domingo, 17 de novembro de 2013

Luis Oliveira Dias e a inesquecível ORNABI



Que saudade da ORNABI... três, quatro andares? Oito, nove salas? Centenas de milhares de obras, o prazer de andar de pavimento em pavimento tropeçando e trombando com obras primas, com Alencar, com Machado, com Ruy, com Nabuco... quantos livros não li no silêncio e na tranqüilidade das recônditas reentrâncias de cada salão? Como testemunhas, somente o retrato de Seu Luis com Brasil Bandecchi e outro com Pontes de Miranda. O resto, como dizia Hamlet, era silêncio. Sossego. E de vez em quando, ao longe, a voz esganiçada do Seu Luis. Saudade pura.


O papo sempre descontraído e divertido com o querido Seu Luis... Sem ele, o centro já não é mais o mesmo... a esquina da Quintino Bocaiúva com a Benjamin Constant parecia estacionada no tempo graças à ORNABI. Sentia-se à noite uma sensação tão extraordinária de nostalgia, de bondes parados, de alunos de terno e chapéu, de elevadores de madeira, de café passado na hora, do cheiro da garoa tocando o chão quente... era estar no centro em 1945.





Por volta de 2008, creio, o Seu Luis, já com quase 90 anos, se desfez do acervo gigantesco de livros da ORNABI e se aposentou. Pouco antes disso acontecer, seu dia-a-dia foi felizmente registrado em dois pequenos documentários. O primeiro, que parece ser trabalho de alunos da FAAP, chama-se "Histórias e Sebos - Quintino, 167, Sala 9".


O segundo, excelente, é de Camilo Cassoli e se chama "Livraria ORNABI". Embora curto, capta algo da essência desse maravilhoso livreiro. Assistam.

Seu Luis se foi em janeiro de 2011, aos 92 anos.

Saudades, Seu Luis.


Livraria Ornabi from CurtaDoc Acervo on Vimeo.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O Brigadeiro Faria Lima

O Brigadeiro José Vicente Faria Lima

ENTREVISTA A FERREIRA NETTO

Para aqueles que passam todos os dias pela avenida, vêem a estátua de Luiz Morrone, ouvem falar do "brigadeiro" e nunca puderam ligar nome à pessoa, aqui vai uma entrevista que o grande Brigadeiro Faria Lima, um dos maiores prefeitos de São Paulo, deu ao saudoso Ferreira Netto na TV Tupi, em abril de 68, sobre o fim das eleições municipais.



ALMOÇO DE SOLIDARIEDADE AO
PREFEITO FARIA LIMA

Almoço de solidariedade organizado pela Câmara e pelo secretariado municipal, ao prefeito Faria Lima. Pelo tom de desabafo do discurso e a menção à conversa com o senador Daniel Krieger, então presidente da Arena, estamos em meados de 1968 e a solidariedade se deve à decisão do Brigadeiro de optar pela Arena, e não pelo MDB, como fez grande parte de seus correligionários do passado recente, inclusive Jânio.




FARIA LIMA E A CRIAÇÃO DO METRÔ PAULISTANO

Em 24 de abril o prefeito Faria Lima funda a Companhia do Metropolitano de São Paulo. Alguns meses depois, teriam início as obras de instalação do metrô paulistano. Nesta entrevista ao jornalista Almir Guimarães, da TV Tupi, o prefeito conta a boa nova ao povo paulistano e brasileiro, em rede nacional.

Na última parte do video está a assinatura do contrato, com a presença de secretários como Quintanilha Ribeiro, Rafael Baldacci e assessores como Marco Antônio Mastrobuonno.

______________________________________________________

Veja também:

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Sortido Cultural


CENTENÁRIO DE NELSON RODRIGUES

Nelson em 1949
Bom, antecipando em um dia a comemoração do centenário do Nelson, publico aqui duas fotos dos ensaios de A SENHORA DOS AFOGADOS, de 1954. A peça estava censurada havia um ano, foi liberada por gestões de Otto Lara junto a Tancredo Neves, então Ministro da Justiça, e acabou montada pela efêmera Companhia Dramática Nacional, de Henrique Pongetti, criada sob os auspícios do Serviço Nacional de Teatro, quando estava sob o comando de Aldo Cavet.

Mais auspicioso ainda foi o fato de Pongetti ter convidado Bibi para dirigir o espetáculo, o que hoje pode ser visto de forma simbólica; Procópio, seu pai, representava, justa ou injustamente, o teatro de comédia que Nelson e seu teatro haviam sobreposto e jogado na obsolescência. Aceitando o convite, ela provava sua versatilidade, sua modernidade e fazia uma espécia de ponte entre a geração que se apagava e aquela que surgia, trazendo o melhor dos dois mundos. E o cenário ficava a cargo do celebérrimo paraibano Tomás Santa Rosa, cenógrafo da lendária primeira montagem de VESTIDO DE NOIVA e ilustrador de livros dos autores mais importantes do Brasil, pela José Olympio (Santa, aliás, morreu prematuramente, somente dois anos depois, em 1956, aos 47 anos).

Acima, Bibi, Sônia Oiticica e Nelson e abaixo, Bibi, Natália Timberg e Maria Fernanda


Programa com o elenco de 1954
Mais do que sucesso, o espetáculo gerou polêmica. É famosa a história de que no fim da estréia carioca, em 1º de julho de 54, metade do público gritava que Nelson era um "gênio" e a outra metade o apodava de "tarado". Nelson teria subido ao palco para admoestar a segunda metade, chamando-os de "burros". Seja como for, a primeira montagem de A SENHORA DOS AFOGADOS teve uma elogiada direção de Bibi - que vemos na primeira foto dirigindo Sônia Oiticica, ambas observadas pelo próprio Nelson - e um elenco brilhante que incluía nomes já consagrados como o de Maria Fernanda - à direita, na segunda foto - e a estréia profissional de Natália Timberg - no meio, na segunda foto, entre Bibi e Maria Fernanda.

Enfim, feliz centenário a Nelson, o bom tarado. (22/8/2013)

O BONDE DO CATETE

Que delícia de época, aquela em que o afamado revisteiro J. Maia (que está vivo até hoje, creio) podia fazer divertido trocadilho fonético com o bonde que ia ao Catete, e o bonde eleitoral que iria levar um daqueles candidatos ao Palácio do Catete. Era mesmo um Bonde do Cacete! No desenho vemos a propaganda da peça, que estreou em setembro de 1949, véspera do ano eleitoral, em que as candidaturas ainda se desenhavam.

Vargas é o guarda de trânsito, só observa de longe, dando coordenadas e movendo os peões do tabuleiro político, sempre ao lado de sua própria conveniência, sem assumir compromisso que não possa ser quebrado sumariamente minutos depois. Em cima do bonde, tal qual verdadeiro surfista pré-histórico dos trens, está o cacique catarinense e vice-presidente, Nereu Ramos, surfando entre trampolinagens e picaretagens, em busca de garantir o seu. Na frente de todos, o desastrado motorneiro Adhemar de Barros, então num verdadeiro espinheiro político; governador de São Paulo, mas brigado com seu vice (Novelli Jr., genro de Dutra), o que o impossibilitava de se desincompatibilizar e concorrer à presidência, por temer que Novelli decretasse uma devassa policial em sua administração no momento em que assumisse, jogando no ventilador da imprensa todas as suas contravenções e arruinando suas chances de chegar ao Catete.

Eros Volúsia, em 1941
Na seqüência temos Oswaldo Aranha, líder civil do malsinado golpe de 30 e agora diplomata na ONU, também procurando manter-se vivo entre o bem e o mal. E os retardatários que no fim se tornavam o fiel da balança: o ainda poderosíssimo governador baiano Otávio Mangabeira, o governador mineiro Benedito Valadares, o também mineiro ex-presidente Arthur Bernardes e o último, que me foi o mais difícil de reconhecer, mas que imagino ser o ladino e escorregadio Cyrillo Jr.

No elenco de Bonde do Catete as maiores figuras do Teatro de Revista, como Armando Nascimento, Áurea Paiva, Eros Volusia, Floripes Rodrigues, Silvino Neto (pai do comediante Paulo Silvino), Tito Caldareli, Walter D´Avila e Zaira Cavalcanti.

No Teatro Santana, atrás do Teatro Municipal.

Na eleição do ano seguinte, o único que participaria, efetivamente, como candidato, seria Vargas. Seus adversários foram Eduardo Gomes e Cristiano Machado. Vargas venceu. E se matou quatro anos depois, em 24 de agosto de 1954. (23/8/2012)

SEM PENSAR, com Denise Fraga e Júlia Novaes

Com Júlia Novaes
No feriado de 7 de setembro fui ao Memorial da América Latina assistir o encerramento da temporada nacional de Sem Pensar, peça da jovem inglesa Anya Reiss que Denise Fraga mandou traduzir e montou com direção de seu marido, o diretor de cinema Luiz Villaça. O teatro estava apinhado de gente até o teto e a apresentação foi marcada pela emoção do elenco e do público, no que foi a despedida de uma temporada de sucesso. Sobre Denise não é necessário dizer nada; admirador dessa magnífica atriz há 25 anos, considero-a perfeita em tudo que faz. Na pele da atrabiliária mãe de família Vicky, deleitou a todos com suas lamúrias e seus escândalos. Mas quem realmente roubou a cena foi Júlia Novaes, que encarnou a adolescente Delilah, pára-raio de toda a disfuncionalidade de seus pais. Amigo de sua família, conheci Júlia pessoalmente há vários anos, e na última década acompanhei ocasionalmente seus trabalhos no palco, quando ela decidiu se enveredar pela seara teatral.

Denise e Júlia em "Sem Pensar!
O papel da adolescente que enfrenta tanto angústias quanto a descoberta de sua sexualidade é tão manjado que geralmente constitui armadilha para qualquer atriz. Não neste caso. Reiss não tentou, em nenhum momento, escrever um tratado definitivo sobre a adolescência. Escreveu despretensiosamente, ao correr da pena, como mera atividade de seu grupo de dramaturgia no Royal Court Theater. Júlia seguiu a mesma linha. Sua interpretação não tem exageros e sua dramaticidade é perfeitamente crível. No mais, explorou o viés cômico do personagem, fugindo de forma inteligente do subterfúgio fácil de torná-lo simplesmente ridículo; foi divertida sem ser cretina, foi comovente sem ser patética, e tudo com uma energia extraordinária, não deixando nem por um minuto sua performance perder a força, num espetáculo em que ela é, de fato, a protagonista. Um excelente trabalho. E um prazer revê-la. (9/9/2012)


OS 90 ANOS DE PAULO AUTRAN

Concentrado em assistir Denise Fraga na peça “Sem Pensar”, no teatro do Memorial da América Latina, acabei esquecendo que naquele dia, sexta-feira, 7 de setembro, Paulo Autran completaria 90 anos. A comemoração se reveste de saudade, o mestre nos deixou em 2007, mas sua presença é sentida não só nos palcos, mas nas mais variadas manifestações artísticas.

Hoje não falarei dele, embora tempo suficiente tenha passado, desde sua partida, para que em breve eu redija algo interessante sobre o período em que acompanhei sua carreira. Prefiro celebrar esses 90 anos voltando ao início, mostrando um documento de sua primeira consagração: o prêmio de revelação como melhor ator por sua performance na peça de Guilherme Figueiredo, Um Deus dormiu lá em casa, em que dividiu o palco com Tônia, Vera Nunes e Armando Couto. A direção foi de Silveira Sampaio e o espetáculo estreou em 13 de dezembro de 1949. Já no dia 9 de janeiro de 1950 a Associação Brasileira de Críticos Teatrais se reuniu e decidiu os melhores do ano anterior.

Diário da Noite, 10/1/50
Guilherme e Silveira já tinham certa nomeada e receberam os prêmios de melhor autor e diretor. O prêmio de melhor ator não chegou a ser concedido, por algum pepino da votação. O de melhor atriz foi para Eva Todor, por Lili do 47, de Joracy Camargo, que ela montou com sua própria companhia no ano anterior. Paulo e Tônia receberam os prêmios de revelação para ator e atriz, cujo critério era “primeira peça, ou para os que apareceram, no máximo com seis meses de atividade profissional”. Ambos qualificavam, pois Paulo já estava há dois anos trabalhando em teatro, mas sem se profissionalizar e sem deixar completamente a advocacia. E Tônia pisava em um palco pela primeira vez, recém-chegada de um curso de interpretação na Europa. De quebra veio o prêmio de revelação para melhor cenógrafo, destinado a Carlos Thiré, na época marido de Tônia (Vera Nunes e Armando Couto não foram agraciados pela simples razão de que não havia prêmios para coadjuvantes). E sob o mesmo critério de revelação, o prêmio de melhor autor foi para Gustavo Dória – que se aventurou pela dramaturgia embora fosse formalmente um crítico – e o de melhor diretor foi para Sadi Cabral, que na verdade era ator há mais de 20 anos.


O que veio a seguir foram 58 anos de carreira que misturaram quatro peças de Shakespeare, quatro de Molière, e o repertório mais eclético de todos os tempos, incluindo Brecht, Ibsen, Sartre, Gorki, Beckett, Pirandello, Sófocles, Goldoni, Feydeau, Shaw, Pinter, Noel Coward, Arthur Miller, Tenessee Williams e dezenas de outros. Entre os brasileiros, Gonçalves Dias, o já citado Guilherme, Pongetti, Callado, João Cabral de Mello Neto, Flávio Rangel, até chegar a Mauro Rasi e Maria Adelaide Amaral. Comédias de costumes, boulevard, dramas, tragédias, musicais e até novelas, Paulo fez tudo. Saudade. (10/9/2012)


TOM E VINÍCIUS, CHOPP DA BRAHMA


Meus caros,

Queria ter postado isto no centenário de Vinícius. É um comercial da Brahma de 1991, que utilizou aquilo que era a tecnologia mais extraordinária da época, para antecipar um encontro que ocorreu três anos depois.

Quando assisti, chorei. Achei uma jóia de sentimento e de criatividade. Não parei de ver TV até gravar em video. A crítica, aquela patrulha babaca que nunca deixou o Tom em paz, desceu o pau; disse que era mórbido, que era exploração... ô gente infeliz.

Quem conhece, reveja. Quem não conhece, conheça e se emocione.




AYN RAND - DA PRODUTIVIDADE

Ayn Rand
Meus caros,
estou maravilhado com Ayn Rand. Poderia passar o resto do dia postando seus irretocáveis pensamentos sobre tudo. Neste momento vou pinçar dois comentários sobre 
produtividade, que endosso com o máximo prazer. Lembrei Bilac:

Se um moço escritor viesse, nesse dia triste, pedir um conselho à minha tristeza e ao meu desconsolado outono, eu lhe diria apenas: ama a tua arte sobre todas as coisas e tem a coragem, que eu não tive, de morrer de fome para não prostituir o teu talento!

The virtue of Productiveness is the recognition of the fact that productive work is the process by which man’s mind sustains his life, the process that sets man free of the necessity to adjust himself to his background, as all animals do, and gives him the power to adjust his background to himself. Productive work is the road of man’s unlimited achievement and calls upon the highest attributes of his character: his creative ability, his ambitiousness, his self-assertiveness, his refusal to bear uncontested disasters, his dedication to the goal of reshaping the earth in the image of his values. “Productive work” does not mean the unfocused performance of the motions of some job. It means the consciously chosen pursuit of a productive career, in any line of rational endeavor, great or modest, on any level of ability. It is not the degree of a man’s ability nor the scale of his work that is ethically relevant here, but the fullest and most purposeful use of his mind.

Ayn Rand
.Productiveness is your acceptance of morality, your recognition of the fact that you choose to live:
—that productive work is the process by which man’s consciousness controls his existence, a constant process of acquiring knowledge and shaping matter to fit one’s purpose, of translating an idea into physical form, of remaking the earth in the image of one’s values;
—that all work is creative work if done by a thinking mind, and no work is creative if done by a blank who repeats in uncritical stupor a routine he has learned from others;
—that your work is yours to choose, and the choice is as wide as your mind, that nothing more is possible to you and nothing less is human;
—that to cheat your way into a job bigger than your mind can handle is to become a fear-corroded ape on borrowed motions and borrowed time, and to settle down into a job that requires less than your mind’s full capacity is to cut your motor and sentence yourself to another kind of motion: decay;
—that your work is the process of achieving your values, and to lose your ambition for values is to lose your ambition to live;
—that your body is a machine, but your mind is its driver, and you must drive as far as your mind will take you, with achievement as the goal of your road;
—that the man who has no purpose is a machine that coasts downhill at the mercy of any boulder to crash in the first chance ditch;
that the man who stifles his mind is a stalled machine slowly going to rust;
that the man who lets a leader prescribe his course is a wreck being towed to the scrap heap, and the man who makes another man his goal is a hitchhiker no driver should ever pick up;
—that your work is the purpose of your life, and you must speed past any killer who assumes the right to stop you;
that any value you might find outside your work, any other loyalty or love, can be only travelers you choose to share your journey and must be travelers going on their own power in the same direction.

http://aynrandlexicon.com/ (03/01/2014)

Antes de Tornar-se Marilyn


Mais uma efeméride. Desta vez o jubileu de ouro do falecimento da maravilhosa Marilyn Monroe: 5 de agosto de 1962. Em 1987, quando o Globo Repórter ainda era o melhor programa jornalístico da TV, e não uma mera extensão do “Mundo Animal”, como hoje, houve uma edição dedicada aos 25 anos da morte de Marilyn. Assisti e, na efervescência dos meus 15 anos, me apaixonei descontroladamente pela linda e sofrida Norma Jean. A data também alavancou o lançamento de novas biografias da atriz, entre elas a mais completa até então, escrita pelo inglês Anthony Summers. O documentário da Globo e o livro de Summers marcaram o início de minha paixão não só por Marilyn, mas pelo cinema, e, mais à frente, pelo teatro. Quando olho para trás verifico que, embora tenha me tornado um expert na vida e na carreira dessa moça de Los Angeles, nascida em 1º de junho de 1926, ainda estou longe de esgotar sua filmografia.

Filme da coleção VHS da CBS/FOX
 (é meu, mesmo, tenho até hoje)

No fim da década de 80 a internet não existia, a tecnologia digital engatinhava, o compartilhamento de arquivos ainda era ficção cientifica e se alguém quisesse assistir filmes antigos, especialmente os desconhecidos, teria que se dedicar a um garimpo dos mais ingentes pelas lojas de vídeo dos Estados Unidos. O Brasil sequer entrava nessa cogitação.

Fiz isso. Comprei dezenas de filmes das belíssimas coleções de VHS da Fox, e de outros estúdios, sempre que necessário. Mas pouco se fala dos primeiros 15 ou 20 filmes de Marilyn, os que ela fez entre 1948 e 1952. E nem há muito o que dizer; com raríssimas exceções, não fizeram fama, não tiveram notoriedade e não têm qualquer valor, mas como contém cenas, ainda que mínimas, com a jovem Marilyn, receberam automaticamente seu lugar na história. Vamos a um pequeno comentário sobre eles, para situar os fãs que estão chegando agora, e espanar a memória daqueles que, como eu, já cultivam esse mito há algumas décadas.

Marilyn, à esquerda, na canoa
O primeiro filme, uma idiotice chamada Scudda Hoo! Scudda Hay!, de 1948, é tão inútil que a única cena de Marilyn, muda, dentro de uma canoa, não sobreviveu à sala de edição e não aparece no produto final. Em Dangerous Years e Ladies of the Chorus (também de 48) ela tem seus cinco segundos, que não foram suficientes para torná-la menos desconhecida, mas acabaram lhe valendo uma cena junto a Groucho Marx em Love Happy, filme esquecível dos Irmãos Marx produzido pela United Artists em 1950. É esse o ano que marca sua entrada definitiva no cinema. Ela se divide entre bobagens como A Ticket to Tomahawk (veículo para o cantor e dançarino Dan Dailey), The Fireball (veículo para Mickey Rooney) e The Right Cross (em que roça ombros com talentos como Lionel Barrymore, Ricardo Montalban e Dick Powell sem sequer constar dos créditos) com papéis pequenos, mas de fundamental importância em duas obras-primas do cinema: The Asphalt Jungle, de John Huston, e All About Eve, de Joseph Mankiewicz.

Marilyn e Groucho Marx
























Foto publicitária de Let's Make it Legal
Não adiantou nada. Ao invés de seguir uma linha ascendente, valendo-se de suas coadjuvâncias em dois filmes tão memoráveis (com a fama de sua ingênua e burra Mrs. Caswell, de All About Eve, ela até apresentou um prêmio no Oscar daquele ano), 1951 teve quatro filmes inteiramente inúteis: Hometown StoryAs Young as You FeelLove Nest e Let’s Make it Legal, este último o menos pior, contando em seu elenco com estrelas consagradíssimas como Claudette Colbert, e jovens em ascensão como o galã Robert Wagner. Mas Marilyn – vá lá o lugar comum – era um diamante bruto, emanava carisma e exalava sexualidade. Sua presença no celulóide, por mais bobos que fossem os filmes, era inesquecível. Em 1952, por pura inércia, sua estrela começou a brilhar. Ela coadjuvou Barbara Stanwick em Clash by Night, com direção do lendário Fritz Lang. O termo “blonde bombshell” começou a ser utilizado para caracterizá-la. Na seqüência veio a comédia We’re not Married, em que ela coadjuvou Ginger Rogers e uma pilha de notáveis como Zsa Zsa Gabor, David Wayne e Mitzy Gaynor. Tornou-se impossível não notá-la. Mais do que isso; o filme passou a valer por sua presença. O crítico do New York Herald Tribune disse que ela “parecia esculpida a partir de um bolo, por Michelangelo”.

Cada vez mais "Marilyn"... aqui, em foto 
publicitária de "We're Not Married"

O ano de 1952 ainda teve mais três filmes completamente diferentes: Don’t Bother to Knock, primeira protagonista dramática de Marilyn, com Richard Widmark e a jovem Anne Bancroft. A iniciativa foi arrojada, não se pode negar, e a oportunidade não era ruim, mas o filme é risível, tal a canastrice da lindíssima Marilyn. As críticas foram mistas, ninguém chegou a destruir a esforçada iniciante, mas foi melhor jogá-la em nova comédia para que se mantivesse seu status de promessa. O resultado foi Monkey Business, que, sem maiores predicados, traz Cary Grant e Ginger Rogers nos papéis principais. Aquele ano, em que se operou a grande virada na carreira de Marilyn, quatro anos após sua estréia morna e sem graça, terminou com uma pequena participação junto a Charles Laughton em um dos episódios de O’Henry’s Full House.

Marilyn e Charles Laughton em "O'Henry's Full House"





















Foi em 1953, entretanto, que Norma Jean virou, para sempre, Marilyn Monroe. O ano começou com Niagara, drama hoje também pra lá de risível pelas caretas maquiavélicas do personagem de Marilyn, mas que entrou para a história pela maneira quase lúbrica que sua beleza foi mostrada. Segundo o crítico do NY Times, “talvez a Srta. Monroe não seja uma atriz perfeita, a esta altura. Mas nem o diretor (Henry Hathaway) e nem o sujeito que manobra as câmeras parecem preocupados com isso. Eles captaram cada curva possível na intimidade do dormitório e em vestidos igualmente justos e reveladores. E ilustraram de forma bastante concreta que ela pode ser sedutora; até mesmo quando anda”.

Marilyn, em cena célebre de Niagara
Monkey Business teve outro trunfo, além da presença de um consagrado casal protagonista: era o diretor Howard Hawks, que conheceu Marilyn nesse filme e resolveu escalá-la em seu próximo projeto: a adaptação cinematográfica do best-seller de Anita Loos, Gentlemen Prefer Blondes. O resto é história.

Curiosamente, eu estava em Los Angeles em 2001, quando se comemorava seu 75º aniversário. Fui a Hollywood e vi suas mãos e pés no cimento, em frente ao Grauman’s Chinese Theater. Não tive a epifania que esperava. Aquilo é pouco. Sinto que o melhor de Marilyn ainda estava por vir. Há quem diga que sua morte veio no momento exato de se eternizar a imagem da atriz como deveria ser, e que o futuro teria dissolvido o mito. Talvez.

Volto a Marilyn em detalhes no blog, assim que possível. Também falarei de Dulce Damasceno de Brito, correspondente de Chatô nos Estados Unidos na década de 50, e que privou com Marilyn como poucos. Dulce era uma pessoa doce, gentil, inteligente e fico triste de ver que, com sua extraordinária carreira, tendo sido a única brasileira a conhecer e a conviver com os maiores astros da Hollywood dos anos de ouro, sua morte passou em brancas nuvens, em 2008. (21/8/2012)

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

"Bibi Vive Amália", com Orquestra Sinfônica em Belo Horizonte




Meus caros,
aqui vai, pela generosidade de nossa amada Bibi Ferreira, e pela solicitude do amigo Guilherme Corrêa, o espetáculo BIBI VIVE AMÁLIA, de 2001, no que parece ter sido uma de poucas récitas com orquestra sinfônica,  e neste caso em Belo Horizonte. Como todos sabem, neste espetáculo Bibi encarna em prosa e música a maior fadista de todos os tempos, Amália Rodrigues. Esta é a ficha técnica:

Piano e regência: Nelson Melin
Violão: Victor Lopez
Acordeon: Irene Mutanen
Baixo-elétrico: Álvaro Augusto
Bateria: Jamir Torres
Músico convidado:
Carlos Gonçalves (guitarra portuguesa)

Texto e direção: Tiago Torres da Silva
Direção musical: Nelson Melin
Cenário: Alexandre Murucci
Figurino: Francis Fabian

Parte 1 — "Ouverture", "Fadinho Serrano", "Quando eu era pequenina", "Ai, Mouraria" e "Perseguição".


Parte 2 — "O Barco Negro", "Lisboa Antiga", "Lágrima" e "Povo que lavas no rio".



Parte 3 — "Coimbra", "Nem às Paredes Confesso", "A Casa da Mariquinhas", "Lua Luar" e "Coqueiro de Itapuã". (Por ter conteúdo da Warner — a música "Lua Luar" — este vídeo provavelmente terá que ser assistido no próprio Youtube)





Parte 4 — Nesta quarta e última parte temos a versatilidade de Amália, em "Canzone per Te", "Trepa no Coqueiro", "El Porompompero", Uma Casa Portuguesa" e o bis emocionante de "Coimbra".

sábado, 2 de novembro de 2013

Uma Noite no Teatro Paulista, em 1928


No primeiro quarto do século XX o Rio de Janeiro, capital da República, ainda surrava São Paulo em praticamente todas as áreas, inclusive a cultural. Sampa, entretanto, não era mais a cidadezinha de "modesto viver provinciano" como anunciara um jornal, tempos antes, e já experimentava o surgimento de diversos cinemas e teatros. Os subúrbios eram amargamente ignorados e sofriam com o descaso do Poder Público, mas o centro tinha uma vida noturna bastante agitada. Como sempre, é necessário manter em perspectiva que o centro e suas cercanias não eram esse mercado persa, desorganizado, anárquico, lotado e imundo que são hoje. A presença, no perímetro central, da Faculdade de Direito, do Teatro Municipal, da Bolsa de Valores e da Câmara Municipal dava ao centro o status único de meca cultural, intelectual, comercial e política da metrópole.


Abigail Maia, em foto de 1915
No comercial acima, retirado de um jornal de 1928 temos um instantâneo daquilo que o paulistano tinha à sua disposição para o lazer teatral que vinha depois do trabalho ou do estudo. Entretenimento para todos os gostos e um passeio pela história do teatro naquela época. O THEATRO APOLLO, na rua Dom José de Barros, era ocupado pela recém-formada companhia da grande atriz Abigail Maia – madrinha de Bibi Ferreira e razão pela qual Bibi chama-se, de fato, "Abigail" – e do polivalente menino prodígio Raul Roulien (ela com 41 anos e ele com 23), sob a tutela artística de Oduvaldo Vianna, marido de Abigail. No cartaz, a chamada "festa", espécie de festival que misturava música, sketches e entre-atos em homenagem a este ou aquele ator. Aqui a festa era para Ruth Vianna, que, hoje desconhecida, imagina-se que seja uma parente de Oduvaldo que integrava a companhia. A festa consistiu em duas revistas com o mesmo entre-ato. Note-se também que atualmente é raro uma peça ter três sessões semanais; no anúncio vê-se o aviso de três sessões DIÁRIAS, o vesperal às três da tarde, e as duas sessões noturnas, às sete e meia e às dez.

No THEATRO CASINO ANTARCTICA – que é exatamente o que se imagina: um amplo teatro construído sob os auspícios e o financiamento da Cervejaria Antarctica, em pleno Vale do Anhangabaú, que na época era uma avenida, e não um vale – estava a maior estrela do Teatro de Revista, até então: Margarida Max, que Raimundo Magalhães descreve como sendo "uma atriz italiana, grandalhona e sem graça, mas com um fio de voz". Pra variar, um vômito de azedume desse bilioso escritor. Analisemos: o que se diz por aí é que ela nasceu em São Paulo e fez sua estréia profissional em Franca, no interior paulista; Magalhães é o único que proclama a nacionalidade italiana de Margarida. Até aí, não faz muita diferença. Pode até ser que nascesse em Roma e viesse com a família para Franca ainda na infância. Se ela era "grandalhona" não sei, mas convém lembrar que Magalhães tinha 1 metro e meio de altura, era cabeçudo, atarracado, parecia um tatu-bola, e é natural que qualquer uma das robustas e roliças atrizes da época lhe parecesse grandalhona. Já a qualificação de "sem graça, mas com um fio de voz" me parece se encontrar no campo das subjetividades. A concepção de graça e de potência de voz nem sempre é a mesma para um e para outro. Neste caso particular, é bom ressaltar que Magalhães era complexado, leviano e vingativo, e não me surpreenderia que seus comentários – que apareceram convenientemente quando Margarida já estava morta – fossem conseqüência de algum tipo de frustração, artística (Magalhães tinha fumaças de dramaturgo) ou romântica.

Margarida Max

O que importa é que Margarida – “a inexcedível”, como chegou a ser chamada – era soprano, uma das primeiras atrizes brasileiras a adotar o revolucionário corte de cabelo a la garçon de Louise Brooks, foi protagonista dos maiores sucessos de público do Teatro de Revista e estava no auge, aos 38 anos, levando uma série de espetáculos de Luiz Peixoto, Marques Porto, Carlos Bittencourt e Cardozo de Menezes, alguns dos mais importantes revisteiros de todos os tempos.

Jardel Jércolis
No THEATRO COLOMBO, que ficava no Largo da Concórdia, estava a celebérrima Companhia de Revista Tró-ló-ló, fundada três anos antes por Patrocínio Filho – o boêmio e desregrado filho do tigre da abolição – Jardel Jércolis – sobrinho de Chiquinha Gonzaga e pai de Jardel Filho – e o empresário Francisco Serrador. A peça levada (em sessão única, o que causa espécie) é Lua Nova, da portuguesa Auzenda de Oliveira, afamada escritora de revistas e operetas. Como se aproximasse o feriado de Finados, a companhia tratou de não melindrar os mais beatos e demonstrou seu respeito com a encenação de O Martyr do Calvário, escrita pelo também português Eduardo Garrido, e que o próprio autor definia como um "mistério sacro em 5 atos e 16 quadros". Tudo com a iluminação poderosa dos "refletores X-RAY, da General Electric", e com direito, no anúncio, a uma resenha com os bondes que poderiam trazer a população citadina ao Colombo, no coração do Brás.

Platéia do Colombo em 1921

Por fim, os maravilhosos cabarés, o divertimento adulto, "impróprio para menores e senhorinhas", trazendo sketches de humor e música politicamente incorretos, picantes, eróticos, subversivos, e a nudez total, escandalosa, lúbrica, indecente (e que hoje vemos até nas versões recentes do Sítio do Pica-Pau Amarelo) de corajosas coristas, atrizes ou coisa que o valha, sob o título de "nu artístico", "arte realista" e até mesmo o "nu artístico parisiense", que é o que anunciava o MOULIN BLEU, de nome plagiado tão descaradamente do Moulin Rouge francês. Infelizmente não pude apurar onde se localizava esse cabaré, mas suponho que fosse, a exemplo de outros, nas adjacências das praças da Sé ou República. 

O Moinho do Jéca, contemporâneo e similar do Moulin Bleau

A beleza moderníssima de Anita Loos, nos anos 20

Para pontuar a diferença entre o Moulin Bleu, que era um "cabaré" – estabelecimento onde se bebe, dança e assiste espetáculos performáticos de conteúdo adulto ou não – e um simples puteiro, é só ver as atrações: à parte o tal "nu artístico", que devia ser um desfile de mulheres nuas à meia-luz, com véus pra lá e pra cá, escondendo e mostrando, havia sketches de Anita Loos, a famosa escritora norte-americana que dois anos antes lançara sua obra-prima, Gentlemen prefer blondes; performance da bailarina Vilma (seja ela quem for) e números musicais de Genésio Arruda e Tom Bill, embriões do humor caipira que viriam a desembocar em Alvarenga e Ranchinho e mais tarde no próprio Mazzaropi. E a promessa pra lá de eclética: no sábado, o início da “Semana Napolitana” com “belas cançonetas, bailados, música típica”, em suma, aquilo que o próprio cabaré anunciava como “Piedigrotta no Moulin Bleu”, remetendo à uma antiga festa pagã que ainda existe em Nápoles, e é uma espécie de carnaval em miniatura. Para concluir, a estréia de “Criollito”, que deve ter sido o rei dos tangos só no Brasil, ou veio antes de Carlos Gardel. (Agosto de 2012)

O Arquivo Público de São Paulo

Meus caros,
aqui vai um vídeo promocional do Arquivo Público do Estado de São Paulo, no qual prestei rápido depoimento, junto ao diretor Carlos Bacellar. Poucas serão sempre as palavras para elogiar essa instituição, que tantos e tão maravilhosos serviços têm prestado à história e aos historiadores. 



Aproveito para mandar um abraço e minha eterna gratidão ao ex-diretor Lauro Ávila Pereira, sem o qual nem o primeiro volume da biografia de Jânio, e nem os próximos que virão, poderiam ter sido feitos. Da mesma forma agradeço a Tárcio Sandro e Kátia Batemarchi, tão competentes e tão fundamentais.

Assistam. É gostoso poder elogiar uma instituição governamental que efetivamente funciona.

http://www.arquivoestado.sp.gov.br/

Bernardo

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...