quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Jânio: Ideologia, Populismo e Caudilhismo


Ao longo dos anos se verifica que a História é, de certa forma, estabelecida por aqueles que a contam, deixando, por vezes, que conceitos subjetivos e questionáveis acabem cristalizados como versão final. A vida de Jânio está cheia desses conceitos e essa é uma das razões que me levaram a escrever a biografia do ex-presidente: uma tentativa despretensiosa de desmistificar bobagens que já entraram para a história como verdade, por conta de historiadores e jornalistas (e sociólogas, inclusive) que deixaram seu ódio por Jânio falar mais alto que a verdade factual e documental.

Jânio tinha duas características políticas acentuadas: o caudilhismo e o populismo. A primeira é a qualidade do chefe de um bando, seja militar, civil, ou o que for. A segunda é o movimento pelo qual um político sobe ao poder, e lá se mantém, única e exclusivamente com o apoio popular. Getúlio combinou as duas idéias, embora de maneira espaçada, pois subiu ao poder por um golpe militar (1930), foi deposto 15 anos depois (1945) e voltou ao poder uma segunda vez, só que agora com o voto popular (1950). Jânio, que granjeou a estima do povo desde o início de sua vida pública, ao contrário de Getúlio, que só se tornou conhecido depois de um golpe, pretendeu o poder incondicional (no que daria vazão ao seu caudilhismo) só que com pleno respaldo popular, jamais utilizando-se de meios despóticos para atingir seus fins (no que daria vazão a seu perfil populista).

Isso é para mostrar que as duas características que pautaram a vida política de Jânio são antagônicas a quaisquer ideologias. O populista, sobretudo, não pode se associar demais a ideologias, sob pena de perder determinado naco da população que poderá futuramente ser o fiel da balança, em uma eleição. Getúlio percebeu isso em 30, e procurou desvincular a Aliança Liberal de qualquer ideologia, inclusive o recém-nascido comunismo (razão pela qual Prestes ficou fora da revolução). Já em 35, combateu a Intentona Comunista da maneira mais violenta possível. Em 38 foi a vez de descer o sarrafo no Integralistas. Na 2ª Guerra, Vargas pendia para o Eixo, e o Brasil só apoiou os Aliados quando o dinheiro americano jorrou copioso em terras nacionais. E por aí vai.

Jânio trabalhava da mesma forma, só que dentro da democracia. Sua primeira filiação partidária foi na conservadora UDN; depois veio o híbrido PPS (Partido Popular Sindicalista), do perrepista Marrey Junior e do ex-integralista Miguel Reale, mas o jovem mato-grossense acabou se elegendo pelo nanico e fisiológico Partido Democrata Cristão. Já em 54 elegeu-se governador pelo Partido Socialista Brasileiro. Em 58 elegeu-se deputado federal pelo PTB paranaense. Na eleição presidencial voltou à UDN. Em 61 condecorou o Guevara, chocando os engomados políticos da UDN e os militares. Ao mesmo tempo tinha como Ministro da Guerra Odylio Dennys, general velho que participou de todos os golpes militares do século 20. Em 64 e 68 foi severamente punido por fazer pronunciamentos contrários ao golpe de 64. No início da década de 80, elogiou Lula e o PT, e ao mesmo tempo transformou-se no mais aguerrido anti-comunista que já se viu na face da terra. O que se depreende disso? Que o caudilhismo e o populismo de Jânio impediam que ele tivesse qualquer perfil ideológico. Foi comunista quando isso convinha à sua ascensão política e anti-comunista quando se fazia necessário.

O que não pode deixar de ser ressaltado, a bem da justiça, é que quando estava no poder, seja como prefeito, governador ou presidente, Jânio era um grande liberal e não se deixava guiar por quem quer que fosse, a não ser sua própria consciência. E como ele já estivesse no poder e não precisasse mais de votos, isso é prova de que, quando detinha o poder e podia agir sem permutas ou concessões partidárias e políticas, ele professava a sua própria ideologia, que, se analisarmos a fundo, era mais de esquerda do que de direita. Quando lhe perguntavam se isso era incoerência, ele sacava da manga mais uma de suas respostas brilhantes: "Já fui acusado de comunista e de anti-comunista, o que demonstra que o que realmente sou é um democrata".

Também há dúvidas quando se consideram as medidas que Jânio tomou na presidência, como a briga de galo, o turfe, os biquínis, etc. Isso se explica facilmente: uma vez na presidência, Jânio se deparou com o abismo financeiro deixado por seu antecessor, JK, que realizou seu megalomaníaco plano de 50 anos em 5, construindo Brasília e deixando a conta para o presidente que viesse a seguir. Como Jânio precisava recolher os cacos da economia nacional, medidas impopulares teriam que ser tomadas. Isso significava desagradar o povo em muitos aspectos, já que desde aquela época, quem pagava a conta dos políticos era o cidadão mais humilde. Assim, com a intenção de desviar um pouco a atenção das medidas de saneamento da economia, divulgou-se fartamente a proibição da briga de galos, do turfe e a questão dos biquínis, consideradas questões bobas, mas que eram justas e agradariam a maioria do povo.

O que acontece é que, como sempre, os historiadores ficaram na superfície do fato, esquecendo-se das causas e das conseqüências. 1 - Em relação aos galos, a proibição já era regional, em razão da evidente crueldade da rinha. Jânio nada mais fez do que transformar a proibição regional em nacional. 2 - Quanto aos biquínis, até hoje as pessoas sequer sabem dizer qual era a proibição; pois bem, o que Jânio proibiu foi "o desfile de biquínis em concurso de Miss". 3 - Jânio proibiu o turfe (corridas de cavalos) em dias úteis. Aí é só analisar: a proibição das rinhas foi correta? Sem dúvida, tanto é que persiste até hoje. Quanto aos biquínis, a verdade é que os concursos de Miss entraram em decadência, mas enquanto existiram até pouco tempo atrás, os desfiles continuavam sendo de maiô, e não de biquíni, prova de que a proibição de Jânio mais uma vez o sobreviveu, e que sua medida, para todos os efeitos, estava certa.

A proibição parcial do turfe, que nada mais é do que um jogo de azar exatamente igual ao Bingo, acabou logo depois, porque o dinheiro que banca o turfe é graúdo.

Em geral, Jânio se relacionou bem com os movimentos de esquerda por quase toda sua vida. Os movimentos de esquerda é que - com toda razão - jamais lhe deram confiança. Em 48, por exemplo, quando o partido comunista estava recém-entrado na clandestinidade e sendo demonizado pelo governo Dutra, Jânio, ainda vereador, votou a favor da doação de uma coleção de livros do Jorge Amado - considerado um perigoso comunista, na época - para bibliotecas municipais. Nas eleições para a prefeitura, em 53, e para governador, em 54, Jânio se elegeu com o apoio do Partido Socialista. O rompimento com os socialistas ocorreu no fim dos anos 50, mas Jânio continuou surpreendendo a esquerda brasileira, especialmente na política externa que adotou na presidência: engatou o reatamento de relações com a URSS (efetivada por Jango em dezembro de 61, 4 meses depois de Jânio renunciar), ensaiou ao mesmo tempo um mercado comum sul-americano (que se concretizaria nos anos 90 com o Mercosul) e um mercado com os países da cortina de ferro européia; aproximou-se de Kruschev, com quem mantinha relações muito mais estreitas do que com Kennedy, para o desgosto dos militares e dos udenistas que seguiam as orientações americanas como vacas de presépio; condecorou Yuri Gagarin e Che Guevara, etc.

Jânio e Che Guevara

Pelo fato de Jânio ser populista, não ter pertencido formalmente a agremiações comunistas e não ter se assessorado quase nunca de gente com qualquer tradição comunista, a esquerda sempre lhe franziu o nariz. Além disso, a carreira de Jânio teve início quando o comunismo foi para a clandestinidade, e nos anos 50, enquanto Jânio vivia seu fastígio político, o comunismo praticamente não existiu. Quando começou a voltar, na primeira metade da década de 60, com as Ligas Camponesas de Francisco Julião e o movimento trabalhista de Brizola e Miguel Arraes, o golpe veio e acabou tanto com o comunismo quanto com a carreira de Jânio. Já na segunda metade da década de 60, quando a repressão à esquerda atingiu seu máximo, Jânio fez um pronunciamento contra o governo de Costa e Silva que lhe valeu uma pena de 120 dias de confinamento em Corumbá.

A imprensa entrevistou José Dirceu - na época presidente da UNE - sobre o ocorrido, e Dirceu deu a medida exata do juízo que esquerda fazia de Jânio: declarou que a esquerda não se sentia nem um pouco sensibilizada com o confinamento de Jânio, já que sua renúncia fôra a responsável por todo aquele estado de coisas. Ou seja, a esquerda debitava o golpe de 64 sobre a renúncia, e não via Jânio como vítima do golpe, e sim como responsável por ele.

Na década de 70 a ditadura entrou em sua reta final. A posição de Jânio - cassado e proibido de falar em política - ficou entre o silêncio e a adesão. Era contrário ao radicalismo de ambos os lados. Sonhava com a volta da democracia mas elogiava Ernesto Geisel. Condenava os excessos da ditadura mas criticava o MDB, ao qual se filiara na década de 60, se retirara em meados dos anos 70 e que agora adjetivava como um balaio de gatos. Quando as eleições voltaram, porém, tentou de todos os jeitos reativar sua filiação, a fim de se candidatar ao governo. Não conseguiu. Nos meses que antecederam a eleição indireta entre Maluf e Tancredo, manteve-se sobre o muro, hora pendendo para um, hora pendendo para outro. Dias antes da votação, decidiu-se por Tancredo.

Em sua última campanha, em 85, para a prefeitura de São Paulo, Jânio enfrentou dois candidatos que tinham tradição esquerdista: Fernando Henrique Cardoso e Eduardo Suplicy (ironicamente, FHC é filho de general e Suplicy vem de uma das famílias mais ricas do Brasil). Com um passado político que incluía uma estranha renúncia, sempre caracterizada como um golpe político frustrado, Jânio acabou taxado como o grande reacionário do pleito. Sem argumentos para rebater tais acusações, o lado mais negro de seu populismo entrou em ação, e ao invés de se defender diante do que o acusavam, ele decidiu adotar a estratégia de se defender atacando. No caso, atacar exatamente o esquerdismo de seus adversários. Dessa forma, Cardoso virou um subversivo que incentivava o uso de drogas e Suplicy virou um reles instrumento dos comunistas para transformar São Paulo em uma sucursal da Albânia. Com efeito, a volta da democracia, no Brasil, coincidiu com os estertores do comunismo mundial, então as eleições de 85 até 90 foram polarizadas não só entre esquerda e direita, mas entre capitalismo e comunismo. E, vendo a esquerda soçobrar no mundo inteiro, Jânio rapidamente se decidiu pela direita. E na direita, cercado pelos piores elementos da política brasileira, ele terminou seus dias. (29/3/2004)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Entrevista com ALVIN L - Parte 1


Marina Lima
Meus caros,
estava eu, certa vez, checando e-mails no intervalo do meu trabalho, em novembro de 2002, quando vi um banner publicitário no UOL que anunciava um Bate-Papo com a cantora e compositora Marina Lima para dali a alguns dias. O banner avisava que os internautas que enviassem a pergunta mais original à cantora ganhariam um convite para assistir a entrevista ao vivo. Como qualquer pessoa que teve sua adolescência na década de 80, eu conhecia Marina, considerava-a linda, sexy, e gostava de suas músicas, sem no entanto ter comprado seus LPs. Ouvir no rádio, nas trilhas de filmes e de novelas era suficiente.

Mas naquele momento, na correria do intervalo, me veio à lembrança um clipe que assisti no Fantástico, no início da década de 80, da música "Gata todo dia", em que Marina entrava em uma sala e cantava Eu sou uma gata/ E não gosto de água fria/ Pega logo no meu pêlo/ Seu carinho me arrepia/ Não quero água/ Tomo banho é de lambida, tudo de acordo - tanto o video como a música, a letra e o visual dela - com a deliciosa estética da época, hoje considerada tão brega e que eu particularmente aprecio muito.

Querendo ser mais engraçado do que o conveniente, escrevi correndo para a promoção do banner, enviando a seguinte pergunta: "É verdade que a Marina só toma banho de lambida?", e voltei para o trabalho. À noite, moído pelo dia cheio e cansativo, estava deitado, descansando quando toca o telefone. Do outro lado, uma pessoa qualquer do UOL me comunicando que minha pergunta havia sido selecionada e que eu poderia assistir a entrevista ao vivo. Sonado, não consegui juntar A com B e obriguei a pessoa a repetir o que acabara de dizer. Só aí compreendi que minha pergunta idiota e ofensiva provocara risos na equipe que selecionava as perguntas e que eu era um dos sete ou oito escolhidos para acompanhar pessoalmente o Bate-Papo de Marina no UOL.

Quatro ou cinco meses depois, através de uma menina que estava nesse Bate-Papo, acabei assistindo o Acústico de Marina, gravado nos estúdios da TRAMA, no bairo de Vila Leopoldina, em São Paulo. E daí por diante entrei em contato com uma série de fãs com quem assisti shows da cantora e conheci melhor sua carreira. Foi quando ouvi falar pela primeira vez em Alvin L, parceiro de Marina em tantas composições memoráveis, e há vários anos o letrista mais célebre do Capital Inicial. Em fevereiro de 2004, a menina que conheci no Bate-Papo (Mileine), duas garotas (Renata e Vicky) que conheci nessa legião de fãs, e eu, entrevistamos Alvin. Esta é a primeira vez que releio o material na íntegra, desde aquela época. Fiquei prazerosamente surpreso. Quase que sem querer, fizemos uma entrevista de fôlego, divertida e informativa, nos moldes das magníficas entrevistas do Pasquim. Fomos da infância ao apogeu profissional e à atualidade, esmiuçando cada um dos fatos mais marcantes da vida de Alvin. Nada seria possível, entretanto, se o compositor não fosse um sujeito inteligente, articulado, descontraído, bem-humorado e absolutamente sincero.

Na época o orkut era incipiente, eu não tinha um blog e o único meio de publicar a entrevista foi o Multiply, site que não gosto e que sempre considerei pesado e burocrático. A entrevista acabou não sendo divulgada como merecia. Com quase sete anos de atraso, portanto, aqui vai ela finalmente, por uma mídia bem mais simples e de fácil acesso.

Divirtam-se.
Bernardo
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ENTREVISTA COM ALVIN L

INTRODUÇÃO

"No Brasil, o autor é apenas um nome que consta no cd e raramente é lembrado por quem o compra”. A frase é de uma verdade inegável, especialmente quando constatamos que Orestes Barbosa, Humberto Teixeira, Newton Mendonça, Guilherme de Brito, Aldir Blanc, Fernando Brant e tantos outros são virtualmente desconhecidos do grande público. De inegável, essa verdade se torna cruel quando descobrimos que estes senhores são nada menos do que os autores das letras, respectivamente, de obras-primas como “Chão de Estrelas”, “Asa Branca”, “Desafinado”, “Folhas Secas”, “O Bêbado e a Equilibrista” e “Travessia”.

O autor da frase, aliás, é um destes anônimos ilustríssimos, sem os quais a música brasileira seria mais pobre: Arnaldo José Lima Santos, conhecido, respeitado e admirado no meio artístico pelo nome que adotou quando finalmente se profissionalizou: ALVIN L. Em fevereiro deste ano, Renata, Mileine, Vicky e eu estivemos no Rio e tivemos a oportunidade de fazer uma longa entrevista com Alvin. Nosso objetivo inicial – colher algumas informações sobre sua convivência pessoal e profissional com Marina Lima – acabou se desdobrando na mais completa entrevista já cedida pelo grande compositor de “Eu não sei dançar”. Sempre gentil, humilde e atencioso, Alvin nos recebeu em seu apartamento, no bairro do Flamengo, e por mais de quatro horas – bebendo coca-cola, enquanto nós secávamos uma a uma as cervejas que ele tinha na geladeira – ele nos divertiu com a história de sua vida.

São mais de 25 anos de carreira que misturam personagens tão díspares quanto Eugênia Melo e Castro e Regininha Poltergeist, passando por Serguei, Marina Lima, Dinho Ouro Preto, Renato Russo, Leila Pinheiro, Herbert Vianna, Ana Carolina e dezenas de outros. Alvin fala com tranqüilidade e bom humor de como o sucesso o eludiu, enquanto ele quis ser “pop star”, e de como esse mesmo sucesso imediatamente lhe sorriu quando ele deixou o palco de lado e se tornou a grande figura por trás dos “pop stars”. O Rock Brasileiro dos últimos 30 anos é passado em revista pela ótica atilada e madura de quem viveu a época e experimentou todas as alegrias e revezes de um artista superior. Essa é a maneira que Marina Lima o apresenta em seus shows, e não consigo imaginar maneira melhor de apresentá-lo:

– Com vocês, o querido e talentoso ALVIN L!

Bernardo Schmidt
Fevereiro de 2004
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Bate-Papo pré-entrevista

Alvin: "E você sabe que o meu nome de família é
 Lima Santos, né? Tinha uma época em que eu
ficava dizendo que era filho da Marina com o Lulu".
ALVIN – Marina é uma das pessoas que mais se cuida, que eu já vi na minha vida. Você olha as pernas dela... ela tem 48 anos! A pele dela é parecida com a de vocês, assim... tudo no lugar.
RENATA – Na estréia dela em BH, nós estávamos conversando com ela no camarim, e eu não resisti de falar "posso perguntar um negócio? Que creme você usa?? É só isso que eu tenho pra perguntar” (risos)...
A – Eu perguntei isso, também.
R – Ela disse "ah, os cosméticos são maravilhosos"...
A – E ela diz que usa desde os 17 anos.
R – E não toma sol, né?
A – A pele dela é ma-ra-vi-lho-sa, quisera eu... eu acho que eu vou até pedir o telefone do dermatologista dela, pra tirar um monte de mancha da cara (risos)...
R – Ela estava do meu lado, eu precisei perguntar, porque...
A – Não, mas ela é perua! A Marina é super perua... você começa a falar dessas coisas, ela vai e...
BERNARDO – Mas ela não dava essa impressão no início da década de 80, né? Ela parecia ser mais, assim...
A – Mas talvez na época ela fosse uma perua meio disfarçada, mas parece que ela sempre foi. Cara, eu já fiz uma música com ela - juro pra você - ela fazendo a unha, e a gente compondo! (risos)
R – Nossa...
MILEINE – Ah, é? Que música?
A – Foi na época do "O Chamado"...
B – “Stromboli”?
A – Não, “Stromboli” é só minha... acho que só tem "Stromboli" e "Deve ser assim", acho que é "Deve ser assim". E teve uma outra que ela não gravou que a Leila Pinheiro gravou, que eu fiz na mesma época. Ela fazendo a unha da mão, e depois do pé e eu com o violão falando "vem cá, é assim mesmo?..." (gargalhadas), e a manicure fingindo que nada estava acontecendo... (gargalhadas).
B – Mas você vê a Marina nos clipes do início da década de 80, ela parece ser assim uma mulher despojada...
A – Mas era a estética da época... pós hippie, pós-punk...
R – Aquele programa do Multi-Show que passou, ela novinha de 18 anos, maquiadíssima...
B – Mas calma aí... essa foi a primeira vez que ela aparecia na Globo, não sei o que lá, mas você vê o clipe do Fullgás, por exemplo... lá ela tá relaxada...
A – Com aquele visual “Flashdance” horroroso... (risos) ela deve estar querendo apagar esses videos...
R – Mas era moda.
A – O problema de você fazer qualquer coisa que está muito na moda é que envelhece muito rápido, e você vai se arrepender.
R – Alvin, você lembra do clipe do “Corações a mil”?
A – Qual era esse?
B – Esse é um daqueles clipes do Fantástico...
A – Sei, feito em VT...
R – Ela tá com vestidinho verde, franzidinho, cabelão, batom vermelho...
A – Ih, ela estava de vestidinho, é?
R – Ahã.
A – Devia estar apaixonada. Ela só usa vestido quando está apaixonada (ri).
B – Ahhh...
R – E ela corria, assim, e vinham vários homens, atrás, só que homens, assim, horríveis! (risos) Eles sempre estão correndo atrás dela e aí tem um que já está correndo há meia hora, que faz assim do lado dela (imita a cara do sujeito); e ela (imita a cara de Marina)... meu, o clipe é hi-lá-rio!!
A – (risos) Eu nunca vi esse...
B – Tem o clipe também de “Gata Todo dia”...
A – Como é que é? Cara, eu nunca vi.... o do “Fullgas” eu vi...
B – É tudo do Fantástico. Os clipes do início são do Fantástico. Ela chega com uma calça justíssima, maravilhosa, muito gostosa, e ela entrava e (canta) "Eu sou uma gata", e se jogava num sofá...
A – Putz, isso é da época do “Certos Acordes”, é muito antigo...
B – Acho que foi 81, né? 82? Mileine, “Certos Acordes” é de que ano?
M – 82.
A – Eu acho que foi quando eu me apaixonei por ela, esse foi o primeiro disco dela que eu... aliás, eu comprei antes, tenho até hoje, o primeiro compacto dela, simples, dela, da Asylum Records, não era nem...
B – Que música era?
A – Era uma música do Caetano Veloso, "Muito". É o primeiro compacto dela...
B – É o compacto do próprio "Simples...".
A – E o lado B era.... esqueci o nome, (canta, hilário) "Mas o Leblon é um deserto..." [“Tão Fácil”]
R – E a capa tem foto dela?
A – Do compacto? Não.
R – Porque eu tenho um compacto dela que eu achei no Mercado Livre, que é o "Tão Beata Tão À Toa", que era a apresentação de uma novela, "Corpo a Corpo", e do outro lado tem "Me Chama".
A – Isso já deve ser no meio dos anos 80, né?
R – Ela com cabelo curtinho... é.
A – Eu também colecionava compactos, mas só de punk, Rolling Stones, essas coisas. Eu tenho uma coleçãozinha de rock brasileiro dos anos 80, mas eu não levo ela muito a sério (ri).
B – Por quê?
A – Porque a de Rolling Stones, por exemplo, eu pago fortunas no e-bay [versão norte-americana do Mercado Livre]...
B – Ah, tá.
A – Essa semana mesmo paguei 150 dólares num... finalmente consegui. "Hei de vencer mesmo sendo professor" (ri).
B – Ah, a Renata e eu somos clientes do Mercado Livre, já fizemos uma varredura nos singles da Marina à venda lá.
A – Vocês colecionam a obra dela.
B – Eu na verdade vou dando de presente pra elas.
M – Eu ganho de presente.

Single de "Notícias"

A – É, tem essas coisas. Eu tenho um aqui que eu comprei na época, o primeiro compacto que saiu no Brasil, do Sex Pistols. Eu comprei na época nas Lojas Americanas, custava 1 e 70, o equivalente a 3 reais, hoje em dia. Custa 500 dólares no mercado exterior. Isso é um lucro de... 2.500%!
B – Mas você não pretende vender, evidentemente. Esse é o problema.
A – Não! Várias pessoas já me fizeram ofertas! Porque às vezes eu fico na Internet conversando com colecionadores, e eles sempre perguntam. Um cara em São Paulo me viu com a camiseta que é a capa, tal, e perguntou "você tem disco do Sex Pistols brasileiro", não sei o quê, assim, falei "tenho", "quanto você quer nele?". Aí eu falei "Não, eu não tô a fim de vender". Aí ele foi esperto e tentou: “Eu te dou... 50 reais...", sabe, achando que era aquele puta preço (risos)! "Sorry, mas eu sei quanto vale... (ri)". Mas a prensagem brasileira! É por ser a prensagem brasileira, não vendeu nada, sabe, mas vale...
B – É a mesma coisa nos sites do Kiss, por exemplo, você vai ver os vinis, os compactos da década de 80 que foram lançados no Brasil...
A – Que valem uma fortuna. E profissional vende no e-bay, não vende no Mercado Livre. Você vende pro mundo inteiro.
B – Você no e-bay conseguiria o que você quisesse.
M – Agora, o teu cd é uma relíquia.
B – Ah, é.
A – Volta e meia me perguntam. Outro dia eu estava no supermercado, virou um cara pra mim, me pegou pelo braço e me falou assim, "onde é que eu acho o primeiro do Sex Beatles?" (risos) O cara me pegou pelo braço! O segundo disco você ainda encontra, o primeiro é que é impossível.
M – Agora, esse... (risos) [mostra o cd solo de Alvin]
B – A Mileine.... a gente tem que te dizer: a Mileine é a tua fã número 1!
A – (ri) É mesmo?
M – Sou.
R – Ela é.
B – Mileine é a tua fã número 1!
M – Nem do Capital eu sou tão...
A – Agora não vai ser mais, né, porque já conheceu, viu a bagaceira que é (gargalhadas)...
B – Imagina...
M – Imagina, agora... olha, se antes eu gostava...
A – Você sabe que uma coisa que eu aprendi é que eu não quero conhecer nenhum dos meus ídolos. Nenhum. Assim, eu idolatro o chão que o David Bowie pisa... eu não quero conhecer porque você se desencanta... porque é uma pessoa normal como qualquer outra. Às vezes até mais pancada do que o normal.
B – Nós trouxemos a Mileine como consultora, inclusive (risos). E a Renata trouxe uma descoberta, recente, que são as tuas músicas com o Ritchie.

O cantor e compositor Ritchie

A – Ritchie! É verdade, ele gravou duas músicas. Eu amo o Ritchie. Eu conheci ele há pouco tempo. Eu conheci ele numa festa de reveillon, e aí depois, assim 1 mês depois ele me ligou e me falou “vamos fazer umas músicas”, mas não deu muito certo.... não entendi...
B – É aí que tá, ele pode não ser um sucesso absurdo, mas ele tem um pessoalzinho que vai comprar com certeza.
A – E tem fãs, mas não vendeu muito não... vendeu tipo 3 mil cópias... vendeu pouco... até que vende disco, quer dizer, até que é um selo bacana. O Fala Mansa é do Deck, né? O primeiro disco do “Fala Mansa” vendeu 1 milhão de cópias.
B – Mas enfim... vamos...
A – Vamos lá, vamos ficar sérios. (risos)
B – Agora sim. Parou, parou...
R – Não, agora é que a gente vai começar a NÃO ficar sérios. Agora é hora da gente fazer um comentário. A gente conversou com você na porta do Palace, não sei se você lembra...
A – Sim, claro!
R – E você não tinha o “Acústico”, e agora estou vendo que você já tem! (risos)
A – É, eu tive que comprar, sabia? (risos) No contrato da minha participação estava especificado, porque a EMI é assim, que eles iam me dar três cds e três dvds! Três! (gargalhadas)
B – Tomara que não faça falta a eles.
A – Eu imaginava que iam me dar uma caixa de cds e uma caixa de dvds, e tava no contrato que iam me dar três!
R – Zero três.
A – E não mandaram! E quando eu liguei lá pra reclamar ficaram me passando de uma pessoa pra outra até uma que falou assim “ah, não tem mais...”. Eu pensei em processá-los por causa disso (risos), mas não ia fazer isso por causa de três cds, né?
M – A gente pensou em te dar de presente...
A – Pode dar porque eu só tenho um!! (risos)
B – O cd você ganhou? A gente vai te dar o cd.
A – Não, eu tenho o cd. Eu comprei tudo, eu sou fã da Marina (risos). Mesmo se eu não tivesse participado eu ia comprar. (a Bernardo) Engraçado, eu me lembro de você, mas eu me lembro de você mais baixo. Você cresceu? (risos)
B – Eu cresci, de fato. É meu aniversário, estou crescendo (risos) [era, realmente, meu aniversário].
A – É verdade.
B – Eu ainda estou em fase de crescimento, mas já já vou começar a encolher.
R – Eu cresci pro lado (risos).
B – Como é que você lembra da Renata?
A – (risos) Não, eu me lembro mais ou menos disso. Eu me lembro de você e me lembro de uma outra...
M – A Nayara.
A - ... que é de Belo Horizonte, que ficou falando que estava no mesmo hotel que eu. Aí eu a vi no dia seguinte, ela com a mãe dela no café da manhã. Dela eu me lembrava porque a vi dois dias seguidos. Eu estive na terra dela, na semana passada, no casamento do Yves Passarel, do Capital.
B – Você fala Yves Passarel do Capital, eu penso no Yves Passarel do Viper.
A – Do Viper.
B – Conheci o Yves na época do “Soldiers of Sunrise”.
A – Casou com padre e tudo. Noiva de véu e grinalda...
B – Quem diria, né? Aquele head-banger inveterado...

A – Pois é, os padrinhos éramos eu, a Penélope da MTV, toda tatuada... (risos), que o padre falou lá “que a mulher é que tem cuidar do casamento”, e ela “que absurdo!!” (gargalhadas). Ela já criou um clima, o cara olhou pra ela, lá, toda tatuada, falou “vou pegar leve”, né? Foi hilário.
R – Ela estava vestida de tatuagens, né? Ela não precisa por roupa.
A – Eu adoro a Penélope, sabia? Eu acho a melhor coisa da MTV de longe! Ela é de verdade, ela não tá fazendo pose, ela fala “ah, eu não sei nada sobre isso!” Ela não é bonita, ela não tem vergonha de ter pneu, e tá lá mesmo, botou uma blusinha, “tô com calor e pronto!” É legal isso.
B – A MTV tinha um programa de perguntas e respostas eróticas que era com a Babi e o Jairo, mas a Babi... realmente ela não sabia o que ela dizia, o Jairo era aquela coisa acadêmica, e a Penélope tira de letra qualquer pergunta.
A – Eu acho genial, um puta exemplo pra mulheres, adolescentes que estão vendo a MTV, ver uma mulher que não é magra, é tatuada, sabe, tem orgulho do que é, é sensacional.
R – Gente que é escrava de modinha...
A – Pois é.
R - E estando numa emissora...
A – Não, não sou nem contra, se está gorda dá um jeito, tenta emagrecer, mas em forma legal, todo mundo tem que... mas tem gente que não tem jeito...
R – Não, e eu acho que o legal e você estar bem, e se ela está bem assim...
A – E ela não tem jeito, ela é assim mesmo. Ela é meio gordinha e... vai fazer o quê? Lipo? Vai ficar se torturando...
B – Não, e isso não tem nada a ver com ela, também.
A – Acho genial, isso. Acho genial o exemplo que ela dá. E chegar no casamento e falar “que absurdo!!” Parou, ficou todo mundo...
B – O Marcelo Nova tava lá?
A – Não. Ela era madrinha, ela e o André, o do... como chama o...
B – André Matos.
A – André Matos, que é outro amor de pessoa.
B – Eles são amigos?
A – São casados.
B – Não, eu digo o André e o Yves, porque eles eram do Viper, o André saiu, foi pro Angra...
A – São, são amigos.
B – Não teve stress nenhum, então...
A – Ele era padrinho. A Penélope era madrinha mais por causa dele.

INFÂNCIA E JUVENTUDE

B – Que ano você nasceu, Alvin?
A – Você vai me forçar a dizer isso... (risos)
R – Putz...
B – (risos) Eu... eu... só pra começar do zero...
R – Ele vai falar “gente, agora eu vou ter que ir no dentista, vocês podem ir embora?” (risos)
A – (Diz com desprezo) 60...
B – Você é carioca?
A – Não, eu nasci em Salvador.
R – Hum?
A – Não, não sou baiano. É o seguinte: minha mãe é baiana e ela teve todos os filhos dela lá. Eu nasci lá, duas semanas depois eu estava no Rio, minha certidão de nascimento já é do Rio. Mas nasci em Salvador, BA.
B – E você passou tua infância no Rio de Janeiro?
A – Toda a infância. Eu morei dos 7 aos 9 em Salvador quando meus pais se separaram e minha mãe resolveu voltar. Mas aí eu me lembro, assim... dos... eu me lembro das ruas, você acredita? Eu sonho com as ruas de Salvador. E eu voltei lá, dos 7 aos 9, depois eu voltei lá quando eu tinha uns 14, umas férias de família, tipo uma semana, duas, e aí nunca mais eu voltei. Agora, eu não tenho nenhuma afinidade baiana, cara. Eu gosto de música baiana, a música é maravilhosa, mas não sou chegado àquele oba-oba, aquela coisa de baiano. Meu pai é paulista de Taubaté. Nasceu lá, também foi criado em Sergipe, se mudou pra Salvador com 15, porque o pai dele era engenheiro construtor, meio que viajava... e conheceu minha mãe lá, aí mudaram pro Rio... por que é que eu tava falando isso?
B – A infância em Salvador, a balada...
A – Ah, sim, eu não tenho nada de baiano, assim, e eu tenho um problema com baiano que é assim: baiano não entende o conceito de privacidade. Eles não entendem, não entra! O Roberto Frejat me falou assim que no sítio dos Novos Baianos o banheiro não tinha porta! Porque as pessoas não concebiam alguém fechar uma porta! “Pra quê que vai fechar a porta, você vai esconder alguma coisa de alguém?” Baiano não entende privacidade, se você estiver com dor de cabeça, doente, num canto, vai ter três conversando do teu lado... eles não entendem, e você fala “eu quero ficar sozinho”, “mas por quê?” (ri) Não entendem, eles não entendem o conceito de privacidade. Eu adoro a comida, mas não tenho muita simpatia pelo espírito baiano de ser, assim...

B – Você não tem nenhuma baianidade.
A – Nenhuma. Preguiça, talvez. (risos)
B – Então até os 9 você morou lá.
A – Dos 7 aos 9.
B – Dos 7 aos 9. Aí você voltou pro Rio de Janeiro.
A – Fui voltado pro Rio de Janeiro (risos). Fui levado pra Salvador e fui voltado pro Rio de Janeiro.
B – E aí você ficou direto.
A – Direto. Eu morei durante uns três, quatro meses, quase seis com meu pai no interior de São Paulo numa cidade chamada Cosmópolis. Foi a única época, assim, mais de quinze dias que eu morei fora do Rio, fora essa de Salvador.
B – Quando foi isso?
A – Acho que eu tinha uns 13, 14 anos.
B – Aí, Rio de vez.
A – Sim, geral. Moro aqui, só não sou nascido aqui.
B – E a música começa...
R – Não, calma.... por favor: “Alvin L ponto”.
B – Ah, bem lembrado.
A – Você quer saber por causa do L? Meu nome é Arnaldo José, o nome do meu pai e do meu avô. Quando eu entrei na faculdade, com 17 anos, eu tinha uma banda punk e eu tocava baixo. Era tipo Ramones, só que na época em que ninguém tinha idéia do que era Ramones. E eu tocava baixo daquele jeito (faz o som) “to-do-do-do-do-do!”, muito rapidinho, uma nota só, não sei quê, e tinha um guitarrista chamado Alvin Lee (“Li”, na pronúncia em português), inglês, que era famoso por ser muito rápido, tocando, aí me botaram o apelido de Alvin “Lixo” (gargalhadas). Porque eu era punk, era rápido tocando, era o Alvin Lixo. Quer dizer, quando era punk, era engraçado; depois que você vai virar um profissional você não vai assinar um disco da Marina, “música de Alvin Lixo” (risos). Aí você começa a reconsiderar... mas mudei muitos anos antes. Quando eu comecei a virar profissional eu já botei o L, ficava moderno, assim.... Alvin L. E eu ainda assinava com dois “x”. Era “Lixxo” (gargalhadas). E você sabe que o meu nome de família é Lima Santos, né? Só que é um nome só, eu sou parente dela! (risos)
R – Vcs podiam fazer uma música juntos e colocar “de Alvin e Marina Lima”.
A – É, os Lima. Tinha uma época em que eu ficava dizendo que eu era filho dela com o Lulu (gargalhadas). Aí ela dizia “mas é um nome só!”, e eu “bom, mas são dois nomes comuns que vocês têm, então...”.

Alvin Lee

B – Renata, conta pra ele como é que escreveram o nome dele no DVD.
A – Tá errado?
R – Escreveram ou tá na legenda?
B – Tá na legenda.
R – O seu nome, no DVD, está “Alvinele”.
B – Alvinele.
A – Tudo junto?
R – Tudo junto! Escrevem com E, L, E. Alvinele.
A – Mas é porque a Marina fala “Alvinele”, ela meio que liga as duas coisas, então o cara deve ter entendido.
B – Mas ele não podia ter olhada a capa?
A – Ela fala “Alvinele”, você já reparou isso?
M – É, na rádio, acho que na Nova Brasil, em São Paulo, a locutora também falava “agora você vai ouvir Marina Lima e Alvinele”.
A – É. Acho que é porque ela fala assim. Mas também, que nomezinho eu fui arrumar, né? Outro dia eu fui na casa de uma amiga, o porteiro perguntou: “Sua graça”. Falei “Alvin”. O cara foi ligar, nem perguntou, achei estranho porque eles sempre me perguntam “O quê??”, o cara ligou: “Seu AOVIVO tá subindo!” (gargalhadas) Mas eu tô acostumado, assim, as pessoas levam um tempo pra... “o quê??”, “Alvin”...agora eu falo assim: “Calvin Klein, tira o C, Alvin”. Na próxima encarnação eu vou escolher uma coisinha menos complicada (risos).
B – Agora, como é que a música entra na tua vida?
A – Bom, vou te contar uma historinha: meus pais não eram muito musicais, não tinha muita música em casa. Eu me lembro muito de ouvir música em rádio, desde criança, coisas que me impressionaram muito, Beatles, aquela coisa, parece muito antigo na minha cabeça, me lembro de ouvir pela primeira vez “Satisfaction” dos Rolling Stones e ficar.... sabe aquela distorção da guitarra, na hora eu me apaixonei por aquilo, eu amo distorção até hoje. Eu devia ser criança... tempos depois eu forcei o meu pai, “vamos numa loja de discos, eu quero aquele disco do Rolling Stones”, eu via Beatles na TV... mas enfim, a minha formação com a música vinha vindo, não tinha em casa, meus pais não tocam instrumentos, não são particularmente musicais. Tinha uma vitrola em casa, mas os únicos discos que tinha na minha casa eram discos de historinha, mas assim dos anos 40, 50... eu me lembro de uma de Robin Hood...
R – Nem era colorido...
A – Não, bolachão, tudo com aquela capa que é de... é meio papel, meio tecido, ainda... e só de historinha. E eu estou contando isso porque depois, o fato de eu ser mais letrista, até, do que fazer melodias talvez venha disso. Eu escutava historinha.
B – Aquele português antigo...

"Com 13 anos vi o Bowie no auge do Ziggy
 Stardust e o Mick Ronson com uma guitarra
 maravilhosa e decidi: “eu quero ser popstar”.
A – É, uma coisa meio... e bem, meu pai me contou que desde os 7 anos eu chegava pra ele quando eu queria dinheiro pra comprar chiclete, sei lá, eu ficava cantando pra ele, inventava uma musiquinha pra ganhar dinheiro. Anos depois eu contei essa história e me disseram “desde então você já fazia música por dinheiro” (risos). Tive que falar “é, eu fazia música pra ganhar dinheiro”. E aquilo sempre me interessou de uma certa forma. Quando eu tinha uns 13, 14 anos, eu sempre gostei de Beatles, Stones, que era uma coisa que tá em todo lugar, né? Tá no rádio, aparece na TV, num filme, era uma coisa que tá presente, aí você abre uma revista e vê David Bowie no auge do Ziggy Stardust, você olha aquilo com 13 anos, na época em que ele era muito moderno, muito diferente... aí você vê o Mick Ronson do lado, todo louro, com uma guitarra maravilhosa, “eu quero uma!!!”, eu olhei aquilo, falei assim “eu quero ser popstar”. Eu decidi.
B – Foi ali.
A - Foi ali.
B – A gente pode dizer que as grandes influências, então, são esses ícones, Beatles, Rolling Stones, Bowie...
A – É, exatamente, “glam rock” em geral, Bowie foi uma coisa que me impressionou muito, de você ver aquilo, aquilo era muito do outro mundo, era uma coisa, assim, você ver na época, assim, com 13, 12 anos, era um impacto que você não tem hoje em dia.
B – Alguns desses que começaram nos anos 70, seja o Alice Cooper, Sabbath, Deep Purple...
A – Eu gostava de tudo. Já saí gostando, assim, principalmente quanto mais do mal, mais eu gostava. Eu sempre fui chegado no... do mal, assim, T-Rex, o cara cheio de coisa na cara, piolho, tal, tô gostando... (risos).
B – O Alice Cooper, então...
A – É, mata galinha no palco, opa, então tô lá! (risos) Eu tenho três irmãs que eram do mal, também, então era todo mundo junto. “Olha essa banda, aqui, eles carregam caixão”, “Oba, vamos comprar o disco agora” (risos). Quanto mais do mal, melhor.
B – O teu gosto musical você depurou, você criou e você desenvolveu sozinho, então. Sem influência...
A – Não, mas imagina que o meu pai ia gostar de David Bowie?!
B – Não, digo, mas isso não veio do nada, veio de você mesmo, você criou o teu gosto musical.
A – Exatamente. Eu vi aquilo, gostei, a música me disse coisas... eu sou bilíngüe, né, fui educado em duas línguas, três, na verdade.
B – Português, inglês e...
A – E francês, só que francês eu me desinteressei quando adolescente, e hoje falo muito pouco. Mas aí você tem acesso, a língua não é estranha, você entende o que está sendo falado, e aquilo também era um mundo muito novo. A primeira música do Ziggy Stardust o cara está descrevendo o fim do mundo quando as pessoas sabem que o mundo vai acabar. O que é que elas fazem, a bicha que vomitou em cima do guarda, o padre que tirou a roupa e quis trepar no poste (risos)... e música brasileira é sempre “ai, meu amor, meu benzinho”...
B – Ah, a Jovem Guarda era inocente...

Mick Ronson

A – É, a música brasileira era muito calcada na tradição portuguesa, é tudo muito sentimental, então você pega o disco de um grande artista brasileiro, se tiver uma música que não é de amor, é muito. Todo mundo é amor, meu benzinho, isso, aquilo, ou eu te amo ou eu sinto falta de você ou tudo in between. E essa coisa de rock’n’roll não, era diferente, falava de coisas, não sei quê, e disso e daquilo e daquilo outro, sabe, se ficava enlouquecido.
B – Então você não teve qualquer influência de MPB, digamos, de bossa-nova, de samba, de... você foi ver isso depois ou nem chegou... nunca...
A – Não, nunca. Eu tive uma fase nos anos 80, assim, que eu falei que “eu tenho que ter algum tipo de cultura brasileira”, fui e ouvi bossa nova, e tal... eu acho legal mas não é a minha onda. Sempre fui rock’nroll.
B – Chico, Caetano, Gil...
R – Tom Jobim...
A – Não, é claro que você tem canções maravilhosas, isso não se pode negar, mas eu ficava pensando “você podia ter uma distorçãozinha aqui... (risos), uma bateria um pouquinho mais pesada ali”...
B – E quando é que você começou a se meter nesse meio?
A – Deixa eu ver... bom, aí voltando, nessa época eu resolvi: “eu vou ser pop-star, é minha carreira, é minha vocação. Eu tenho vocação para estar com uma guitarra pendurada”. Apoquentei a família até que alguém me deu uma guitarra. Não foi nem meu pai nem minha mãe, foi um tio.
B – Que guitarra?
A – Cara, era uma guitarra usada que eu vi num jornal tipo “Balcão”, eu não me lembro como era o nome do... Não, não! Foi numa loja de instrumentos, em Copacabana, tinha um negócio lá de instrumentos usados.
B – Aquela brasileira... Gianini...
A – Cara, acho que não tinha nem marca, sabia? Era uma guitarra que parecia uma fender-jaguar, mas era brasileira e o cara tinha raspado, era um hippie... eu me lembro da guitarra até hoje. Depois eu vendi, não devia ter vendido. Sabe aquele símbolo hippie, o pé-de-galinha? Ele tinha aquilo grudado na guitarra como se fosse um contact, que eu tirei, porque aquilo não me dizia nada, mas ficou a marca, eu tive que passar esmalte em cima (risos)... e fui aprender guitarra. Não tomei uma aula! (ri) Eu cheguei em casa e falei “mas é muito complicado... eu não vou aprender essa porra nunca!” E isso, vamos dizer, em 75... que era uma época em que o rock progressivo ainda era, tal, então você tinha que ser virtuoso. Você não imaginava ser um pop-star sem saber tocar como só viria ser dois anos depois: aprenda três acordes e vai nessa!

Sex Pistols e Ramones

B – Punk não existia naquela época.
A – Punk não existia, então era inimaginável e mesmo assim eu persisti. Eu era um pré-punk! (risos) Você acredita em sincronicidade? Sincronicidade é uma coisa assim: várias pessoas em vários lugares do mundo, ou de uma cidade, estão pensando da mesma forma e não estão conectadas ainda. Estão pensando a mesma coisa, estão tendo a mesma idéia, estão fazendo a mesma coisa e não estão conectadas ainda, e fatalmente eles vão se conectar. E foi exatamente assim que o punk aconteceu; um monte de gente pensando a mesma coisa e de repente apareceu o Sex Pistols e juntou todo mundo ali, né, Ramones, sei lá, foi todo mundo ali. Eu tomei essa única aula de guitarra, me pareceu muito difícil, eu pensei “o que é que eu faço?”, eu comprei um livrinho pra aprender a fazer acordes. Levei seis meses pra fazer um acorde, sei lá. Aí um dia eu olhei, falei assim: “Guitarra é muito difícil, vou tocar baixo!” (risos) Ele só tem 4 cordas...
R – Meu, não é nada fácil baixo...
A – Não é nada fácil, nenhum instrumento é fácil... pra tocar direito. É diferente, é uma outra linguagem, dentro da música um baixo faz uma coisa... aí eu apoquentei a família inteira pra que me dessem um baixo. “Mas você não encheu o saco pra ganhar uma guitarra? Não está tocando guitarra?” (risos) Até que o mesmo tio... (risos) Tio Paulo, mas ele é o irmão mais novo da minha mãe; ele é talvez dez anos mais velho que eu, só. Então é garotão, ainda, não era casado, na época, não tinha filho, não sei quê, trabalhando, ganhando um dinheiro, tal, “toma aí”. E o baixo era um pouco mais fácil, porque era uma nota de cada vez, você ia assim, pelo menos dava pra encarar, né? E foi aquela coisa toda, em três semanas eu falei: “Estou preparado para uma banda”. Tudo isso, pra mim, hoje em dia parece que levou muito tempo entre uma coisa e outra, mas não, deve ter sido um espaço de oito meses, um ano. Porque o tempo é diferente para uma pessoa que tem 14 e uma pessoa que tem 40. Um ano pra quem tem 40 não é nada. Quando você tem 15 é enorme.

VÂNDALOS

B – Agora, você estava em uma banda?
A – Não, só eu! Com a cara e a coragem.
B – Você era um solo, ainda.
A – (ri) Baixista solo. Aí minha irmã conhecia um cara que tinha uma banda que estava precisando de um baixista, e lá fui eu com a cara e a coragem e claro que o cara me olhou e falou assim: “Você tá brincando comigo”. Foi minha primeira experiência. Aí, sei lá, tempinho depois explodiu o Punk. Quando explode o Punk você olha assim e diz “esse cara dos Ramones está tocando uma nota de cada vez muito rápido”. Só isso. I can do this. Que bom, graças a Deus! Salvo pelo gongo. Imediatamente eu pensei que queria fazer uma banda como o Ramones. Aí ia nas lojas de discos e botava anúncios, “uma banda tipo Ramones”, ficava esperando o telefone tocar e ninguém ligava! Ninguém ligava. Aí um dia liga um maluco: “Que banda é essa?” Aí eu falei “uma banda, assim, toca punk-rock”, e o cara “não sei, não sei, eu gosto de YES...”. Aí um belo dia eu botei um anúncio na revista POP: “Procuro guitarrista, baterista e cantor pra formar uma banda de hard rock”, rock pesado, pra não assustar as pessoas. Depois que eles chegassem eu mostrava, “olha, é uma coisa mais assim”. Cara, aí um belo dia toca o telefone e me liga um cara que fala assim: “Olha, eu vi o teu anúncio”, “pois é, pensando em formar uma banda de hard”, “que que você toca?”, “toco baixo”, “eu toco guitarra”, “pô, que ótimo”, não sei quê... aí, papo vai, papo vem, o cara fala assim “pô, legal te conhecer, cara, eu não conheço outros músicos, estou tentando fazer contatos, mas eu não quero formar exatamente uma banda de hard rock”. Eu falei “não? Pô, que pena, né?”, e o cara “pois é, eu tô querendo formar uma coisa mais punk, tipo Ramones..”. Eu falei “não acredito!”

B – Sincronicidade.
A – Sincroniciade. Eu botei uma anúncio querendo um guitarrista tipo Ramones, Sex Pistols, botei no anúncio “hard rock”, pra não assustar, e me aparece um cara que queria a mesma coisa que eu. Tocamos anos juntos. Começamos nos Vândalos, no Rapazes de Vida Fácil a gente ainda tocou junto. E ele tocava bem pra caralho! O Herbert [Vianna] até hoje fala que ele era o melhor guitarrista do Brasil. Ele tocava muito bem, cara, era uma loucura. Chama-se Ronaldo Aguiar.
B – Vocês ainda se falam?
A – Olha, quando os Rapazes de Vida Fácil acabou ele meio que se desiludiu com música, a família dele era um pouco careta demais, pressionava ele, não sei quê... a última vez que eu soube dele, ele casou e passou a lua-de-mel em Macaé (ri), que é mais ou menos como você em São Paulo se casar e passar a lua-de-mel em...
B – Araçoiaba da Serra.
A – Araçoiaba da Serra, muito menos glamouroso. Foi a última que eu soube dele (ri). Não o vejo há 20 anos.
B – E a banda com ele se chamava “Vândalos”?
A – Vândalos. Eu que escolhi os nome, eu fazia as músicas, eu chegava “está aqui esta música: Marta pensa que é uma mosca”. Primeira música que eu fiz inteira, se chamava “Marta pensa que é uma mosca” (gargalhadas). Minha primeira composição, que depois o Dinho pegou um trecho dela e cantou num disco do Vertigo [banda que Dinho Ouro Preto formou quando deixou o Capital Inicial, no início da década de 90, e que chegou a lançar o cd “Vertigo”, em 94]. Ele queria gravar “Marta pensa que é uma mosca”, mas era muito tosca. Aí ele falou “mas eu gosto desta parte. Posso botar nessa música?”, eu falei “vai nessa”.
B – E colocou?
A – Colocou. Quer dizer, até minha primeira música já foi gravada de certa forma. Aí eu tocava só baixo, mas eu fazia todas as músicas... punk, mesmo, tinha eu e esse outro cara. O baterista era um alegre que adorou tudo, assim, “punk? Que legal, o que é que eu faço? Raspo aqui?” (risos), e o cantor que era meio hippie. Gostava de Jim Morrison, mas tudo bem, Jim Morrison dá pra aturar, né, então o cara entrou na banda. Foi um erro porque no final das contas ele queria fazer uma coisa mais elaborada e eu acabei saindo.
B – Quanto durou o Vândalos?
A – Cara, eu não sei te dizer... talvez de meio de 77 até meio de 78...
B – Vocês chegaram a gravar?
A – Não. Tem uma fita k7 dessas que eu guardo, tenho até que passar pra cd porque vai deteriorar, mas é muito tosco, muito tosco mesmo. Fizemos uns shows. Tem gente que lembra desses shows até hoje. Tem um grupo chamado Dorsal Atlântica, que você já ouviu falar...
B – Lembro, lembro, rock pesadíssimo do início dos anos 80...

Dorsal Atlântica

A – O guitarrista desse grupo chegou pra mim num show e me disse: “Eu comecei a tocar por sua causa”. Eu esqueci o nome dele. Ele viu os Vândalos e começou a tocar por causa dos Vândalos, o mesmo efeito dos Sex Pistols nas pessoas. Mas os Vândalos não eram a primeira banda punk do Rio. Depois eu fui descobrir que antes de nós começarmos a ensaiar, já tinha uma banda chamada Crise de Nervos, tocando desde o início de 77 e os paulistas dizem que as primeiras bandas punk são de São Paulo, e são todas de 79 e 80, quer dizer, até os Vândalos é anterior.
B – Onde é que nós podemos colocar o Made in Brazil nisso?
A – O Made in Brazil é uma banda de rock básico, tipo Rolling Stones, outra história.
B – Eles eram mais pesados, né? Não era punk, mas...
A – Olha, o punk, na verdade, a vertente do punk era a vertente dos Rolling Stones; vem de Chuck Berry, se você for traçar a linha evolutiva, porque Beatles foi uma coisa que deu o rock progressivo e secou, né? A influência deles é enorme no pop em geral, mas a linha que venceu, de rock’n’roll, é a linha dos Rolling Stones. Que virou punk, que virou grunge, que virou deus sabe o que mais, que é a vertente que foi, né?
B – Que vai se metamorfoseando de alguma forma até hoje.
A – É, que tem ambigüidade sexual, peso, um pouco de descuido com aquilo, as letras falam de coisas às vezes não tão agradáveis, displicente... Beatles era uma coisa mais metódica, era arte, era talento puro...
B – O que é que você lia, naquela época?
A – Cara, lia revista de rock até em alemão, que eu não falava uma palavra, via na banca e comprava, juntava dinheiro...
B – Circus.
A – Circus...
B – Creem.
A – A Creem pouco, porque não chegava aqui. A Circus eu entrei no e-bay outro dia e comprei um pacote de Circus da época.

B – Aquelas de 71, 72...
A – Não, depois, 74, 75... 71 eu era muito jovem, ainda tava assim, meio... a época que mais me fascina é 72, 3, até depois o Punk.
B – Mas eu digo literatura, você tinha um lastro cultural...
A – Leio, eu sempre li muito. Cara, tinha uma época em que lia 3 livros por semana. Eu era sócio da biblioteca pública, eu ia lá, pegava três livros por semana e lia em todo o meu tempo ocioso, eu sempre gostei muito de ler. Hoje em dia gosto até menos do que eu gostava, quer dizer, não é que gosto menos, mas tenho menos tempo ocioso. Sempre gostei muito do [F. Scott] Fitzgerald, os autores americanos da década de 20, [Ernest] Hemingway, Oscar Wilde, eu sempre releio Oscar Wilde, tô sempre relendo...
B – E aquela coisa mais filosófica, [Jean Paul] Sartre...
A – Tudo isso eu li, [Jean] Genet, Sartre, coisa, mas não são exatamente meus favoritos, eu não sei porquê, mas eu gosto de uma coisa que tem um certo humor implícito ou um certo drama implícito, como o Fitzgerald tinha.... alguém falava que eram “dramas à beira da piscina”, eu sempre gostei muito desse tipo de drama à beira da piscina (risos).
B – E literatura brasileira?
A – Menos... não por literatura americana por si, mas eu sempre li muito em inglês, é uma forma de eu me conectar com a língua e não perder o hábito. Morando no Brasil você não fala inglês e lendo, pelo menos, eu mantinha a língua viva dentro de mim. Brasileiros eu gosto do Rubem Fonseca, por exemplo...
B – Mais contemporâneo.
A – É, mais contemporâneo. Eu sempre quis ler Machado de Assis e nunca consegui. Dizem que é ótimo. Todo mundo fala que é muito bom e eu quero ler, um dia. Mas Machado de Assis sempre tem aquela cara de livro que você tem que ler na escola, que você é meio obrigado a ler, então acho que é por isso que eu sempre tive um certo problema.
B – Poesia?
A – Não, detesto poesia (risos). Fico muito irritado quando me chamam de poeta (risos). Sério, é a mesma coisa que estivessem me chamando de hippie (risos).
B – Agora, Punk tudo bem, né?
A – Punk tudo bem. Sou um punk velho, né, o que é que vou fazer (risos)...
R – E desde o começo das tuas bandas o teu negócio eram as letras?
A – Eu sempre fazia a letra... eu nunca imaginei não fazer a letra de uma música, aliás, eu nunca imaginei nenhuma das bandas que eu tive, não fazer a música. Era inimaginável pra mim eu não fazer as músicas. Eu tinha esse drive, eu sempre tive. Assim, eu nunca me considerei um compositor, era uma coisa natural. Eu já chegava... nos Vândalos eu já tinha meia dúzia de músicas próprias. Era automático. Não que fossem boas, mas eu tinha esse drive, eu sempre tive.

Rubem Fonseca

B – Uma usina de composições.
A – Não, cara, eu não pensava nisso, eu juro pra você, eu nunca pensei... quer dizer, hoje em dia é claro, mas eu nunca pensei, assim, “eu vou sentar e vou fazer uma música”. Eu pegava o violão e fazia a música.
R – Esse negócio de sentar e fazer a música... na maioria das vezes é uma coisa que está acontecendo, daí você pensa, “vou falar sobre isso”?
A – Sim, você sempre tem a idéia a partir de alguma coisa que te comove.
R – Não, mas não como uma tarefa, né, “preciso fazer aquela música de fulano”, e tal...
A – Não, hoje em dia é um pouco assim. Hoje em dia eu componho mais por tarefa, assim, é raro eu fazer uma música sem ter um dono, já.
B – E por inspiração?
A – É muito raro, hoje em dia. Muito raro. Mas durante metade da minha vida foi assim, eu fazia sem propósito algum.
R – Agora, a música pronta e fazer a letra é pior, né?
A – É difícil, pra mim. É muito difícil pra mim. Ultimamente eu tenho até feito. A Marina foi quem começou a me convencer a fazer isso. Eu fui fazendo, hoje em dia eu faço, dependendo da pessoa, ou da complicação da música. Uma vez o Guinga mandou uma música pra eu botar letra. Gente, tudo tinha 30 notas, cada compasso, não tinha parte A, B, C, assim, era A, B, C, D, E, F, G, sabe... eu fiz a letra, aí ele não gostou (risos)... ah, eu tirei nota daqui, botei nota ali, falei “ah, quer saber?”, sabe, ainda tinha que ser tudo... ele é de outra escola, né?
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Parte 2
Parte 3
Parte 4 - Final

Entrevista com ALVIN L - Parte 2


Alvin: "Então começou tudo a ser rápido, aí um assina um contrato, o outro tá tocando,
aí um estoura e eu pensei “bom, é agora, começou a ferver”.
RAPAZES DE VIDA FÁCIL

B – Por que acabou o Vândalos?
A – Acabou por causa disso: esse cantor que entrou, que era uma pessoa até talentosa, ele compunha também, compunha boas canções, e tal, mas o estilo dele era um estilo que eu não estava a fim, e ele começou a empurrar as músicas dele, eu falava “olha, eu não gosto, não é a proposta”, não sei o quê, e foi, foi, foi, até que rachou a banda no meio, e fui eu e o baterista pra um lado, o cantor e o guitarrista bacana no outro. Eu tentei formar outra banda, mas aí não conseguia, aí eu tava na faculdade, já, e começa a complicar...
B – Faculdade do quê?
A – Eu fiz arquitetura. Entrei com 17 anos.
B – Faculdade de arquitetura aqui no Rio?
A – Aqui no Rio, a UFRJ.
B – Certo. E aí já começa outra banda?
A – Não, eu tava tentando outra banda. Não sei exatamente porque eu não consegui, mas eu acho que foi por causa disso. Mas também é uma época da vida, cara, quando você entra na faculdade, que você começa a experimentar com um monte de coisa, você começa a ir a festas sozinho, voltar às 5 da manhã, então você está muito ocupado. Muito ocupado com aquela coisa toda, às vezes, pra pensar seriamente numa carreira; eu não pensava nisso, eu não pensava nem em ser arquiteto, mas eu sabia, no fundo, que eu queria trabalhar com música. Lá no fundo eu sabia disso. E papo vai, papo vem, assim, eu encontro o guitarrista dos Vândalos um dia e falo assim “pô, o que que você tá fazendo?”, “é, a banda acabou, o cara”, não sei o quê, “ah, vamos fazer um trabalho, Rapazes de Vida Fácil”, sei lá, tem até o nome.
R – E foi você que escolheu, também?
A – Fui eu que escolhi. Isso era um episódio do Batman, que tinha um bar chamado “Vida Fácil”, que era do pingüim, sei lá. E o Batman ficava, pro Robin, “cuidado com esses rapazes do Vida Fácil” (risos), achei que DE vida fácil era mais legal. Eu sempre fui do mal (risos).
B – Nada mais punk do que um episódio do Batman e Robin.
A – É verdade.
B – Aí começou o Rapazes...
A – Aí começou o Rapazes e aí eu fui cantar. No Rapazes eu só cantava e tocava um pouco de guitarra.
B – O baixo você abandonou?
A – Abandonei o baixo; eu acho que eu queria cantar. Eu achei assim: “Eu faço as músicas; se eu cantar elas também ninguém vai ficar querendo empurrar aí, a coisa, a banda vai ter o meu foco, né? Não era tão maniqueísta assim, mas provavelmente era assim que eu tava pensando. E eu achava que cantava (ri). Era o líder da banda, cantava, tinha o baterista, guitarrista, e faltava um baixista quando me aparece o ex-cantor dos Vândalos que tava tomando aula de baixo (risos)... rapaz, virou quase um Vândalos com as cadeiras trocadas. Mas aí a gente dividiu, “vamos fazer o seguinte: vão algumas das tuas músicas, algumas das minhas”, já era uma proposta mais New Wave, já não era tão Punk. Assim, eu gostaria de ter continuado um pouco Punk, não queria abandonar completamente, uma coisa ainda Punk, já mais pós-Punk, mas o Ronaldo, guitarrista, resolveu que ele não ia mais usar distorção. O que causou uma briga, e não sei quê, enfim...
B – Mas o que é que você tava ouvindo, nessa época?
A – Punk e pós-Punk. Isso, vamos dizer, em 79, 80.
B – Mas tipo eletrônico, vocês adicionaram um teclado?
A – Não, New Wave de guitarra, The Jam... pós-Punk New Wave.

The Jam

B – Ah, tá, assim, tipo finzinho da década de 70 e início da década de 80, antes de virar bubble-gum, antes de virar Devo...
A – É naquela virada, antes de estourar. E a gente levou a banda durante um tempo, meio sem saber o que ia acontecer... eu fazia, era impossível você pensar em rock’n’roll no Brasil, na época. Não existia. Era impossível você dizer “uma banda de rock um dia vai dar certo no Brasil”. Outra vez sincronicidade: tinha várias outras pessoas trabalhando, formando bandas, cada uma sem saber do outro, e com esse pensamento: “Não sei por que é que eu estou fazendo isso, mas eu tenho que fazer isso”, sabe.
B – Nada na música brasileira te influenciava?
A – Não tinha! Final da década de 70 e início dos 80...
B – Raul.
A – Já tava numa outra fase... eu gostava, tenho disco, tudo. Rita Lee, até Made in Brazil. (risos) Não tinha rock no Brasil. A gente gostava do que tinha. Mas voltando ao Rapazes, minha mãe tinha uma loja de discos em Copacabana, e um dos fregueses da loja era... Serguei [o carioca Sérgio Augusto Bustamante].
R – Aiii, pansexual! (risos)
A – O pansexual Serguei (risos), que é uma das pessoas mais hilárias...
B – Ele é o maior porra-louca do Brasil.
A – O maior porra-louca do Brasil e há muito tempo! (risos)
R – Ele é engraçadíssimo.
A – Bom, o Serguei tá nesta, freqüenta a loja, e minha mãe falava “ai, imagina, o Serguei freqüenta a loja”, eu nem lembrava do Serguei, “cara, é aquele maluco que cantava gritando”...
B - ...que namorou a Janis Joplin...
A – Ele ficou amigo dela. Parece que a única pessoa que realmente namorou a Janis Joplin foi o Paulinho da Viola. Me contaram isso outro dia, aqui, que o único que namorou a Janis Joplin foi o Paulinho da Viola, que fala inglês.
R – É um come-quietinho, hein?
A – Que é um come-quieto. Eu nunca pesquisei isso, me falaram. Um dia desses, se eu me encontrar com ele vou perguntar (risos). O Serguei conheceu essa galera, o Jim Morrison, o Hendrix, é maluco, uma maluca, encontrou outro maluco, pulou em cima dele. Mas o Serguei freqüentava a loja, e papo vai, papo vem, minha irmã falou: “Meu irmão tem uma banda”. Serguei: “Ah, eu estou procurando uma banda”. Pôs a gente em contato. O maluco viu um bando de pós-punk, se apaixonou pela banda, falou “eu quero contratar vocês como minha banda de apoio”. Ele tava voltando pro Brasil, ele passou anos nos Estados Unidos, falou “quero gravar disco, quero fazer turnê, já tenho shows vendidos”, não sei quê, uma maluquice...
B – Você tocou com o Serguei (risos)...
R – Meu, é muito legal, isso...
B – É tudo!

A – O meu primeiro emprego. A minha carteira de músico, aquela coisa que todo mundo tem que ter, eu tirei pra tocar com o Serguei. E lá fui eu, ensaiamos com os nossos parcos instrumentos, com o Serguei pulando pra cá, o Serguei pulando pra lá (risos)...
R – Ele e aqueles passinhos de balé dele...
A – Ele é hiper-ativo! Ele é hiper-ativo em último grau, ele não pára um segundo, ensaiar com ele era uma tortura. Mas todo mundo assim, “Pô, cara, é o Serguei...”.
B – Como é que era a música dele?
A – Não, eram covers. Até “Tropicália” do Caetano Veloso a gente cantava. Ele era muito sixties, era uma coisa que a gente nem gostava muito, mas enfim, ele era fenomenal porque ele era muito cativante! Sabe aquela pessoa que chega num lugar e todo mundo se sente vivo, na hora? E ele tava clean, naquela época. Fomos fazer a tal turnê com o Serguei. Primeira parada: Vitória, Espírito Santo, fomos de ônibus, no hotel, “oh, estou me sentindo pop star”...
B – Tudo pago.
A – Tudo pago. Pelo menos a gente achava, mas vai ter um porém (gargalhadas)... Pô, tava todo mundo crente, até o dia em que eu vi o Serguei de bob na peruca (gargalhadas)... uma visão que eu não recomendo a ninguém (gargalhadas). Bom, o primeiro show; ia ser uma turnê pequena, era Vitória, duas cidades do interior de Minas que eu não me lembro, Belo Horizonte, depois mais uma cidade no interior de São Paulo, e voltava pro Rio. Era uma coisinha tipo uma semana e pouco. Primeiro show, vai fazer o show com abertura de um cantor de seresta, depois grande show com Serguei, né? (risos) Tinha dez pessoas num clube gigantesco, dez pagantes! Esse show foi um horror, quer dizer, todo mundo tocando, a primeira experiência que eu tava tendo, assim, fora da cidade, não sei quê... enfim, voltamos pro hotel, o show foi um fiasco e o cara que tinha contratado o show fugiu, largou todo mundo no hotel, olha... (risos) A turnê acabou ali mesmo! (gargalhadas) Era pra ter desistido, né?
B – E a conta?
A – Sei lá, acho que o Serguei pagou... e essa história com o Serguei deve ter durado uns quatro, cinco meses, e tal, e aí começou a aparecer coisas, tipo, “você tem show de rock ali”, “você tem show de rock acolá”, sabe, “tem um bar que abriu que tem show ao vivo”, aí ia lá e tocava pra meia dúzia de bêbados, mas pelo menos os bêbados tavam animadaços, ouvindo aquilo, porque tavam a fim de rock’n’roll e não tinha, sabe? Aí você conhece uma outra banda, geralmente eram bandas ainda muito setentonas e a gente era meio diferente daquilo... e eu freqüentava o posto 9 e você conhece um cara que é o guitarrista, “ah, eu tenho uma banda chamada Kid Abelha”, “ah, eu sou de Goiás, meu nome é Léo... Jaime, tô chegando no Rio”, e aí começa uma rede de conexões e você vê um monte de gente meio que trabalhando na mesma onda. Aí abriu um bar num outro lugar que tem show ao vivo, e as pessoas começam a se conhecer...

B – O Circo.
A – Aí apareceu o Circo Voador, aí daqui a pouco... foi tudo meio assim...
R – É aí que tem a história da rádio?
A – Rádio Fluminense.
R – A Fluminense que lançou todo mundo.
A – Não só lançou todo mundo, como amplificou o rock’n’roll, que apareceu, enquanto cultura, aqui no Rio. Aí aparece a Blitz, e daqui a pouco a Blitz estoura, e daqui a pouco tá todo mundo falando “o que que é isso?”, não sei quê, é rock’n’roll, aí tem show de Blitz, tem show de Kid Abelha, porque até então a gente não sabia o que é que acontecia nos outros lugares. O povo do Rio é que tava se conectando primeiro, era onde eu estava. Então você conhecia todo mundo. Conheci o Léo nessa época, conheci o Bruno Fortunato, que é um dos meus amigos de rock’n’roll mais antigos, Cazuza, Frejat morava aqui no Flamengo, ele é daqui do Flamengo, também, e ele era primo de uma amigaça minha da faculdade, então conheci ele antes do Barão Vermelho. Então começou tudo a ser rápido, aí um assina um contrato, o outro tá tocando, aí um estoura e eu pensei “bom, é agora, começou a ferver”. Aí aparece uma banda de São Paulo, vindo tocar aqui, aí aparece uma de Brasília, e a gente pensa “não é só aqui!”. Era uma loucura. Era uma coisa que começou a acontecer tudo muito rápido! Eu tinha um amigo que morava nos Estados Unidos que a gente trocava cartas; eu me lembro, assim, isso em 1985, chegou uma carta dele falando: “E aí, quem estourou esta semana?” Porque era todo dia, eu escrevia “sabe aquela banda? Estourou!”, “Sabe aquela não sei quê? Estourou!”, o cara queria voltar pro Brasil correndo.

Kid Abelha
 e os Abóboras Selvagens

B – E você, nisso?
A – Eu tinha o Rapazes de Vida Fácil, e a gente vendo aquilo tudo acontecendo, e tocando ao vivo, saía notinha no jornal, começaram a prestar atenção na gente, e tal, “é agora! Abriu! Milagre!” Mas nós acabamos sendo a primeira leva do Rio, a gente era uma banda da primeira leva do Rio, a última a assinar um contrato. Que foi quando exatamente mudou daquela fase Blitz, que ainda era meio bubble gum, como você falou... tudo era muito... primeiro disco dos Paralamas, que você ouve, é guitarra lá embaixo, um coral lá em cima, assim, a pessoas ainda tinham medo de guitarra, de rock... as bandas de Brasília é que fizeram todo mundo perder o medo disso. Porque até as de São Paulo, você vai escutar o primeiro disco do Ira, a guitarra é um timbrezinho não ofensivo...
R – Ultraje, então...
A – Ultraje... (canta a introdução de “Inútil”)
B – Ultraje, “Eu me amo” é uma peça quase...
A – O primeiro disco dos Titãs é skazinho [ritmo jamaicano inspirado nas big bands americanas, e que deu origem ao reggae] de leve, as pessoas tinham medo. E, bom, e foi indo, foi indo, foi indo, a gente realmente demorou um tempo pra assinar, porque a gente não tinha empresário, cara, eu não sabia que você precisava de um empresário. Pra tudo. Se você não vai numa gravadora e falar “tá aqui a minha fita”, neguinho não vai olhar na tua cara. Eu não sabia disso, era ingênuo. E todas essas bandas, por exemplo, o Kid Abelha fazia shows sem empresário, até o dia em que aparece um cara e fala “vocês têm empresário?”, “Não”. E com a gente não aconteceu isso. Eu achava que era assim: você manda pelo correio uma fita pra gravadora X, e no dia seguinte ela vai te ligar e dizer “você é o máximo! (risos) Queremos te contratar!” Eu juro que eu achava que era isso! (risos) Muito ingênuo, muito ingênuo. E chegou, finalmente, um dia, um cara achou a gente num bar e falou: “Eu vi um show de vocês, maravilhoso, outro dia fiquei procurando o empresário de vocês pra conversar, não achei. Não era você?”, não foi nem comigo, era o baixista que era o Nelson Meirelles. O cantor que virou baixista já tinha saído, nessa época. E o cara falou: “Eu tava atrás de vocês, me dá uma demo, gostei do show de vocês”, pra Polygram, na época... aí uma semana depois o cara ligou: “Estamos interessados, vamos marcar estúdio, vamos gravar, contrato, compacto”, não sei quê, quando eu vi eu tava no estúdio, não sabia de nada, o disco acabou ficando ruim por causa da mixagem; ele foi bem gravado, mas mixaram muito eco... aí chegou em rádio, eles até tentaram trabalhar, mas as rádios falavam “não soa bem”. E o compacto acabou não vendendo, não sei quê, a banda começou a... é um business muito cruel, você precisa ter uma casca grossa. E com a idade que eu tinha, e com a ingenuidade que eu tinha, eu não suportei aquilo. É horrível, sabe assim, um dia todo mundo é o teu melhor amigo na gravadora, e no dia seguinte, quando alguém decidiu que... “ah, eles não valem muito a pena”... ninguém atende mais o teu telefone e você já fica sem noção. Hoje eu sei que é assim. Não vou mais me enganar que o presidente de uma gravadora vai me abraçar toda vez que eu passar na frente dele; vai me abraçar enquanto eu estiver dando lucro pra ele. Mas na época eu não sabia, e fiquei naquilo, “puta, o que aconteceu?”, não sei quê, e aí as bandas de Brasília começando a chegar, e a bandinha que eu tinha, indo por água abaixo.

BRASIL PALACE

A – Bom, aí acabou essa banda, eu tava um pouco decepcionado com tudo, aí chegaram as bandas de Brasília, a coisa começou a ficar mais barra pesada, e era o que eu tava fazendo cinco anos antes, sabe, o que as bandas de Brasília começaram a fazer, os Titãs começaram a fazer, eu falei “porra, bad timing, né?”, eu estava no lugar certo, mas na hora errada. Aí eu pensei, “vou estudar música, vou terminar a faculdade”, eu tinha trocado de faculdade, já nessa época, eu tava em Comunicação Visual.

Titãs

B – Você abandonou arquitetura...
A – Cara, é uma história mais ou menos... eu vou ser muito sucinto, você não precisa saber dos detalhes (risos). A velha história do seu grande primeiro amor. Vivemos um grande amor, só que foi uma doença, cara, de cabeça, assim, que chegou uma hora que eu falei: “Eu não agüento, eu vou embora”. Você sabe quando você está PODRE de paixão? E fala “eu vou embora, eu vou trocar de escola pra não ver tua cara nunca mais!” (risos)
B – Vou mudar de planeta.
A – Vou mudar de planeta! Na verdade só mudei alguns andares, porque a faculdade de Comunicação Visual era no mesmo prédio da URFJ, mas era distância suficiente (risos).
B – O Rapazes acabou logo depois do compacto?
A – Depois de um ano. O compacto foi lançado, vamos dizer, em março de 84, e o rapazes acabou em março de 85. Aí fui estudar música, pra começar, e eu continuei fazendo faculdade, numa de terminar. Estudei música com o Pepê Castro Neves, tive algumas aulas com ele, depois fui fazer musicalização com mais alguém que não me lembro quem foi... uma escola de música, nada muito luxuoso, não. Não chegava a ser um conservatório... pelo menos não parecia... (ri). Um ano, talvez... pra aprender os rudimentos de música, mesmo. Em 86, mais ou menos, eu montei o Brasil Palace. Cheguei num ponto em que achei que deveria, finalmente, fazer minha incursão numa música de raízes brasileiras, mesmo. Foi um desastre (risos). A idéia era usar a música brasileira e botar distorção na música brasileira. Bossa Nova distorcida. Só que naquela época era o auge do RPM. Outra vez eu estava no lugar certo na hora errada. Porque esse tipo de experimento que eu estava querendo fazer, por exemplo, anos depois o Chico Science estava fazendo. Não igual, mas uma coisa que tinha a mesma linha do que eu estava fazendo.

Pepê Castro Neves

B – É, porque o Chico Science nada mais fez do que pegar a música do Jorge Mautner, que era uma coisa da Tropicália e colocar aquele peso, aquele...
A – Então, e batuques, coisas assim... o Brasil Palace tinha umas idéias assim. Só que aconteceu no auge do RPM. A gente tentou, tentou, ficou um ano, um ano e pouquinho... fazendo show, gravando demo, ninguém se interessava; todo mundo ouvia aquilo no auge do RPM, pensando “que merda é essa”? Eu cheguei a fazer um show em São Paulo, no Aeroanta, que eu fui vaiado! Foi a única vez na minha vida que eu fui vaiado! Fazendo o show, as pessoas esperando um rock meio anos 80, o que estava em voga na época, e veio aquilo... eu me lembro que foi no meio de uma música do ZéKetti que eu tava cantando... (canta) “Tristeza, por favor vá embora...” [“Tristeza”, de Haroldo Lobo e Niltinho, na verdade], e com arranjo distorcido de guitarra, (imita o som da guitarra) “Ióóó... Iééé”... (risos), e eu cantando aquilo, e daqui a pouco eu escuto o “uuuuuuu”... (ri) aí eu falei “olha, desculpe, muito obrigado pra quem gostou, tchau, valeu...”. E depois dessa coisa, nós estamos lá no camarim, amargurados, incompreendidos, quando do nada me aparece o Fê [Lemos], do Capital Inicial, e diz “cara, eu gostei muito das letras. Eu achei tuas letras ótimas”. Mal sabia eu que estava nesse elogio o início da minha parceria com o Capital.
B – Quem eram os integrantes do Brasil Palace?
A – Cara, era Marcos Massena na guitarra, o Fernando Hargüiss no baixo e o Ary Motta na bateria. Nenhum deles é músico, ainda. Pessoas que eu conheci naquela época. O Marcos Massena, inclusive, é co-autor de “Casa e Jardim”, que a Marina gravou [creditado no cd “Abrigo” como Vinícius Massena]. Aliás, tanto “Casa e Jardim” quanto “Stromboli” eram músicas do repertório do Brasil Palace, pra você sentir como a coisa era diferente, pra época. Mas não aconteceu. Muita gente se interessou porque eu tinha um certo nomezinho na indústria, as pessoas achavam que eu tinha talento, e tal, então todo mundo se interessou em ouvir, mas ninguém entendeu, ninguém achou que aquilo fosse vingar... a gente chegou a gravar uma demo com o Liminha, que eu conheci mais ou menos naquela época, pra você ver como a coisa poderia ter dado certo. A gente foi pro estúdio “Nas Nuvens”, com o Liminha, gravar uma demo pra Warner. Ele ouviu falar da banda, achou interessante, ele me achava interessante, gravou a demo mas ninguém gostou. E aí não rolou, enfim, um ano, um ano e pouquinho a gente investiu naquilo, sem nenhum retorno. Aí a gente desistiu, né?

ROTEIRISTA DE VIDEO-CLIP

"Eu não tinha noção do valor do que eu fazia.
Você só começa a ter noção real do que você
faz quando começam a te pagar por aquilo".
A – Aí eu estava meio que no fim da faculdade, terminei a faculdade em 88, que eu estava levando a faculdade bem devagar, e eu me lembro que quando acabou a faculdade eu não estava fazendo nada, eu não estava mais estudando, eu comecei a pensar “o que é que eu vou fazer agora”. Eu até pensei em começar uma carreira solo, cheguei até a gravar uma demo como se fosse solo, né... e é onde entra “Eu não sei dançar”. Mas eu me lembro que o Jodelle [Larcher, diretor da Globo] me encontrou um dia e falou “o que você está fazendo?”, eu falei “nada, acabei a faculdade, estou sem banda, não sei o que eu vou fazer”, aí ele falou assim: “Você não quer trabalhar comigo?”, e me chamou pra fazer roteiro de video-clip para o Fantástico. Você lembra que o Fantástico tinha todo domingo, um ou dois clipes? O Jodelle comandava o núcleo de produção desses videos. O Jodelle e mais alguém. E ele sabia que eu era criativo, e eu tinha acabo de me formar em Comunicação Visual, então eu tinha tudo, eu era criativo e tinha acabado de me formar numa coisa que me recomendava na profissão. E fui trabalhar com o Jodelle. Fiquei uns seis, sete meses trabalhando com ele. E a gente trabalhava assim, tinha começado a MTV lá nos Estados Unidos, mas não tinha aqui, e a Globo não tinha muito a linguagem do video-clip, então tinha fitas com duas horas de MTV que o Jodelle botava todos que trabalhavam lá vendo horas de video-clip, pra ter a linguagem da coisa... quer dizer, você tem os templates, o padrão, aí você tem que aprender o padrão, então eu ficava vendo horas de MTV.
B – Era tua lição de casa.
A – Pra aprender, pra absorver a linguagem da coisa. Daquela época eu lembro de uma história engraçada: o Titãs ia fazer o clip de “Flores”, aí eu sabia que ia rolar mas o roteiro não ia ser meu. E tinha um clip da Sinead O’Connor que ficava passando um monte de flores na tela, aí eu falei pro Jodelle, “olha isso, isso pode ser interessante pros Titãs, né, esse padrão, essa idéia, né?”. E aí falei com ele isso e depois, quando eu fui saber, estava rolando uma briga porque o clip ganhou um prêmio (ri), e neguinho tava brigando por quem tinha tido a idéia, e eu pensei com os meus botões: “A idéia não foi de ninguém! A idéia de COPIAR é que foi minha!!” (gargalhadas) E todo mundo discutindo como se tivesse sido, assim, uma sacação do outro mundo...

O QUINTO CAPITAL

A – Bom, eu tava lá com o Jodelle, trabalhando, ganhando uma grana, fazendo alguma coisa, um dia toca o telefone: “E aí??”, Dinho, “e aí, pô, cara, a gente tá fazendo um disco novo”, eles vinham de um disco que foi um fracasso, um disco horroroso, que era o “Você não precisa entender”, não sei se você já ouviu, é muito ruim o disco, nem eles gostam... e aí ele me falou assim: “Nós vamos fazer um disco novo, a gente quer tentar parcerias, vê coisas, sei lá o quê, o Fê me falou que viu um show seu”, e tal, e a gente era amigo e ele não sabia...

Capital Inicial

R – O show do Aeroanta.
A – O show do Aeroanta. “Manda suas músicas, vamos ouvir”. Isso foi mais ou menos por 89. E eu tinha uma música do Brasil Palace que era muito boa, que era minha e do Renato [Russo], chamada “Belos e Malditos”. Pensei “essa música é muito boa”, e como eles gravavam muita coisa do Renato, falei “vou mandar essa”.
B – A música que lançou o Capital era do Renato.
A – Exatamente, “Música Urbana”.
B – O Fê era da banda do Renato Russo, o Aborto Elétrico.
A – É, e tem aquela história...
B – Tem aquela briga...
A – O Fê era do Aborto Elétrico. Ele e o Flávio [Lemos]. E o Dinho, depois ele me confessou isso, que o grande ídolo dele, quem ele queria ser, era o Renato. E enquanto ele perseguiu isso, correu atrás do Renato ele era um pop star meio de segundo escalão. Ele só virou o “Dinho” agora, nos anos 2000, quando ele foi ele mesmo, desencanou, sabe, e eu faço parte disso, porque a gente fechou uma parceria... e outra coisa: ele tem a voz, eu tenho a letra, let’s make lots of money.
M – Você é o quinto elemento.
A – É, de certa forma sou.
B – Aí ele te liga...
A – Bom, ele me ligou, pediu música, eu mandei “Belos e Malditos” e mandei umas letras soltas que eu tinha. Aí depois ele me ligou, falou “Ah, adorei Belos e Malditos”, não sei o quê, “as outras letras eu não gostei”. Eu acho que eu mandei umas coisas meio muito em cima... achando que eles iam querer uma coisa meio Renato Russo, eu pensei “as mais Renato Russo que eu tenho são essas e não eram muito boas”. Você fica meio sem saber, naquela época eu não tinha esse lance de compositor, não era, eu fazia porque fazia.

Renato Russo

B – É que você não tinha ainda, digamos, a tua identidade de compositor.
A – Não, cara, eu vou te contar uma história: a primeira pessoa que quis gravar uma música minha foi o Paralamas do Sucesso, no primeiro disco deles. Tinha uma música dos Rapazes de Vida Fácil chamada “Falso Verão”. O Herbert me ligou um dia, falou assim “eu queria gravar. A gente tá gravando um LP, queria gravar ‘Falso Verão’”. Aí eu falei “ah, é? Não sei... deixa eu falar com o meu empresário”. Já tinha um empresário nessa época que era um maluco (risos)... e o empresário fala “imagina??!! Ele vai roubar a música de você, a música vai ser um grande sucesso no LP dos Rapazes de Vida Fácil”... que não tinha nem imprensa, não tinha nada (risos)... falei pro Herbert “I’m sorry... mas o empresário falou”, não sei quê, o Herbert falou “ah, é? Tá!”, e desligou o telefone na minha cara (risos). Os Paralamas foram um grande sucesso, e os Rapazes de Vida Fácil afundaram, a música até hoje está enterrada. Eu podia ter começado uma carreira de compositor já em 83, 84. E não fui porque fui mal-assessorado. E quando o Capital veio, isso me voltou à cabeça. Pensei “O Capital é uma banda grande... tudo bem, eles estão um pouquinho meio que sambando, mas é uma banda que vende discos, é uma banda grande, é uma banda que lota shows, e tal, claro”...
R – E tem a ver, né?
A – E tem a ver. O Dinho foi progressivo. Eu conheci ele, em seguida fomos ficando progressivamente muito amigos. Nessa época a gente já era muito amigos, mas éramos amigos, assim, de fumar um, quá, quá, quá, música não entrava, nós ouvíamos rock no volume dois, mas não de pensar em fazer coisa junto, nunca tinha passado pela cabeça. Por causa disso, o Dinho é muito desligado, ele não reparava... eu também não me mostrava, porque eu não achava... eu não tinha noção do valor do que eu fazia. Você só começa a ter noção real do que você faz quando começam a te pagar por aquilo. Você fala “Opa, se tem alguém pagando...”.

Herbert Vianna

B – Quando te requisitam... porque requisitado você já era. Agora, a partir dali, a coisa...
A – Eu podia ter me tocado disso nessa época: “Se o Herbert Vianna tá querendo gravar uma música minha é porque, porra, péra aí, eu não sou um qualquer”. Mas eu não pensava nisso, eu fazia porque eu fazia. Eu não pensava, assim, que outras pessoas poderiam gravar minhas músicas. Não passava nem de longe pela minha cabeça. A única vez que aconteceu foi essa e eu fui mal-assessorado, e eu fazia por fazer. Eu não pensava nisso. Eu não pensava em mim como compositor; pra mim eu era um pop star (risos).
B – Uma estrela feita.
A – Uma estrela feita, ninguém tinha me descoberto ainda (risos). E as músicas eu fazia porque tinha que fazer música. Bom, aí eu mandei “Belos e Malditos” e umas letras. Aí ele me ligou dizendo que tinha gostado de “Belos e Malditos” e não tinha gostado das letras. Falei “ah, então ótimo. Você quer ela pra você?”, ele falou “quero”. Uma semana depois me liga o Dinho e me diz “fizemos Belos e Malditos!”, eu digo “fizemos como??”, “ah, porque a gente perdeu a fita aí pegamos só a letra e fizemos a música!” (risos) Nessa história eu já tava assim: “Quer saber? WHATEVER!! (risos) Be happy!” Liguei pro Renato, falei “aconteceu isso”, o Renato “ah, você vai ganhar dinheiro, ótimo”, foi super gente-fina... e eles estavam brigados nessa época. Eles tinham brigado, não estavam se falando e o Renato foi super gente-fina, falou “Não me importo, pode dar a música, você vai ganhar dinheiro, vai ser ótimo pra você”. Gente-finíssima da parte dele.
R – Mas a melodia não tem nada a ver?
A – Não, é outra melodia (risos). A letra é a mesma, mas a melodia...
B – Agora, cá entre nós: qual que é a melhor? (risos)
A – Cara, a essa altura do campeonato eu não me lembro mais como era...
B – Whatever.
A – Ficou aquela, a versão do Capital é a versão que eu me lembro.
R – O Renato tá aqui, agora, falando “é a minha, porra!” (risos)
B – Ele tá pairando aqui, “claro que lembra, porra! Fala aí que a minha era melhor!” (risos)
A – Bom, aí o Dinho me ligou: “Cara, a gente precisa de mais coisa, a gente não tá conseguindo fazer letra”, não sei quê... eu falei “tá, mas a gente mora em cidades diferentes, como é que faz?”, ele falou “ah, manda umas coisas”, não sei quê, aí mandei umas coisas, ele gostou de uma... mas eles mexiam muito nas coisas que eu mandava. Eu mandei uma letra, era tudo assim, ele falou “gostei dessa parte, a outra eu não gostei”, fazia uma parte nova, mexiam muito. Uma certa vez ele me ligou e falou assim: “Vem pra cá! Tá rolando alguma coisa com você, vem pra cá”. Aí eu fui.

R – Agora, quando mexem na letra você fica meio puto?
A – Nessa época eu não tava, eu tava whatever, assim... “não tô fazendo nada, vou ganhar uma grana, mexam e foda-se!” Teve música naquele disco “Todos os Lados” que o Flávio Lemos mudou uma palavra e ganhou um terço da música. Mas naquela época, cara, eu não tava me importando com isso. Eu me importava, assim, porque teve coisas que ficavam ruins, que podiam ter ficado boas e estavam melhores no original.
B – É isso que eu ia falar: o orgulho criativo, o orgulho de criador...
A – Nessa parte eu tive que engolir.
B – No começo você aceitou, falou “beleza”.
A – Sim, mas eu também tava entrando numa história que já tava rolando, eu não sabia exatamente o que é que ia rolar, sabe, fui e vamos ver o que é que vai dar.
B – Era o teu breakthrough.
A – Meu breakthrough. E aí o disco até que foi melhor do que o anterior, teve críticas melhores, e falaram de mim porque eu já tinha um nomezinho por causa do Rapazes de Vida Fácil... eu sempre fui bem de imprensa (ri). Eles sempre gostaram de mim. Inclusive o estouro, quando a Marina cantou uma música minha, repercutiu também porque de repente é aquele cara que tá batalhando um tempão, e tal, e que eles já gostavam então eles já dão um destaque extra. Por isso que apareceu... eu não podia sair na rua, porque eu perdia... mas vamos chegar lá. O disco saiu, fizemos um monte de música juntos. Você olha as músicas, todas as músicas são de dez pessoas (risos). Tô exagerando, mas é assim, “não sei quem, não sei quem, não sei quem e não sei quem”, e às vezes eu fiz a letra quase toda e alguém mudou duas frases, mudou a melodia... o disco é artisticamente meio ‘Frankenstein’. Mas é um disco que os fãs do Capital amam! É o segundo colocado na lista de quase todos. É impressionante. E o disco foi um sucesso razoável, o Capital já tava numa crise descendente, estavam em crise com eles mesmos, já não se aturavam, saía empresário, entrava empresário...

Dinho Ouro Preto

B – O Dinho é estrelão? É meio ego?
A – Não, ele é super gente-fina, mas eles estavam se batendo. Banda é que nem casamento: você tem que ver aquela pessoa o dia inteiro, todo dia, chega uma que se você não combina muito bem... eles já estavam mal, não sei quê, tinha que renovar contrato com a gravadora, aí a gravadora queria renovar com um contrato pior, não sei quê, blá, blá, blá, enfim... mas o disco rolou, teve uns hits, eu comecei a ganhar dinheiro, falei “opa... tem alguma coisa aí”, pois é, foi a primeira vez que músicas minhas tocaram no rádio, falei “bom, ótimo! Maravilha! Tá andando alguma coisa, né?” Aí foi, tal, aí teve o segundo disco que eu fiz com o Capital, o “Eletricidade”, que já era uma gravadora nova e foi a mesma coisa, “manda a música, manda a letra”. Nessa já começou a ter, assim, letras inteiras que são só minhas, eles já começaram a não interferir tanto, porque eles já... tem uma ou outra que neguinho ainda meteu o bedelho, mas a maioria... eu acho um disco melhor, em termos de composição por causa disso, porque é mais puro, né? Aí eu comecei a pensar em mim como compositor. Falei “eu ganho dinheiro com isso, se estão me pagando é porque deve ser bom. Eu tô vendo o resultado disso, as músicas estão tocando no rádio, as pessoas cantam... sabe, de repente é isso!” Aí eu comecei a, meio assim, sabe aquela coisa que Nietsche diz, “só é bom se é fácil”? Tá sendo fácil, tá sendo bom, deixa rolar, sabe? Aí comecei a me ver, realmente, de repente, como homem da composição, um homem de canção. Nessa época.

EU NÃO SEI DANÇAR

A – Aí foi quando... eu tinha feito “Eu não sei dançar”. Uma música que o Dinho chegou a ouvir e não achou nada demais, porque ele não gosta de balada, que nem eu, também não gosto de balada. “Eu não sei dançar” foi uma música que eu comecei a fazer num carnaval, provavelmente em 89... eu tava andando muito com Lorena [Calábria, jornalista] e com o Dé, do Barão Vermelho, muito. E nesse carnaval a gente tava meio junto e eu tava fazendo “Eu não sei dançar”. E eu vou te contar uma coisa, pra você ver como a coisa é cármica, né? Eu tava fazendo “Eu não sei dançar”, comecei a fazer uma balada, porque eu tava ouvindo Pet Shop Boys, por incrível que pareça, na época. Aquele disco que tem umas barras, que são canções que você pode tocar no piano, muito triste, só que todas numa batida disco, e era uma coisa meio revolucionária, na época, era um modo de ver você compor e arranjar. Você toca no violão, é uma balada. E eu comecei a fazer uma balada, eu tava pensando numa carreira solo nessa época, lembra? Isso foi um pouquinho antes do Capital chamar. Aí pensei, “vou fazer umas músicas, carreira solo, geralmente balada”, e tal e comecei a fazer. E eu tava fazendo “Eu não sei dançar” e uma certa hora eu falei “Puta, balada... puta, que horror, deve estar uma merda isso, eu não gosto de balada”, não sei quê... e eu tava falando com o meu empresário, que era o mesmo, ainda, que foi meu empresário até o primeiro disco do Sex Beatles. Um grande amigo... mas enfim (ri), nada dava certo com ele, um inferno... e eu falando com ele um dia, falei assim “puta, cara, comecei a fazer uma balada, mas não sei se eu vou terminar, eu não sou muito de balada”, e ele virou pra mim, e falou assim “não! Acaba, faz! Se ficar ruim, ficou, faz a música”. E o mesmo que falou “não deixa gravar a música” fez com que eu terminasse o que foi, assim, o ponto de partida para o resto da minha vida. Uma lei cármica: ele fez uma merda e depois fez o bem (risos). Foi um grande conselho, cara, e ela foi feita durante um carnaval que eu andando muito com a Lorena e o Dé.

Lorena Calábria

E, assim, não sei se tem a ver, mas é tudo mentira: eu não estava apaixonado, tudo mentira (risos). É literatura, aquilo. Tudo literatura. E eu fiz os versos e achei que faltava um refrão; e aí eu me lembro que eu... eu gosto muito de... que eu fico muito criativo quando eu tô entediado. Quando não está acontecendo nada, aí eu começo a ter idéia, minhoca na cabeça. Eu me lembro que eu fazia muita música, letra de música, terminava muita letra de música em ônibus, então você vai pro Leblon, daqui pro Leblon, você vai pensando, escrevendo... aí eu falei assim “quer saber? Tá faltando um refrão pra música, eu vou pegar um ônibus, vou circular”, porque aqui tem muito ônibus que vai de um ponto, vai a zona sul inteira e volta pro mesmo ponto. Peguei o ônibus, pensando naquilo, pensando naquilo, pensando naquilo, pensando naquilo... e uns dias antes eu tinha estado numa festa que começou a tocar uma música lenta e neguinho: “Vamos dançar! Vamos dançar!”, e eu sou péssimo em dançar juntinho. Péssimo, piso no pé, fico fora do ritmo... aí eu fiquei pensando naquilo e me veio isso, assim, é uma boa metáfora para você dizer pra uma pessoa que não pode ficar com ela, porque não combina, não vai dar certo, não sei quê, “eu não sei dançar tão devagar pra te acompanhar”. Que tem uma coisa real, mas aí vira uma outra, não sei quê, enfim, esse foi o processo da coisa. E eu tenho muita impressão de que aquela sétima, (canta) “Eu não sei dançar...”, fez a música. Quando chega ali todo mundo chora. Aquela sétima fez a música. E a música ficou uns três anos, o Dinho chegou a ouvir, pro “Eletricidade”, mas não quis “porque é balada”, e tal...
B – Agora, “e tudo que eu posso te dar é solidão com vista pro mar”?
A – Pra mim parece anúncio de prédio em frente pro mar (gargalhadas). Não sei o que as pessoas vêem nisso!
B – As pessoas amam isso de paixão...
A – Não sei porquê.
B – É bonito demais...
A – Aquilo saiu, não tenho nenhum carinho... tenho um carinho especial porque todo mundo ama, mas não é...
R – Meu, não acredito, não fala assim...
B – Eu não posso colocar isso no fórum! (risos) [o fórum do UOL dedicado à Marina Lima, onde eu originalmente planejava colocar esta entrevista, o que não aconteceu]

"E tudo que eu posso te dar é solidão com vista pro
mar” pra mim parece anúncio de prédio
 de frente pro mar".
A – Tô acabando com a música (gargalhadas)...
B – Você vai estourar a bolha de todos os fãs!
A – (fala bem perto do microfone) É TUDO MENTIRA! (gargalhadas) Mas você sabe que hoje em dia, ouvindo a música, eu acho uma grande canção mesmo... eu juro pra você, tem muitas músicas minhas que eu fico assim, “de onde eu tirei isso?” Eu não sei de onde saiu aquilo, cara. Veio! Me veio, deve ter sido algum... eu nunca reparei que aquilo podia ser nada, eu gostava da música, acho que o resultado final ficou razoável, mas eu não tinha nenhum carinho especial pela música. Eu me lembro que eu gravei a demo, a tal demo do solo que eu teria tentado mandar pra uma gravadora, ela era a quinta música! Era a última. Não era destaque nenhum. Eu gravei uma demo, foi um cara que fez o arranjo, o cara até, eu me lembro que a parte é... (canta) “E tudo que eu posso te dar é solidão com vista pro mar, outra coisa pra lembrar”, e eu queria deixar um espaço enorme ali, o arranjador que fez a coisa juntou com “se você quiser eu posso tentar”, e falou “funciona melhor se você partir dessa parte direto pra essa”, que eu queria um instrumental... coisa de arranjador, né? E aí fez a demo, colou aquilo, ficou bem profissionalzinho, tal, nenhuma gravadora quis (risos)... acho que nem ouviram...
B – E o Dinho também não gostou...
A – Não, o Dinho ouviu, gostou, mas não gostava do estilo. O Dinho tava muito confuso nessa época, ele tava querendo sair banda, a banda já tava se odiando, se você for ouvir o “Todos os lados”, o tema do disco é a desintegração. É tudo o fim do mundo, separação ruim, sadomasperuoquismo, é tortura, o tema do disco é esse. E o “Eletricidade” era até um pouquinho mais assim, mas tem várias coisas pesadas, ali, de... dance, animal, dance, uma coisa agressiva, meio... que era o clima deles, então ele ouviu aquilo, eu acho que... passou batido.

MARINA LIMA

A – E a música ficou lá, e quando aconteceu a coisa com o Capital eu assinei contrato com a Warner Chapell, que é minha editora até hoje. E eles trabalham as tuas músicas e eles sempre estão querendo músicas novas pra mandar pra todo mundo, né? Não sei quem vai gravar um disco, manda uma fita com dez músicas de dez autores, e não sei quê. E um belo dia, eu tô na casa desse meu empresário e tinha uma menina, Andreinha Alves, que trabalhava com a Marina nessa época. E ela tava falando “ah, eu tô com a Marina gravando um disco, o disco tá ficando tão lindo, você não imagina como tá ficando lindo o disco”... eu falei que gostava da Marina, mas os dois últimos discos dela não tinham me...
M – “Virgem” e “Próxima Parada”.

A – É, no “Virgem” eu gostava de algumas coisas, mas quando começava com “bundinha de fora” [1 noite e meia], ali, eu meio... eu não gosto daquilo, já falei pra ela, que aquilo não merecia... ela fala “pô, fiz aquilo porque era o momento de passar pra um próximo nível”, e deu certo. Povo ama, foi um mega-sucesso, ela virou uma mega-estrela ali... ali era virou uma lenda.
R – Foi por causa dessa música que ela participou do Hollywood Rock.
A – É, pois é. E eu já não gostava daquilo, falei “putz, já tá meio apelando”... mas enfim, eu gostava dela como artista, confiava nela como artista. E a Andreinha me falou que ela tava gravando esse disco, que tava lindo e não sei quê, blá, blá, blá... “ah, mas ainda nem fecharam repertório, ela tá gravando o que tem”... cara, sabe quando acende uma lampadinha na sua cabeça? “Aquela música... pode ser boa pra Marina, né?”... aí eu falei “pois é, eu tenho uma música que talvez sirva pra ela”, ela falou “ah, manda, quem sabe? Eu dou uma força lá pra ela escutar”, porque chegava muita coisa pra Marina, e ela não escutava tanto, né? Aí eu liguei pra editora no dia seguinte, falei “cara, soube que a Marina tá gravando um disco”, eles tavam com uma cópia do disco, lá, que eles gostaram, achavam a música sensacional, já tinham mandado pra uma outra cantora que tava fazendo uma demo, chamada Cássia não sei quê, que acabou sendo a primeira a gravar a música em demo; não chegou a lançar disco, e era uma versão bem diferente. Produzida pelo Márcio Miranda, até. Tudo se encadeia, você vai ver porquê. Aí, o cara da editora falou “claro! Eu acho que pode rolar, sabia? A música é boa, acho que é a cara dela, realmente não tá fechado o repertório... vou mandar hoje. Vou até levar pessoalmente, porque tenho que ir lá na EMI”. Cara, isso foi, vamos dizer, numa terça-feira. Na quarta-feira eu chego em casa e tem um recado na secretária eletrônica dizendo (imita, impagável) “Alvin, aqui é Marina (gargalhadas). Recebi sua música, adorei sua música, vamos tentar gravá-la, eu acho que vai ficar legal, espero que você goste”, mas toda meio assim ainda pedindo permissão... eu respondi muito formal, mas querendo dizer “querida, pelo amor de Deus!” (risos)
B – “É tua”!
A – “Please! O que é que você quer que eu faça? Que eu lamba o chão pra você passar?” (risos) Pânico, pânico, pânico.

B – Eu preciso te perguntar o seguinte: você já conhecia a Marina naquela época?
A – Eu conhecia, assim, de ver, assim, “oi”. Eu sabia quem era ela, eu já tinha falado “oi” pra ela algumas vezes, mas ela provavelmente não sabia quem eu era.
B – Fã da música dela?
A – Do começo, sim. O “Certos Acordes” eu achava um disco sensacional. Sabe aquele disco que você ouve até furar? “Certos Acordes”, o “Fullgas” era muito legal. Olha, o “Certos Acordes” foi um disco dela que furou, foi quando eu me apaixonei por ela, de uma certa forma, como artista. Foi um momento da minha vida que eu...
B – Músicas daquele disco que você lembra. Você lembra de alguma que...
A – (canta) “Eu sou uma gata (risos) e não gosto de água fria”...
B – Ah, você também?
A – Eu amava a, amo até hoje, eu insisti com ela pra gravar o... ai... qual é a música desse disco que está no Acústico?
M – “Charme do Mundo”.
A – “Charme do Mundo”. Eu que insisti pra ela gravar essa música. Eu amo essa música.
R – Obrigada.
B – Obrigado.

A – Ela não queria! Até o último momento, ela não queria fazer nem “Criança”, nem essa. Então uma das duas ia sair, acabou saindo “Criança”. O que foi um erro, porque tava linda. Mas o encadeamento de tudo é isso: se eu não estivesse na editora, provavelmente eu não teria tido a idéia de mandar a... e eu fui parar na editora por causa do Capital, e depois a Marina me contou o seguinte: que ela já tinha ouvido a música com a tal da Cássia não sei quê cantando, que o Márcio Miranda já tinha mostrado pra ela, que ela tinha gostado muito da música mas tinha achado estranho o arranjo, porque era bem diferente... mas ela, assim, “é interessante a letra dessa música”, não sei quê, blá, blá, blá... mas ao mesmo tempo a mulher tava gravando, ela não... e quando o autor mandou ela sentiu que tinha a liberdade pra... e ela gostou muito mais da minha versão cantando. Foi quando ela se apaixonou pela minha voz, que ela ama não sei porquê (risos). Ela falou “nossa, você canta, nossa, que voz linda você tem”... ela falou “vou gravar, se você não se importar”. Agora ela não sabe, talvez, dessa história inteira. Pra ela, de repente, fui eu que mandei a fita. Aí ela gravou a música e não foi, assim, a primeira música de trabalho foi “Acontecimentos”, que é uma música liiiinda... e eu falei “putz”, eu ouvi o disco, é o melhor disco dela DE LONGE, como álbum! Assim, ele funciona, ele vai do começo ao fim assim... é a obra-prima dela, pra mim, a coroa da carreira dela é esse disco, e a música, assim, era a décima do lado B. Quer dizer, não vai ser a música de trabalho. Mas tudo bem, enfim, eu tava lá. Whatever. E quando saíram as críticas, TODAS as críticas falaram que a música era maravilhosa, não sei quê, e começaram a abrir quadrinho pra mim, porque todas me conheciam, de repente eu tava na ativa e fazendo músicas legais...
B – Letra e música tua.
A – Letra e música minha. E começou a acontecer tudo assim, pá-pá-pá, cara, o telefone começou a tocar, “oi , aqui é não sei quem, você não tem uma música pra mim, não?” (risos), mas era o dia inteiro, todo dia, cara, eu comecei a mandar o que eu tinha, né? Comecei a sair em jornal, ia nas festinhas, era celebridade, eu fiquei famoso da noite pro dia! Tinha gente querendo dar pra mim, sabe (risos)... tudo! Tudo, tudo! E a Marina começou a dar entrevista dizendo que a música era uma obra-prima, que eu era uma gênio, e a gente começou a ficar amiguinho, assim tipo, eu era muito tímido, assim, eu não... até hoje, na nossa relação, ela me chama. Eu não... a não ser quando é uma coisa que eu tenho que falar, eu ligo pra ela, mas eu não fico ligando pra ela, “hããããã”, nada disso. E a gente começou a se ver, e tal, cara, eu fiquei famoso; assim, durante 15 minutos eu fui o rei da cocada preta (risos).
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Parte 1

Parte 3
Parte 4 - Final
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