segunda-feira, 1 de agosto de 2011

As Eleições Municipais de São Paulo em 1928 e 1936 — Parte 1/2


Antônio da Silva Prado

O 30 de outubro, vivido em São Paulo em 1928, era página inapagável no livro da consciência de qualquer homem de bem. Fôra a subversão total da moralidade pública.
(Paulo Nogueira Filho, 1958)

O Executivo e o Legislativo paulistanos têm uma história no mínimo irregular durante a primeira metade do século XX. A Lei Municipal nº 374, de 29 de novembro de 1898, reorganizou o Poder Executivo e criou o cargo de “Prefeito Municipal”, escolhido pelos vereadores entre os membros da própria Edilidade, com mandato de um ano. O primeiro foi Antônio da Silva Prado, reeleito pela Câmara nove vezes. Em 1907, a Lei Estadual nº 1.103 instituiu eleições diretas para a prefeitura, aumentando o mandato para três anos, o que o igualava ao mandato dos vereadores. O eleito foi o próprio Silva Prado, que permaneceu na prefeitura até janeiro de 1911. Em outubro de 1910, entretanto, baixou-se a Lei Estadual nº 1.211, que restabeleceu as eleições indiretas e diminuiu novamente para um único ano o mandato do prefeito. Os vereadores elegeram Raymundo da Silva Duprat — dito “Barão de Duprat”, graças ao título que recebeu do Papa Pio X em 1907 — reeleito sucessivamente até janeiro de 1914, quando foi sucedido por Washington Luís. Só que o Paulista de Macaé não foi eleito para o costumeiro mandato anual porque em dezembro de 1913 veio uma nova Lei Estadual, de nº 1.392, que reinstituiu o triênio para o mandato do prefeito.

Provavelmente exausto com esse vai-e-vem de leis, Washington aproveitou que seu amigo Altino Arantes tomara posse no governo de São Paulo em maio de 1916, e insistiu com ele para que as eleições executivas municipais voltassem a ser diretas. Altino concordou e a Lei Estadual nº 1.501, de 30 de setembro de 1916 pôs fim nas mudanças sucessivas, instituindo eleições diretas para a prefeitura, com mandato de três anos. Outra sugestão de Washington acatada por Altino na mesma lei foi a de que não houvesse mais necessidade do candidato a prefeito ser vereador, podendo disputar a eleição qualquer um que morasse em São Paulo há mais de um ano, sendo eleitor inscrito. No pleito de outubro do mesmo ano, para o triênio seguinte, Washington foi o vencedor. Era candidato único. Exerceu o cargo até 1919, quando se tornou governador. Seu vice, Álvaro Gomes da Rocha Azevedo — mais conhecido hoje como “Ministro Rocha Azevedo”, por seu cargo no Tribunal de Contas do Estado — completou os últimos quatro meses do mandato.

Altino Arantes e Washington Luís
Apesar do voto popular, a máquina perrepista continuou trabalhando sem parar, e durante a década de 20, São Paulo teve apenas dois prefeitos: Firmiano de Moraes Pinto, eleito em 1919 e 1922, e José Pires do Rio, eleito em 1925 e 1928. Com o golpe de 1930, São Paulo despencou da previsível gangorra perrepista para um grotesco festival de nulidades promovido pelo governo ditatorial, com raríssimas exceções. Em 32 anos, o município tivera cinco prefeitos e uma rápida interinidade; já nos primeiros quatro anos da ditadura getulista, a capital do Estado teve que engolir nada menos do que 11 prefeitos diferentes. A palhaçada foi interrompida com a nomeação de Fábio da Silva Prado — sobrinho do primeiro prefeito de São Paulo — em setembro de 1934, e as coisas voltaram aos eixos com o seu sucessor, Francisco Prestes Maia, nomeado em maio de 38, para um mandato que só terminaria sete anos depois, com a queda de Vargas. São Paulo veria eleições diretas para prefeito somente em 1953, 25 anos depois da eleição de Pires do Rio. O eleito, depois desse imenso hiato: o mato-grossense Jânio da Silva Quadros.

A Câmara, por sua vez, percorreu doze triênios amorfos de eterna e fraudulenta predominância do PRP desde sua reinstalação em 1892, em plena República, até o pleito de outubro de 1928. As eleições a bico de pena, mortos votando e urnas trocadas à luz do dia ocupavam todo o cenário eleitoral, mas concentravam-se geralmente nas eleições presidenciais, como as que elegeram Hermes, Epitácio e Arthur Bernardes. Nas três eleições, no entanto, tivemos elementos oriundos das mesmas hostes partidárias ou políticas se confrontando. Com o advento de uma dissidência do partido governista, açulada pelas revoltas de 22 e 24, e que acabou transformando-se no Partido Democrático, fundado em 1926, novas lideranças estaduais e municipais começaram a surgir, novas mentalidades, novos objetivos, representando pedra cada vez maior no sapato perrepista e transferindo definitivamente a fraude, da metrópole para o campanário. Fechadas todas as Casas Legislativas com a ascensão de Vargas e os golpistas da Aliança Liberal, a Câmara teve um curto interregno democrático de março de 36 até a decretação do Estado Novo, em novembro de 37, e só retornaria à legalidade exatos dez anos depois, no pleito de novembro de 1947, que foi, aliás, o ponto de partida da carreira política de nenhum outro senão o mesmo mato-grossense, Jânio da Silva Quadros.

Mas este modesto artigo, não fala de Jânio e sim dessas duas eleições municipais — a de 1928 e a de 1936 — hoje esquecidas, obumbradas pelas ocorrências anteriores e posteriores. Um personagem, contudo, participa como protagonista nos dois pleitos: o advogado e parlamentar José Adriano Marrey Junior.

 
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Marrey Jr., pouco depois de formado
Marrey era mineiro de Itamarandiba e nasceu em 7 de agosto de 1885. Seu pai foi chefe do Partido Liberal Mineiro e mais tarde presidente da Câmara Municipal de Teóphilo Ottoni por muitos anos. Curiosamente, foi para não imiscuir-se em política, por saber o quanto seu pai sofrera nos sucessivos cargos que exerceu, que Marrey saiu de Minas, ainda garoto. Não adiantou. Em São Paulo militou no jornalismo acadêmico, formou-se com louvor pelo Largo São Francisco na turma de 1906, e não sendo nomeado promotor de nenhuma comarca pela inimizade que lhe votava Washington Luís, então Secretário de Justiça e Segurança Pública do governo de Jorge Tibiriçá — segundo diria Marrey, em tom jocoso, no futuro — dedicou-se exclusivamente à advocacia. E foi advogando a anulação da eleição de um Juiz de Paz no distrito paulistano de Santa Efigênia que acabou eleito para esse mesmo cargo, no início da década de 10. Em 1913 veio a primeira eleição para vereador. Três anos depois se reelegeu.

Marrey em 1919
Escorado na fama que granjeou pelo denodado trabalho na edilidade, e prestigiado pelo chefe perrepista Olavo Egydio, Marrey se elegeu deputado estadual pelo 1º Distrito, em 1919 (naquele tempo o Estado era dividido eleitoralmente em 10 distritos). Permaneceu na Assembléia Legislativa por três triênios, mas no fim do segundo cansou-se do domínio absolutista do PRP e começou a articular a fundação de um novo partido, que fizesse oposição àquele situacionismo eterno. A idéia foi de encontro às aspirações de outros políticos, como o velho ex-prefeito de São Paulo, Antônio Prado, e o professor Waldemar Martins Ferreira, da Faculdade de Direito. Juntando os três grupos, que incluíam ex-monarquistas como Francisco Morato e Luiz Augusto de Queiroz Aranha, ex-perrepistas como Prado, Marrey e Paulo de Moraes Barros, advogados como Prudente de Moraes Netto e Cardozo de Mello Netto, e latifundiários como Paulo Nogueira Filho, entre outros, surgiu o Partido Democrático, fundado no dia 24 de fevereiro de 1926 na Chácara do Carvalho, vivenda de Antônio Prado, que mantinha o vigor e o idealismo para orientar aquele corajoso grupo de resistentes.

Caricatura de Antônio Prado


Em termos programáticos, o PD não representava nenhum tipo de revolução ideológica. Pugnava apenas “pela reforma eleitoral, no sentido de garantir a liberdade de voto, reclamando para isso o voto secreto e medidas asseguradoras do alistamento, do escrutínio, da apuração e do reconhecimento” e demais reivindicações pontuais relacionadas à indústria e à lavoura (sobretudo o café) que vinham de encontro àquilo que o PRP já preconizara desde sempre. A diferença — e razão de ser do PD e de qualquer oposição — é que o Brasil vivia uma mentira democrática com o PRP. Havia uma alteração saudável de governantes mas os candidatos vitoriosos raramente contavam com o sufrágio ou o apoio legítimo do povo, e no Congresso as questões se resolviam pelo simples acordo entre a maioria, que era indefectivelmente perrepista. Outra proposição do PD era lutar “pela independência econômica da magistratura nacional e pelo estabelecimento de uma organização judiciária em que a nomeação dos juizes e a composição dos tribunais independa, completamente de outro qualquer poder político”, o que, como sempre, em tese é belíssimo, mas provoca risos hoje, quando lembramos do que aconteceu com a justiça nos tenebrosos 15 anos passados sob a escuridão getulista.

A magnífica propaganda colorida
do Partido Democrático, desenhada
por Belmonte

O primeiro teste eleitoral do PD aconteceu na eleição para o Congresso, que se realizaria exatamente um ano depois, em 24 de fevereiro de 1927. Modestamente, o partido apresentou quatro candidatos a deputado federal: Marrey, Morato, Moraes Barros e Luiz Aranha, e um candidato ao senado: Luiz Barbosa da Gama Cerqueira. Eis o que conta Paulo Nogueira Filho sobre aquela eleição: “Em meio da peleja evidenciara-se que o alvo mais visado pelo adversário era Marrey Junior. A princípio, a atrabiliária direção do perrepismo paulistano não acreditara na eficiência da nossa incipiente organização. Quando, porém, lhe chegaram aos ouvidos os ecos dos sucessos que os nossos tribunos alcançavam na praça pública e o efeito que os primeiros cartazes coloridos de propaganda política produziram, resolveu reagir à sua moda. Dentre as providências que os chefes ordenaram a seus sequazes, figurou a de impedir a afixação de nossos cartazes. Não conheciam nossos adversários o ânimo e a decisão que nos levavam à luta”. (Ideais e Lutas de um Burguês Progressista, José Olympio, 1965). Marrey não era o alvo principal à toa; Antônio Prado e Moraes Barros foram perrepistas a vida inteira mas o primeiro estava com 86 anos e o segundo com 61, portanto em fim de carreira. Marrey tinha 42 anos, estava no auge de seu prestígio popular e de seu relevo eleitoral, e aquilo indignava o PRP, partido onde o mineiro nasceu, politicamente. Mas a retaliação não ficou somente na proibição dos cartazes; no Ipiranga houve um confronto armado que deixou o saldo de um morto e vários feridos.


Propagandas coloridas do Partido Democrático


Realmente, considerando que era uma agremiação nova, o PD exibia estrutura partidária invejável. No dia do pleito o partido contava com um numeroso grupo de fiscais, mesários, olheiros e inclusive uma força bruta para o caso da “capangada” governista partir para a violência, o que era perfeitamente comum nas eleições da época. Não foi necessário; embora houvesse a costumeira fraude, o PRP foi pego de surpresa e não conseguiu evitar a brilhante eleição de três, dos quatro candidatos a federal: Marrey, Francisco Morato e Paulo de Moraes Barros. O trio — sobretudo Marrey, pela oratória privilegiada e explosiva — passou a verberar sem descanso, na tribuna do Palácio Tiradentes, os desmandos da política perrepista. O PD se nacionalizou, recebeu milhares de adesões e virou trincheira de todas as oposições isoladas pelo país. Em 27 de abril morreu o governador paulista Carlos de Campos, cerca de um ano antes do término de seu mandato. Eleições foram convocadas para junho do mesmo ano e durante alguns dias, a empolgação contagiou os Democráticos. Porém, em convenção, o partido decidiu não concorrer, pela simples razão de que Júlio Prestes já havia sido escolhido por Washington Luís e o PD ainda não tinha dinheiro suficiente em caixa para bancar uma eleição estadual perdida. (Mesmo com essa resolução, o Democrático Domingos Rubião Meira recebeu alguns votos no dia da eleição, que vinham de eleitores que se recusavam a sufragar Júlio Prestes e não desejavam se abster de votar).

Zoroastro Gouvêia
Em 24 de fevereiro de 1928 houve novo teste, desta vez para a renovação da Assembléia Legislativa (que ainda era bicameral, consistido em câmara dos deputados e senado estadual), e o PD se sentiu confiante para submeter uma chapa mais numerosa de candidatos. O PRP, por sua vez, continuava desarvorado com o crescimento vertiginoso do partido oposicionista. Desferido o pleito, uma grande vitória: passando novamente por cima do aparato fraudulento do PRP, os Democráticos elegeram seis deputados estaduais, o que equivalia a 1/10 do número de parlamentares. Eram eles: Luiz Barbosa da Gama Cerqueira e Antônio Feliciano pelo 1º distrito, Luiz Aranha pelo 6º, Vicente Dias Pinheiro pelo 7º, Pedro Krahenbul pelo 8º e Zoroastro de Gouvêia pelo 10º. Podia parecer pouco, mas na verdade tratava-se de triunfo inaudito para um país que eleitoralmente vivia há décadas o regime do cabresto, de norte a sul. Como se não bastasse, um dos braços do PCB, o Bloco Operário Camponês absteve-se de apresentar candidatos próprios e hipotecou apoio aos Democráticos naquela eleição. O PRP acordou. Subestimara o poder dos Democráticos a nível federal e estadual. Era preciso contê-los no município, e como isso não era possível numa disputa justa e limpa, métodos bem mais agressivos seriam adotados.

O prefeito e os vereadores eleitos em outubro de 1925 estavam chegando ao final daquele triênio. Novas eleições para a prefeitura e para a 13ª legislatura da Câmara ocorreriam no dia 30 de outubro de 1928. Animados com o êxito da refrega estadual de fevereiro, os Democráticos articularam suas chapas municipais e consultaram suas bases sobre o candidato ideal para o Executivo paulistano. Advogado competente e abnegado, edil combativo e honesto, tribuno de brilho e eloqüência invejáveis tanto na Assembléia Legislativa quanto na Câmara Federal, Marrey foi o escolhido. Dez foram os candidatos do partido à Edilidade: Prudente de Moraes Netto, Plínio de Queiroz, Bertho Condé, Manfredo Antônio da Costa, Nicolau de Moraes Barros, Carlos de Moraes Andrade, Fábio Camargo Aranha, Waldemar Ferreira, Henrique de Sousa Queiroz e Fonseca Telles.

Os perrepistas apresentaram — praxe da época — 16 candidatos, o número exato de vereadores que compunham a Câmara: Ulysses de Lima Coutinho, João Baptista Leme do Prado, Luiz Antônio Pereira da Fonseca, Antônio Simões Carvalho, Diógenes Ribeiro de Lima, Synésio Rocha, Nestor Alberto de Macedo, Manoel Pereira Netto, Nestor de Barros, Joaquim Álvaro Pereira Leite, Almeirindo Meyer Gonçalves, Goffredo da Silva Telles, Austin de Almeida Nobre, José Vieira Couto Magalhães, Daniel Cardoso e Alexandre Albuquerque, alguns estreando na política, outros pleiteando a reeleição e outros, ainda, voltando à Câmara depois de alguns anos.

José Pires do Rio candidatou-se à reeleição. Esse paulista de Guaratinguetá, nascido em 26 de novembro de 1880, é um exemplo, entre tantos naquela conturbada contextura política, de como a batalha pela perpetuação no poder era capaz de prejudicar a atuação administrativa de um excelente profissional como ele. Pires se formou em Engenharia e em Farmácia em Ouro Preto, trabalhou na obra dos portos do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, lecionou hidráulica na Escola Politécnica da Bahia e foi inspetor federal nas estradas de ferro Madeira-Mamoré e Belém-Bragança (DHBB, volume V. FGV, 2001). Pela operosidade e pelos bons serviços demonstrados nessas múltiplas atividades, foi nomeado ministro de Viação e Obras Públicas do governo de Epitácio, em 1919. Destacou-se no ministério por obras voltadas a conter a seca no nordeste, construiu a ponte sobre o rio Paraná e promoveu uma expansão inédita nos Correios e Telégrafos do Estado de São Paulo. No último ano daquele quatriênio presidencial, Pires ainda exerceu interinamente uma segunda pasta, a da Agricultura, Indústria e Comércio. Findo o mandato de Epitácio, Pires voltou para São Paulo e se candidatou a deputado federal, cargo que exerceu até outubro de 1925, quando candidatou-se a prefeito.

José Pires do Rio
No Executivo paulistano fez um ótimo trabalho, construiu o Mercado Municipal, “as pontes artísticas do rio Tamanduateí”, a Ladeira do Carmo e assim por diante. Foi Pires do Rio que deu o pontapé inicial no processo de modernização da Capital, contratando o engenheiro e arquiteto amparense Prestes Maia para que este elaborasse o célebre “Plano de Avenidas”, peça urbanística que recebeu elogios do engenheiro francês Alfred Agaché, teve aclamação internacional no IV Congresso Pan Americano de Arquitetura e seria, anos mais tarde, uma espécie de manual de todos os prefeitos de São Paulo. Pires era um grande administrador e nada havia que pudesse desaboná-lo no aspecto ético e moral. Infelizmente, porém, ele era peça da engrenagem perrepista, delegado de Júlio Prestes no município e sua permanência na prefeitura significava a continuidade de um sistema de fraudes e mentiras eleitorais que o PD pretendia aniquilar. Escoimando-se o viés político, a disputa entre Marrey e Pires do Rio era benéfica e saudável, porque representava o embate entre dois políticos da melhor qualidade.


Em meio à apresentação das chapas do PRP e do PD, salta aos olhos o destaque dado pela Folha da Manhã ao candidato único do Bloco Operário Camponês:

Everardo Dias

Entre os partidos que concorrem às eleições de hoje, um há, novo e vibrante, o Bloco Operário Camponês, ramificado pelo Rio, Santos e Pernambuco. (...) Entre os muitos candidatos à Vereança da Câmara paulista, um apareceu, apresentado pelo Bloco Operário Camponês, que vale sozinho por um programa: Everardo Dias.

O nome deste candidato soa, nos meios operários de São Paulo, como o de um clarim que nunca se calou, fosse formidável a refrega ou tenacíssima a pugna. Pela pena, no livro, no jornal; pela palavra, nos comícios e nas confabulações; pelo exemplo, nas truculências da polícia, nas prisões do país, nos desterros até, sempre encarnou a figura mais ardorosa dos ideais socialistas no Brasil. Apesar de brasileiro, teve que abandonar forçosamente a pátria. Apesar de cidadão, na plena função dos direitos que as leis garantem a todos, nunca pôde manifestar livremente as suas idéias, sem que logo os cárceres não se abrissem para tragá-lo.

O Bloco Operário Camponês, apresentando-o como o seu candidato, nada mais faz do que dar um testemunho público de aprovação aos seus atos, à sua vida toda, elegendo-o para ser, na Câmara Municipal, a voz que falará pelas suas aspirações. (...) Dadas as grandes probabilidades de que dispõe aqui e em Santos, é de esperar-se que o nome do Sr. Everardo Dias seja consagrado nas urnas, hoje, ele que sempre foi a grande vítima de quantos quiseram espezinhar os ideais do mundo operário paulista. (30/10/1928)

Clero, burguesia e militarismo, os inimigos do proletário, em "A Plebe", 1927

Para ser exato, Everardo não era brasileiro. Ele nasceu na Espanha, em 1885, e chegou ao Brasil dois anos depois. O resto da apresentação é a mais absoluta expressão da verdade. Com 17 anos Everardo já era redator de O Livre Pensador, jornal anti-clerical. Nos anos seguintes expôs com brilho e coragem suas idéias anarquistas em jornais do operariado, ou de orientação anarquista como A Plebe e Spartacus. Por culpa desses artigos foi preso em outubro de 1920, depois de uma malfadada tentativa de greve geral em Santos. Passou o inferno. Ficou dois dias nu em uma solitária imunda e minúscula, ao fim dos quais o levaram para um pátio e lhe aplicaram 25 chicotadas nas costas. De Santos foi levado ao Rio e, aproveitando-se de que ele era espanhol, e outros anarquistas também vinham de lá, de Portugal e demais países europeus, a Polícia os meteu no porão de um navio e tentou deportá-los, não fazendo qualquer diferença o fato de Everardo ser casado com uma brasileira e pai de seis filhas também nascidas em solo nacional. Um habeas-corpus foi impetrado a favor dele, e denegado dias depois. O navio aportou na Ilha da Madeira, em Lisboa, em Vigo, Le Havre e Rotterdan, onde vários dos anarquistas deportados foram sendo deixados. Everardo não chegou a sair do navio e começou a pensar no que seria o inverno europeu lá dentro, com as vestimentas exíguas que lhe deram. Pouco depois, em dezembro, veio a notícia de que o governo revertera sua deportação e em janeiro de 1921 ele voltou ao Brasil. Nem por isso — ou provavelmente por causa disso — sua vida deixou de ser uma luta constante.

Arthur Bernardes

Prosseguiu na mesma lida, foi aos pouco abandonando a anarquia e abraçando o comunismo (uma vez que o Partido Socialista ainda era inócuo e incipiente), e em fins de 1923 auxiliou, com comunicados clandestinos, os partidários de Isidoro Dias Lopes, que já começavam a articular o movimento revolucionário que seria deflagrado em julho do ano seguinte. Com a derrota do levante, Everardo se escondeu no Rio, mas não se furtou de dar sua contribuição à insurreição naval que vinha sendo planejada por lá. Depois de imprimir manifestos favoráveis a esse movimento, foi novamente preso e mandado com sete outros para o presídio da Ilha Rasa. Vivia-se o governo de terror de Arthur Bernardes  e meses depois, sem ter sido sequer interrogado, o removeram para outro presídio, na Ilha das Flores. Já estava há mais de um ano e meio preso quando o transferiram, junto a extenso grupo de comunistas e anarquistas, para um inferno chamado “Centro Agrícola Clevelândia”, no meio do Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa. Não há muito que dizer sobre esse lugar, a não ser que era um campo de concentração com o acréscimo de insetos e doenças tropicais. Calcula-se que centenas de presos — políticos e não-políticos — tenham morrido na Clevelândia durante o governo de Arthur Bernardes. Everardo e os prisioneiros anarquistas que sobreviveram à Clevelândia só foram soltos nos primeiros meses de 1927, quando Washington Luís ocupou a curul presidencial no lugar de Bernardes, que passou a ser chamado, desde então, pelos comunistas e anarquistas, de “o tarado de Viçosa”.

Propagandado BOC carioca em 1928, que elegeu Minervino de Oliveira para a Câmara do Distrito Federal

Era nessas condições, depois de passar anos em “lôbregos presídios” e nas “mais infectas bastilhas” que Everardo virou o candidato único do BOC. Sabia não ter chance de vitória, mas marcava presença. Por outro lado, Washington Luís não parecia terrivelmente disposto a soltar as rédeas da repressão aos comunistas. Em primeiro lugar não quis anistiar os presos políticos das revoltas militares ocorridas nos últimos anos. Em segundo lugar, sancionou a chamada “Lei Celerada”, do deputado perrepista Aníbal de Toledo (com a discordância manifesta de Marrey, no Congresso), que além de tornar inafiançáveis crimes como proibir por meio de constrangimentos ou ameaças os trabalhadores que não desejavam aderir a uma greve (este, o item mais equilibrado da lei), ainda concedia ao governo o direito de fechar quaisquer instituições — desde jornais até partidos, passando por sindicatos, centros e entidades — que fossem considerados subversivos ou atentatórios à segurança pública. O PCB entrou em uma fase de “semi-legalidade” e não perdeu tempo em apodar o Paulista de Macaé como alguém “mil vezes pior” do que Arthur Bernardes porque, com efeito, a lei perpetuava aquilo que o “tarado de Viçosa” só conseguira com o estado permanente de sítio. (Dulles, John Foster. Anarquistas e Comunistas no Brasil. Nova Fronteira, 1977)

Bernardes e Washington Luís

Quando se fala, hoje em dia, no “voto de cabresto”, em “eleições a bico de pena”, em “urnas roubadas à luz do dia”, fica a sensação de um passado romântico e ingênuo, apaziguado pela distância, no tempo. Imaginamos imediatamente aqueles bandidos de terno, gravata e chapéu, posando para fotos ao lado dos policiais, como era a praxe, antigamente. A verdade não era nem um pouco romântica ou ingênua. O interior de São Paulo em nada diferia do pior sertão nordestino, em termos de coronelato e das iniqüidades cometidas pelos chefes políticos locais. Bandos de sicários ficavam armados nas ruas e estradas para impedir a tiros a aproximação de eleitores da oposição. Ou então coagiam esses mesmos eleitores ao “voto descoberto”, obrigando-os a votar nos senhores feudais de cada região. E se nada disso funcionasse, mapas, votos e urnas eram alterados sem qualquer cerimônia, finda a votação. Havia mortes em dia de eleição, seqüestros, intimidações, revistas vexaminosas, prisões, invasões noturnas a domicílios particulares, espancamentos, e tudo com a chancela do Poder Público.

Francisco Morato
Em outubro de 1928 a fraude ocupou grande parte do interior paulista, mas basta dar um exemplo significativo: Francisco Morato e Paulo de Moraes Barros não eram apenas deputados federais; guardavam a coincidência de serem, também, ambos, piracicabanos. Sabendo que o delegado de Piracicaba era um canalha a soldo do PRP, os dois passaram a semana anterior à eleição tratando de destacar um delegado auxiliar da Força Pública da Capital para garantir a lisura do pleito em Piracicaba. Conseguiram o delegado Laudelino de Abreu, que chegou à cidade no dia 25. Satisfeitos, Morato e Barros emitiram o seguinte comunicado ao eleitorado citadino: “Com a chegada da nova autoridade policial, Dr. Laudelino de Abreu, voltou a tranqüilidade à população piracicabana. As eleições correrão dentro da ordem e da lei”. Eis que, como por encanto, no dia 28 Laudelino foi convocado imediatamente a voltar para a Capital. O PRP local aproveitou para emitir um boletim próprio avisando que Abreu não era mais delegado auxiliar e que Piracicaba permanecia sob “ativa vigilância” do mesmo delegado acanalhado de sempre. Furiosos, Morato e Barros passaram o dia 28 tentando falar com Júlio Prestes, para exigir a volta de Abreu. Receberam, por fim, o comunicado lacônico de que o governador não pretendia providenciar a volta de Abreu à Piracicaba.

No dia 29, véspera da eleição, os dois deputados federais, inteiramente impotentes diante daquele absurdo, não tiveram mais o que fazer a não ser emitir novo comunicado ao povo piracicabano, exortando-os a não participar da eleição, porque “estamos absolutamente sem garantias para exercer amanhã o direito do voto”, e “se levássemos o cumprimento do nosso dever às últimas conseqüências, teríamos amanhã uma hecatombe de sangue”. No fim do comunicado, assinado pelos dois deputados federais e mais sete membros do diretório estadual do PD, o dedo é apontado sem ambages para aquele que os Democráticos julgavam culpado: “As violências continuam. É preciso que o Brasil inteiro tenha conhecimento desse grande crime contra o regime democrático. O primeiro responsável é o Dr. Júlio Prestes, que com estas façanhas pretende preparar sua ascensão à presidência da República”. (Diário da Noite, 30/10/28, 1ª edição). Detalhe: o chefe político perrepista de Piracicaba era ninguém menos do que o ínclito João Sampaio, genro de Prudente de Moraes, respeitado por gregos e troianos, de quem se esperava atitude diversa daquela que caracterizava seu partido, e que, com sua omissão, provocou decepção profunda nos Democráticos.

Júlio Prestes
Na Capital as patifarias variavam, de bairro para bairro. Em 28, especificamente, o Bom Retiro deu um espetáculo de vergonha e cabresto. Dois chefes perrepistas — Múcio Costa e um tal “Major Molinaro” — disputavam o eleitorado das redondezas e naquele pleito Molinaro levou a melhor. Chegou antes com sua camarilha e se instalou no colégio Marechal Deodoro, local escolhido para a votação. Proibiu qualquer pessoa de entrar na escola antes do início dos trabalhos. Com essa ordem, acabaram barrados na entrada deputados federais como Batista Luzardo e fiscais Democráticos como Paulo Nogueira. Quando soube que Sylvio de Campos, também deputado federal (do PRP, enquanto Luzardo formava com os Libertadores de Assis Brasil, atualmente coligados ao PD), estava dentro da escola, o gaúcho mandou-lhe um recado avisando que fôra barrado. A resposta de Campos (que aparentemente muito pouco guardava da honradez de seu pai, Bernardino) foi seca: ele que esperasse até que as portas fossem abertas para a votação. Luzardo só conseguiu entrar porque por ali passava o “Delegado de Segurança Social”, Ibrahim Nobre, que lhe permitiu a entrada. Nobre, por sinal, passou o dia fazendo vista grossa aos absurdos cometidos pelo Major Molinaro e em nada se assemelhava ao que mais tarde se tornou: o destemido paulistano e grande orador da Revolução de 32.

Batista Luzardo

A presença de fiscais como Luzardo e Nogueira Filho era uma formalidade completamente inútil. No fim do dia, terminada a votação, a imprensa toda viu e documentou Molinaro distribuindo dinheiro à farta aos motoristas que levariam os eleitores do PRP de volta às suas casas. Somente naquele bairro havia mais de 50 automóveis para essa tarefa, e alguns desses eleitores podiam até ser legítimos, mas em sua maioria eram os chamados “fósforos”, ou seja, pessoas arrebanhadas em qualquer lugar, de qualquer procedência, inclusive estrangeiros, proibidos de votar, e que depositavam suas cédulas nas urnas sem apresentar “nem o mais desvalioso documento”. A fraude era total. Dentro das salas, mais uma vez sob o nariz de dezenas de repórteres, mesários perrepistas abriram as urnas e começaram a rasgar as cédulas, uma por uma. No fim daquele ritual surrealista, o livro de atas era embrulhado e levado pelo presidente. Em outras seções as cédulas eram rasgadas e o resultado escrito em uma lousa. Números curiosos, Pires do Rio, 1.973 votos, Marrey, 16... e assim por diante. (Diário da Noite, 30/10/28, 2ª edição) Interessante é que a imprensa — com exceção do perrepista Correio Paulistano — descreveu esse esbulho com os mais ínfimos detalhes. As manchetes falavam abertamente da desonestidade na apuração, “a votação correu bem, mas na hora da apuração... o PRP acabou de enlamear-se nas mais indecentes fraudes de que há memória em São Paulo”, que “nunca houve fraudes tamanhas e tão cínicas”, que em São Paulo “os escândalos eleitorais são a norma constante” e daí para baixo. Era uma qualidade paradoxal de Washington Luís. A fraude poderia “campear infrene”, como diria Jânio, mas a imprensa nunca seria proibida de noticiá-la, como de fato, nunca foi, até o último dia em que esteve no Catete o Paulista de Macaé.


Diógenes de Lima e Goffredo da Silva Telles
O resultado foi previsível. Pires do Rio teve 25.700 votos, contra míseros 8.500 de Marrey, e foi reconduzido à prefeitura para seu segundo mandato. Dos 16 candidatos a vereador do PRP, TODOS foram eleitos. Aos democráticos restava continuar reclamando e a Câmara Municipal, que iniciou seus trabalhos em 5 de janeiro de 29, foi obrigada a analisar, já na segunda sessão preparatória, em 14 de janeiro, a contestação impetrada por Bertho Condé, Waldemar Ferreira, Carlos de Moraes Andrade e Manfredo Costa. Os democráticos mostravam à saciedade absoluta o roubo de que haviam sido vítimas, com o acréscimo de 700 a 800 votos em urnas de seções onde só votavam 80 ou 100 pessoas, em favor dos republicanos João Baptista Leme do Prado, Synésio Rocha, Daniel Cardoso e Alexandre de Albuquerque. Luiz Fonseca, presidente da Câmara, submeteu a contestação a duas comissões de verificação, o que até daria a impressão de que ele realmente desejava apurar alguma coisa, se a Câmara não fosse toda perrepista, estando Synésio Rocha na primeira comissão e Leme do Prado na segunda.


Waldemar Ferreira e Manfredo Costa

Lapidar foi o comentário de Francisco Morato no plenário da Câmara Federal, dias depois: “Mente-se com o pensamento, com as ações e com a própria mentira. Comparável à selvageria de que foi vítima o Estado de São Paulo, só há uma coisa, a desfaçatez com que se vem negar aquilo que se passou”. Estava adivinhando o que vinha a seguir. Alexandre Marcondes — “que vivia num pileque deslascado”, nas palavras do saudoso Assumpção Ladeira — encarregou-se de ser o porta-voz dos espíritos de porco no Congresso, e declarou que “o recente declínio do prestígio do PD e sua derrota, em São Paulo, foram decorrências de vários e graves erros políticos”. Para Marcondes, a não-participação do PD no pleito, em Piracicaba, “se destinava apenas a ocultar a derrota”. Na Câmara Municipal as justificativas são nojentas. Comentando as contestações Democráticas, o recém-eleito advogado e jornalista Couto de Magalhães declarou que “se realizava, mais uma vez, a velha fábula de Fedro, porque, apesar do alarido da imprensa do Partido Democrático, ela não passava, em última análise, de um camundongo. Camundongo, realmente, Sr. Presidente, porque a contestação se limita a meras conjecturas, a fatos de somenos importância, peculiares a todos os pleitos animados”. Mais à frente declara, impávido, que “este Estado continua a ser, incontestavelmente, o leader da Federação, pelo respeito escrupuloso dos princípios cardeais da democracia, pelo respeito do direito do voto, e, em suma, pelo respeito de todas as liberdades”.


É de causar espécie que os historiadores não dêem a importância devida ao pleito municipal ocorrido em 30 de outubro de 1928, porque me parece um momento definitivo para o regime. A sorte da República Velha foi selada nesse dia. Fraudes ocorreram desde sempre e a oposição não via nenhum político do PRP com bons olhos, mas Washington Luís era infinitamente mais bem conceituado e respeitado do que Arthur Bernardes e se houve uma última oportunidade da situação demonstrar boa vontade para com a oposição, teria sido essa eleição. A oportunidade, entretanto, foi grosseiramente desperdiçada pelo presidente, e principalmente pelo seu aliado paulista e virtual candidato ao Catete, Júlio Prestes. Na minha concepção, quando se iniciam as démarches para a deposição de Washington Luís após a morte de João Pessôa, se em algum momento os Democráticos foram atormentados por um questionamento moral a respeito da atitude que pretendiam tomar — ou seja, dar à Aliança Liberal o apoio indispensável de São Paulo ao golpe — bastava rememorar esse dia sinistro, que Paulo Nogueira Filho com muita razão batizou de “Bacanal da Fraude”. Nogueira, em seu extenso e extraordinário livro de memórias, foi o único a analisar com a profundidade necessária os acontecimentos daquele dia 30 de outubro e seus desdobramentos:

O que tornou mais monstruoso o conjunto de crimes cometidos nesse dia foi a escandalosa premeditação, o despudor com que foi planificado e a insensibilidade moral com que o executaram. Nem o mais treinado batalhão policial poderia ter agido com maior disciplina quanto a legião de perrepistas, fraudadores eleitorais, o fizeram nesse dia. Foi um assombro!

Paulo Nogueira Filho
Sobre Júlio Prestes, filho do velho Fernando Prestes, que já fôra governador de São Paulo no tempo de Prudente de Moraes, o mesmo comentário que se fez sempre sobre 90% dos grandes políticos da República Velha: moralmente honesto, mas sedento de poder:

O presidente [estadual] Júlio Prestes era um moço inteligente, de relativa cultura e de certo magnetismo pessoal. Nunca fôra negocista, nem “tocaieiro”, ao que se sabia. Boêmio, de coração bem formado, expandia-se tão-só em rodas de amigos seguros. Sua ambição, os vendavais do destino se incumbiram de aguçá-la. Biológica e socialmente, era oligarca e autocrata, com as maiores aptidões para traduzir em atos a vontade da ala ortodoxa, misoneísta e reacionária de sua grei. Com dificuldade, em certas circunstâncias punha a máscara de um liberal. Justiça lhe seja feita, não sabia ser hipócrita. Homem de seu meio, soube-lhe ser fiel.

A conclusão é perfeita:

A jornada de 30 de outubro, se foi um opróbrio para o povo de São Paulo, constituiu um mal irreparável na carreira política do Sr. Júlio Prestes e exerceu influência decisiva em seu destino e no de sua grei. (...) Diante dos excessos ocorridos, o mal estava feito: a conivência do Presidente de São Paulo com os fraudadores tornara-se de tal forma evidente que não havia mais negar os fatos ou escondê-los à vista do Brasil inteiro.

A derrota de Marrey no pleito municipal foi só o começo. Os Democráticos perderam o apoio e a orientação do velho Antônio Prado, que morreu no ano seguinte, aos 89 anos. Para piorar, em 1º de março de 1930, além de escolher entre Júlio Prestes e Getúlio Vargas, o povo também iria votar para vice-presidente, a renovação da Câmara Federal e 1/3 do senado. Marrey se candidatou  à  reeleição de seu mandato como deputado federal, e apesar de maciça votação, teve seus números fraudados e não se reelegeu.

Houve um arremedo de vingança nisso tudo: o segundo mandato de Pires do Rio e a mamata dos vereadores duraram pouco. Prefeito e Câmara usufruíram de seus cargos por 22 meses, ao fim dos quais foram cassados pelo golpe de 30. Seria preciso uma insurreição dos paulistas, as promulgações de uma nova Constituição Federal em 16 de julho de 1934 e de uma nova Constituição Estadual em 9 de julho de 1935 para que eleições legislativas municipais fossem novamente convocadas.

Marrey foi um revolucionário de primeira hora e participou intensamente das articulações da Aliança Liberal. Vitorioso o golpe de outubro, condenou com veemência a preterição de Francisco Morato na escolha do primeiro interventor paulista, mas permaneceu fiel ao movimento discricionário. Em sua mente, como na mente de tantos outros, o país caminhava para a redemocratização, livre da orgia perrepista. Mal sabia ele que Getúlio e os aliancistas não pretendiam acabar com a fraude, e sim apenas trocá-la de lado. O mineiro acabou sendo o grande artífice na malfadada triangulação com Getúlio e Pedro de Toledo, quando se discutiu a reformulação do secretariado estadual, última tentativa de apaziguamento de São Paulo, antes da revolução constitucionalista. Lutou sozinho contra a formação da Frente Única, que considerou manobra oportunista do PRP para ressurgir triunfante de seu aniquilamento, e foi medularmente contrário à idéia do levante armado. Deu plena ciência disso a Francisco Morato, com quem manteve correspondência constante depois dos horrendos acontecimentos de 23 e 24 de maio de 32. Não encontrando apoio na maioria de seus próceres, resignou-se e escreveu junto a Vicente Rao, Henrique Bayma, Vicente Pinheiro e Cardozo de Mello Netto o anteprojeto do programa do PD que seria implantado caso o governo de Getúlio fosse deposto pelo movimento constitucionalista, documento assinado em 10 de junho. Com a deflagração do conflito, em 9 de julho, manteve-se eqüidistante, amargurado com o que sabia ser fadado ao fracasso. Instado a manifestar-se, algumas vezes, limitou-se a pronunciamentos patrióticos, exaltando a juventude paulista e o futuro.

Em 17 de outubro, o Partido Democrático se reuniu pela primeira vez em São Paulo depois de findo o combate. Marrey não compareceu mas enviou uma longa mensagem com sua interpretação de tudo que ocorrera naquele ano, lida por José Augusto Costa. Na essência do documento, Marrey debitou o malogro das negociações entre Getúlio e Pedro de Toledo à ingerência descabida do PRP, que a seu ver, era o partido que representava tudo contra o qual o PD se insurgira em 30, e que devia aceitar, quando muito, uma participação minoritária no secretariado paulista. Sem declinar nomes, deixou patente sua insatisfação e sua incompatibilidade com o procedimento do grupo de Júlio Mesquita Filho, que advogava sem rebuços a solução pelas armas, o que Marrey julgava um absurdo total e um holocausto inútil de centenas de paulistas em uma batalha perdida desde o início. Lembrou que a eleição para a constituinte já estava marcada, que Getúlio finalmente dava sinais de cooperação diante da revolta de São Paulo, e disse com todas as letras: “Sabia, igualmente, que a revolução, em verdade, não tinha outra causa que não a aspiração de mando dos que a promoveram”.

Em 19 de outubro, o texto estampou quase duas páginas inteiras do Diário da Noite. Foi a gota d’água. No dia seguinte Marrey deixou o partido, levando consigo um pequeno contingente de democráticos. O gaúcho Waldomiro Lima, interventor da vez, começou a temer pelo seu cargo, pois Marrey era Democrático e revolucionário desde o princípio, e seu estremecimento com as hostes constitucionalistas o transformava em candidato perfeito de Getúlio à interventoria paulista, naquele momento conturbado. Waldomiro aproveitou uma onda ocasional de prisões políticas no Rio e em São Paulo e prendeu Marrey em dezembro de 32, garantindo mais dez meses como interventor. A prisão durou pouco, mas Marrey permaneceu fora do radar político de 33 a 35.

As eleições para a Constituinte estavam marcadas para maio de 1933. No início do ano, visando representação sólida e coesa durante a elaboração da nova Carta, Democráticos e perrepistas entraram em acordo e lançaram uma Chapa Única, congregando gregos e troianos para concorrer ao pleito de 3 de maio.

O plano parecia salutar; em tese as mágoas eram postas de lado pelo bem de São Paulo, o Brasil estava indo às urnas livre da fraude pela primeira vez em décadas, participavam das eleições múltiplos partidos, como o comunista, o socialista e o integralista, mas o resultado da eleição mostrou que longe de fortalecer o PD, a Revolução de 32 desgastou o partido. Vargas chegara ao poder com a ajuda dos Democráticos há três longos anos, impingindo humilhações aos paulistas e não dando qualquer sinal de que pretendia fazer o país retornar à normalidade democrática. A própria permanência, no comando de São Paulo, de um milico velho e incompetente como Waldomiro Lima — parente de Vargas — que só fez se desentender com todas as lideranças paulistas em sua interminável interventoria, era a demonstração clara e inconcussa disso. A situação anterior podia não primar pela verdade eleitoral, mas também não era uma ditadura inflexível que aboletava estranhos, parentes e apaniguados nos governos estaduais. Conclusão: o povo brasileiro se deu conta de que substituíra um regime contaminado por outro irremediavelmente podre, e começou a ter saudades do primeiro.

Em sentido horário, Carlos Moraes Andrade, Cardozo de Mello Netto, Antônio Carlos de Abreu Sodré e Henrique Bayma 

A apuração dos votos deixou isso meridianamente claro. Dos 17 deputados constituintes eleitos pela Chapa Única, somente TRÊS eram Democráticos legítimos, e sequer foram os mais votados: Carlos de Moraes Andrade, Cardozo de Mello Netto e Antônio Carlos de Abreu Sodré. Henrique Bayma acabou sendo o quarto, mas era suplente e só assomou à Câmara porque Jorge Americano — perrepista — renunciou pouco depois de iniciados os trabalhos. Mesmo descontando Jorge Americano, o PRP levou oito deputados para a Câmara: José Carlos de Macedo Soares, Abelardo Vergueiro César, Rafael de Abreu Sampaio Vidal, Cincinato Braga, Mário Whately, Manoel Hipólito do Rego, José de Alcântara Machado d’Oliveira e Oscar Rodrigues Alves.

Carlota Pereira de Queiroz
Vale um registro especial a eleição da paulistana Carlota Pereira de Queiroz, a primeira mulher a pisar num parlamento brasileiro. Ela nasceu em 1892, trabalhou desde cedo como inspetora de diversos educandários, começou a cursar medicina na Faculdade de São Paulo e no início dos anos 20 transferiu o curso para o Rio. Lá, teve aulas com Miguel Couto e colou grau em 1926, apresentando a tese Estudos sobre o Câncer. Fundou e dirigiu clínicas pediátricas em São Paulo e Rio, e em 1929 foi mandada para a Europa pelo governo paulista, a fim de estudar a Dietética Infantil. Esteve na Suíça, França e Alemanha fazendo cursos de aperfeiçoamento e trabalhando com médicos célebres como Widal, Abrami, Aubertin, Sergent, Roussy, Umber, Pende, Artmann e outros. Respeitadíssima, teve atuação notável durante a Revolução Constitucionalista, dirigindo órgãos como a “Oficina de Costura da Cruz Vermelha” e o “Departamento de Assistência aos Feridos”. Em novembro de 32 fez parte da comissão que foi ao Hospital Central do Exército, no Rio, para buscar os últimos prisioneiros constitucionalistas que ainda estavam internados. Foi a única representante das mulheres na Constituinte de 1934. (Campos, Calazans de (org.). Candidatos do Partido Constitucionalista. PC, 1934)

A foto clássica de Carlota, de branco, no meio dos homens, na Constituinte de 34. A seu lado esquerdo está Antônio Carlos de Abreu Sodré, em sua frente está Cardozo de Mello Netto e ao
lado esquerdo de Cardozo está o fantasmagórico Macedo Soares (foto do Blog Tataguaçú)

Berta Lutz em 1925
A bióloga e advogada — e também paulistana — Berta Lutz (filha de Adolfo Lutz) esteve no Congresso naquela legislatura, mas concorreu apenas para a Câmara Ordinária em outubro de 1934, pelo Partido Autonomista do Distrito Federal. Ficou com a primeira suplência, entretanto, e só foi diplomada graças à morte do titular, Cândido Pessôa.

Quanto ao restante da Chapa Única, contava com alguns participantes ativos da Revolução de 32, o que não quer dizer que tivessem qualquer coisa a ver com o PD, já que, àquela altura, a restauração da democracia e a expulsão dos prepostos de Vargas eram anelo tanto de Democráticos quanto de perrepistas. Antônio Barros Penteado e José Ulpiano de Sousa estavam estreando na política e não possuíam qualquer passado partidário. Plínio Corrêia de Oliveira — o deputado mais votado de São Paulo — flertara inicialmente com o recém-nascido Integralismo de Plínio Salgado e acabou eleito pelo seu sólido prestígio junto à Liga Eleitoral Católica.

E por fim, José de Almeida Camargo — filho do ex-interventor Laudo Camargo — é outro que só chegou ao Palácio Tiradentes porque Valdomiro Silveira — apartidário — foi guindado à Secretaria de Educação de Armando de Salles, razão pela qual abdicou ao cargo.

A coisa ia mais longe: Zoroastro Gouvêia, eleito deputado estadual pelo PD em fevereiro de 1928, rompeu com o partido tempos depois e migrou para o Partido Socialista Brasileiro — nascido de inspiração tenentista — pelo qual se candidatou e venceu. Não venceu sozinho, aliás; foi para o Rio com mais dois deputados socialistas, Frederico de Lacerda Werneck e Guaracy Silveira. Em apartes ou pronunciamentos, Zoroastro não tinha o menor pejo de referir-se a seus ex-companheiros de partido como “os plutocratas da Chapa Única”. Para completar a representação de São Paulo naquela Constituinte, havia dois deputados de um efêmero “Partido da Lavoura”, arremedo de agremiação fundado por Waldomiro de Lima com o fito de criar sustentação parlamentar para sua interventoria: Lino de Moraes Leme (mais tarde professor de Jânio no Largo São Francisco) e Antônio Covello.

Uma das maluquices de Waldomiro de Lima para popularizar seu nome e permanecer no cargo de Interventor foi a remodelação do Diário Oficial, transformando-o em Jornal do Estado, nos moldes de um jornal comercial normal, com a diferença de que tecia loas a ele próprio todos os dias. Quando Armando de Salles tomou posse, acabou com a farra e reinstituiu o velho Diário Oficial
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Bibliografia:

  • Annaes da Câmara Municipal de São Paulo. 1929 (1º anno da 13ª legislatura) organizados pelos tachygraphos Gustavo Milliet e Ruy Bloem. São Paulo, Typ. E Papelaria Formosa, Gianotti & Losasso.
  • ABREU, Alzira Alves de & outros. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro pós 1930. Rio de Janeiro, Editora FGV, 2ª ed. 2001.
  • CALIMAN, Auro Augusto. Legislativo Paulista – Parlamentares 1835-1998. São Paulo, Imprensa Oficial, 1998.
  • CAMPOS, Calazans de (org.). Candidatos do Partido Constitucionalista. São Paulo, PC, 1934.
  • DULLES, John W. F. Anarquistas e Comunistas no Brasil. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1977.
  • NOGUEIRA FILHO, Paulo. Ideais e Lutas de um Burguês Progressista — Vol. 1. Rio de Janeiro, 2ª ed., José Olympio, 1965.
  • SILVA, Hélio. 1933: A Crise do Tenentismo. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968.
  • _____. 1934: A Constituinte. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1969.
  • Folha da Manhã
  • Diário da Noite

As Eleições Municipais de São Paulo em 1928 e 1936 — Parte 2/2


Armando de Salles Oliveira

No dia em que os destinos do povo passarem para as mãos de quem se caprichar em evitar a nefasta ação do partidarismo político; em que ficar bem estabelecida e nítida a distinção entre os interesses gerais e os particulares; em que usufruirmos a suprema ventura de observar o “habeas animam” com a mesma popularidade do “habeas corpus”, e em que, afinal, perante os governantes, os patrícios não se dividirem entre gregos e troianos, aí sim, se iniciará a era do já afamado governo forte. (Marrey Jr., 1936)

O prestígio do Partido Democrático foi inteiramente englobado pelo novo interventor, o engenheiro Armando de Salles Oliveira. Empossado em agosto de 1933, ele era civil e paulista, como vinha sendo solicitado por São Paulo desde o golpe de 30, mas não um civil paulista apagado e desconhecido como Laudo Camargo e nem idoso e sem traquejo para a política atual, como Pedro de Toledo. Salles era jovem, preparado, inteligente, tinha ligações profissionais com o Estadão (ficou à frente do jornal durante a levante de 32), relações pessoais com os principais líderes revolucionários paulistas (era casado com Raquel, irmã de Júlio Mesquita Filho), e possuía malícia e desprendimento necessários para entrar em qualquer tipo de entendimento com um ditador insensível e acanalhado como Getúlio, que lograra, com sua inércia e sua incapacidade de tomar uma decisão, açular um Estado a ponto de jogá-lo em uma luta fratricida que poderia ter sido tranqüilamente evitada. Uma de suas primeiras providências como interventor foi o damage control no PD. O partido estava agonizando e era preciso fazer algo urgentemente. Estando ausentes do cenário eleitoral tanto Marrey quanto os demais descontentes com a Frente Única, Salles astutamente passou uma borracha nas desavenças nascidas dos levantes de 30 e 32 e organizou o Partido Constitucionalista, “uma síntese das aspirações que as duas revoluções defenderam”, para reunir sob uma única sigla os membros do PD, da Ação Nacional Republicana (dissidência do PRP) e da Federação dos Voluntários.

O objetivo primordial, evidentemente, estava nas eleições de outubro de 1934 para a Câmara Federal Ordinária — a função dos eleitos em maio de 33 era exclusivamente a elaboração e promulgação da nova Carta Constitucional. Realizada a missão, eles deixariam o congresso em março de 35, dando lugar aos eleitos em outubro, que exerceriam um mandato de 4 anos — e para as Assembléias Constituintes Estaduais. No dia 24 de fevereiro, quando completaria oito anos, o PD deixou de existir e nasceu o PC, Partido Constitucionalista. Em 16 de julho a Constituição foi promulgada, Getúlio Vargas proclamado “presidente Constitucional” — contra o voto dos perrepistas, que lançaram a candidatura simbólica de Borges de Medeiros — e a Chapa Única dissolvida. O PRP e o agora PC voltaram a ser adversários. Com efeito, a criação do PC foi uma forma de filtrar a população entre aqueles que estavam a favor da reconstitucionalização com Getúlio na presidência, e aqueles que viam aquilo como puro adesismo e exigiam um retorno à normalidade democrática e às eleições livres imediatamente. Sobre os métodos eleitorais utilizados pelos “peceístas”, como passaram a ser chamados os próceres do novo partido, é interessantíssima a descrição do historiador Plínio de Abreu Ramos:

Dissolvida a Chapa Única em julho de 1934, o Partido Constitucionalista usou dos mesmos artifícios de pressão política que o PRP exercera contra seus adversários ao longo de 36 anos de domínio. Armando participou pessoalmente da campanha, percorrendo os principais municípios paulistas, formando diretórios e capturando para o seu partido influentes chefes perrepistas do interior que não tinham condições de sobreviver politicamente sem a assistência cartorial dos favores governamentais. Vários comícios perrepistas foram dissolvidos na Capital, sendo que, em um deles, a polícia interveio precisamente no momento em que discursava o tribuno Ibrahim Nobre. Enquanto o Correio Paulistano, órgão do PRP, tinha sua ação limitada pela censura, O Estado de S. Paulo publicava amplas reportagens devassando todo o passado do PRP. (DHBB, volume IV. FGV, 2001)


Como se vê, bastou um ano de poder em São Paulo para que os Democráticos se corrompessem e passassem a incorrer exatamente nos mesmos vícios do regime anterior. De uma forma ou de outra, antes que os deputados estaduais fossem eleitos, Armando de Salles acabou com a dança das cadeiras que virara a prefeitura de São Paulo e, em 7 de setembro de 1934, nomeou o sobrinho de Antônio Prado, Fábio Prado, para o comando do Executivo paulistano.

Propaganda pra lá de apelativa do PC
para a eleição de 1934

Em 14 de outubro de 1934 vieram as novas eleições legislativas e naquele primeiro momento, o grupo ligado a Salles e à nova ordem política levou a melhor. A Chapa Única, incluindo quadros notáveis do PRP, pulou quase integralmente para o PC e os Constitucionalistas elegeram 22 deputados para os trabalhos ordinários da Câmara Federal, a partir de março de 1935: Abelardo Vergueiro César, Antônio Barros Penteado, Antônio Carlos de Abreu Sodré, Carlos de Moraes Andrade, Carlota Pereira de Queiroz, Cardozo de Mello Netto, António Castilho Alcântara Machado d’Oliveira (autor de Brás, Bexiga e Barra Funda e filho de José Alcântara Machado), Antônio Pereira Lima, Aureliano Leite, Francisco Alves dos Santos Filho, Francisco Oscar Penteado Stevenson, Horácio Laffer, João Alves de Meira Junior, João Rodrigues de Miranda Junior, Joaquim Sampaio Vidal, Justo Rangel Mendes de Moraes, Luiz Barbosa da Gama Cerqueira, Luiz de Toledo Piza Sobrinho, Paulo Nogueira Filho, Ranulfo Pinheiro de Lima, Teotônio Monteiro de Barros e Waldemar Ferreira.

O PRP elegeu apenas doze deputados para essa nova fase da Câmara: Álvaro Teixeira Pinto Filho, Antônio Bias da Costa Bueno, Cid de Castro Prado, Cincinato Braga, Félix Ribas, Heitor Macedo Bittencourt, Henrique Jorge Guedes (que chegou a ser prefeito de São Paulo entre dezembro de 31 e maio de 32, e mesmo assim permanecia no PRP), João Batista Gomes Ferraz, José Alves Palma, Laerte Setúbal, Manoel Hipólito do Rego e Roberto Moreira. Foi o prenúncio de uma derrota ainda maior; aquela que o PRP sofreria na Assembléia Legislativa paulista, onde, pela primeira vez em décadas, deixaria de ser maioria.

O legislativo estadual de São Paulo continha 75 cadeiras, sendo que 15 estavam reservadas para os deputados classistas (inovação que ocorreu a nível nacional e também fez parte do Congresso Constituinte; era uma tentativa capenga e mal planejada de inserir patrões, empregados e demais representantes do operariado, do comércio e da indústria entre os legisladores, e não passou das eleições de 33 e 34). Cinco partidos apresentaram candidatos: o PRP, o PC, o PCB (Partido Comunista Brasileiro), o PSB (Partido Socialista Brasileiro) e a AIB (Ação Integralista Brasileira). Das 60 cadeiras disputadas, o PRP conseguiu apenas 22 contra as 36 do Partido Constitucionalista. O PSB emplacou a eleição de Romeu de Campos Vergal e a AIB elegeu João Carlos Fairbanks, que lançou seu nome tanto para a Constituinte Federal quanto para a Estadual. 

Em sentido horário: Paulo Duarte,
Bento de Abreu Sampaio Vidal, Thiago Masagão e Romão Gomes


Eleitos pelo PC: Alarico Franco Caiuby, Antônio Carlos Pacheco e Silva, Aristides Bastos Machado, Aristides de Macedo Filho, Benedicto Montenegro, Bento de Abreu Sampaio Vidal, Cândido Motta Filho, Carlos de Moraes Barros, Carlos de Souza Nazareth, Cássio da Costa Vidigal, Celso Torquato Junqueira, Clóvis de Paula Ribeiro, Cory Gomes de Amorim, Dante Delmanto, Elias Machado de Almeida, Ernesto de Moraes Leme, Eugenio de Toledo Artigas, Francisco Mesquita, Francisco Vieira, Henrique Neves Lefévre, Henrique Bayma, Joaquim Celidônio Gomes dos Reis Filho, José Augusto de Souza e Silva, Laerte Teixeira Assumpção, Manfredo Antônio da Costa, Maria Thereza Nogueira de Azevedo, Maria Thereza Silveira de Barros Camargo, Mário Pinto Serva, Oscar Cintra Gordinho, Paulo Duarte, Renato Bueno Netto, Romão Gomes, Sylvio de Andrade Coutinho, Thiago Masagão, Valdomiro Silveira (que depois de renunciar a seu mandato de deputado federal constituinte para trabalhar no secretariado de Armando de Salles, ocupou duas secretarias e se candidatou à constituinte estadual, obtendo expressiva vitória) e Valentim Gentil.

Eleitos pelo PRP: Adhemar de Barros, Alberto Americano, Alfredo Ellis Junior, Carlos Cyrillo Junior, Décio Pereira de Queiroz Telles, Diógenes Ribeiro de Lima, Epaminondas Ferreira Lobo, Frederico José Marques, Innocencio de Assis Carvalho, Ismael Torres Christiano, João Baptista Ferreira, José Bastos Cruz, José de Almeida Sampaio Sobrinho, José de Moura Rezende, Luiz Fernandes de Abreu, Luiz Pereira de Campos Vergueiro, Manoel Carlos de Siqueira, Mariano de Oliveira Wendel, Miguel de Abreu Pereira Coutinho, Oscar Thompson, Sebastião de Magalhães Medeiros, Tarcísio Leopoldo e Silva.

Maria Thereza Nogueira de Azevedo
Há figuras dignas de comentários e análises nessa legislatura, inclusive Diógenes Ribeiro de Lima, vereador da canalhíssima legislatura de 1928, e o jovem Adhemar Pereira de Barros, que começou ali sua carreira política. Dentro de um contexto sociológico, porém, não se pode deixar de consignar a eleição das duas Marias Therezas eleitas pelo Partido Constitucionalista, primeiras representantes femininas em um parlamento paulista: Maria Thereza Nogueira de Azevedo e Maria Thereza Silveira de Barros Camargo. Azevedo era representante de Campinas e notabilizou-se pelos serviços prestados à resistência feminina na Revolução de 32. Fundou e secretariou a Associação Cívica Feminina e a União Feminina Paulista, ligadas à campanha da Chapa Única, além de integrar a comissão do monumento a Anchieta e o Conselho Consultivo da Faculdade Paulista de Medicina.

Maria Thereza de Barros Camargo

Já Barros Camargo, natural de Piracicaba, era um exemplo raríssimo de mulher emancipada, e não era aquela a sua primeira experiência com política. Viúva do empresário limeirense Trajano de Barros Camargo, que morreu prematuramente, aos 40 anos, em 1930, Maria Thereza assumiu todos os negócios do marido, como empresas em Santos e Limeira, e uma fazenda em Brotas. Em Limeira, contudo, ela concentrava suas atividades. Fundou a Associação Cívica Feminina daquele município, e se destacou no esforço de guerra, prestando grandes serviços à Assistência às Famílias dos Voluntários, ao Curso de Enfermagem e ao Hospital do Sangue de Limeira. A recompensa por essa larga folha de serviços prestados ao município e ao Estado veio em 1933, quando Armando de Salles, em gesto pioneiríssimo, a nomeou prefeita de Limeira por alguns meses. Com efeito, Maria Thereza foi a primeira mulher a assumir uma prefeitura no Estado de São Paulo, e uma das três ou quatro primeiras no Brasil inteiro. Eis o que se diz sobre Maria Thereza em publicação do PC:

Construindo escolas, abrindo e melhorando estradas, dirigindo severamente as finanças municipais, empreendendo melhoramentos de toda sorte, dona Maria Thereza Silveira de Barros Camargo aparece como verdadeira técnica em problemas municipais e urbanísticos, surpreendendo mesmo aqueles que já lhe conhecem o valor. (...) É uma figura singularmente ativa e eficiente de mulher moderna que, se apropriando daqueles valores de cultura e ação que em nosso país pertencem mais freqüentemente aos homens, conservou as suas excelsas qualidades feminis de dedicação e de bondade, fineza de espírito e de sentimentos. (Campos, Calazans de (org.). Candidatos do Partido Constitucionalista. São Paulo, PC, 1934)
 
A Assembléia Constituinte de São Paulo iniciou seus trabalhos em abril de 1935. No dia 11 Armando de Salles foi eleito “governador constitucional” (derrotando Altino Arantes, lançado pelo PRP) e na disputa pelas duas vagas ao Senado Federal (que na época eram votadas e eleitas pelos deputados estaduais), Paulo de Moraes Barros e Alcântara Machado levaram a melhor sobre os candidatos do PRP, Oscar Rodrigues Alves e Mário Tavares. A Constituição Paulista foi promulgada em 9 de julho de 1935. Terminada sua elaboração, não houve um segundo pleito para a Assembléia Ordinária, que acabou composta pelos próprios constituintes. A nível nacional, os comunistas deram seu grande passo em falso com a Intentona de novembro. Prestes, o PCB e toda a ANL foram para a ilegalidade e Vargas decretou Estado de Sítio.

Em sentido horário: Alcântara Machado, seu filho António de Alcântara Machado, Almeirindo Meyer Gonçalves e Oscar Cintra Gordinho

Passados quatro anos desde o golpe de 1930, o quadro político se alterara substancialmente. Os Democráticos e atuais Constitucionalistas sentiram o gosto do poder e preferiram acreditar cegamente que Getúlio tivesse, de fato, alguma pretensão democrática em seu futuro. Os perrepistas, por sua vez, utilizavam o mote dos mandatos “constitucionais”, outorgados pela Constituinte, para atacar o “adesismo” dos Constitucionalistas e a morosidade do retorno à democracia. O problema é que as tais “clivagens” ideológicas de que fala ocasionalmente a socióloga Regina Sampaio estavam funcionando a todo vapor, então já não era mais tão fácil saber quem era contra o quê, quem perdera e quem vencera no golpe, e nem a quem realmente pertencia o poder. Compreendia-se, por exemplo, que os modernistas António de Alcântara Machado e Cândido Motta Filho se desgarrassem da orientação perrepista de seus célebres pais, mas que o velho Alcântara Machado, ou um notório conservador como Bento Abreu de Sampaio Vidal estivessem no PC, era no mínimo curioso. Também não se sabia ao certo o que um plutocrata como Oscar Cintra Gordinho — rejeitado em todas as listas de possíveis sucessores de Waldomiro de Lima — estava fazendo no meio dos constitucionalistas. Verdade seja dita, era Democrático de primeira hora. Estranho, mesmo, foi o PC ter permitido que Almeirindo Meyer Gonçalves — também vereador da legislatura eleita em 30 de outubro de 1928 — se candidatasse a deputado estadual pela legenda constitucionalista.

Todas essas semelhanças e diferenças foram amplificadas imensamente assim que começaram a ser delineadas as duas candidaturas presidenciais. Mas antes disso, a Lei Orgânica dos Municípios estabeleceu que no domingo, dia 15 de março de 1936, o povo do Estado de São Paulo elegeria prefeitos e vereadores. Na Capital e em São José dos Campos haveria apenas eleições legislativas; a escolha dos prefeitos continuaria sendo de provimento exclusivo dos governadores.

Marrey Jr.

Era hora de ressuscitar Marrey, que há pouco mais de três anos estava quieto em seu canto, na Vila Mariana, assistindo tudo calado e vivendo na mesma pobreza honrada e franciscana em que viveu sempre. Assim que o pleito foi anunciado, o PRP passou por cima de mágoas e antigas diferenças, e aproveitou o rompimento de Marrey com seus companheiros do PD, para, sem qualquer cerimônia, convidá-lo a disputar uma cadeira na Câmara Municipal pela legenda que ele combateu tão duramente. À primeira vista pareceria uma aberração, mas quando constatamos o caso de Almeirindo Meyer Gonçalves na eleição estadual, ou de outras figurinhas carimbadas da legislatura de 1928, como Alexandre Albuquerque, que estava agora na chapa que concorria à vereança pelo PC, ou até mesmo de Rubião Meira, que assim como Marrey, fizera o caminho contrário, do PD para o PRP, verificamos que o jogo político agora era outro. Quantos Democráticos e Constitucionalistas não estavam se arrastando, dóceis e genuflexos pelas atenções de Vargas, e quantos perrepistas não se aboletaram na Chapa Única e depois no PC, utilizando a revolução de 32 como pretexto, abjurando ao que pregaram sua vida toda, somente para poderem permanecer politicamente vivos?

Marrey aceitou o convite e concorreu pelo PRP. O resto da chapa foi constituído dos seguintes nomes: Abrahão Ribeiro, Achilles Bloch da Silva, Alayde Borba, Synésio Rocha (que permaneceu no PRP e tentava voltar à Câmara), Francisco Patti, José Eiras Mairy, Carlos Pinto Alves, Fontes Junior, Leonardo Pinto, Múcio Faria, Franco de Abreu, Sylvio Margarido, Gilberto Sampaio, Orlando de Almeida Prado (ex-vereador e deputado estadual pré-1930), Luiz Tenório de Brito, Reynaldo Smith de Vasconcelos, Gaspar Ricardo e Rubião Meira.


Pelo PC concorreram, nessa eleição, Francisco Machado de Campos (vereador pelo PRP na legislatura de 1925 e prefeito de São Paulo nomeado por Laudo Camargo, de julho a novembro de 1931), Thomaz Lessa, Nicolau Marques Schmidt, Luiz Augusto Pereira de Queiroz, Antônio S. de Freitas, José Cerquinho de Assumpção, Alcides Chagas da Costa, Thiago Masagão Filho, Miguel Capalbo, Modesto Naclério Homem Netto, José da Costa Machado, Antônio Vicente de Azevedo, Mário Ottoni Rezende, José Ferreira da Rocha Filho, Zózimo de Abreu, Samuel Augusto de Toledo, Alexandre Albuquerque, Antônio de Queiroz Telles, Laurentino de Azevedo e Adhemar de Moraes. Entre os Constitucionalistas, a notícia do convite perrepista a Marrey foi recebida com incredulidade. Durante a reunião do partido que homologou a chapa de candidatos ao pleito municipal, um dos repórteres presentes escutou esta conversa entre dois próceres infelizmente não identificados, que descrevem Marrey com perfeição:

Um deles, virando-se para o seu companheiro de outro bairro, conversam sobre os elementos que compõem a chapa apresentada pelo Partido Republicano Paulista. E, por nada, quer acreditar que o Sr. Marrey Junior faça parte da chapa da oposição. “Em todo o caso”, disse ele a seu colega, “tome muito cuidado com o Marrey... ele é maneiroso e tem prestígio. É macaco velho, sabe manobrar o eleitorado”. (Diário da Noite, 2/3/36)

Sobre a constituição da chapa do PC, Prudente de Moraes Netto declarou, otimista: “A chapa do Partido Constitucionalista é um repositório das mais sublimes forças morais e intelectuais de nossa gloriosa terra. Com esses nomes venceremos, o que equivale dizer que São Paulo vai vencer mais uma vez”.

Nem tanto. Ou melhor, podia até ser, mas isso não significava que a bancada peceísta pensava em uníssono, ou que, mais cedo ou mais tarde, o PC não pagaria um preço por ter escancarado suas portas a coligações com inimigos de véspera para as eleições de outubro de 1934. Nessa época, que coincidiu com o triste falecimento, em 19 de fevereiro de 1936, do bom Gama Cerqueira, figura de proa entre os Democráticos e Constitucionalistas, surgiu formalmente uma dissidência do PC comandada pelo velho Alcântara Machado, que entrara em atrito com o Diretório Estadual do partido.

Alarico Caiuby e Cory Amorim
Era, porém, a mera manifestação pública do desacordo entre o grupo de Alcântara e determinados elementos; o apoio irrestrito a Armando de Salles continuaria até segunda ordem. Só que quando foram anunciados os candidatos do PRP, PC, AIB e PSB, apareceu uma quinta chapa, chamada “Coligação por São Paulo”, segunda dissidência constitucionalista que tinha à frente, entre outros, deputados estaduais eleitos pelo PC, como Alarico Caiuby e Cory Amorim. O primeiro era ex-perrepista e chegou a ser vereador na legislatura de 1925. O segundo vinha de um tal Partido Nacionalista de São Paulo, espécie de embrião do PDC, que contava com o futuro cacique pedecista Manuel Vítor entre seus quadros. Amorim foi candidato à Constituinte pelo PN mas perdeu a eleição.

Reunidos em assembléia, os membros da Coligação lançaram uma chapa com nomes desconhecidos e um manifesto que não teve qualquer repercussão. O documento, vazado em termos agressivos, mistura claramente ódio de perrepistas destronados e mágoa de Democráticos alijados. Era um manifesto de ressentimento político e hoje está inteiramente esquecido, mas relendo-o pelo que é, um simples comentário da situação do município pós-golpe de 30, o que se vê é uma análise brilhante, visionária, de inesperada clarividência sobre a grosseira pletora de equívocos revolucionários cometidos em São Paulo:

A Coligação por São Paulo aparece no momento em que se vai ferir o mais importante pleito eleitoral do país, que é o que organiza definitivamente a administração municipal. Sabedor do que esse pleito representa, na entrosagem (sic) de todas as atividades nacionais, a Coligação quer ser e vai ser uma partícula da interpretação do anseio geral, nesta hora de sombras e de subversão de valores. E inicia a sua atividade por onde devia começar, na defesa da cidade de São Paulo que, na loucura revolucionária destes últimos anos, se arruína a olhos vistos, transformando-se em quartel mestre de todos os desatinos políticos e administrativos.

Precioso é o comentário em que os dissidentes se dizem forçados a agir, “pela atitude precoce dos atuais regeneradores, abrasados por ambições políticas e pelo espetáculo desalentador de nossa cidade, anarquizada, desfigurada e empobrecida pelo entrechoque de prefeitos fabricados pela ditadura, ou indicados para preparar o apossamento das instituições pelos que se arvoraram em donos da revolução de 30”, prova irrefutável de que mesmo em tal conjuntura provocava espanto e indignação o troca-troca oportunista e criminoso de prefeitos de São Paulo no alvorecer do golpe.

Também exemplar é o trecho seguinte em que se enumeram os problemas de São Paulo, e, já naquela época, se fala do município que “de há muito oferece os mais graves e complexos problemas de uma metrópole, porém, com um desenvolvimento desmedido e irregular, sem plano algum”:

a) Sem conforto; b) sem pronto socorro médico; c) sem tranqüilidade; d) sem trânsito organizado; e) sem calçamento necessário; f) sem iluminação adequada; g) sem serviço de água e esgotos na atura de suas necessidades; h) sem divertimentos públicos; i) sem área ajardinada proporcional à sua população; j) sem defesa higiênica para as habitações, pois que: 1) possui bairros distantes em absoluto abandono, quase que isolados da vida urbana; 2) possui um sistema de construções infiscalizáveis (sic), proporcionando a criação de habitações coletivas que destroem a vida do operário e das populações pobres; 3) tem péssimo serviço de distribuição de gêneros alimentícios, com ausência de postos de socorro aos necessitados e às populações ribeirinhas do Tietê.

Em um parágrafo a tal coligação conseguiu ferir pontos delicadíssimos da administração paulistana, que até hoje são insolúveis, como a falta de hospitais, de saneamento básico e áreas verdes. Mais do que isso, cita os “bairros distantes em absoluto abandono, quase que isolados da vida urbana”, grande flagelo das zonas Sul e Leste, e ainda põe a descoberto o então nascente problema das favelas, “construções infiscalizáveis, proporcionando a criação de habitações coletivas que destroem a vida do operário e das populações pobres”. E continua, cada vez mais brilhante, culpando o “aparelho administrativo luxuoso mas deficiente”, responsável pelo fato de que a “cidade que está crescendo, de maneira alarmante num teor de vida insuportável”. E não fica só nas acusações. Passa, a seguir, a suas propostas:

Revendo, cuidadosamente, as loucuras destes últimos anos, que foram distribuídas fartamente, pela ausência de responsabilidade dos governos municipais e estaduais da ditadura, não pouparemos esforços para salvar a cidade, que foi uma das glórias do continente, de uma decadência irremediável e definitiva, propondo:

a) Uma política fiscal que redunde em beneficio da comunidade; b) uma política administrativa, que restaure a dignidade do funcionário e consiga, ao mesmo tempo, a eficiência da função; c) uma política urbana, dentro de um plano previamente traçado, tendo em conta as zonas da cidade, os bairros industriais, comerciais, proletários e residenciais; retificação do Tietê, construção do aeroporto; criação de novos playgrounds, etc.; d) uma política social capaz de animar o ensino municipal, a criação da assistência à infância, o amparo a todos os necessitados, construções de casas baratas e higiênicas, meios de transporte fáceis e a bom preço para escolares, proletários e professores; de postos de socorro nos bairros distantes.

Não queremos fazer tudo isso, de um momento para o outro. Somos realistas. Conhecemos os fatos e os homens. Para agir, agiremos com rigor, dentro dessa consciência e dentro desse programa. Assumimos uma grande responsabilidade, o que vale dizer que assumimos uma atitude que exige sacrifício e tenacidade.

É pena que a Coligação por São Paulo não tenha empolgado ninguém, porque, pelo menos na teoria, foi a demonstração mais lúcida e objetiva de conhecimento dos problemas citadinos em muitos anos. Dias antes da eleição se misturavam matérias pagas anunciando homenagens e reuniões da Coligação por São Paulo, com avisos apócrifos como este, que, sob o título “Somente nos parlamentos se fará sentir a ação dos dissidentes”, afirmava que “os dissidentes só passarão a agir eficientemente, quando do início dos trabalhos parlamentares, no Senado, na Câmara Federal e na Assembléia Legislativa”, desautorizando a Coligação por São Paulo e evidenciando que a dissidência vinha de cima e sequer entraria em assuntos municipais. Se era de responsabilidade da verdadeira dissidência, encabeçada por Alcântara Machado, não se pode dizer ao certo, mas o último parágrafo é explosivo: “Até lá, os dissidentes ficarão assistindo de palanque a luta entre peceístas e perrepistas”.

Olga Benário
O público brasileiro estava mais preocupado com outros assuntos que antecederam o pleito, como por exemplo a prisão, na madrugada do dia 5 de março, de Luiz Carlos Prestes no casebre que dividia com Olga Benário no nº 279 da rua Honório, no bairro carioca do Meyer. Os jornais noticiaram amplamente o ocorrido, referindo-se inicialmente à presença de uma “moça loira, secretária do capitão Prestes”, depois a “Olga Meirelles”, mulher de Prestes e, quem diria, “irmã do tenente Syllo Meirelles”, responsável pela intentona no Recife. Ainda houve espaço para uma “Olga Bergne” e “Maria Bregner”. O desconhecimento sobre a identidade da mulher de Prestes, “bastante moça e de boa aparência”, durou quase dois meses. Só em 30 de abril o nome “Olga Benário”, sua verdadeira identidade, foi finalmente divulgada, bem como sua lista de antecedentes no comunismo alemão. Seja como for, a prisão do casal foi a manchete do dia 5 de março e os jornais imprimiram 4 ou 5 edições diferentes, conforme as notícias vinham chegando.


Interessante que em lugar nenhum, verificando o que publicou a imprensa de São Paulo naquele dia, encontrei o tal “Não atirem! Ele está desarmado!” — gesto de heroísmo algo piegas e desastrado com o qual Olga teria defendido Prestes, jogando-se à frente dele no momento de sua prisão — que parece ter sido criado por Ruth Werner, primeira biógrafa de Olga (“Na frente do homem que deveriam matar, apareceu de repente uma mulher de braços abertos, protegendo-o. Olhava firme para os soldados. (...) Ela não gritava, não chorava. Calma e sem dizer uma palavra, simplesmente não permitia que ninguém tocasse em Prestes”) e descaradamente transformado em romance épico por Fernando Morais (“uma mulher alta pula na frente de Prestes, protegendo-o com seu corpo e dá um berro para os soldados. Não era um pedido de clemência, mas uma ordem dada por Olga: Não atirem! Ele está desarmado”). Segundo a imprensa, nada disso aconteceu. Quando se deu conta que a polícia estava lá, Prestes tentou fugir pelos fundos mas foi interceptado. A partir daí, não apresentou a menor resistência. Dizem alguns repórteres que Olga, ao contrário do que consta nas numerosas licenças poéticas e criativas de Fernando Morais, incitou Prestes a resistir, o que ele, prudentemente, teria evitado.

Três dias antes do pleito temos mais uma ocorrência que merece ser relembrada, só que fora da esfera política: pouco depois do meio-dia daquele 12 de março, um pequeno avião caiu dentro de uma casa, na então sossegada e residencial rua da Consolação. O avião partira do Aeroclube de São Paulo (que aliás, era presidido pelo deputado constitucionalista Eugênio de Toledo Artigas) e sobrevoava o Jardim América quando o piloto Anésio de Amaral Filho se deu conta de que o motor de seu Morane-130 estava falhando, uma “pane-seca”, no jargão aeroviário. A altura de 300 metros em que voavam ele e Natalino Carif, aluno do Aeroclube, e a pouca velocidade impediam a chegada deles ao Campo de Marte, razão pela qual foi necessário improvisar. Tendo pela frente as aristocráticas residências da rua da Consolação, o piloto escolheu aquela que tivesse as árvores de copas mais amplas e densas — a do nº 198 — porque “as árvores, na maior parte das vezes, amortecendo a queda do aparelho”, segundo Anésio, “se tornam aconselháveis como recurso dos aviadores”. Anésio, piloto experiente, “possuidor de um grande sangue frio”, falou ao Diário da Noite sobre as precauções que tomou e narra o momento decisivo:

Eugênio de Toledo Artigas,
deputado estadual do PC
e presidente do Aeroclube de São Paulo

Cortei imediatamente o contato do motor, tirei os óculos dos olhos, avisando o outro aviador para fazer o mesmo e planando o aparelho, fui aterrissando com calma e o melhor possível. O aparelho, quase em linha reta e a uns 20 metros de altura, encontrou três árvores, cujos galhos foram cortados com a queda, o que amorteceu a marcha do aparelho, que logo em seguida capotou. Após o choque, que não foi pequeno, verificou-se um princípio de incêndio, que se propagou logo às asas do aparelho, mas que não chegou a nos atingir, pois que procuramos safar-nos quanto antes. (12/3/36, 3ª edição)

O avião se espatifou, se incendiou, e dele saíram ilesos os dois tripulantes. Natalino Carif teve lesões leves no braço direito. Foi socorrido, por sinal, pelo próprio dono da casa.

No domingo, 15 de março de 1936, por fim, 130 mil eleitores do município foram às urnas para eleger os 20 vereadores que comporiam a 1ª Legislatura desde a cassação da Câmara, em 1930. Conferidos os primeiros resultados, veio a coincidência de que a AIB, em pleno delírio verde, com seus tresloucados sygmas e anauês, elegeu justamente um aviador, o renomado piloto João Ribeiro de Barros, natural de Jaú, famoso por ter realizado o primeiro vôo no Atlântico Sul, em 1927, a bordo de um aviãozinho velho e combalido.


Miguel Capalbo e Thomaz Lessa

A Coligação por São Paulo caiu no vazio e os socialistas, aniquilados por tabela pela malfadada intentona comunista, não contabilizaram nem 900 votos juntando todos os seus candidatos. Os peceístas esperavam uma reprise da apoteose constitucionalista ocorrida nas eleições legislativas de outubro de 34, em que o partido acabou definitivamente com a supremacia perrepista. O que aconteceu, todavia, foi o confronto entre uma situação e uma oposição que, na melhor das hipóteses, eram áreas cinzentas onde só se destacava mesmo a ambição pelo poder, de um ou outro grupo. Contados os votos, o PC conseguiu uma maioria suadíssima, de 11 vereadores contra 8 perrepistas e 1 integralista. Foram eleitos pelo Partido Constitucionalista: Alcides Chagas da Costa, Alexandre Albuquerque, Antônio Cândido Vicente de Azevedo, Antônio de Queiroz Telles, Francisco Machado de Campos, José Cerquinho de Assumpção, José Ferreira da Rocha Filho, Luiz Augusto Pereira de Queiroz, Miguel Paulo Capalbo, Thiago Masagão Filho e Thomaz Lessa.

Orlando Almeida Prado e Smith de Vasconcelos
O PRP trouxe à Câmara: Abrahão Ribeiro, Achilles Bloch da Silva, Gaspar Ricardo Junior, Marrey, Luiz Tenório de Britto, Orlando de Almeida Prado, Reynaldo Smith de Vasconcelos e Sylvio Margarido.

A prova de que o PC encontrava-se em uma situação de descrédito junto ao povo da Capital foi a eleição de Marrey, vereador mais votado da Legislatura, com quase 4.500 votos. A vitória tinha o sabor de uma tardia vingança sobre o partido pelo qual ele tanto lutara e que tão mal o tratara. Só que dentro de um esquema piramidal de importância política — como deixou claro o informe apócrifo sobre a dissidência peceísta — o Legislativo Municipal não valia nada, então a vitória de Marrey foi ignorada.

O aviador João Ribeiro de Barros

Também ignorada foi a instalação da Câmara Municipal, que fez sua discreta sessão inaugural no dia 9 de julho de 1936, sem a presença de Armando de Salles. Presidiu os trabalhos o juiz Oswaldo Pinto do Amaral e compareceram Carlos Mendonça (representando Salles), Laerte Teixeira Assumpção, presidente da Assembléia Legislativa, o prefeito Fábio Prado e o general Almério Moura, comandante do II Exército.

A solenidade não careceu de um incidente cômico. Chegada a hora de dar posse aos vereadores, Pinto do Amaral chamou-os, um por um, à Mesa Diretora para ouvir o compromisso de posse e dizer, protocolarmente, “assim o prometo”. Todos o fizeram de forma regular, menos o integralista Ribeiro de Barros, que disse: “Em nome de Deus, Anauê”, provocando gargalhadas e palmas. A pedido de Amaral, Ribeiro de Barros então disse o “assim o prometo” e a sessão prosseguiu.

João Ribeiro de Barros,
o aviador de Jaú
Por alguma razão, Ribeiro de Barros renunciou dias depois, passando o mandato para seu suplente, José Alves Ferreira Cyrillo, filho de ninguém menos do que o cacique perrepista Cyrillo Junior. Na 1ª Sessão Ordinária, no dia 13, já eleito presidente da Câmara o peceísta Francisco Machado de Campos, José Cyrillo foi convocado para tomar posse em lugar de Ribeiro de Barros. Adentrou o recinto sob aplausos, acompanhado por uma comissão especial, e ao invés de prestar o juramento tradicional dos vereadores, tomou seu assento e verberou: “Ao Chefe Nacional, diante da vida e diante da morte, três anauês!”, no que foi acompanhado de vários “anauês” dos integralistas presentes nas galerias. Incidente idêntico se verificou quando João Fairbanks tomou posse na Assembléia, em 34. Ambos concordaram, a seguir, em prestar o juramento tradicional.

Coberto pelo prestígio de uma votação consagradora, Marrey fez um longo discurso em desagravo próprio naquela sessão. Figura máxima daquele legislativo, que já ocupara tantas vezes, não se ouvia nem uma mosca quando o mineiro assomou à tribuna. Começou enaltecendo o gesto dos perrepistas, oferecendo-lhe legenda depois de terem se odiado por quase uma década:

Sr. Presidente, congratulo-me com o povo desta cidade pelo auspicioso acontecimento que foi a instalação da Câmara Municipal. Eleito pelo maior número dos seus sufrágios, em significativa demonstração de apreço pessoal e de aplausos a uma sincera e ilibada conduta política, volto a exercer o elevado cargo de vereador, a que já dei honroso desempenho. O Partido Republicano Paulista, num gesto de invulgar elegância, que tanto me sensibilizou, convidou-me para integrar sua representação nesta Casa. Com liberdade de pensamento e de ação que a nobre Comissão Diretora me facultou, para aqui entrei bem compenetrado da obrigação imposta pelo mandato e aqui estou desejoso de que possíveis divergências partidárias, não consigam atirar a inferior plana os interesses coletivos nem macular a grandeza da nossa missão.

A seguir um comentário necessário sobre os vira-casacas, os neo-democráticos e uma pincelada sobre o temor comunista, que grassava por culpa da intentona de 35:

Desde o findar da grande guerra mundial de 1914, que as lutas políticas, na Europa ou na América, não se limitam ao antagonismo entre o novo e o velho regime. Entre nós, contudo, erroneamente, não se tem dado outra feição à resultante da revolução de 1930. Os homens do poder, não admitem os homens do passado, a não ser quando esses se enfileiram no seu séquito. Os que aderem são isentos de culpa e pena e assanham-se, juntamente com os novos, contra antigos companheiros de jornada, no triste espetáculo que são as campanhas políticas que primam pela ausência de idéias e pelo excesso de injúrias. Não é dessa espécie, porém, que assinala a história constitucional dos povos que sofreram o grande cataclismo. Aqui, já os estadistas se convenceram de que a luta decisiva do após guerra é a que vem sendo travada entre a democracia e o sovietismo.

Na seqüência uma paulada violentíssima no fisiologismo evidente de que padeciam os atuais donos do poder, na maioria ex-companheiros de Marrey:

Ouve-se, hoje, contudo, generalizado apelo em prol da democracia. Proclama-se, entretanto, a democracia mas não se a exercita. O êxito da democracia não está simplesmente no exercício do sufrágio eleitoral, por força de lei que garanta o recebimento livre do voto, a sua regular e rigorosa apuração, mas não impede as manobras com as quais se coarcta a liberdade moral do eleitor. O mal brasileiro não é, todavia, de natureza eleitoral. O mal de que o povo se queixa está na ação do partidarismo político, infiltrado na administração, corrompendo-a, obrigando governos, os mais intencionalmente dispostos a acertar, os mais intencionalmente honestos, a deixar de ser governos pela lei para se tornarem governos de “fiats” arbitrários. São os partidos políticos denominados, pelo próprio chefe e alto representante de um deles, “partidos trampolins do poder, partidos agências de colocação”, explorando o voto, abusando da rudimentar instrução e educação do meio, que contribuem para o mal nacional. Desses partidos não saem estadistas. Prevalecem, no seu seio, os verdadeiros agenciadores de empregos, os que não alcançam a realidade das cousas nem se apercebem da fatalidade dos movimentos sociais.

Uma palavra sábia sobre a corrupção daqueles que chegam ao poder, e um comentário muito esclarecedor sobre a índole do povo paulista:

Costa Rego
Preconiza o senador Costa Rego [imagino que seja o alagoano Pedro da Costa Rego] o rejuvenescimento do regime pela renovação das fórmulas e seleção dos indivíduos. A seleção dos indivíduos, sim, mas numa escola de bons exemplos, de rigoroso culto à Justiça. E no dia em que os destinos do povo passarem para as mãos de quem se caprichar em evitar a nefasta ação do partidarismo político; em que ficar bem estabelecida e nítida a distinção entre os interesses gerais e os particulares; em que usufruirmos a suprema ventura de observar o “habeas anima” com a mesma popularidade do “habeas corpus”, e em que, afinal, perante os governantes, os patrícios não se dividirem entre gregos e troianos, aí sim, se iniciará a era do já afamado governo forte, o regime subsistirá, não haverá quartel para os que, enveredando por caminhos tortuosos, apelem para a força, para idéias exóticas ou subversivas da ordem pública. A massa popular é dócil e bem-intencionada. O povo contenta-se com os mais comezinhos atos de justiça. O de São Paulo aí está dando arras desses sentimentos, vibrante ainda de entusiasmo na recordação do período em que, acudindo aos pregões políticos desavisados, se multiplicou nos mais empolgantes lances de sacrifício e abnegação.

No bojo de seu pronunciamento, um grito de autonomia para o município, idéia que norteou o pensamento político e ação parlamentar de Marrey desde sempre: “A célula da democracia reside na autonomia do município. (...) É no município autônomo que se encontram as raízes da civilização moderna, as fontes vivificadoras do espírito humano e os centros da liberdade constitucional”. Um dos maiores erros do golpe de 30, segundo Marrey, era justamente pregar a autonomia no texto constitucional, mas adotar atitude diversa na prática. O vício se agigantava, ampliando-se “a tutela do Estado sobre o município”:

Satisfazia-se, ainda mal-disfarçada tendência centralizadora, mais tarde francamente dominadora nos congressos constituintes da República e do Estado. Feriu-se o sistema em que a unidade original e primária é a comuna, base do governo livre. Autonomia corresponde à descentralização. Constituiu motivo para uma das mais sérias campanhas políticas ao tempo da velha República. Coloquei-me à frente dos que se batiam pela autonomia do nosso município, centralizei a campanha, e, hoje, em face dos preceitos constitucionais que nos regem, reputo contrária aos princípios fundamentais à faculdade já aludida, concedida e adotada em São Paulo.

Curioso como Marrey isenta o PRP desse vício, por não ter sido jamais a autonomia uma reivindicação perrepista. Assim, o erro devia ser inteiramente debitado aos Constitucionalistas que exigiam o direito a voto, mas não pensaram da mesma forma em relação à Capital de São Paulo, quando redigiram a Carta de 9 de julho de 1935:

Uma vez só, entretanto, não se levantaram em prol da autonomia do município da Capital, nem mesmo para explicação da mudança de pensar por que passaram os que a defendiam. A proposta para que o Prefeito fosse nomeado pelo Governador é preceito da Constituição de 9 de julho de 1935. O Partido Republicano Paulista, coerentemente, com ela não se preocupou. A idéia que, entretanto, movimentara a opinião pública e provocara candentes artigos de indignada oposição, em defesa da autonomia municipal, constituíra ilusória promessa oposicionista. Vencedores, senhores da situação, os que em seu nome, combateram a reforma constitucional [de 1929, que acabou com as eleições municipais na Capital] e posteriormente tomaram parte na elaboração da Constituição de 9 de julho, esqueceram-na após a vitória. Um operoso e talentoso constituinte [que ainda não sei quem é mas descobrirei e darei o nome, oportunamente], aliás, funcionário municipal, timbrou-se em mostrar-se peremptoriamente contrário ao princípio com o qual estivera anteriormente de pleno acordo. Não contente com o que lera, ou porque não lhe parecera bastante claro o texto, pretendeu que da Constituição ficasse insofismavelmente constando que o Prefeito desta linda, progressista e acolhedora cidade, fosse de especial confiança do Sr. Governador...

Além de retirar dos paulistanos o direito de eleger seu prefeito, a Constituição encolhera os poderes do Legislativo Municipal ao ponto de que a Câmara era virtualmente supérflua:

 A legislação ordinária e posterior, meteu-nos até em posição de incomoda subalternidade ao delegado do governo do Estado. Refiro-me à Lei Orgânica dos Municípios, em certos passos contrária à Constituição, em outros concentrando poderes de tal monta em mãos do Prefeito que, em rigor, em grande parte, inutiliza a ação da Câmara. (...) Deu-se ao Prefeito o direito de absorver a função dos vereadores. Um prefeito audacioso e autoritário dispensará a colaboração da Câmara, porque ao seu critério, ao seu exclusivo critério, ficará a urgência dos casos; do seu critério dependerão os imprevistos...

Para terminar, depois de “esclarecido o meu ponto de vista e patente o meu protesto, inócuo, mas demonstrativo da minha coerência”, Marrey aproveitou que Armando de Salles mandara sua mensagem anual à Assembléia Legislativa exatamente no dia da instalação solene da Câmara, para responder ao interventor, e agora governador constitucional:

Armando de Salles Oliveira
Há quatro anos, amargando com o paulista a dor que nos ocasionou a luta, gloriosa pelo que de sublime lhe deu a cooperação popular, mas malfadada pela imprudência com que a deflagraram os políticos, eu disse que São Paulo estava em condições de fazer operar o milagre da reconstrução do Brasil. (...) Ontem eu apelava para os paulistas para que continuassem a ser  cavalheiros e generosos, orgulhosos de sadio orgulho, da sua força, da sua organização, para a conquista do Brasil. Ambos, eu e o Sr. Governador, andamos convictos de que não é possível traírem-se os bandeirantes nos seus sentimentos. Apenas, uma diferença entre nossas situações e que também me causa satisfação, servindo de advertência: hoje o Sr. Governador está recebendo flores que a S. Excia. trazem os que o acompanham e vivem do seu alto prestígio, flores em que se transformaram as pedras que, ‘estarrecidos’, eles me atiraram...

O Trocadero, onde funcionou a Câmara de 36/37
Marrey não pôde prosseguir, abafado pela explosão de aplausos e “vivas” que recebeu da bancada do Partido Republicano. Essa Legislatura também não prosseguiu. Durou ainda menos do que a 13ª, eleita em 1928. Programado para abrigar a Câmara, o Palácio Trocadero, que se localizava atrás do Teatro Municipal, passou por uma grande reforma, instalando-se a Sala das Sessões, a portaria, o Arquivo, a copa, a Sala dos Vereadores e a Sala da Presidência no térreo. No primeiro andar foram colocadas arquibancadas para o público, a Sala das Comissões e o gabinete do Diretor Geral e do secretário. Houve até concorrência pública para a contratação de uma empresa que se propusesse a construir as arquibancadas dentro de um orçamento de 30 contos. A reforma ficou pronta pouco menos de um mês antes do início dos trabalhos. Tudo à toa; a Câmara foi cassada 14 meses depois, em 10 de novembro de 1937, quando Getúlio deu mais um golpe na democracia e decretou o Estado Novo. Exemplo das tenebrosas “clivagens” do PC foi o destino de seus componentes. Enquanto Armando de Salles, que renunciou ao mandato para fazer campanha de sua candidatura à presidência, foi preso e exilado, Cardozo de Mello Netto, interventor que o sucedeu e um dos fundadores do Partido Democrático, jurou lealdade ao dantesco Estado Novo e permaneceu na interventoria até abril.



Epílogo

Armando de Salles ficou exilado durante 7 anos. Voltou ao Brasil em abril de 1945, em plena restauração democrática e partidária. Gravemente enfermo, viveu o suficiente para ser o patrono da União Democrática Nacional, UDN. Para esse partido foram os Democráticos da primeira leva, como Antônio Carlos de Abreu Sodré, Waldemar Ferreira, Carlos Moraes Andrade e Paulo Nogueira Filho.

Os perrepistas mais velhos não sobreviveram o Estado Novo ou já estavam aposentados quando Vargas foi deposto. Os que estavam vivos e politicamente ativos se dividiram entre o PSD, a UDN e o pequeno PR, Partido Republicano (fundado por Arthur Bernardes). As clivagens atingiram seu ponto máximo, que é quando desaparecem as diferenças: além de ter sido fundado por Vargas, o PSD misturava, em seus quadros, perrepistas históricos como Altino Arantes e Macedo Soares, roçando ombros com Dutra — ministro da Guerra de Getúlio quando foi decretado o Estado Novo — e Filinto Müller — torturador e carrasco durante a ditadura. Já na UDN, os fundadores do PD se tornaram colegas de perrepistas como Orlando de Almeida Prado e ninguém menos do que o velho Júlio Prestes - considerado o grande culpado pelas desgraças do pleito de 1928 - que chegou a fazer parte da Comissão Diretora da UDN pouco antes de sua morte.

Marrey Junior tentou ingressar na UDN em 1945 mas teve seu pedido indeferido por Antônio Carlos de Abreu Sodré. Fundou o Partido Popular Sindicalista com Miguel Reale, em 46, mas logo em seguida fundiu o PPS com o Partido Agrário Nacional de Mário Rolim Telles e o Partido Social Progressista de João Café Filho, do qual fazia parte Adhemar de Barros, que também teve a porta da UDN fechada em sua cara. Surgiu o PSP (mantendo o nome dado por Café Filho), que num primeiro momento acabou abrigando Marrey, Paulo Nogueira Filho (incompatibilizado com Waldemar Ferreira) e um setor amplamente fisiológico do velho PRP, que incluía nomes como Diógenes Ribeiro de Lima e César Lacerda de Vergueiro. Pouco depois Marrey se decepcionou com a corrupção de Adhemar e terminou sua carreira política no PTB, também fundado por Getúlio. Morreu em 1965.

O primeiro presidente eleito depois do golpe de 1930 foi Eurico Dutra. Morreu em 1971.
Getúlio Vargas foi eleito democraticamente em 1950, sucedendo Dutra. Se suicidou em 1954.

Washington Luís viveu para retornar ao Brasil, em 1947, depois de 17 anos de exílio, e assistir o suicídio de seu algoz, em 1954. Morreu em 1957, aos 88 anos.
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Bibliografia:
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  • CALIMAN, Auro Augusto. Legislativo Paulista – Parlamentares 1835-1998. São Paulo, Imprensa Oficial, 1998.
  • CAMPOS, Calazans de (org.). Candidatos do Partido Constitucionalista. São Paulo, PC, 1934.
  • MORAIS, Fernando. Olga. A vida de Olga Benário Prestes, judia comunista entregue a Hitler pelo governo Vargas. São Paulo, 14ª ed., Alfa-Omega, 1987.
  • SILVA, Hélio. 1933: A Crise do Tenentismo. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968.
  • _____. 1934: A Constituinte. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1969.
  • WERNER, Ruth. Olga Benário. A história de uma mulher corajosa. São Paulo, Alfa-Omega, 1989.
  • Diário da Noite
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