terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Para encerrar 2010


Musa Sem Querer

Sheilla Castro

"O Brasil é o país do futebol". A frase é real. Não só quando descreve em poucas palavras essa verdadeira neurose nacional com o esporte de Pelé, mas porque demonstra que nós não prestamos qualquer atenção a outros esportes nos quais o Brasil é tão bom ou melhor do que o futebol. E me incluo nisso. A lembrança que tenho das últimas Olimpíadas é de um tal fiasco para nosso país que só semanas atrás, assistindo o Mundial Feminino de Vôlei, fiquei sabendo que somos medalha de ouro em Pequim. Faço aqui a necessária penitência, porque o time reunido por José Roberto Guimarães é uma das melhores coisas que já vi na minha vida. Foi em uma dessas tediosas madrugadas de outubro que acabei pegando sem querer um dos primeiros jogos do Brasil no Mundial. O time adversário era a República Tcheca. As brasileiras suaram para ganhar o jogo. No fim venceram graças a uma única jogadora: Sheilla Tavares de Castro.

A equipe toda é talentosa. A líbero Fabizinha parece uma vespa, defendendo as cortadas mais violentas, voando de um lado para outro e usando até mesmo chutes bem colocados para devolver a bola ao jogo. Taísa é a gigante de 1 metro e 96 que guarda a rede. Fabiana e Natália têm sempre a paulada certeira que desestabiliza as adversárias. Jaqueline por vezes parece mais preocupada com o cabelo e com a tiara, mas ainda assim é peça relativamente importante tanto na rede quanto na retaguarda. A levantadora Fabíola deixou muito a desejar embora em algum nível mereça perdão, pois foi escalada nos 47 do segundo, quando a jogadora Fofão decidiu não participar do mundial para seguir carreira na Turquia. Sheilla é absolutamente superior.

Não só na beleza, mas na desenvoltura e no talento. Não perdi mais nenhum jogo. Assisti todos, pelo prazer único e exclusivo de ver Sheilla voando, saltando com aquelas pernas agilíssimas, os braços longos, bloqueando, dando aquelas cortadas incríveis, enviesadas e indefensáveis, ou destruindo a defesa adversária com seu saque. Melhor ainda era vê-la vibrando a cada ponto, as câmeras (sempre) focalizando-a na rede, com cara de expectativa, e o sorrisão aberto nos acertos, que eram quase que invariavelmente dela, e nos quais salvou a equipe inúmeras, incontáveis vezes. Impossível tirar os olhos dela. Mas uma andorinha só não faz verão. Sheilla é melhor que o time. O Japão é talvez melhor como equipe, a Rússia tem duas ou três jogadoras excepcionais, mas Sheilla brilha sozinha como a melhor jogadora do mundo. E seguramente a mais linda. É a proverbial musa sem querer.

Bárbara merecia mais

Bárbara Heliodora, durante entrevista
 no Roda Viva

Lembro-me que fazendo pesquisa na Câmara Municipal, há uns dois anos, fui abordado por uma funcionária da Biblioteca que me perguntou se era verdade que eu entrevistara membros da 1ª Legislatura (1948/1951). Confirmei, informando, porém, que dos seis que entrevistara, três já haviam infelizmente falecido. Pediu-me o obséquio de fornecer os telefones dos três restantes, a fim de que fossem entrevistados para uma série da TV Câmara sobre antigos parlamentares. Dei os telefones com a ressalva específica – e repetida diversas vezes – que não mandassem um estagiário qualquer para entrevistar aqueles velhos, todos na casa dos 90, pois eram ex-políticos com mais de 70 anos de história de São Paulo na cabeça, e só se abririam se comprovassem estar diante de gente preparada para entrevistá-los. Pedi inclusive que me contatassem, se fosse necessário, e eu orientaria os entrevistadores sobre a melhor forma de abordá-los durante a sabatina. Resultado: mandaram uma estagiária ignorante e despreparada, e as entrevistas foram insípidas e tediosas. Um dos velhos sequer aceitou receber a menina da TV Câmara. Tive mais ou menos a mesma impressão no Roda Viva com Bárbara Heliodora, esta semana. Desde que o novo (e horroroso) formato do programa foi estreado, o número de entrevistadores diminuiu e as perguntas do público foram suprimidas. Isso deixa nas mãos de três entrevistadores fixos – Marília Gabriela, Augusto Nunes e Paulo Moreira Leite – e dois entrevistadores convidados a tarefa de sabatinar o convidado da semana.

Bárbara, na caricatura do gênio Paulo Caruso,
 que graças a Deus foi mantido na desastrada
 reformulação do programa
Até aí não haveria problema, desde que Marília Gabriela estivesse preparada para abordar qualquer tema (o que não está), soubesse calar quando não domina o assunto (o que não sabe), e desde que os entrevistadores convidados fossem escolhidos com critério (o que não são). Na entrevista com a maior crítica brasileira viva, o que se viu foi um show de despreparo por parte de Marília, e o silêncio dos dois convidados, o ator Dan Stulbach e um crítico da Folha cujo nome esqueci. Marília, que já nos aterrorizou trabalhando em teatro, não sabe nada dessa arte e apresenta o Roda Viva como se fosse seu programa de perguntinhas fúteis do SBT. Seu grande momento foi perguntar para Bárbara se ela “fizera fortuna” como crítica, pergunta que Bárbara não se dignou sequer a responder. Dan Stulbach, ator de TV que pouco fez no teatro e que não demonstra ter qualquer subsídio cultural sobre o assunto, quebrou seu mutismo perguntando se a estudiosa em teatro era crítica também “fazendo compras, reclamando dos preços”. O crítico da Folha não foi capaz de avivar a memória de Bárbara com o nome de um único diretor paulista dos últimos 40 anos. Paulo Moreira Leite tentava perguntar coisas interessantes mas se perdia em meio à sua retórica sempre confusa. Sobrou Augusto Nunes, que nada tem a ver com teatro e no entanto foi o único a perguntar coisas que de fato interessassem ao espectador. Lamentável. Bárbara merecia mais. Onde está Paulo Markun? E por que, meu Deus, mudaram o formato de um programa que há mais de 25 anos era o melhor de sua área? Pra quê???

Cadê o Dedé?

Renato Aragão e Patrícia Poeta no especial
 de 50 anos do comediante
O especial de fim de ano que a Globo preparou para comemorar os 50 anos de carreira artística de Renato Aragão foi bom e teve momentos até emocionantes. Foi divertido rever Vinícius de Oliveira, o menino Josué de Central do Brasil, na época com 13 anos, hoje com 25, fazendo o papel de Renato jovem. Ressalte-se que Patrícia Poeta – destacada para entrevistar Renato – é bonita, muito simpática, mas ficou completamente perdida quando Aragão lembrou-se de seu encontro com Oscarito e não segurou as lágrimas. Ainda precisa aprender a lidar com a emoção de um entrevistado. De uma forma ou de outra, como tem sido recorrente nos últimos anos, ficou uma pergunta no ar, como uma nuvem negra que não se dissipa de jeito nenhum: CADÊ O DEDÉ?? A insistência da Globo em querer individualizar Aragão, como se ele pudesse se manter na proa do humorismo brasileiro sem seu companheiro eterno de estripulias é lamentável, prejudica a emissora e o próprio Renato. O cearense de Sobral é um grande humorista e já tem seu lugar no olimpo dos comediantes brasileiros. Só que a seu lado estão Dedé, Mussum e Zacarias. E isso não mudará jamais.

Chuck Lorre

Chuck Lorre

Chuck Lorre é indiscutivelmente um gênio. Enquanto David Crane e Marta Kauffman há seis anos se matam para tentar emplacar algum sucesso que lembre, ainda que remotamente, o maravilhoso furacão que foi Friends, Lorre acertou em cheio com Two and a Half Men, em 2003, e quatro anos depois repetiu a dose com The Big Bang Theory. As duas são, pelo que sei, as séries de maior audiência da TV americana, e merecem isso. A primeira parece ter surgido como um deboche proposital sobre a vida tumultuada e sexualmente promíscua do ator Charlie Sheen e acabou agradando, quase que acidentalmente. Ao longo dos anos, o contraste entre os dois irmãos que chegaram aos 40, um deles charmoso, rico e irresponsável, e o outro bitolado, pobre e azarado, tem sido delineado de forma tão inteligente e cuidadosa que afastou a armadilha de um prevalecer sobre o outro. Os dois arquétipos são mantidos num equilíbrio perfeito, e os sentimentos de estima e pena são idênticos tanto a um quanto ao outro.

O elenco de Two and a Half Men
Além disso, ambos os atores – sobretudo John Cryer – bem como todo o elenco, são excepcionais e o humor é simplesmente brilhante. Abandonou-se a estética do humor doce e piegas que reinou no sitcom norte-americano nos anos 80 e 90, que trazia uma espécie de moral politicamente correta, no fim de cada episódio, e, curiosamente, voltou-se à piada crua, ácida e causticante dos anos 70. Os conflitos sentimentais ou sexuais enfrentados por Charlie e Alan são um vade-mecum da sexualidade masculina aos 40. Impossível não se identificar e chorar de rir com as enrascadas amorosas em que os dois se metem. Como também são arrepiantemente realistas os problemas que os dois têm com a mãe, a she-bat Evelyn (a magnífica Holland Taylor). Não existe mensagem, não há bem ou mal, não há regras, transgressões ou limites. Apenas dois idiotas engraçadíssimos esgrimindo para ver qual deles conseguirá fugir das conseqüências daquilo que fazem. Charlie e Alan são Martin e Lewis do século XXI.

O elenco de The Big Bang Theory

The Big Bang Theory é outra pérola. Só que aqui há o notável desafio criativo de transformar em comédia a vida de quatro cientistas completamente nerds que lidam com partículas subatômicas o dia inteiro, a partir da chegada de uma loira burra, pela qual um deles se apaixona perdidamente. Nesta série também é impressionante a maneira como Lorre faz a situação cômica florescer além do óbvio de se juntar um nerd e uma gostosa. No processo, ele acabou criando um dos personagens mais sensacionais de todos os tempos: Sheldon Cooper, o físico misantropo e assexuado, interpretado à perfeição pelo genial Jim Parsons. Aliás, é na composição detalhista e meticulosa de seus personagens que está a diferença fundamental entre Lorre e a dupla Crane/Kauffman. Os seis personagens de Friends tinham características próprias e eram divertidíssimos, mas um dos grandes defeitos da série foi a alteração extemporânea de determinados aspectos de cada um, do meio para o fim, quando a necessidade de se esticar a série trombou com o limite hermético daquilo que havia sido criado inicialmente. Tanto em Two and a Half Men quanto em The Big Bang Theory, isso não ocorrerá porque as possibilidades são infinitas.

O Brasil pode até fazer novelas melhor do que os norte-americanos. Essa superioridade, aliás, restringe-se à produção, porque em elenco, as novelas de ambos os países são pródigas em nulidades. Mas estamos engatinhando em matéria de sitcom. Precisamos estudar com Chuck Lorre.

Amado Mestre

Foi com ansiedade e expectativa que aguardei o especial de fim de ano de Chico Anysio que foi ao ar ontem, 2 de janeiro, depois do Fantástico. Tive um misto de reações. No começo ri com vontade, na alegria de rever personagens que há tantos anos me divertem, como Coalhada, Tavares, Azambuja, Popó, Pantaleão e Justo Veríssimo. Na cena de Silva na cama com as gostosas do BBB, eu gargalhava. Quando de repente entrou Nazareno, meus olhos se encheram de lágrimas. Esses dois personagens são de uma leva criada por Chico na época em que eu era criança, e revê-los me deixou emocionado. Pouco me importava que Azambuja não estivesse com a voz tão grave como de costume, ou que ele e Tavares falassem mais ou menos do mesmo jeito que o Professor Raimundo, ou mesmo que a peruca do Pantaleão estivesse completamente diferente da original. Assisti-los foi um reencontro maravilhoso com minha infância e juventude. As piadas inocentes, bobinhas, o pão-durismo de Gastão, a voz irritante do personagem Jovem, que hoje poucos lembram ter sido inspirado no Laio de Taumaturgo Ferreira, na novela Mandala, tudo é familiar, conhecido, e deu um gosto saudoso do que foi esse gênio absoluto do humor que é Chico.

Chico, durante o especial "Chico e Amigos"

Digo do gênio que “foi” sem qualquer morbidez; ele está vivo e bem para nossa suprema alegria, mas confesso que me chocou vê-lo tão fragilizado. Acostumado a assistir entrevistas de Chico, uma ou outra de suas participações no Zorra Total ou comerciais de TV, nunca reparei que os últimos sustos de sua saúde haviam deixado marcas indeléveis. No meio do programa houve um momento em que Chico contou piadas tendo na platéia seus próprios personagens. Senti em sua voz a dificuldade de falar mais alto, de modular, de rir, de dar esta ou aquela intenção e, por fim, de tudo em que fosse necessário usar o pulmão. Logo Chico, desde criança dono de uma das mais belas vozes do Brasil; ele que realizou o milagre da multiplicação das vozes e criou quase 500 personagens ao longo de sua vida. O último bloco trouxe Chico vestido de professor Raimundo, dando aula para seus personagens. Pela primeira vez reconheci o velho em Raimundo. Nunca conseguira entrar na ilusão da peruquinha e do bigode branco; Chico era demasiado ágil fisicamente para que eu pudesse acreditar na velhice do personagem. Ontem vi esse velho pela primeira vez.

Milton Gonçalves, apresentador do BBB no "Chico e Amigos", e o Professor Raimundo

Chico hoje está hospitalizado, se recuperando de uma pneumonia. Há meses ele vem pedindo à Globo que ressuscite a Escolinha do Professor Raimundo, admitindo com total sinceridade que o velho professor – sempre sentado e apenas interagindo com os alunos – é o personagem perfeito para sua atual condição física. Desejo com toda a minha alma que a Globo dê ouvidos a Chico de uma vez. Ontem, no fim do programa, Raimundo ganhou o Big Brother expulsando todos os personagens da casa. Ele olhou para a câmera de trás e soltou o bordão tradicional: “E o salário... ó”, mas logo em seguida olhou para a câmera em sua frente e disse “mas o prêmio, ó”, e abriu os braços. A imagem congelou e todos os personagens apareceram nesse abraço final. Meu coração apertou e eu chorei mais uma vez. Chorei tentando entender por que a Globo ainda não fez a vontade de Chico. Chorei de saudade de uma época em que o brasileiro perdia tudo, menos o programa semanal de Chico. Mas chorei, sobretudo, porque tenho medo que Chico morra. Medo de perder a maior referência que temos de humorista, medo de perder o artista mais versátil, mais eclético e mais genial que o Brasil já produziu. Medo de não ter mais esse gênio ao nosso lado, para nos orientar. (Incluído em 3/1/2011)

Um comentário:

  1. Não tem como ler e não se emocionar. Você conseguiu transpor para este texto a alegria e o lamento de quem ama esse grande artista brasileiro.
    “Chorei de saudade de uma época em que o brasileiro perdia tudo, menos o programa semanal de Chico.”

    Viva Chico Anísio!

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...