi fiel quando anunciou que “não se poupou esmero e despesa para que esta festa seja deslumbrante”. O teatro estava rica e lindamente decorado por dentro e por fora. Assim que Rossi desceu de sua carruagem, começou uma belíssima queima de fogos de artifício — ou, como se dizia então, “fogos de bengala” ou “fogos cambiantes” — que iluminaram de diversas cores o céu noturno. Elenco e público vieram recebê-lo e entraram ao som de uma banda marcial postada no saguão, que tocou o hino “Saudação a Rossi”, composto especialmente para aquela noite. Como bem assinalou Guimarães Junior, Rossi foi recebido “como César nos fastos romanos, quando voltava do campo glorioso e encaminhava-se ao Capitólio”. (DRJ, 21/5/71) Segundo o Jornal da Tarde: “Ao entrar na sala, que se achava literalmente cheia, o grande artista recebeu da empresa do Sr. Heller uma dessas manifestações de apreço de que se recordará com gratidão quando percorrer em sua mente todos os estádios de tantos triunfos imorredouros. Das galerias choviam versos, flores e pássaros”. (19/5/71)

Propaganda da homenagem da Phenix a Rossi

Guilherme de Aguiar
(O Mequetrefe, out. 1892)
Foi acompanhado até seu camarote, que ficava próximo ao palco. Nova surpresa; o camarote tinha seu nome em uma placa e estava “adornado com bandeiras, arcos de folhagem, troféus, grinaldas de flores no meio das quais se liam os títulos das principais peças do repertório do grande artista”. (AR, 20/5/71) Rossi acomodou-se confortavelmente com sua família. A orquestra tocou a “ouvertura” e levantaram-se as cortinas, aparecendo no proscênio Jacintho Heller, Luiz Carlos Amoedo, Francisco Corrêa Vasques, Guilherme de Aguiar, Manoel Tavares e Eugênia Câmara, a musa de Castro Alves. Todos recitaram poesias exaltando as glórias da carreira do trágico, que aplaudia com humildade e emoção, junto ao público, como se não fosse ele mesmo o motivo único daquela grande festa.

O programa era basicamente o mesmo da festa artística dedicada a Vasques no mês anterior. Estavam lá O Tipo Brasileiro de França Junior e a opereta O Fechamento das Portas, de Augusto de Castro com música de Offenbach; só que ao invés de Silêncio Calado, a “tagarelice em 1 ato” de Eduardo Garrido, a Phenix optou acertadamente por colocar Vasques protagonizando o Novo Othelo. A comédia em um ato, de Joaquim Manoel de Macedo, é uma deliciosa bobagem sobre um ator Calisto, feito por Vasques — que está obcecado com sua estréia no papel de Othello (de Ducis, diga-se de passagem) e expõe seus receios ao amigo Antônio, o ator André Avelino de Amorim — e ao mesmo tempo acredita que está sendo traído pela namorada Francisca, filha de Antonio, interpretada pela jovem atriz Anna Costa — que, em conversas com a vizinha Justina, feita por Júlia Heller, esposa de Jacintho Heller — vive se desmanchando em elogios e suspiros por um amor secreto, apenas para que se descubra, no fim, que ela se referia a um cachorrinho de estimação.

Francisco Corrêa Vasques
Foi o grande momento da noite, pois Vasques aproveitou as explosões de ciúme de Calisto — o personagem principal, que intercala suas falas com falas do próprio Othello — para imitar Rossi, que adorou a brincadeira. Segundo A Reforma: “O inteligente ator Vasques, na comédia O Novo Othelo, teve momentos felizes na imitação de algumas cenas do grande trágico, que o aplaudiu calorosamente”. (20/5/71) O Diário do Rio de Janeiro concordou: “O Sr. Vasques, no Novo Othelo, recebeu vivas demonstrações de apreço público”. (20/5/71) Guimarães Junior acrescentou: “Vasques esteve soberbo no Novo Othelo e Rossi, baixando de sua esfera olímpica, ria-se como qualquer espectador, aplaudindo a paródia de seu monumental trabalho no palco da Phenix pelo Vasques”. (DRJ, 21/5/71) No intervalo entre a peça de Macedo e a opereta de Castro, Rossi subiu ao palco e abraçou todos os atores, ao som de aplausos e “vivas”. Na saída do teatro, a banda voltou a tocar e Rossi deixou a Phenix com os atores e com o público. Girândolas soltavam foguetes, e “significava tudo a mais franca demonstração de entusiasmo ao talento e ao coração do primeiro artista da Itália”. (DRJ, 20/5/71)

O teatro brasileiro no dia da homenagem a Rossi: o Lyrico anuncia reprise de "Os Dois Sargentos Franceses" para o dia seguinte; no Gymnasio o programa é variado e aguarda-se com ansiedade a estréia do espetáculo "O Porta-Bandeira do 99 de linha", do português Augusto Garraio, sobre a guerra franco-prussiana; no São Luiz, Furtado Coelho e Emília Adelaide brilham com o "Antony" de Alexandre Dumas; a Phenix convida para a grande festa em honra do trágico italiano, e o Alcazar anuncia "Les Princesses de la Rampe" de Lambert Thiboust e Léon Beauvallet e "Le Nez d'Argent" de Édouard Déaddé Saint-Yves

Na sexta-feira, 19 de maio, a companhia de Rossi apresentou novamente Os Dois Sargentos Franceses e a paródia de Un Ballo in Maschera com Leopoldo Vestri. No fim do espetáculo, sem qualquer aviso, Furtado Coelho subiu ao palco. Em cartaz com Antony no dia anterior, não pudera comparecer à festa da Phenix. Fez essa surpresa a Rossi, a quem dirigiu “inspiradíssimas palavras”, entregando-lhe em seguida uma coroa de louros. É Guimarães Junior quem conta:

O grande arcanjo do drama e da tragédia respondeu apontando para uma formosa lágrima que lhe borbulhava nos olhos comovidos:
— Esta saiu do coração! — articulou ele.
Cada noite é um triunfo para Ernesto Rossi; cada noite um monumento que esse sublime arquiteto levanta em louvor à arte que o divisou.

Uma semana de homenagens. Foi uma primeira reação da classe teatral — com a exceção de Germano — à absurda ausência do público. Guimarães Junior tocou a ferida: “O público ainda não aplaudiu como deve ao ator ilustre. É preciso justificar-se as ovações feitas à Ristori e provar-se exuberantemente que o talento é a luz e a luz é una e indivisível! Quanto a mim, faço ajoelhar minh’alma quando traço o nome do divino Rossi”. (DRJ, 21/5/71)

Furtado Coelho, em desenho de Rafael Bordallo Pinheiro, 1876

Se Guimarães tocou a ferida, a Semana Ilustrada escancarou-a. Referindo-se à festa na Phenix, eis o que disse:

A grande festa preparada por alguns admiradores deste ilustre trágico foi digna de público. E já era tempo. Por uma inexplicável singularidade, as representações do Rossi não têm sido corroboradas como deviam ser, o que não parece dar boa idéia de nós. É minha convicção profunda que nem todos podem gostar do Othello ou do Hamlet; a dieta literária em que somos geralmente educados parece que nos tira as forças necessárias para saborear os manjares rudes e esquisitos do grande poeta inglês. Mas o intérprete? Esse pode ser entendido por todos, ainda falando italiano, porque o que lhe não entender a língua, entende-se o gesto, o olhar, a voz, entende as mil linguagens que a natureza lhe deu. E assim é. Cada representação de Rossi é uma ocasião de triunfo; nos intervalos não há outro assunto de conversa. Vive-se quatro horas de Rossi. Alguns vivem além desse tempo. (...) E todavia não se enche o teatro. Por quê? Não foi este mesmo público que aplaudiu a Ristori? Foi. Não é Rossi um talento de primeira ordem, celebrado no mundo, aplaudido na capital da França? É. Então por que motivo essa indiferença?

Ó fluminenses, meus inteligentes patrícios, se o Rossi se for daqui sem fazer nada, perde certamente o dinheiro que já gastou e algumas ilusões que trazia; mas é quem perde menos. Sabeis o que perdemos nós? A reputação. Dir-se-á que não entendemos a arte, que estamos abaixo de compreender o belo, que aplaudimos "O Guarani" por patriotismo, e a Ristori por ser marquesa. Não quero insistir neste ponto; parecerá que faço reclame, quando a minha única idéia é salvar os créditos desta cidade hospitaleira. (SI, 21/5/71)

Algumas das peças levadas por Rossi podiam até ter momentos de humor e comicidade, mas a única verdadeira comédia encenada pelo ator nessa sua primeira temporada brasileira foi Os Namorados (“Gli’Innamoratti”), de Carlo Goldoni, estreada em 1759. A trama gira em torno do casal de namorados Fulgêncio (Rossi) e Eugênia (Paladini), que se ama mas vive às turras por conta de ciúmes. Ele, rico, prefere morrer a perder Eugênia para outro homem, enquanto ela, pobre, se consome de raiva por Fulgêncio ter que pajear a cunhada Clorinda (Giulietta Serafini), esposa de seu irmão que está em outra cidade a negócios. Depois de um almoço no qual Eugênia irrita-se com as atenções de Fulgêncio a Clorinda, há uma série de confusões bem ao estilo de Goldoni e seu alter ego francês, Molière. Segundo a imprensa, o texto era sucesso recorrente de Rossi: “O grande artista tem colhido nessa criação aplausos gerais. É um dos traços característicos do seu múltiplo talento”. (AR, 20/5/71) Na seqüência Leopoldo Vestri protagonizou o “vaudeville” de um ato As Luvas Amarelas — “I guanti gialli”, versão italiana de “Les gants jaunes”, de Jean-François Bayard, traduzida por Clotilde Sacchi — e para que a noite não fosse inteiramente dedicada à comédia, Rossi voltou para recitar Os Últimos Momentos de Cristóvão Colombo.


Os críticos, sempre tão loquazes em relação a tudo que o italiano encenava, pouco disseram sobre Os Namorados. Talvez no íntimo se ressentissem de que o “eminente trágico” descesse de seu pódio olímpico e tisnasse sua “clâmide grega”, tantas vezes citada, com um pastelão do século XVIII. Rematado e cretino preconceito. Visceral e naturalista como era na tragédia, só se pode imaginar como deve ter sido estupendo nas comédias escrachadas e cheias de perspicácia, tanto de Goldoni quanto de Molière. Eis os dois únicos comentários encontrado sobre essa peça:

Goldoni
“Os Namorados”, comédia de Goldoni, revelou-nos mais uma vez o poder admirável, robusto e gentil do grande trágico italiano. Passar do jogo ousado, veemente e altivo da tragédia, do aprumo diplomático e vivo do drama para cair na facécia da comédia, conservando sempre a mesma força e inteligência, só é dado a um talento excepcional como o de Ernesto Rossi. “Os Namorados” é uma comédia gentil, graciosa, ardente, entusiástica. Rossi vale tanto movendo a gargalhada e o epigrama como o ideal da tragédia clássica. O poder supremo do talento assim se revela; igual no Olimpo como nas evoluções humanas, Rossi é inquestionavelmente o artista inexcedível, o primeiro artista mestre. O povo aplaudiu freneticamente a comédia principal, como as “Luvas Amarelas” em que o Sr. Vestri é especialíssimo e a cena dramática “Últimos Momentos de Cristóvão Colombo”, recitada por Ernesto Rossi com sua valorosa energia e sentimento. A Sra. Paladini trabalhou excelentemente e com grande espírito nesta comédia. Ao Sr. Cavara não foram injustos os aplausos. (DRJ, 22/5/71)


O Diário de Notícias foi mais efusivo:

Bravo Rossi! Bravo Paladini! A interpretação de teus papéis na comédia “Os Namorados” entusiasmou os espectadores. Está confirmada, pois, a grande verdade. Sois grandes artistas na tragédia, no drama e na comédia. Os teus nomes correm já de boca em boca, pronunciados pela multidão que vos admira. Não se pode desejar mais da realeza da arte. Toda a gente pasma de vos ver. O gênio, o sublime, o maravilhoso está concentrado em vós. Fazeis gelar de terror com a facilidade que promoveis a gargalhada. Os diferentes personagens que exibistes solidificaram a fama do vosso mérito. No “Kean”, no “Othello”, nos “Dois Sargentos”, no “Defeito de Educação” e nos “Namorados” conseguistes demonstrar a grandeza do vosso estudo, o sublime do vosso gênio. Alcançastes a admiração deste povo. Deveis estar satisfeitos. O Brasil aplaude sempre os talentos, e assente no banquete do progresso, acolhe festivo quantos demandam suas plagas. (23/5/71)

Antonio Gazzoletti
A Reforma comentou o poema sobre Colombo, dias depois: “Nessa mesma noite em que se fez admirar na comédia, recitou ele um poema do escritor italiano Gazzoletti intitulado Os Últimos Momentos de Cristóvão Colombo. Era de ver o seu traje, a maneira por que estava caracterizado. Era a velhice, majestosa, imponente, veneranda. Gestos, voz, movimentos, tudo estava abalado pelos anos; só se conservava forte a alma”. (24/5/71)

Para os dias 22 — segunda — e 24 de maio — quarta — a companhia italiana anunciava a segunda incursão shakespeariana de Rossi no Brasil: Romeu e Julieta. O ator estava com 44 anos e, ao contrário do que se pudesse pensar, fazia pouco que começara a interpretar Romeu. A tragédia dos amantes passara, a exemplo de tantas outras peças do bardo, pelas péssimas alterações cirúrgicas do neoclassicismo, dando à luz uma pilha de lamentáveis imitações, e foi só quando surgiu a tradução do também escritor e político Carlo Rusconi (1819/1889), que Rossi decidiu montar o texto. O Brasil aguardava ansioso. A propaganda da peça não primava pela modéstia: “A peça será levada à cena com todo o luxo devido a uma produção tão esplêndida”. A parte cenográfica deve ter sido qualquer coisa de espetacular: “O cenário foi expressamente pintado por um dos mais afamados pintores da Itália”.


Na segunda de manhã, Rossi compareceu ao velho Largo da Mãe do Bispo, para a benção da pedra fundamental de uma nova escola. Dias antes fora abordado por Antônio Ferreira Vianna (1833/1903), presidente da Câmara dos Vereadores do Rio, que lhe solicitou ajuda pecuniária para a construção de “uma escola de instrução primária para ambos os sexos” na freguesia de São José (atualmente no centro do Rio). Generoso, Rossi prometeu realizar um espetáculo cuja renda seria revertida para a edificação da escola. Os vereadores ficaram todos maravilhados e convidaram o trágico para essa festa:

S. M. o Imperador, S. A. o Sr. Conde d’Eu, o Sr. bispo diocesano, o Sr. presidente e mais vereadores da Ilma. Câmara Municipal, muitas pessoas gradas e imenso concurso de povo assistiram a esta cerimônia, que foi celebrada debaixo de um elegante alpendre ricamente adornado. O largo todo embandeirado e decorado de flores, globos à veneziana e festões de louro, apresentava um aspecto lindíssimo. Expostos no lugar da solenidade, estavam os planos do importante edifício que se vai levantar, perfeito trabalho arquitetônico dos distintos engenheiros arquitetos Ballariny e Bosisio, que são também os empresários das obras dessa nova escola. (...) O insigne trágico, comendador Ernesto Rossi, que generosamente já tinha oferecido um benefício para a construção desta escola, esteve presente com sua exma. família à cerimônia. O vulto do príncipe da arte dramática era radiante de prazer, concorrendo para a instrução do povo fluminense. (DN, 25/5/71)

A propaganda de Romeu e Julieta no dia 22, e "Oreste" no dia 27, o último
com renda revertida para a Caixa de Socorros de D.Pedro V

.
Anne-Honoré-Joseph Duveyrier,
 dito "Mélesville"
Ficou acordado que a renda de Sullivan, peça de Mélesville a ser encenada no Lyrico a 2 de junho, seria destinada ao primeiro educandário da freguesia de São José. Antes disso, porém, no dia 27, já havia outro espetáculo beneficente marcado desde a chegada de Rossi; tratava-se do Oreste, de Alfieri, e desta vez a receita seria revertida para a Caixa de Socorros D. Pedro V, associação filantrópica formada por imigrantes portugueses em 1863, mais ou menos nos mesmos moldes da Beneficência Portuguesa, fundada em 1840.

À noite do dia 22, foi encenada pela primeira vez Romeu e Julieta, com o nome alternativo de Julieta e Romeu. O teatro podia não estar super-lotado mas tinha, segundo a imprensa, um “bom número de espectadores”. Assim como foi com Othello ou qualquer outra peça de Shakespeare, era aquele o primeiro contato da poesia do bardo com os brasileiros. Guimarães Junior chegou a comentar que "nós todos conhecemos Julieta e Romeu como Paulo e Virgínia", traçando paralelo entre a tragédia inglesa e o romance Paul et Virginie, de Bernardin de Saint-Pierre, romance de 1787 sobre jovens que se apaixonam e são separados. Guimarães, porém, esclarece logo em seguida: "Mas conhecíamos vagamente, através da névoa shakespeariana, como visão ou sonho, para o qual corria o nosso espírito e o nosso coração palpitante de mocidade e de amor!" (DRJ, 28/5/71) França Junior ficou extasiado:

Quanto a mim declaro que nunca vi nada tão sublime! O ideal que eu tinha daquele desditoso mancebo de que o poeta nos fala em versos arrebatadores, encarnou-se em toda a pureza no eminente trágico italiano. Romeu é mais uma faceta do polido diamante, que tem ofuscado todo o mundo. Rossi alcançou mais uma glória, e o público fluminense, que parecia querer desertar daquelas cômodas cadeiras do Lyrico, encheu o salão para aplaudir e vitoriar o rei da cena. Ainda bem. Oxalá que aquela enchente seja o ensejo de muitas outras, a que o artista tem direito pelas suas tradições gloriosas. Se Romeu excitou a admiração da platéia, a divina Julieta, consubstanciada pela Sra. Paladini, granjeou frenéticos aplausos, de que a artista se recordará com orgulho quando tocar no apogeu de seus triunfos, do qual não está muito longe. (JT, 23/5/71)

O crítico de A Reforma começou seu comentário com esta observação: “O tradutor italiano, fiel intérprete do grande poeta na linguagem, seguiu algumas breves alterações que já se haviam feito no drama original para adequá-lo à cena moderna. Se essas modificações fazem, por exemplo, passar a cena dos adeuses de Julieta e Romeu na cela de frei Lourenço em vez de ser no jardim, nada perde com isso a ação, e o formoso diálogo dessa cena está conservado com fidelidade”. (24/5/71) 

Guimarães Junior também fez um pequeno reparo à tradução: "Pena foi que o tradutor italiano apagasse um dos mais formosos quadros da tragédia inglesa. A despedida dos dois amantes não se realiza na varanda de mármore, ao clarão da estrela e depois do canto da cotovia matinal. É na cela de frei Lourenço, o que parece tirar muito à virgem poesia do ideal de Shakespeare." (DRJ, 28/5/71)

Por um golpe de sorte chegou até nossos dias o texto utilizados por Rossi, com rubricas e demais alterações, em uma de suas encenações de Romeu e Julieta. A pesquisadora italiana Lisanna Calvi teve acesso ao documento — que se encontra guardado no prestigioso Gabinetto Scientifico Letterario G. P. Vieusseux, uma importante e quase bicentenária biblioteca em Florença — e explica que tais alterações na verdade não são de Carlo Rusconi, mas do próprio Rossi. O ator gostava do trabalho de Rusconi mas não o considerava fiel ao original ou suficientemente conciso, talvez por não ter sido escrito para ser encenado em um teatro, o que demonstra que o tradutor, embora competente e bem-intencionado, ainda trazia certo ranço de neoclassicismo. Segundo Calvi, Rossi "resumiu sensivelmente e reajustou a trama, condensando-a numa construção dramática geralmente mais enxuta, o que apressa o drama na direção de sua eventual catástrofe". Longe de prejudicar a peça, as alterações de Rossi estiveram "afinadas com a sensibilidade do século XIX, iniciando, sem sombra de dúvida, a duradoura sorte do bardo nos palcos italianos". (Calvi, 2014)

O benefício do ator Antônio José Arêas, na terça, entre
as duas representações de Romeu e Julieta. Além de "A
Probidade", de César Lacerda, Vasques representou
a comédia de um ato (provavelmente de sua autoria),
"O Beberrão". Rossi e Paladini estiveram presentes
e a atriz entregou a Arêas um rico ramalhete de flores
O cenário, tão alardeado no anúncio da peça, era, de fato, extraordinário: “A ordenação cênica de Julieta e Romeu é magnífica. Algumas cenas são de notável beleza. Indicaremos as da sala de baile, do jardim, do Palácio do Podestá, de uma rua em Mântua, e finalmente a dos túmulos. Rossi trouxe-nos pois uma ótima companhia, e cenário e assessórios dos melhores. É a moldura que convinha ao gênio do grande artista”. (AR, 24/5/71) E prossegue na análise da performance de Rossi o meticuloso crítico de A Reforma:

Absorto, melancólico nas primeiras cenas; pasmo, extático depois que viu Julieta; do 2º ato em diante o grande artista acumula as belezas com tal profusão que a crítica quase não pode acompanhá-lo enumerando-as. A cena da declaração no jardim comove e arrebata; há na voz e nos gestos de Romeu o ardor de uma paixão indômita; as suas palavras queimam, vem do coração. É uma sedução ouvi-lo e vê-lo. A benção nupcial na cela de frei Lourenço e tudo que a precede são outras tantas cenas belas e perfeitas. A provocação de Teobaldo; a morte de Mercúcio; finalmente o duelo com o mesmo Teobaldo e o seu trágico fim são outras tantas situações de que o grande artista se apodera com a mais soberana inspiração. A nova cena na cela de frei Lourenço, primeiro com este só e depois com Julieta; os adeuses dos dois esposos; tudo é da mais suprema beleza. O 5º ato, porém, oferece campo mais vasto ao gênio de Rossi. A notícia da suposta morte de Julieta, o diálogo com o boticário que lhe vende veneno, finalmente a cena dos túmulos, pode-se dizer que são os lugares sublimes da sua criação.

O comentário seguinte também se destaca, porque é nova prova da versatilidade de Rossi, e sua capacidade de interpretar aquilo que quisesse com igual excelência:

Cumpre notar que o lânguido, o amoroso Romeu nada conserva dos personagens que já vimos, e que fora impossível reconhecer nesse elegante e esbelto mancebo o simplório Fulgêncio, que, ainda sábado passado, personificava na comédia de Goldoni, “Os Namorados”, o amante caprichoso e até certo ponto palerma. Rossi representa a comédia como representa o drama e a tragédia: a mesma perfeição e a mesma verdade. O papel de Romeu, porém, presta-se melhor ao seu gênio múltiplo. As expansões do amor feliz, a cólera, o desespero, o terror, a morte enfim, eis os elementos que ele carece para ser visto à toda luz, grande como o fizeram a natureza e o estudo, porque Rossi, como já o disse muitas vezes a crítica européia, e sobretudo a francesa, é o mais correto dos grandes artistas modernos. Nos seus papéis a minúcia do estudo pareceria demasiada se pudessem haver demasias no estudo da natureza e do belo. Rossi atende às menores circunstâncias da cena, da obra, do personagem que caracteriza.

Nessa última análise o crítico se refere a um comentário atribuído a Théophile Gautier, que teria dito a Rossi que seu único defeito era “ser correto demais”. E elogiou a Julieta de Celestina de Paladini, e o Mercúcio que Leopoldo Vestri interpretou com o talento que o tornara figura querida do público:

A Sra. Paladini, tão justamente aplaudida na comédia de Goldoni como o tem sido na tragédia e no drama, fez do papel de Julieta uma bela criação. No 4º ato, quando bebe o narcótico que a deve reunir ao seu amado, provocou aplausos gerais. Ao lado de Rossi é um belo triunfo. Entre os excelentes artistas da companhia dramática italiana há um que cada vez que aparece em público obtém favor geral. É o Sr. Vestri. Ainda ultimamente o vimos em dois novos papéis, o mestre de dança da comédia "As Luvas Amarelas", e agora Mercúcio em Romeu e Julieta. É um artista tão inteligente quanto consciencioso. (24/5/71)

O crítico do Diário de Notícias escreveu sob o que parecia ser uma emoção tão violenta que beirava a perturbação. Começou dizendo que “elogiar Ernesto Rossi é a última das loucuras!”

Naquela fronte, deslumbrantemente laureada, já não há lugar para mais louros; as gemas da glória vêem-se ofuscadas por tanta luz. Nos vastos horizontes da Arte fulgura como um sol, é o astro-rei! De que serve, pois, que eu, criatura imersa nas trevas do abismo, vá turiferar o grande gênio? Tíbia luz de uma lanterna a querer iluminar o sol! (...) Depois do “Othello”, “Romeu e Julieta”: a paixão selvagem do mouro abandonou o campo ao amor inocente e puro, ainda que vertiginoso e entusiasta, dos infelizes adolescentes. Em qual das duas tragédias brilha mais, não serei eu quem o diga. Rossi é grande em tudo, em tudo resplende as fulgidas centelhas do seu gênio!



Propaganda que já anuncia a peça seguinte:
"Francesca de Rimini", de Silvio Pellico
Incapaz, portanto de analisar a performance de Rossi, ele se concentrou em Paladini:

E à beira dele brilha esplendidamente a Sra. Paladini. Artista distintíssima, conquista palmo a palmo as calorosas ovações que a vitoriam sempre. No Romeu e Julieta é com certeza onde mais tem brilhado o seu peregrino talento. Desde a meiguice faceira e deliciosa do 1º ato e o diálogo no jardim, até quando diz a frei Lourenço que vem confessar-se, cobrindo a face com a ponta do véu e radiando um olhar, misto de candura e divina maliciazinha; desde o monólogo magistralmente interpretado no fim do 4º ato, até a cena desesperada, descomunalmente horrível, em que arranca o punhal do morto amante e o crava no íntimo do seio com aquele contentamento que só a suprema desesperação pode liberalizar; é de uma fidelidade tal que o espectador esquece-se de si mesmo e, presa de um sofrimento dilacerante, acredita na realidade da ficção. Os aplausos frenéticos e unanimes que a saudaram provam não só a verdade do meu dizer, como também quanto é querido e apreciado do público fluminense o seu grande talento, e, o que mais é, a sua notável modéstia. (25/5/71)

O crítico da Semana Ilustrada também confessou sua incapacidade de comentar o trabalho de Rossi: "Imagine quem não foi à Julieta e Romeu, imagine o que será Rossi no difícil e brilhante papel do namorado de Verona. É sem dúvida este um de seus papéis capitais, e bastava para diploma do seu gênio e da sua arte. (...) Pela nossa parte damos apenas esta notícia: falece-nos a competência para julgar a reprodução da obra imortal do poeta inglês. E não aplaudimos só o grande trágico; agradecemos-lhe o ter proporcionado ao nosso público o conhecimento de Shakespeare". (28/5/71)

Ernesto Rossi e Celestina de Paladini em ilustração da Semana Ilustrada (4/6/71)
mostrando o ato III, cena V de "Romeu e Julieta"

A cereja no bolo foi posta por Guimarães Junior, que não se furtou de ressaltar a aparência jovem do ator:

Ernesto Rossi, tão maravilhoso é no "Othello", arrancando com as fúrias do ciúme horrendo e selvagem do sanguinário mouro, como no "Romeu e Julieta", folheando o poema das lágrimas e dos suspiros, dos devaneios e da morte, que a língua humana determinou chamar amor e que não é senão o vôo da alma à imortalidade e a Deus! Romeu e Rossi encarnaram-se em um só tipo; no gesto e no olhar; no porte suave e distinto, na voz, ora misericordiosa e pura, ora cheia de tempestades e lágrimas! (...) Ernesto Rossi veio explicar-nos o sonho e dar corpo à visão que entrevíamos nos delirantes momentos do entusiasmo e de poesia! Ele parece ter feito um contrato com a natureza para remoçá-lo de vinte anos, quando enverga o negro gibão de Romeu e deixa beijar-lhe a fronte pálida a pluma flutuante. Como é moço, como é belo, e, sobretudo, como é verdadeiro nas suas expansões de amor, de ventura e de alma desvairada! (DRJ, 28/5/71)

Na quinta-feira, 25 de maio, Rossi saiu cedo para acompanhar a partida de Pedro II, que fazia sua primeira viagem internacional na qualidade de Imperador. Guimarães Junior estava lá e, sempre transbordando lirismo, descreveu a multidão reunida para despedir-se do Douro, paquete inglês que levantou ferros às 9 da manhã: “Fazia um nevoeiro profundo e triste, mais profundo ainda pelo fumo das salvas das fortalezas e navios de guerra nacionais e estrangeiros que saudavam os augustos viajantes no momento da despedida!”

Embarcações de todo feitio e tamanho, repletas de povo, concorreram à melancólica e augusta entrevista. Dezessete vapores, a bordo da maior parte dos quais retumbavam os sons vibrantes da música marcial, acompanharam o Douro até a barra. (...) Os olhos imperiais em vão buscavam no derradeiro instante descobrir o querido porto da pátria, tal era a neblina formada pela fumaça dos canhões que os cortejavam na hora dos extremos adeuses! Quando os vapores, conduzindo milhares de pessoas do povo, passavam em frente ao Douro, os vivas e as saudações à família imperial ergueram-se de todas as bocas. O imperador, de fronte descoberta, acenava com o lenço, e a imperatriz baixava por vezes a cabeça pálida e angustiada para ocultar lágrimas que todos viam e que umedeciam os olhos do mais sombrio espectador de tão triste espetáculo. (...) A natureza parecia participar da melancolia geral, e a atmosfera obscurecida tecia um véu de luto e de lágrimas que desenrolava-se dos montes e vinha cobrir as ondas!

A baía do Rio de Janeiro é um prodígio de poesia; mas naquela manhã tornou-se uma maravilha de glória. Os marinheiros nas vergas de todos os navios mercantes e de guerra, nacionais e estrangeiros, agitavam o boné e cruzavam “vivas’ entusiásticos. Uma barca ferry conduzindo os italianos, à cuja frente campeava o fulgurante perfil de Ernesto Rossi, chegou até Santa Cruz acompanhando o Douro. E enquanto o paquete desaparecia ao longe por meio do nevoeiro, o lenço alvo da imperatriz, pendida à amurada do vapor, ondulava ainda como a asa de uma garça fugitiva ou de um anjo que desaparece! Não pode deixar de ter uma viagem mil vezes feliz quem tantas bênçãos e tristezas recebe na hora da despedida! Esqueceram-se ódios políticos e desavenças de partidos. Cada qual saudou com respeito e veneração o primeiro de todos os brasileiros, e o mais magnânimo de todos os cidadãos do império! (DRJ, 28/5/71)

Dante e Virgílio observam Francesca e Paolo no inferno.
Quadro de Ary Scheffer, 1854
Francesca de Polenta (1255/1285) foi uma nobre de Ravenna (nordeste da Itália). Por questões políticas, seu pai, Guido, ofereceu-a em casamento a um nobre de Rimini, Giovanni Malatesta. Ela, entretanto, se apaixonou pelo cunhado Paolo e ambos acabaram assassinados por Giovanni quando foi descoberto esse amor adulterino. Dante Alighieri, contemporâneo de Francesca e talvez até mesmo seu conhecido, dedicou a ela o Canto V de sua Divina Comédia, no qual ele e Virgílio entram no segundo círculo do Inferno, onde sofrem aqueles que sucumbiram às tentações da carne. Encontram Francesca e Paolo levados por uma ventania que não pára jamais, e, instada por Dante a contar a história de seu infortúnio, ela revela que os dois acabaram se envolvendo depois de lerem, juntos, sobre o romance proibido de Lancelot e Guinevere. Boccaccio adicionou novos elementos (reais ou fictícios) à história e quase 600 anos se passaram até que o escritor Silvio Pellico (1789/1854) retirasse Francesca do esquecimento.

Paolo beija Francesca depois da lerem sobre o romance
de Lancelot e Guinevere. Quadros de William Dyce, 1837
Curioso é que nenhum dos dramaturgos ingleses isabelinos ou elizabetanos, ou mesmo a pomposa francesada seiscentista tivesse se interessado por ela, porque seu episódio no Inferno de Dante, mais o apêndice de Boccaccio (como por exemplo o fato dela ter se casado com o belíssimo Paolo e só no dia seguinte ser informada de que seu marido de fato era o horroroso e deformado cunhado, Giovanni) são matéria-prima da melhor qualidade para um bom dramaturgo. Até onde pude constatar, Pellico foi o primeiro. Sua Francesca da Rimini — ou de Rimini, tanto faz — foi publicada em 1814 e encenada em 1818. Em 1816 veio o poema dramático de Leigh Hunt (The Story of Rimini) e até o fim do século XIX houve pelo menos vinte adaptações, seja no teatro, em poesia, ópera ou sinfonia.

Silvio Pellico
A peça de Pellico gira em torno de quatro personagens: Francesca, seu pai, Guido, seu marido, Lanciotto — espécie de amálgama entre “Gianciotto”, apelido de Giovanni, e “Lancillotto”, Lancelot em italiano — e o cunhado Paolo. O casal Francesca e Lanciotto passa por uma grave crise porque ela descobre que o seu próprio irmão foi morto em combate por ninguém menos do que seu cunhado Paolo. Aos poucos vai ficando claro que Francesca e Paolo eram apaixonados antes dela se casar com Lanciotto. A chegada de Paolo à Rimini provoca o desespero de Francesca e a paixão dos dois é reacesa a cada encontro fortuito, que ela procura evitar a todo custo. Paolo ainda guarda consigo a cópia do livro sobre Lancelot, que os dois liam juntos e sobre os quais ambos choraram, jurando amor eterno. Desnecessário dizer que Lanciotto descobrirá tudo e matará a mulher e o irmão. Tentará se matar em seguida e será impedido pelo próprio Paolo, levando o público a um paroxismo de emoção e choro.

Francesca de Rimini se tornou uma das peças mais famosas e encenadas do século XIX. Estava no repertório de Ristori, de Tommaso Salvini, de Rossi e de qualquer ator ou companhia que se prezasse. No Brasil, Rossi encarnou Paolo, Paladini foi Francesca, Giacomo Brizzi deu vida a Lanciotto, Ercole Cavara interpretou Guido e Emma Della Setta foi um pajem. Para desanuviar o clima de tragédia, o programa prometia Leopoldo Vestri na seqüência com a comédia de um ato A Carta Perdida (“La Lettera Perduta”, 1830), de Luigi Ploner (1801/1856). Tudo parecia augurar um sucesso; Os Namorados agradara, Romeu e Julieta fora uma apoteose, a peça de Pellico era um dramalhão bem ao gosto de todos. Resultado: nem metade da casa foi vendida.


Mais uma vez, um fiasco que cobriu o Rio de Janeiro de vergonha. A imprensa estava tão constrangida com o comportamento do público que até os elogios a Rossi vieram algo embaraçados: “No 3º ato, não só ele como a Sra. Paladini ergueram-se tanto e tanto aos olhos dos espectadores, que os bravos e as palmas estrugiram calorosas e frenéticas desde a platéia até a quarta ordem de camarotes. Na realidade, a cena em que eles, Paolo e Francesa, descobrem a imensidade de seu oculto e criminoso amor, está escrita com tanto sentimento e maestria e foi interpretada com tanta arte e inspiração, que era impossível deixar de aplaudir quem tanto nos deliciava, comovendo-nos. A Sra. Paladini, que desde a sua estréia é devidamente apreciada, firmou, mais solidamente ainda, a sua reputação de atriz distinta. (...) O Sr. Cavara e Brizzi, desempenharam notavelmente, como artistas que são, os seus papéis”. (DN, 27/5/71)

“Francesca de Rimini” (...) é do repertório trágico italiano uma das mais festejadas e considerada geralmente como inapreciável florão da triunfante coroa de Silvio Pellico. O talento múltiplo, fecundo e altamente inspirado do Sr. Ernesto Rossi, ainda desta vez revelou-se-nos em toda a plenitude de suas forças vastas e gloriosas. Paulo, o culpado amante de Francesca, foi interpretado com toda a paixão e sentimento artístico. Baseia-se o episódio notável, e assaz conhecido, no sentimento condenado pelas leis sociais e a que foram arrastados por um impiedoso destino, Francesca de Rimini e Paulo: o amor adúltero. (...) A Sra. Paladini interpretou com a maior vantagem e brilho o tipo da heroína. O cenário nada deixou a desejar e os vestuários, como sempre, foram magníficos. Na comédia com que finalizou o espetáculo, “A Carta Perdida”, o Sr. Leopoldo Vestri trouxe a platéia em uma contínua hilariedade. (DRJ, 27/5/71)

Não havia clima para elogios. Era preciso desabafar, de uma vez por todas. Gritar, publicamente, que o Brasil não era o Rio de Janeiro e o fluminense não representava o brasileiro; que sabíamos o que era talento e cultura, e só Deus poderia explicar a razão para o maior ator do mundo estar sendo tão maltratado. O Mundo da Lua foi o primeiro, e o fez sem quaisquer rodeios, recordando a maneira calorosa com que foram recebidos outros grandes cartazes do Lyrico:

Ernesto Rossi representou o Paulo da “Francesca de Rimini” tendo na platéia cem cadeiras ocupadas apenas e nas quatro ordens uns dez camarotes talvez! Não sei como se possa desculpar a frieza e indiferentismo do público em presença do primeiro ator dramático do mundo! (...) Sucessos sobre sucessos; glórias sobre glórias; criações sublimes sobre sublimes produções dos grandes mestres; nada conseguiu encher o vasto templo da arte, onde se batia no calor do pugilato para se conquistar uma cadeira durante as noites da Ristori, da (Rosine) Stoltz, da (Giulia) Gasc, de Hermann (prestidigitador), dos campanólogos e da (Adelina) Patti! Passaria de moda o gosto do público fluminense pelo belo e pelo verdadeiro? Quem sabe!

O fim é clarividente, quando fala do “juízo da posteridade” e lista as atrizes do Alcazar:

Rosine Stoltz, por Felix Nadar
Se continua vazio o teatro Lyrico Fluminense, como será possível justificar-se as ovações que por ali tanto retumbavam outrora, e que contas prestará este público à posteridade quando o juízo da imparcial crítica lhe puser adiante dos olhos o Alcazar Lyrico e o Lyrico Fluminense, o busto imponente de Rossi e a carinha risonha, sarcástica e traidora das Aimées, Gandons, Vallotes, Risettes e Lovatos, comandadas por Offenbach e pelo Sr. Arnaud?! (26/5/71)

A Reforma começa melancolicamente anunciando para a segunda-feira, dia 29 de maio, o que se supõe ser a última performance de Othello, por Rossi: “A grandiosa e sublime visão desaparecerá, e para nunca mais voltar. Segundo ouvimos, e de fonte limpa, a companhia dramática italiana retira-se brevemente”. Em outras palavras, a recepção brasileira fora tão fria que a os italianos haviam decidido encurtar em quase dois terços a turnê. O comentário seguinte é valioso e segue o açoitamento do Alcazar: “Quando Rossi visitou Paris em 1866 grande parte da imprensa diária festejou a sua chegada como uma reação salutar contra a Venus aux carottes” — canção cômica de um vaudeville de Henri Thièry chamado Les contributions indirectes, de 1865 — “contra Theresa” — ou Mlle. Thérèsa, na verdade Emma Valadon (1837/1913), atriz popularíssima do Alcazar francês — “e todo o repertório offenbachiano”. O articulista segue, brilhante, falando sobre os benefícios da ida de Rossi à França, e daquilo que poderia ter acontecido aqui, fosse outra a reação de nosso público. Seu comentário assusta, de tão atual:

Shakespeare interpretado por um grande artista podia iniciar a restauração das leis do bom gosto, e reagir contra a decadência moral de um povo aviltado pelo regime de Napoleão III. O que era verdade para a grande capital da civilização, é-o muito mais para nós; aqui o culto das letras e de tudo que eleva o coração e o espírito ainda parece luxuosa superfluidade mesmo aos que se dizem homens de estado, e, à míngua de bons preceitos e de bons exemplos, deixa desenvolver-se o sensualismo grosseiro e o mau gosto literário.

Emma Valadon, dita Thérèsa
Ernesto Rossi interpretando Shakespeare, Corneille, Molière, Alfieri, Goldoni, Pellico, Garret, Alexandre Dumas e Victor Hugo era a voz do progresso com a sua mais esplêndida forma. O teatro, não cessaremos de repeti-lo, é mais do que um passatempo. É uma escola; e pelo estado do seu teatro se julga da civilização de um povo. Como se acha o que chamamos nosso? A visita de Rossi deveria marcar uma época de reforma, de atividade, de admiração pelo belo que nos vinha revelar o grande artista. Infelizmente, ao que parece, será estéril, porque não há reagir contra a indiferença apática, contra o sono da indolência e da rotina. (28/5/71)

Guimarães Junior afasta o foco do Alcazar e faz sua queixa particular:

Na Francesca de Rimini, a última peça que ele nos deu até ontem, prosseguiu esplêndido o artista nas suas incomparáveis vitórias! Eu não sei o que dizer realmente do gênio de Ernesto Rossi e não me resta tempo para fazer um vocabulário expresso, em que lhe cante o nome com propriedade e justiça! Amanhã repete-se o Othello e o público... A propósito do público! Quando virá o dia em que se aprecie nesta terra alguma coisa sem ser por moda? Estou a ver que há de chegar a hora em que o sol seja mal recebido e que caia em moda apenas a... lua! O teatro Lyrico cada noite está mais vazio e cada noite Rossi é maior e mais esplêndido!

De que serve a imprensa? Os jornais proclamam o gênio do primeiro artista italiano, e o público em geral recebe a notícia como peixe de abril! E há quem me assegure que a Ristori foi vitoriada pelo seu talento artístico e pela glória de que vinha precedido o seu nome! Se isto continua assim, quando Ernesto Rossi voltar à Itália e alguém perguntar-lhe:
— Que tal é a platéia fluminense?
O grande artista responderá encolhendo os ombros, como se tratasse do Japão:
— Não a conheço; nunca a vi. (DRJ, 28/5/71)

A imprensa perde a calma diante da indiferença do público com
a temporada de Rossi (SI, 4/6/71)

Mais violenta foi a Semana Ilustrada, em artigo intitulado “Ernesto Rossi e o primeiro público do mundo”. O texto começa mostrando que a propalada cultura do brasileiro é uma farsa, já que “não são disputadas” as publicações literárias do editor Garnier e da Tipografia Nacional; o povo brasileiro só vai ao teatro “em alguma noite de festa nacional, juntando o aliciante das novidades feitas nos móveis ou nas decorações, e excitando a curiosidade com algum hino e com outros estímulos. (...) Fora disso, nem o amor da arte, nem o patriotismo, têm o poder de arrancar espectadores nem leitores do seio do primeiro público do mundo”. Em seguida fulmina, enfiando não só o dedo mas a mão inteira na ferida: “A verdade, a verdade triste e inegável, de notória evidência, é que a arte dramática não é honrada no Rio de Janeiro, onde, no Teatro Lyrico Fluminense, brilha pela ausência o primeiro público do mundo”.

Segundo o jornalista, haveria um movimento por parte de certa crítica no sentido de Rossi não apresentar senão os “clássicos”. Era preciso que Rossi eliminasse “do seu repertório os dramas cuja ação seja violenta ou inverossímil, que aspire a exprimir as dores morais mais do que as físicas”. O jornalista ironiza: “Que artigos tão bem escritos se hão dedicado a este objeto! Que lições de estética tão eruditas e tão belas! Que estímulos tão diretos e tão eficazes! Se Rossi tem ouvido tudo isto, deve estar dizendo de si consigo: ‘Bem se vê que neste Rio de Janeiro o gosto está muito apurado; a crítica é muito fina, o público muito delicado, e não é possível pôr em cena coisa alguma inverossímil, violenta ou que peque por qualquer conceito contra as regras mais severas da arte’”.

À primeira vista parece ser coisa de uma indesejável e embolorada “patrulha neoclassicista”. Mas à medida em que o jornalista vai desmontando cada aspecto dessa tendência, demonstra-se, por fim, que em sua concepção, a culpa pelo fracasso de Rossi no Brasil se devia ao emburrecimento do público por conta da sub-cultura disseminada pelo Alcazar e suas "estrelas filantes" (cadentes), que é como Arnaud denominava seu elenco:

Rossi, litografia de J. Donon, Madri
Vejamos agora em que ponto nos achamos. A tragédia foi abandonada por pouco realista. O drama romântico perdeu também o favor do público, porque propendia demasiado para as emoções violentas, e punha quase exclusivamente o seu esmero na manifestação das dores físicas e das paixões desenfreadas, ou mais exato, porque o público deu em dizer, e ainda mais em crer, que vai ao teatro para rir e não para chorar. A comédia histórica foi também sacrificada ao intolerante monstro do realismo. A de costumes não logrou satisfazer por muito tempo a atenção do vulgo. E o que foi então que sucedeu? Isto: sobre a ruína de tudo ergueu-se, original, imitado, traduzido e parodiado, o festivo e ruidoso Offenbach, o rei do cancan. Coisas do primeiro público do mundo! A tragédia é posposta ao drama; o drama à comédia, esta ao cancan. E aí ficamos. Será possível ir mais além? Fica alguma coisa por fazer depois de ter metido Carlos Magno num trem de caminho de ferro de terceira classe, de fazê-lo bailar com as estrelas filantes?

Os que se aborrecem com o discretear de Julieta e Romeu, de Paolo e Francesca de Rimini, podem ir onde ouvirão qualquer coisa, menos coisas discretas; os que censuravam acremente o excesso de lirismo, ocasião têm para saciar-se da prosa; os que temem-se de que a sensibilidade lhes seja excitada até o pranto, estão no caso de desfazerem-se em riso, se isso lhes apraz. (...) Em conclusão: o cancan alça o pé até a altura do rosto do primeiro público do mundo, fazendo-o passar triunfalmente sobre a arte em caricatura, sobre a história em caricatura, sobre a geografia em caricatura, sobre a lógica em caricatura, sobre a gramática em caricatura, sobre o senso comum em caricatura e sobre a moral em caricatura. Rossi, depõe a tua coroa de príncipe da arte dramática, ganha ao som dos aplausos das estúpidas platéias da bárbara Europa! Pouco, bem pouco, quase nada mereces ao primeiro público do mundo. (28/5/71)

As "estrelas filantes" do Alcazar... (SI, 4/6/71)

Rossi continuava pairando sobre essa polêmica. No dia 26 foi tranqüilo prestigiar a Filarmônica do Rio de Janeiro e no sábado, dia 27, preparou-se para a encenação de Oreste, em benefício da Caixa de Socorros D. Pedro V.

Vittorio Alfieri, em quadro de
François Xavier Fabre, 1797
Vittorio Alfieri (1749/1803) foi o maior expoente do neoclassicismo italiano. Revisitou diversas tragédias greco-romanas, valorizando o estilo declamatório de Ésquilo e Sêneca, colocando a poesia em primeiro lugar e o jogo teatral em segundo. Oreste retoma um episódio posterior à guerra de Tróia, que Ésquilo dividiu em três partes, a célebre Oréstia: durante os longos anos em que Agamemnon passou em combate, sua esposa Clitemnestra tornou-se amante de Egisto. Finda a guerra, o rei voltou a Argos e foi assassinado pelo amante da esposa, com sua cumplicidade. Orestes, filho de Agamemnon, vai com seu amigo Pílades ao palácio usurpado por Egisto a fim de vingar o pai. Nesse momento se inicia a tragédia de Alfieri, que se concentra em Orestes (Rossi), Pílades (Rigatti), Egisto (Brizzi), Clitemnestra (A. Cottin) e Electra (Paladini), a irmã de Orestes que partilha do mesmo ideal de vingança do irmão. O encontro dos dois, aliás, perante a tumba do pai, é um dos pontos altos da peça.

Orestes e Pílades tentam enganar Egisto fazendo-se passar por mensageiros estrangeiros que vêm informar sobre a morte de Orestes. Egisto descobre o ardil e prende os dois. O povo, porém, é informado que Orestes voltou e invade o palácio para soltá-lo, já que ele é o verdadeiro herdeiro do trono de Agamemnon. Trava-se uma luta e Orestes mata Egisto e Clitemnestra. A peça termina com ele sendo perseguido pelas Eumênides, seres sobrenaturais que puniam aqueles que cometiam pecados como o parricídio. Na Oréstia, essa peça equivale a As Coéforas, segunda parte da trilogia. Alfieri, porém, escreveu apenas Agamennone e Oreste. Na terceira parte escrita por Ésquilo, As Eumênides, Orestes é julgado no areópago ateniense e perdoado graças ao voto da deusa Minerva.

O encontro de Electra e Orestes diante da tumba do pai
Seja pelo fato de que o espetáculo tinha um fundo beneficente, seja pela carraspana que o público levou da imprensa, nessa noite o Lyrico “regurgitava de espectadores”. Segundo o Diário de Notícias, foi mais uma aula magna de interpretação dada por Rossi: “O Sr. Rossi desde a cena do reconhecimento da irmã, no 2º ato, até à da loucura, no 5º, deslumbrou os espectadores. O prodígio da cena ergueu-se de tal forma que a inspiração suplantou a arte. Teve frases, monólogos, reticências, que não podiam, nem eram, filhas do estudo. Eram sim, com certeza, o irradiar de uma inspiração latente, genial”. (DN, 30/5/71) O Diário do Rio de Janeiro concordou: “Depois do ciúme mortuário de Othello, do amor suave e imenso de Romeu e do implacável amor de Paulo, Ernesto Rossi desvendou-nos os mistérios da vingança com todos os seus desvarios e horrores”. O mesmo articulista, por sinal, faz comentário bastante lúcido sobre a teatralidade na obra de Alfieri:

“Orestes” é o remorso e a vingança: remorso na alma materna; vingança insaciável no coração robusto e nobre do filho, ante quem clama eternamente a sombra desolada de Agamemnon, assassinado pelo adúltero sentimento de Clitemnestra e de Egisto. Alfieri abordou o tema com a maior proficiência artística e sentimento poético. As cinco figuras que representam na tragédia — Orestes, Pílades, Clitemnestra, Electra e Egisto — estão mais esculpidas que desenhadas ou descritas. A obra de Alfieri é um bronze, onde se exaltam como no baixo relevo dos templos antigos a idéia histórica e o símbolo da poesia.

Orestes perseguido pelas Eumênides, no quadro
"O remorso de Orestes", de William Bourguereau, 1862
Também impressionou a todos a cena em que Orestes se debate, perseguido pelas fúrias, visíveis apenas para ele:

O 4º e 5º atos de Orestes são admiráveis na extensão da palavra, e as derradeiras cenas do último quadro assombram o espectador. Na luta com as sombras e as fúrias que o perseguem, depois que ele dá morte à sua mãe por suas próprias mãos, Orestes-Rossi de tal maneira manifesta o gênio da arte nas terríveis explosões do terror e da alucinação que, conforme diz um notável crítico italiano, o espectador vê a olho nu as fúrias sangrentas debaterem-se no palco arremessando-se contra o Orestes artístico. (DRJ, 29/5/71)

Todas as cenas dos paços de Argos, desde a entrada do filho de Agamemnon até a catástrofe, formam um conjunto de belezas tais que é mais fácil admirá-las do que descrevê-las. A tudo, porém, sobreleva a cena final, em que, cumprido o oráculo, e vingador dos manes paternos no próprio sangue de sua mãe, Orestes, perseguido pelas fúrias infernais, encarnado na poderosa individualidade do grande ator, torna uma realidade o mais sublime ideal, remontando a alturas só franqueadas ao gênio. É o caso de repetir com alguém: Sófocles precisou pôr em cena as Eumênides, Rossi as faz supor. O espectador as vê, e no semblante, no gesto, nos cabelos de Ernesto Rossi está impresso o terror que passa dentro em pouco à sala toda, abala-a, agita-a e, ao cair o pano, arranca uma dessas esplendidas ovações como a da noite do dia 27, em que o público não se cansa de vitoriar tamanhas conquistas da arte. (A República, 30/5/71)

Celestina de Paladini, como sempre, tocou em cheio o coração do público e da crítica: “A Sra. Celestinas de Paladini esteve cheia de expressão e de inspirados sentimentos em várias cenas da tragédia, e a cena final do 4º ato conquistou os merecidos aplausos públicos”. (DRJ, 29/5/71) Leopoldo Vestri também foi elogiado na comédia Um cantante Cômico sem Contrato. O Diário de Notícias, entretanto, atreveu-se a criticar a performance dos outros atores:

A Sra. Paladini, como sempre, interpretou brilhantemente o seu papel. A Sra. Cottin e o Sr. Brizzi desempenharam regularmente os que lhes foram confiados. O Sr. Rigatti, no de Pílades, teve alguns momentos felizes, é moço ainda e se estudar, com o talento que tem, pode ainda alcançar bastantes triunfos. Concluindo, não podemos deixar de aplaudir mais uma vez a Sra. Paladini. Não se deve esquecer a jovem atriz, que, dirigida pelas sábias lições do seu laureado mestre, pode aspirar a todos os triunfos. (30/5/71)

No fim do espetáculo, três membros da diretoria da Caixa de Socorros subiram ao palco e entregaram a Rossi um diploma de benfeitor da instituição. O público, que participara o tempo todo de maneira positiva e entusiástica, aplaudiu generosamente e encheu o palco de ramalhetes de flores. Uma banda instalada no saguão animou os intervalos e tocou no fim, também. O Diário de Notícias descreveu bem o sentimento coletivo: “Rossi é o herói de todas as noites. Cada vez que honra as tábuas do proscênio com a sua presença, deixa cinzeladas, em nosso espírito, as recordações brilhantes dos esplendores do seu gênio”. (30/5/71)

Seguindo essa lua de mel de Rossi com os portugueses, a Beneficência Portuguesa ofereceu-lhe uma recepção no dia seguinte, domingo, 28 de maio. As festas da associação eram sempre muito agradáveis, mas a presença de Rossi transformou o morno convescote em um concorridíssimo evento social, com direito a um ministro de Portugal, ministros do Império, empresários, jornalistas do Jornal do Comércio, Diário do Rio de Janeiro e Diário de Notícias e os dois representantes mais célebres de Portugal na classe artística: Furtado Coelho e Emília Adelaide. Depois da missa, houve um lauto banquete, com vários brindes:

A primeira saúde foi feita pelo Sr. Conselheiro Mathias de Carvalho à S. M. o Imperador; a segunda pelo Sr. Comendador Martins ao trágico Rossi; a terceira pelo Sr. Furtado Coelho aos Srs. Ministros do Império, de Portugal e a Rossi; a quarta, aos Srs. Drs. Castro e Almeida; a quinta, pelo Sr. ministro do Império à colônia portuguesa e particularmente á iniciativa dos que tinham erguido aquele grande monumento de patriotismo e dedicação, fechando os brindes, o trágico Rossi, que em sentido discurso, ofereceu os seus serviços artísticos para, em um espetáculo em favor da beneficência, demonstrar o quanto preza e compartilha do sentimento de generosidade de todos os portugueses. (...) O Sr. Rossi foi o alvo da atenção dos convivas, que se retiraram penhorados pelo cavalheirismo da ilustre diretoria. (DN, 30/5/71)


O mês terminou com uma quarta representação de Othello na segunda-feira, dia 29, e a terceira de Julieta e Romeu na quarta, dia 31. O público apareceu em massa. “Felizmente o bom público fluminense, acordando da profunda indiferença em que estava imerso, enchia o vasto recinto do teatro Lyrico”. (DN, 31/5/71) Seria uma tendência ou uma empolgação momentânea?


Repetiu-se o Othello e repetiu-se Julieta e Romeu. O teatro encheu-se. E dou com tanto prazer essa notícia quanto deve ser o orgulho d’um povo, que vai se elevando até a altura de Ernesto Rossi, compreendendo-o. Finalmente o grande trágico não levará daqui maus diplomas do nosso espírito e da nossa admiração pelo belo e pela inteligência! O que dizer dos outros teatros? Sei lá! O incomparável ator italiano é uma espécie de Saturno da arte que devora... todos os seus filhos! (ML, 3/6/71)


A Companhia Italiana resolveu não encurtar a temporada e ficar até o fim.


FIM da segunda parte


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BIBLIOGRAFIA
  • A Comédia Social
  • A Rabeca
  • A Vida Fluminense
  • O Guarany
  • O Mequetrefe
  • O Mundo da Lua (ML)
  • Semana Ilustrada (SI)
  • A Reforma (AR)
  • A República
  • Diário de Notícias (DN)
  • Diário do Rio de Janeiro (DRJ)
  • Jornal da Tarde (JT)
  • Jornal de Recife (JR)
  • Agradecimento a Reinaldo Elias
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