quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Sete músicas de "Bibi Vive Amália", 2001


Bibi Ferreira vive Amália Rodrigues
Meus caros,
aqui vão dois trechos do espetáculo "Bibi Vive Amália", apresentado em 2001 no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. Nele, nossa amada Bibi Ferreira comemorou seus 60 anos de carreira encarnando a suprema fadista, e cantando sucessos como "Fadinho Serrano", "Quando eu era pequenina", "Ai Mouraria" e "Perseguição". Participação do afamado violonista português Carlos Gonçalves, que acompanhou Amália por mais de 30 anos.


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Um segundo trecho de "Bibi Vive Amália", no qual Bibi Ferreira canta sucessos como "Uma Casa Portuguesa", "Tudo Isto é Fado" e "Foi Deus". Participação do afamado violonista português Carlos Gonçalves, que acompanhou Amália por mais de 30 anos.

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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Um exemplo chamado Michael J. Fox

Fui fã de Michael J. Fox durante toda a década de 80. O canadense, que nasceu em 1961 mas teve sempre cara de garoto não foi apenas o protagonista de uma trilogia maravilhosa que encantou toda uma geração, Back to the Future, mas também trabalhou ou namorou (em alguns casos, ambos) com todas as atrizes por quem tive paixões violentíssimas na época, como Justine Bateman, Nancy Mckeon, Elisabeth Shue, Helen Slater, Annabella Sciorra, Phoebe Cates, Julie Warner... Na telona Fox viveu todas as minhas fantasias adolescentes. Na telinha encarnava o perfeito alter ego para um nerd como eu: o braniac Alex Keaton, no sitcom Family Ties. O seriado era a quintessência da pieguice e caía em todas as armadilhas do sentimentalismo barato. Fox, porém, foi sempre tão carismático que nem mesmo os múltiplos defeitos de seu preconceituoso e reacionário Alex conseguiram afastá-lo da bem-querença do público. O personagem era de uma garoto culto e de QI acima da média, e ao mesmo tempo um cretino arrogante e atrapalhado, mas Fox o interpretava de maneira tão suave, tão cool, tão charmosa na simplicidade com que destratava e fazia pouco das pessoas, que era impossível não gostar dele. No âmbito pessoal era absolutamente discreto e jamais teve sua vida exposta em cores sensacionalistas na imprensa. Era tão normal que chegava a ser raro.

Fox em Bright Lights Big City, 1988
Como ator me impressionou uma única vez: em Bright Lights Big City, último filme do diretor James Bridges. Arrebentando a pauladas todo e qualquer estereótipo de bom moço, Fox interpreta um publicitário mauricinho viciado em cocaína e nos estertores da dor de corno provocada pelo abandono de sua ex-mulher. Uma performance digna, pelo menos, de uma indicação ao Oscar. Mas com toda sua fama e toda sorte na carreira, Fox carregava um estigma duplo: ser o herói de uma trilogia adolescente e protagonista de um seriado bobinho que ficou no ar durante sete anos. Na panelinha de Hollywood, ele teria que envelhecer, engordar, emagrecer, fazer papel de aidético, deficiente mental ou participar de mais uns três ou quatro filmes do mesmo teor dramático e performático para que os membros da academia começassem a considerá-lo. Ele preferiu o caminho mais simples: voltou à TV em 1996 com o seriado Spin City, no qual interpretava o assessor do prefeito de Nova York. É a essa altura que entro no tema deste artigo.

Fox e Barry Bostwick em Spin City
Vezes houve, quando assisti aquele seriado (que não me cativou, e até hoje não o assisti inteiro), que me irritei com o jeito estranhamente tenso com que Fox atuava. Ele vivia fidgety, não parava quieto. Achava isso um maneirismo tosco, equivocado, do ator, e não compreendia como ninguém lhe dizia nada. Em 1998, eu e o resto do mundo compreendemos, finalmente: ele sofria do Mal de Parkinson e sua incapacidade de parar quieto nada mais era do que um dos efeitos mais insidiosos da doença. Nunca esqueço seu colega de elenco Richard Kind, se penitenciando publicamente por ter criticado Fox e suas numerosas licenças durante as gravações de Spin City, que ele inicialmente achou que eram fruto do estrelismo do ator, e que só naquele momento verificava ser uma moléstia grave. No ano 2000, completado o centésimo episódio, ele deixou a série e no mesmo ano fundou The Michael J. Fox Foundation for Parkinson’s Research. Também não o esqueço em entrevista dada na mesma época, comentando o quanto tinha sido difícil gravar os últimos episódios do seriado, com a saúde tão debilitada.

No senado, 1999
Desde então ele vem se dedicando à fundação, a seu tratamento e a trabalhos esporádicos no cinema e na TV. Há momentos de humor, como a história que contou a David Letterman, anos atrás, sobre ter cogitado dar o nome de "PD Cure" à fundação, utilizando a abreviatura de "Parkinson's Disease", mas que lido em inglês também pode soar como "pedicure". Mas há momentos extremamente fortes, como a ocasião em que leu no senado norte-americano um manifesto solicitando maior investimento do governo nas pesquisas pela cura da doença, e o fez sem tomar qualquer remédio, tremendo convulsivamente enquanto lia o discurso. Fosse como fosse, Fox se desvestiu de sua fama hollywoodiana e virou porta-voz da necessidade de se encontrar uma cura para o Parkinson. O carinho pelo ator e os filmes inesquecíveis de nossa juventude se transformou na mais profunda admiração pelo trabalho hercúleo, dolorido e corajoso que ele passou a encetar em nome de uma pesquisa que precisava de sólido subsídio governamental e privado.

Ele nunca parou de trabalhar, mesmo nos períodos agudos da doença. Fez participações em inúmeros seriados e em 2013 protagonizou seu terceiro sitcom, "The Michael J. Fox Show", sobre um âncora de telejornal que acaba de ser diagnosticado com Parkinson. O projeto teve vida curta mas serviu especificamente para que o público se conscientizasse cada vez mais sobre a doença. Considerado pelo New York Times the most credible voice on Parkinson’s research in the world, Michael entrou há poucos dias para o Hall of Fame dos "Heróis da Saúde" de uma organização norte-americana chamada WebMD. Ele agradeceu em entrevista à jornalista Robin Roberts e conquanto não pudesse estar presente ao evento que o homenageou, ele mandou uma mensagem ao público.

Fox foi meu ídolo de juventude. Por tudo que era como ator. E hoje, trinta anos depois, continua sendo meu ídolo. Por tudo que é como ser humano.

Eis o texto da WebMD sobre Fox, e os videos no qual fala sobre a doença:

Michael J. Fox
Hall of Fame Health Hero

When WebMD set out to present its very first Hall of Fame Health Hero award, the choice was not difficult. For the past 16 years, Michael J. Fox has been a tireless advocate for Parkinson's disease awareness and research. He launched one of the world's leading Parkinson's foundations, which has raised millions of dollars to help wipe out this devastating disease. We deeply admire Mr. Fox's significant contributions as an activist, philanthropist, and "honorary scientist" in raising awareness and supporting expanded research for Parkinson's disease. We wish to highlight the work he and the foundation have done to support patients and families living with the disease and to successfully develop and manage a groundbreaking approach to biomedical research.

Fox learned he had Parkinson's in 1991, when he was just 30 years old and at the height of his acting career. He'd recently finished a successful run as Alex P. Keaton in the popular sitcom Family Ties and had starred in three Back to the Future movies. In 1998, Fox revealed his condition to the public. Two years later, he stepped down from his role on the Fox network series Spin City to devote his time to Parkinson's advocacy.

Later that same year he launched the Michael J. Fox Foundation for Parkinson's Research, which the New York Times has since called "the most credible voice on Parkinson's research in the world." Thanks in large part to Fox's unwavering dedication to the cause, his organization has raised more than $450 million to fund Parkinson's research. The foundation has also supported the development of groundbreaking treatments, working with pharmaceutical companies to develop new drug compounds, and to speed these new therapies to market through clinical trials.

Over the years, Fox has provided hope -- and help -- to millions of Americans with Parkinson's disease and other neurological conditions. Despite living with a chronic illness, he has remained ever positive. As he wrote in his memoir, Always Looking Up: The Adventures of an Incurable Optimist: "For everything this disease has taken, something with greater value has been given -- sometimes just a marker that points me in a new direction that I might not otherwise have traveled."

For all of these reasons, Michael J. Fox is the true embodiment of a WebMD Health Hero and deserving of our inaugural Hall of Fame Health Heroes award.







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The Michael J. Fox Foundation for Parkinson’s Research:
https://www.michaeljfox.org/

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Robin Williams, em sua última entrevista a Johnny Carson


Robin Williams e Johnny Carson, 21/05/1992

Meus caros,
aos poucos vou digerindo a perda desse artista maravilhoso, que tanto marcou minha vida. O que trago hoje é uma das mais doces memórias que tenho de Robin Williams.

Em 1992 o apresentador Johnny Carson se aposentou após 30 anos de uma carreira gloriosa à frente do mais importante e prestigioso programa de entrevistas da TV americana. Eu estive nos Estados Unidos no início daquele ano e assisti o começo de sua despedida. Gravei muitas das entrevistas finais de artistas como Chevy Chase, Michael J. Fox, Sean Connery e tantos outros. Em maio eu já estava de volta ao Brasil, minha mãe ficou e se encarregou de gravar a derradeira semana de Carson.

No último programa com entrevistas, efetivamente - o programa final foi de melhores momentos dos 30 anos - Carson fez questão de receber duas pessoas: Robin Williams e Bette Middler.


"Sit on down and we'll give you a piña colonic"
Robin, aos 40 anos, estava no ápice de sua carreira. Embora divulgando um de seus raros fracassos (o filme "Toys", de Barry Levinson), a máquina estava em 220, a engrenagem fervia, azeitada, a metralhadora atirava sem parar e ele foi aquela usina atômica de improviso, de inteligência e de humor.

Os assuntos em voga eram o quebra-quebra por Los Angeles pela absolvição dos policiais que haviam espancado Rodney King; a eleição presidencial norte-americana, que ainda trazia pré-candidatos como Paul Tsongas, Jerry Brown e o impagável Ross Perot, além de Bill Clinton, que na ocasião era considerado carta fora do baralho; e as maluquices habituais de Williams. Lágrimas de riso com sua imitação de George Bush (pai) a partir de John Wayne, a hilária rendição de Reagan em seu rancho, o Rain Man Dan Quayle, o Nixon por trás de Perot, o talk-show "In your rear" que entrevistaria Madre Teresa e Ruta Lee, e tudo que pudesse ser processado e transformado em palhaçada no seu poderoso triturador do cotidiano, naquele início de década de 90.

Assisti essa fita de video com a última semana de Carson - sobretudo os encontros com Mel Brooks e Richard Harris, além desse, de Robin - até decorá-la. Rever a entrevista de Robin no Youtube, recentemente, depois de tantos anos, me emocionou muito. Estou começando a assimilar essa despedida tão horrivelmente prematura.

Que saudade de Carson, de Robin, do bom Ed Macmahon. Que bom ter estado lá naquele momento. Que bom ter apreciado o talento desse ser humano inigualável que foi Robin Willliams.

Bernardo

 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

"À Saudosa Memória de Dirce", de Gabriel Quadros


Dirce e sua mãe, Leonor
Há pouco mais de um mês morreu Tutu, a filha de Jânio. Conhecida a vida inteira por “Tutu” — apelido que ganhou do pai ainda na infância — as pessoas acabaram não atinando para a significação de seu verdadeiro nome, que era Dirce Maria do Valle Quadros. Batizando a filha com o nome “Dirce”, Jânio homenageava sua irmã, morta aos 16 anos. O “Maria” foi acrescentado por Eloá, mas Tutu não gostava desse segundo nome, e tampouco fazia segredo disso.

Dirce da Silva Quadros nasceu em 22 de maio de 1918, em Curitiba, para onde seus pais se mudaram depois de um período de quatro anos no Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul). Jânio e sua irmã viveram toda a infância e pré-adolescência no Paraná. Estudaram em diversos educandários, por conta das constantes mudanças do pai nos anos 20, e com o golpe de 1930, vieram para São Paulo. Gabriel Quadros — pai de Jânio e Dirce — era filiado ao Partido Republicano Paranaense e membro da equipe do governador Affonso Alves de Camargo. Com a ascensão de Getúlio, Gabriel preferiu sair do Paraná e tentar a sorte no Estado onde o Partido Republicano era mais forte.

Jânio e Dirce, circa 1933
Dirce infelizmente nasceu com um problema cardíaco e sua saúde requeria atenção redobrada. Os dois irmãos eram unidos, brincavam juntos, se divertiam juntos e ela levava uma vida tão normal quanto possível, mas a fragilidade de seu organismo não conseguiu impedir que ela contraísse a tuberculose, a moléstia mais temida e disseminada da época. E também a mais rápida. Gabriel, que era médico, fez tudo que era humanamente possível para salvar a filha, inclusive interná-la em Campos do Jordão. Não adiantou. Sem a penicilina, e demais remédios surgidos nos anos seguintes, não havia como curar doença tão insidiosa e cruel. Dirce morreu em 24 de novembro de 1934, aos 16 anos. Jânio ficou devastado. Ainda mais devastado ficou Gabriel. A morte da jovem foi um divisor de águas na vida do médico e em sua relação com a esposa e com o filho. Em depoimento longo e exclusivo, Tutu falou com clareza sobre a morte da tia, que ela não chegou a conhecer, mas cujo nome herdou:

A mãe favorecia a ele e o pai favorecia a ela. Quando ela morreu, enquanto o Jânio e minha avó Leonor ficaram muito mais unidos, ele começou a ter problemas sérios com o pai. Depois disso, eles nunca mais se entenderam. Tinha amor entre eles, mas não havia mais nenhum entendimento. E o pai sofreu muito com a morte da filha. Muito. Tinha fotografias da tia Dircinha por todo lado, acendia velas, e eu acho que de uma certa forma ele nunca se recuperou da perda da filha. Que é o que costuma acontecer aos homens que perdem filhas. Meu avô Gabriel perdeu muito do encanto pela vida, o gênio dele se alterou muito, a tolerância, a paciência, a irritabilidade aumentou. (JÂNIO, pgs 104,105)

Gabriel, na década de 50
Gabriel era jornalista diletante desde a faculdade, no fim dos anos 10. Em quase todas as cidades onde viveu, tratou logo de se familiarizar e se infiltrar na imprensa local. Em São Paulo não foi diferente, e em 1933 vamos encontrá-lo como colaborador fixo de um pequeno diário chamado “Correio de S. Paulo”, de inspiração perrepista. Como sempre ocorreu nessa sua área de atuação, ele escrevia desde a crônica social até o comentário sobre política externa.

Em 26 de maio de 1936, em que se completava um ano e meio da morte de Dirce — e quatro dias depois do que seria seu aniversário de 18 anos — Gabriel escreveu sobre dois livros recém-lançados em sua coluna semanal (um sobre obstetrícia e outro sobre religião) e aproveitou parte da coluna social para publicar uma pequena homenagem póstuma à sua filha. Gabriel não escrevia bem. Era prolixo e rebuscado. Colecionava palavras difíceis e declinações oblíquas. Defeitos, aliás, que transmitiu ao filho, e que este cuidadosamente desbastou, corrigiu, depurou, ampliou e posteriormente transformou em arte.

Mas seu artigo sobre a filha é inspirado e tocante, porque traz o selo legítimo da tristeza e da saudade.
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À SAUDOSA MEMÓRIA DE DIRCE

Faz hoje precisamente um ano e meio que o gélido sudário da morte te envolve em suas diáfanas vestes e te roubou ao carinho dos teus pais!

A nossa casa é agora um sepulcro lacrado pelo sinete da saudade.

O teu róseo quarto, querida, continua vazio, chora em cada canto uma saudade, geme em cada saudade uma agonia.

As flores que plantaste e regaste com tuas mãozinhas de fada, desfolharam pétala por pétala e rolando n'um queixume triste se foram ao léu, nas asas do vento...

Tua mãe é a mesma — essa mater dolorosa que, n’uma caudal de pranto, procura no céu, nas noites plenilúnias, ver luzir o teu rosto na mais bela estrela coruscante.

Teu irmão, no vácuo do lar antes em festa, sente a ausência da companheira de infância.

O teu velho pai é esse rosto contrafeito, que ri em espasmos de dor, é como a harpa de cordas partidas que dedilha a saudade sem harmonia de acordes.

Desconheço alguém mais invejoso que a morte: ela quer só para si e nos rouba tudo o que é puro e bom.

Minha Dirce querida!

Teu pai viverá ainda rindo, essa louca comédia da vida, sob os grilhões da saudade até que a justiça de Deus o chame aos braços teus na eternidade infinita.

Até lá, continuarei com tua mãe a procurar no céu os teus lindos olhos no luzir das estrelas...

GABRIEL QUADROS
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Bibliografia

  • SCHMIDT, Bernardo. Jânio 
    — Vida e Morte do Homem da Renúncia. São Paulo, O Patativa, 2013.
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Jânio - Vida e Morte do Homem da Renúncia
Vol I: "Um Moço Bem Velhinho"
Bernardo Schmidt
Editora O Patativa
350 pgs ilustradas
R$ 30,00 (Frete incluso para todo o Brasil)

Compre através do e-mail editora.opatativa@gmail.com
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Ver também:

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domingo, 5 de outubro de 2014

Hora da Definição














Meus votos, no domingo, dia 5 de outubro, serão para AÉCIO NEVES, GERALDO ALCKMIN e JOSÉ SERRA.

1 - Aécio foi deputado federal por quatro mandatos, governador de Minas durante oito anos e é atualmente senador. Tem a política no sangue (é neto de Tancredo) e é de longe o melhor e mais experiente candidato.

Dilma é o zero à esquerda que já conhecemos bem. Nunca exerceu um único cargo eletivo. Brizolista, ocupou secretarias municipais e estaduais no Rio Grande do Sul sem deixar qualquer lembrança; no ministério das Minas e Energia de Lula ficou conhecida como "a ministra do apagão"; na Casa Civil entrou para acobertar as bandidagens de José Dirceu, e deixou como sucessora uma laranja chamada Erenice Guerra, que também acabou defenestrada por corrupção. Ignorante e despreparada, Dilma tem, como grande marca de sua presidência, as declarações cretinas, a volta da inflação e a corrupção desenfreada nos ministérios e autarquias. Lamento por aqueles que ainda consideram votar numa criatura tão equivocada.

Marina Silva foi vereadora em Rio Branco, deputada estadual pelo Acre e ministra do Meio Ambiente de Lula. Atualmente é senadora. Ela é infinitamente melhor, mais preparada, mais culta, mais inteligente, de melhor caráter e melhor temperamento do que Dilma (ao contrário do que diz o latido dos petralhas, sempre sectários e fanáticos). Se tivesse saído do PT quando estourou o escândalo do mensalão, e não três anos depois, seria minha primeira opção. Como só saiu do PT porque o partido aparentemente não a cogitou para a disputa, é minha segunda opção.

2 - Geraldo Alckmin foi vereador e prefeito em Pindamonhangaba, deputado estadual, deputado federal constituinte, vice-governador por seis anos, governador interino por dois, e governador efetivo por dois mandatos (é candidato a um terceiro mandato). Como disse em outro post, não obstante seus defeitos, e ele tem vários, é o melhor entre os candidatos. É covardia compará-lo aos concorrentes.

Padilha é uma nulidade na mesma linha de Dilma e Haddad, candidatos que Lula tira de seu bolso e joga, como um peixe, para ser engolido pelas focas amestradas que representam a militância do PT e uma triste parcela do eleitorado. Padilha foi ministro da Saúde de Dilma e é conhecido unicamente pelo tenebroso projeto que despejou milhares de médicos cubanos no Brasil. Graças a Deus que São Paulo Estado não é São Paulo Capital, e a votação de Padilha será tão humilhante quanto sua passagem pelo ministério da Saúde.

Paulo Skaf é um empresário de talento, presidiu a Fiesp e botou na cabeça que quer ser governador. Deveria ter aprendido com Antônio Ermírio que em rio de piranha, tubarão é almoço. Péssimo político, foi candidato em 2010 pelo Partido Socialista, o que chega a ser uma piada, e agora veio queimar seu filme de vez no PMDB. Deve ficar na Fiesp, que é seu lugar.

3 - José Serra foi secretário estadual, deputado federal constituinte, ministro do Planejamento e da Saúde durante o governo FHC, prefeito, senador e governador de São Paulo. É um excelente administrador e tem como calcanhar de Aquiles o fato de não ter uma única centelha de carisma. Mas enquanto esta eleição for para o senado e não para Mister Congeniality, meu voto é do Serra.

Eduardo Suplicy é um excelente figura. Gosto dele, conheço-o pessoalmente, é pessoa acessível e gentil. Mas há limite para tudo, e o fato de Suplicy teimar em permanecer no PT, mesmo sendo públicas, notórias e escancaradas as provas de que se trata de um partido corrupto, de cima a baixo e de baixo para cima, não mostra mais lealdade, e sim, cumplicidade, conivência. Como dizia Ulysses Guimarães, não basta não roubar; é preciso também NÃO DEIXAR ROUBAR. E ficando no PT, Suplicy pode até não corromper, mas está fazendo vista grossa para a corrupção de seus colegas. É uma pena.
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Estes são os meus candidatos para esta eleição: Aécio, Geraldo e Serra.

O PT teve sua chance. E a jogou no lixo, junto à sua reputação e à nossa, aqui e no exterior. Chega.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Último debate presidencial



Meus caros,
Este último debate foi tudo que os outros debates deveriam ter sido. Sendo a última oportunidade do mano a mano, Dilma, Aécio e Marina pararam de se estapear com luvas de veludo e foram pro quebra pau de uma vez; Eduardo Jorge nos divertiu como sempre, aquele pastor Everaldo superou-se em sua inutilidade e a dupla Debi e Lóide  Luciana Genro e Levy Fidélix  fizeram suas macaquices habituais. Só que pela primeira vez senti que o vencedor foi Aécio. Vamos lá:

1 - Aécio foi exemplar. Demonstrou, descontraído e tranqüilo, estar anos luz à frente de seus concorrentes. Transbordou segurança, preparo, e até bom humor para responder as acusações de Marina ou a blablação intolerável de Luciana Genro. Homenageou FHC de forma elegante e justa  coisa que aquele tonto do Serra nunca fez, prejudicando-se profundamente por conta disso  e metralhou Dilma do início ao fim, conciso, objetivo e contundente. Lamento que não tenha sido tão incisivo e cortante desde o primeiro debate. Teria ultrapassado Marina tempos atrás.

Seu único erro, por sinal, foi fustigar Marina. Deveria tê-la tratado com urbanidade e simpatia, compreendendo que o mal comum é o PT, mas seus marqueteiros dormiram no ponto. A esta altura, o acordo para o segundo turno, seja qual for o resultado, já deveria estar pronto e engatilhado.

2 - Dilma já não é boa em debates, mas hoje estava particularmente ruim. Suas limitações, a confusão mental e a conseqüente gagueira foram cruéis. Recebeu inerme as pauladas de Aécio e parece não ter encontrado forças para repisar, pela undécima vez, as mesmas respostas idiotas com que responde a tudo, culpando o governo anterior, desde a campanha de 2010. O ponto alto de sua baixeza foi dizer que criou mecanismos de combate à corrupção. Pelo contrário. Seu partido criou mecanismos de incentivo à corrupção e da celebração vexaminosa e repulsiva de seus bandidos condenados.

É impressionante. Só no Brasil, mesmo, tem gente tão imbecil que consegue votar numa pessoa que está moralmente liquidada. Os eleitores de Dilma são, em sua obstinação burra e fanática, os mesmos que pretendiam eleger Maluf mais uma vez.

3 - Marina, assim como Dilma, estava cansada, esgotada e rouca. E deixou o melhor para o fim. Eu, desde a homologação de sua candidatura, vinha reclamando a necessidade dela parar de lamber PT e PSDB, e assumir de uma vez uma postura de repúdio total ao atual governo. Fez isso hoje, último dia da propaganda eleitoral e último debate. Alfinetou Dilma por não ter jamais exercido um cargo eletivo antes de se tornar presidente. Como diz o inglês, "too little, too late". Marina deveria ser a terceira via e o máximo que conseguiu foi ser uma espécie de versão dietética da Dilma.

4 - Luciana Genro tem 43 anos, aparência de 53 e mentalidade de 16. Seus ataques histéricos, onde atira para todos os lados, e sua defesa de movimentos corroídos pela corrupção, como o MST, são tão cínicos, tão oportunistas  sobretudo considerando que ela é filha de um proeminente político petista e nunca soube o que é pobreza  que ela se transformou em tudo aquilo que mais abomina: virou um Jair Bolsonaro de saias. Ele é militarista, agride quem não concorda com ele e vive em pé de guerra com os gays; ela prega um comunismo falido desde os anos 50, agride tudo e todos e sua única agenda é a dos gays. São igualmente reacionários. Que bom que Aécio lhe disse, em alto e bom som, que ela não está preparada para ser candidata à presidência.

E graças a Deus que com o fim da campanha não teremos mais que ouvir sua logorréia interminável de protesto, de revolta, de rebeldia sem causa, enfim, de pentelhice.

Vamos à eleição. E oxalá Aécio vá para os segundo turno.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Homenagem a Chico de Assis no Teatro de Arena



Meus caros,
ontem o Teatro de Arena sediou o lançamento dos dois volumes do Teatro Seleto de Chico de Assis. Nada mais justo, nada mais louvável, nada mais merecido.

Todos os luminares do Arena transcenderam o cubículo da Teodoro Bayma: Zé Renato foi para o Teatro Nacional de Comédia e para o Teatro dos Arcos, Guarnieri partiu para a TV e para o Teatro de Ocasião e Boal criou o Teatro do Oprimido.

Chico transcendeu sem sair. Tornou-se corpo e alma do Seminário de Dramaturgia ministrado no próprio Arena. De todos os velhos integrantes e criadores do grupo, ele foi o único que ficou. E seus trabalhos têm dado frutos permanentes. Os dois volumes da Funarte são apanhado oportuno, mas já se faz a necessidade - premente e comentada ontem - de um terceiro volume, e se possível um quarto e um quinto.


Chico e Ary Toledo
O lançamento foi também a reunião de velhos amigos. E não poderia ser de outra forma, sendo Chico um remanescente do Arena, grupo que sempre valorizou as relações humanas, as amizades, as parcerias, o coleguismo. Não tem preço reencontrar meu bom João Ribeiro, ator e professor de teatro, que vi pela última vez em 2005, na palestra de Zé Renato e Eva Wilma no Teatro dos Arcos. David Leroy, como já disse antes, é amigo de sempre, dos teatros da vida. Falei dele há pouco no texto sobre Gurnieri no SESC do Carmo. E para mostrar sua dedicação aos amigos e ao bom teatro, veio do Rio - onde está atualmente em temporada com "Elza e Fred" - somente para prestigiar o grande Chico.


Encontro com esse notável estudioso
de nossa MPB, Zuza Homem de Mello

O prazer só faz aumentar. Paulo Hesse não é só ator que aplaudo há anos e anos, mas soube ontem que foi um dos primeiros professores de João Ribeiro. O talento de Evill Rebouças conheço desde a Sociedade Lítero-Dramática Gastão Tojeiro e foi muito bom rever esse querido amigo. Outro que citei no texto sobre Guarnieri, e que tive o supremo prazer de rever e de abraçar foi o admirável Zuza Homem de Mello. É nosso maior estudioso e autor de obras absolutamente fundamentais sobre MPB. E lá estavam Oswaldo Mendes (prefaciador do livro), Walter Negrão, Mário Masetti, Dulce Muniz, Bebeto Castilho, irmão do saudoso Carlos Castilho, diretor musical do Arena Conta Zumbiem aparição raríssima. Só gente boa.

Ary em "A Criação do Mundo Segundo Ary Toledo", no Arena, em 1966

E o que posso dizer de Ary Toledo? Há anos acalento o desejo de conhecê-lo; fui entretido por seu humor a vida toda e ontem, finalmente, pude abraçá-lo e agradecer por ter trazido mais risos e mais humor para nossas vidas.

Esse humorista fantástico - pouca gente sabe - começou no Arena, em cuja porta bateu, humildemente, pedindo qualquer emprego, apenas para poder fazer parte de tudo aquilo... Ofereceram-lhe o emprego de faxineiro. Ele contaria a história brincando, no futuro, destacando que sua resposta foi: "Ha, ha, haaa... ceito". "Meu primeiro emprego foi bilheteiro, faxineiro e contra-regra do Teatro de Arena", diria ele, tempos depois, acrescentando que sua pobreza era tal que não lhe restava alternativa senão dormir no próprio teatro. Anos tiveram que passar até que ele começasse a construir sua carreira. 

Foi uma noite linda, inesquecível, que, como não podia deixar de ser, se transformou em uma grande homenagem ao Chico. Eis o que disse o mestre hoje, sobre a festa:



Estou pensando que ontem a noite no Teatro de Arena,eu passei por momentos inesquecíveis. Grupos de teatro com peças minhas; amigos, muitos amigos reunidos para festejar meus dois livros de peças teatrais. Eu gostei mais da festa do que de ter que autografar os livros. Mas é impossível não amar ver a nossa obra em livro. Revi gente que não via há tempo, encontrei gente que me conhecia e eu ainda não conhecia. Alguns momentos me emocionaram muito. O Tadeu DiPietro dizendo o monólogo do ator que escrevi para o meu amigo Lima Duarte - que aliás não apareceu - foi algo que se amarrou na minha emoção. Minha ex-aluninha desde pequenininha, a Helena Arida, com o tio dela, o Nabil, dizendo trechos de peças minhas. Ela agora uma mulher bonita mas que para mim sempre será uma criança. Vou ter que escrever isso aqui em capítulos por que não posso esquecer de nada.

Teve gente que chegou um pouco mais tarde e não conseguiu entrar por que o Arena esteve mesmo lotado. Diria que abarrotado. Graças ao bom Deus. Mas pra quem não foi e quem não conseguiu entrar vai haver outra noite de autógrafos no Clube Paulistano, no mês de outubro. Eu aviso. Senti falta de gente que não foi mas preciso saber por que não foram, para poder mandar meus anátemas. Enfim foi a noite das minhas noites!

Chico é duplamente um mestre. Mestre dramaturgo e, como muito bem observou sua aluna Eliana Iglesias, um mestre da vida.

Abaixo, o memorável agradecimento de Chico:

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Dirce "Tutu" Quadros (1943/2014)



Jânio e Tutu três dias depois da histórica
vitória do 22 de março de 1953
Mandei o primeiro volume a ela. Morrendo de medo. Sua opinião, sinceramente, era a única que me importava. Liguei dias depois. Perguntei o que ela achou.

"O livro é perfeito", disse ela.

Que bom que ela viveu para ler o volume no qual falo da juventude tão desconhecida de seu pai, e para saber que quem vai contar a história dele é alguém honesto, imparcial, isento, comprometido somente com a verdade, e não com o sensacionalismo.

Guardo só lembranças boas de Tutu. De seu saudoso marido Frank. Da semana que passei com eles na Califórnia. Dos passeios, dos jantares, das fotos, das gargalhadas, das conversas, das confidências, da intimidade fraterna, sobretudo da generosidade de Tutu. Falarei aos poucos. No momento peço licença à minha querida Ana Cláudia para transcrever sua linda mensagem de despedida.

É assim que lembrarei de Dona Dirce.

"Descanse em paz, nossa mãe, que amava a natureza, animais, alimentava pássaros, racoons, mimava o Amor, caprichava nos detalhes, e que acreditava que todos tinham direito à felicidade e a obrigação de procurá-la. Detestava os que se faziam de vítimas, os que julgavam os demais, e quem vivesse pra tentar agradar a todos menos a si mesmo.

Nossa mãe foi uma lutadora. Nessa madrugada venceu sua batalha final. Deixa saudade, exemplo de força, e memórias de momentos muito felizes".

Também transcrevo a mensagem de Ana Laura, citando com tanto acerto o poema "A Fond Kiss", do escocês Robert Burns:

"But to see her was to love her;
Love but her, and love forever."
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Muito obrigado, Dona Dirce, Por tudo!

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Jânio, Ben Gurion e as metamorfoses de Carlos Heitor Cony


Carlos Heitor Cony
Meus caros,não é exatamente uma raridade jornalistas requentarem suas melhores histórias, mas é curiosíssimo o processo pelo qual elas podem aumentar, criar pernas, braços, detalhes, adendos e se alterar completamente nas mãos de seu autor, ao longo dos anos. De vez em quando faz lembrar o proverbial "telefone sem fio", no qual uma história é contada tantas vezes que a última versão já não guarda qualquer semelhança com a primeira. Mesmo quando estamos falando de um dos nossos maiores jornalistas de todos os tempos: Carlos Heitor Cony. Na Manchete nº 1.271, de 28 de agosto de 1976, edição especial sobre os quinze anos da renúncia de Jânio, Cony escreveu um interessante artigo sobre o assunto, dizendo o seguinte:

Em 1962, em Telaviv, Adolpho Bloch foi visitar o seu amigo, o então premier Ben Gurion. O assunto da conversa passou a ser o Brasil, ainda traumatizado pela recente renúncia de Jânio Quadros. Ben Gurion quis saber de Adolpho Bloch os reais motivos do gesto, inesperado e dramático, do presidente que fora levado ao poder por mais de de cinco milhões de votos. As explicações de Adolpho, ao que parece, não satisfizeram Ben Gurion, que comentou: "Não, meu caro Bloch, o ato de Quadros não se justifica. Nunca poderei entender como pôde renunciar o presidente de um país com tanta água".

Em 1995, Cony requentou o artigo; Adolpho transformou-se em "amigo meu" e a impressão de Ben Gurion mudou, literalmente, da água para a terra:

Amigo meu estava em Israel quando Jânio Quadros renunciou. Foi chamado por Ben Gurion, que desejava entender o que estava se passando no Brasil. Recebeu a explicação óbvia: Jânio tinha problemas para governar e preferira ir embora. Ben Gurion arregalou os olhos: "Como ter problemas? O Brasil tem tanta terra!". Nada demais que Ben Gurion não entendesse as dificuldades de um presidente brasileiro. O problema de Israel era terra, terra que precisava ser disputada palmo a palmo contra o deserto, as pedras e os árabes em volta. Já o Brasil era o colosso verde no qual caberiam duas Europas e uns cem Estados de Israel.

Em 2007 Cony voltou ao assunto, só que desta vez a historinha ganhou corpo, cenário, o amigo virou um jornalista que estava em Israel mas não sabia da renúncia, e o grande problema de Israel volta, como por encanto, a ser a água:

Em 1961, um jornalista brasileiro estava em Israel fazendo reportagens quando recebeu, no hotel King David, onde se hospedava, o convite para um encontro com Ben Gurion, patriarca do novo Estado. A entrevista com o homem mais importante do país não estava no roteiro do profissional, mas não havia motivo para recusar o convite. Após os cumprimentos de praxe, cabia a Ben Gurion iniciar a palestra. Na realidade, ele queria entrevistar o jornalista. E começou com a pergunta: "Por que o senhor Jânio Quadros renunciou à Presidência da República?". Tendo saído do Brasil havia mais de 20 dias, o jornalista não sabia ainda que Jânio dera o fora em apenas sete meses de governo. Apelou para a generalidade: "Problemas, muitos problemas, o Brasil tem muitos problemas...". Ben Gurion interrompeu: "Como problemas?! O Brasil tem tanta água... os maiores rios do mundo...". Israel lutava, naquela época - e de certo modo luta até hoje - contra a escassez daquilo que os jornais antigamente chamavam de "precioso líquido", e o Antônio Houaiss, para evitar o lugar-comum, chamava de "ninfa potável".

Jânio e Ben Gurion em 1959

E por fim, em 2014, quase 40 anos depois de contada (até onde pude apurar) pela primeira vez, a história deixou de ser sobre um "amigo" ou "um jornalista" e Cony não apenas virou personagem da história, como ainda trouxe de volta o protagonista da primeira versão, Adolpho Bloch:

Na primeira vez que fui a Israel, em 1961, o grande assunto era a renúncia de Jânio Quadros. Fui com Adolpho Bloch. Ficamos hospedados no King David. A imprensa noticiou a presença de dois jornalistas brasileiros, Adolpho era bastante conhecido naquele país. Era nome de uma escola e do Observatório Nacional. O presidente de Israel era Ben Gurion, que proclamara a criação do Estado judeu em 1948. Ele nos convidou para uma conversa. Logo no início perguntou as razões da renúncia do nosso presidente que estava ainda no início de seu mandato. Com aquela voz inconfundível, Adolpho limitou-se a dizer que Jânio tinha muitos problemas. Ben Gurion ficou espantado, "como pode haver problemas para um país com tanta água". O problema de Israel era ainda - e por muito tempo foi - o do abastecimento da água para a população e para a agricultura - era então um deserto cheio de pedras - mas logo tornou-se uma potência na agricultura, vendendo seus produtos para vários países da Europa.

Fica a dúvida: O que terá dito, de fato, Ben Gurion, nesse encontro, e a quem?

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Guarnieri no SESC do Carmo, ou "Meu dia de Alberto Korda"


Meus caros,
no fim de 2004 a Companhia Teatral "Coisa Boa", fundada pela atriz Magali Biff e pela diretora Dedé Pacheco, firmou uma parceria com o SESC do Carmo para a realização de um evento semanal chamado "Dramáticos Paulistanos". O projeto consistia na leitura de obras famosas ou inéditas de grandes dramaturgos ligados a São Paulo de uma forma ou de outra, sendo que em determinado momento o público era convidado a participar. Segundo Magali, "a proposta é que todos os presentes interessados, sem uma divisão de papéis, leiam um pedaço da obra". Terminada a leitura, havia um bate-papo descontraído com o autor, sobre o texto.

Nas segundas-feiras de novembro e dezembro de 2004 estiveram presentes naquela unidade do SESC autores como Otávio Frias Filho, Fernando Bonassi e Luís Alberto de Abreu. Na segunda-feira, 13 de dezembro, a Folha anunciou que Gianfrancesco Guarnieri encerraria o evento, com a leitura de Eles Não Usam Black-Tie. A apresentação seria às 19 horas, horário complicado em se tratando de um SESC que fica ao lado da Praça da Sé, em pleno horário do rush. Mas o que mais me preocupou foi a lotação: trinta vagas. Cheguei ao SESC pouco depois das sete e a leitura já havia começado. Verifiquei que não se tratava de um teatro e sim de uma sala, e o pequeno público presente, que não excedeu a lotação, fez uma roda, encabeçada por Guarnieri, seu filho Fernando e o elenco da “Coisa Boa” que lia o texto.

O único que reconheci foi David Leroy, velho conhecido dos teatros da vida, interpretando Otávio. Sentei-me e acompanhei a leitura com o prazer inenarrável de ter o mestre ali na minha frente, reagindo com as expressões, ora de surpresa, prazer, tristeza e revolta, como se ouvisse ali, pela primeira vez, o texto que escrevera 50 anos antes.


Quando se aproximava o momento do acerto de contas entre Tião e seu pai, o famoso diálogo em que Otávio se refere a ele próprio em terceira pessoa, alguém da companhia rodou o público distribuindo um texto. Era essa cena, e ficou estipulado que as falas seriam dadas por cada um dos presentes, pela ordem em que estavam sentados. A mim — nunca esqueci — coube dizer: “E deixa ele acreditá nisso, senão ele vai sofrê muito mais! Vai achar que o filho dele caiu na merda sozinho. Vai achar que o filho dele é safado de nascença. Seu pai manda mais um recado. Diz que você não precisa aparecê mais. E deseja boa sorte pra você”.

Guarnieri
A idéia de fazer o público ler o texto é interessante, mas não teve qualquer efeito dramático. Alguns espectadores mal conseguiam ler, seja pela absoluta inexperiência, seja pelo nervosismo. Foi marcante porque lá estava o grande Guarnieri, brindando-nos com sua luminosa presença, infelizmente cada vez mais rara por conta de seus problemas de saúde.

O bate-papo começou morno. Perguntas genéricas sobre seu trabalho. Sentado em meu canto, lembrei-me de Zuza Homem de Melo na bancada do Roda-Viva que entrevistou Tom Jobim. Zuza fez uma declaração linda de admiração e carinho a Tom, falando sobre o privilégio de ser seu contemporâneo. Pedi a palavra. Não poderia reproduzir ipsis literis o que falei no momento, mas ressaltei o extraordinário mérito dele ter escrito a obra-prima que é o Black-Tie quando contava apenas 21 anos, e, inspirado em Zuza, disse a Guarnieri o quanto me sentia privilegiado e orgulhoso de viver na mesma época que ele. O público aplaudiu e estou vendo como se fosse hoje, dez anos depois, a expressão de desconserto de Guarnieri. O aceno de cabeça, em sinal de gratidão, com aquela humildade tão peculiar aos gênios.

Guarnieri, tendo à sua direita o filho Fernando e à esquerda a atriz Magali Biff

Guarnieri e David Leroy
Eu não via Guarnieri desde 1998, mais ou menos, e notei que ele envelhecera bastante. Parecia um pouco cansado mas respondeu todas as perguntas com perfeita lucidez e discorreu sobre os mais variados temas, inclusive comunismo, Brecht, dialética e demais assuntos jogados sobre ele a partir de então, pelo público compacto, mas altamente devotado a ele e a seu trabalho. Tempos depois, David Leroy me contou que não fazia parte da companhia: “Nesse dia eu fui apenas assistir porque vi na programação do SESC que o Guarnieri faria a leitura do seu texto”. O mestre estava escalado para ler o papel de Otávio, que já fizera na versão cinematográfica do Black-Tie, mas uma conversa de última hora com David mudou o elenco: “Ele estava fazendo hemodiálise e se sentiu sem condições físicas para fazer a leitura. Quando fui cumprimentá-lo ele me pediu que lesse por ele. Foi uma honra! Ler de primeira sem nenhum ensaio foi um risco para mim. Mas depois da leitura ele foi generoso e me disse uma frase que não vou esquecer nunca: O personagem está pronto. Vindo isso do Guarnieri, foi lindo! Eu ganhei o dia!”

Guarnieri e Magali Biff, idealizadora do "Dramáticos Paulistanos"

Lágrimas de emoção
ao abraçar o mestre
Com minha fiel câmera, que me acompanhava fazia quinze anos e já começava um processo irreversível de aposentadoria, fotografei a leitura e a interação de Guarnieri, sempre solícito e gentil, com o público. Consegui captar a emoção à flor da pele de uma menina que não segurou as lágrimas quando o abraçou. Tirei uma linda foto dele rindo e quando descobri a Wikipedia, na mesma época, resolvi ilustrar o verbete dedicado a ele com essa foto, deixando apenas o close de seu rosto. Os responsáveis pelo site entraram em contato comigo para perguntar se a foto tinha copyright. “A foto é minha, fui eu que tirei e autorizo reprodução” foi minha resposta. E qual não foi minha surpresa quando a foto passou a ser usada para ilustrar todo tipo de matéria sobre o autor. Divertindo-me horrores por ver minha foto por aí, me senti o próprio Alberto Korda, cuja foto histórica de Che Guevara, tirada em 1960, viralizou depois de publicada inadvertidamente pela Paris Match em 67. Até a Leica M2 usada por Korda era um modelo mais ou menos popular, como minha velha Canon. Só que ao contrário da imagem triste e grave de Che, captada no funeral de 136 pessoas mortas tragicamente na explosão criminosa de um navio que carregava armas para Havana, a imagem de Guarnieri eterniza seu sorriso franco e generoso. É um reflexo de sua bonomia e de seu prazer em estar com o público.


Em dezembro essa foto completará dez anos. Mas este post é minha singela contribuição aos 80 anos que o amado e saudoso Guarnieri completaria no dia 6 de agosto deste ano.

Saudade.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

"Nunca a vassoura foi tão necessária"...




Meus caros,
quando revejo propagandas como esta, da campanha de Jânio Quadros para a prefeitura, em 1985, lembro-me de Norma Desmond: We didn't need dialogue. We had faces! Eu adaptaria a frase para dizer que naquela época não precisávamos de horário eleitoral; nós tínhamos políticos!

Uma frase como "nunca a vassoura foi tão necessária" vale por uma campanha inteira. E embora traga como destaque a vassoura, símbolo utilizado por Jânio e até hoje associado a ele, é atemporal. Vale para 1985, quando a corrupção era localizada e estigmatizava o corrupto, e vale para hoje, quando a corrupção se tornou pedra angular do atual governo.

No mais, Jânio sempre personificou o combate à corrupção e uma autoridade draconiana no exercício do poder. Qualidades que podiam até assustar alguns, mas empolgavam a maioria, sedenta de um governo sério, honesto, disciplinado e disciplinador. Seu rosto grave, de semblante fechado, professoral e ranzinza não inspirava medo e sim confiança.

Sem qualquer estrutura, com as propagandas mais quadradas e antiquadas, e um programa de TV tosco e de baixa qualidade, Jânio venceu FHC, que vinha com marketeiros, consultores, produtores, diretores, o elenco inteiro da Rede Globo, toda a classe artística e intelectual. Um lição de política.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Theda Bara


Enquanto Lilian Gish arrancava lágrimas de piedade
e misericórdia das mulheres, ELA excitava e provocava os homens.
Foi Carmen, Salomé, Cleópatra e dezenas de outras... e foi também
o primeiro símbolo sexual do cinema. Seu nome artístico era tão exótico
e marcante quanto sua beleza: THEDA BARA

Theda Bara, aliás "Theodosia Burr Goodman", foi o primeiro símbolo sexual da telona. Sua beleza robusta, seus figurinos (ou a falta deles), o personagem "The Vamp" no filme "A Fool There Was" (1915) e a nababesca e erótica "Cleópatra" de 1917 (infelizmente perdida) a transformaram em verdadeira divindade do cinema mudo.

Seu nome artístico era um anagrama de "arab death" (morte árabe), suas fotos, sobretudo os retratos promocionais de sua Cleópatra - mostrando seus olhos enormes, transbordando emoção, eloqüentes em sua tragicidade, onde podemos ler um oceano de experiências, vícios e tristezas - são obras-primas da realidade.

Só que nada disso é verdade. Ela era filha de imigrantes e seu nome nada tem a ver com "morte árabe" nenhuma. "Theda" é uma corruptela de "Theodosia" e "Bara" era diminutivo de "Baranger", sobrenome de solteira de sua mãe. Theda foi para o teatro na juventude e de lá para o cinema. E embora fosse a preferida de William Fox (fundador do Fox Films, mais tarde a 20th Century Fox), ela não era uma boneca ôca e manipulável, que o estúdio mastigou, deglutiu e cujo caroço cuspiu sem dó. Ela era inteligente, estudiosa e articulada; contratou sponte própria o curador do Museu Metropolitano de Nova York para ajudá-la na composição de sua Cleópatra, brilhou no cinema o quanto quis, casou-se em 1921, aposentou-se em 1926 e morreu em 1955. Estava esquecida, mas o futuro lhe fez justiça. Seu olhar melancólico e profundo é hoje tão conhecido quanto Chaplin, Valentino ou Garbo.

Theda nasceu há exatamente 129 anos, em 29 de julho de 1885.









Fritz Leiber e Theda

A maravilhosa nudez de Theda e os figurinos que levaram associações femininas
a boicotar "Cleópatra" por não ser "adequado" ao grande público


Theda em 1939, retratada pelo fotógrafo Carl Van Vechten
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