quarta-feira, 28 de abril de 2010

Proseando com Antônio Petrin


Meus caros,
em julho de 2007, seguindo o projeto a que então me dedicava, de entrevistar os participantes da montagem original da peça Ponto de Partida, de Guarnieri, tive o prazer de conversar  com Antônio Petrin. Ao longo dos anos venho encontrando Petrin, tanto no palco como fora dele. Além de grande ator é grande espectador e não raro está pelos teatros da vida, observando, dando conselhos e aprendendo. Seria um clichezaço dizer que Petrin é a antítese dos personagens truculentos que volta e meia interpreta na TV, como foi o caso do dantesco Tenório, de "Pantanal".

Mas na sala de sua casa, proseando à tarde, durante horas, numa conversa que foi de George Dandin, Heleny Guariba e a estréia profissional de Sônia Braga, até Maurício do Valle, a TV Tupi do Rio e contracenar com Grande Otelo, é forçoso dizê-lo. Petrin é um cavalheiro em tudo e por tudo.
Trabalhou com todos os mestres do teatro. Boal, Heleny, Flávio Rangel, Fernando Peixoto, Gianni Ratto, Paulo Autran, Bibi Ferreira, Grande Otelo, Henriette Morineau, e só melhora com o tempo. Sua presença valoriza e traz o selo da qualidade e da competência a qualquer espetáculo.

Fala com tranqüilidade, escolhe as palavras, sintetiza com inteligência e é constantemente brilhante. Se eu já era fã de Petrin por vê-lo como Raguenau, no Cyrano de Fagundes, interpretando o bonachão pâtissier-poète, ou trabalhando com Linneu Dias, ou em uma bobagem qualquer com Viviane Pasmanter, agora sou muito mais.

Petrin é um grande mestre e um exemplo para todo o meio artístico. E nada menos do que isso.
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Infância, Juventude e Início no Teatro

Sou de Laranjal Paulista. Nasci em 1938. Com 2 anos de idade me mudei para Santo André e lá fiquei até poucos anos atrás, quando me mudei para capital. Sou de uma família muito pobre, meu pai era operário da indústria de Santo André, minha mãe também, eu vivi nesse bairro, Parque das Nações, numa rua onde não tinha asfalto, não tinha luz, era como o poema do Vinícius, era uma casa que não tinha nada. Não tinha teto, não tinha parede (rs), então eu tinha as minhas preocupações, eram sociais mas não era ideologia, era por osmose, mesmo (rs). Então nesse bairro tinha a igreja, fazia o teatrinho, então foi lá que eu dei os primeiros passos, no teatrinho da igreja, né, aquela coisa toda, depois fazia o teatrinho na escola, na igreja, contar vida de santos, tal e tal, até minha ida para o centro, trabalhar no "Grupo de Teatro da Cidade", onde trabalhavam a Sônia Guedes, o Aníbal, marido dela, e aí vou, participo, e de lá vou para a Escola de Arte Dramática. Eu me formei na turma do Umberto Magnani e da Analy Alvarez em 1967. Dos meus professores tive o Sábato Magaldi, Paulo Mendonça, teve também o Anatole Rosenfeld, o Clóvis Garcia, essa era a parte teórica.

Guarnieri,
 Chico de Assis e Boal

O Arena era o modelo que nós queríamos seguir. O grupo que estava em evidência e que era modelo pra gente seguir e querer era o Teatro de Arena, e nós, estudantes na época, freqüentávamos o Teatro de Arena e o café ali em frente, o Redondo, porque eles às vezes estavam ensaiando, estavam chegando para o espetáculo, os atores, e a gente queria pelo menos tomar café ao lado deles, de Guarnieri, Chico de Assis, Boal... na época a Heleny Guariba – que dirigiu nosso primeiro espetáculo profissional e foi logo em seguida dirigir um curso de preparação de atores para o núcleo 2 do Arena – era muito amiga do Boal e a gente mantinha até uma relação de amizade. Mas você sabe como são os estudantes, ficam naquela base de admiração daquelas pessoas todas.
 
E ali tinha todos os espetáculos com o Sistema Curinga, o Zumbi, o Tiradentes, o Arturo Ui, teve antes a Mandrágora... no Arena acho que só não vi o Black-Tie. Eu assisti a estréia do Fagundes, o Xandu Quaresma, do Chico de Assis [peça que no Arena chamou-se Farsa com Cangaceiro Truco e Padre]. Então veio a segunda fase, com o núcleo 2, as feiras paulistas, o Magnani, o Boldrin, e por aí vai.

De um certo modo preferíamos o Arena ao Oficina pela opção política. Na verdade tínhamos admiração pelos dois, mas mais pelo Arena por causa da questão política, porque o Boal era a grande cabeça, era a pessoa que ditava uma certa norma, regra de comportamento político dentro da classe. Ele era o grande teórico, eles todos, então o Arena era o gerador dessas idéias. E o Oficina ficava num segundo plano, porque já começa a ter, devido à época, 68, 69, os anos 70, aquele desbunde, a revolução feminina, drogas, e aí o Oficina entra nesse caminho, que é frontalmente contra os do partidão, do qual faziam parte o Boal e o Guarnieri. O partidão não admitia esse desbunde, era radicalmente contra. Então você pega Guarnieri, Vianinha, o pessoal do Rio, Paulo Pontes, Ferreira Gullar, do Rio de Janeiro, do Teatro Opinião, Plínio, eram absolutamente contra, o teatro com quem eles se confrontavam lá no Rio, quando eles faziam A China é Azul, Teatro Ipanema, que era todo um teatro mais voltado para o corpo, o desbunde, então o Oficina entra nisso, e esse tipo de atitude acabou desmantelando o Oficina. Os grandes pensadores do Oficina acabam entrando em conflito. O Fernando Peixoto, por exemplo, que era do partido, não admite esse rumo que se toma e começa a cair fora. Ele e muitos outros. O Oficina acaba deixando de ser um grupo e vira "o Zé Celso". Três Irmãs, Gracias Señor já é o desbunde total. O Zé Celso vai enlouquecendo e aí as pessoas vão caindo fora.

Você imagina que o Othon vem da Bahia pra trabalhar no Oficina; o Cláudio Corrêa e Castro vem de Curitiba pra trabalhar no Oficina; o Fernando Peixoto e a Ítala vieram do sul, e de repente a coisa não se sustenta mais, não segura, porque as pessoas precisam viver, então vão pra televisão, e vão pra cá e vão pra lá.

Eu não era filiado ao partidão. Minha militância não tinha nenhuma orientação partidária, era viver na carne os problemas. Vi aquela movimentação toda do CPC em Santo André, o Guarnieri, o Vianinha, o Chico de Assis, e tal, mas nunca fui do CPC. O Chico de Assis costuma sempre dizer, em qualquer reunião quando eu estou presente ele já fala "o meu amigo Petrin, do CPC de Santo André", eu nunca desmenti, mas ele me considera também, uma espécie de membro honorário, e eu tenho uma profunda admiração pelo Chico de Assis como dramaturgo, como um professor de dramaturgia maravilhoso e todas aquelas pessoas que permaneceram no Arena. Há alguns anos inclusive o Boal recebeu o Título de Cidadão Honorário de Santo André e me pediram um depoimento e eu escrevi um depoimento em homenagem ao Boal.

O Grupo de Teatro da Cidade

Formamos o "Grupo de Teatro da Cidade". O grupo era de lá, a sede era lá. Todos estudantes da EAD. Minha primeira peça profissional foi o George Dandin, do Molière. Eu, a Sônia Guedes, o Aníbal, a Sílvia Borges, que ainda hoje está por aí, outros colegas que não seguiram carreira, além dos camponeses da peça, que eram gente chamada ali da cidade, e entrou no grupo a Sônia Braga, que era na verdade uma menininha de 17 anos, era modelo, tal, na época essas coisas eram muito difíceis, era complicado, ela queria essa coisa toda, e nossa diretora era muito viva e chamou ela para a peça. E era deslumbrante a beleza dela naquele figurino do Flávio Império.

Sônia Braga

Era uma espetáculo muito interessante; era uma diretora, Heleny Guariba, que desapareceu na ditadura, então ela veio de uma formação... ela fez estágio na França com o Planchon e veio com esse propósito: de reconstruir os clássicos com uma linguagem moderna. A maneira de se encenar, então ela fez esse espetáculo com o nosso grupo, cenografia e figurinos do Flávio Império. Trabalhar com a Heleny era complicado, porque ela era uma pessoa muito exigente, e ela trabalhava muito o lado intelectual do espetáculo, e ao mesmo tempo o ator. O que ela queria era fazer um espetáculo que tivesse uma abordagem social, então você imagina pegar uma peça do Molière, que nem é uma das peças mais importantes dele, era uma peça mais secundária, e transformar aquilo num painel social; porque ela dividia, socialmente falando, aqueles personagens em 3 categorias. Eram os nobres decadentes, personificados pelos pais da Angélica, que se casa com o Dandin; o Dandin era a personificação da classe média em ascensão, porque no espetáculo ele era transformado num grande comerciante de uma fazenda, e aí aparecia juntamente com os empregados da casa – e mais uma figuração que não tem na peça, mas que foi acrescentada ao espetáculo, dos camponeses – então essa divisão, no cenário do Flávio Império, isto ficava claro, porque numa parte bem inferior ficavam esses camponeses, onde os empregados da casa transitavam facilmente; no segundo plano ficava o Dandin que era o burguês tentando ascender, e na parte superior apareciam esses nobres decadentes, que tentavam ate surrupiar coisas do Dandin, pegavam frutas e jogavam nas bolsas, enfim, aí você tinha esse painel claro de cada classe, que na verdade o que a Heleny queria fazer era um link desse painel social com o Brasil do momento, em que havia uma aristocracia paulistana cafeeira decadente, uma burguesia industrializada, do movimento industrial, de uma classe média ascendendo ao poder, porque as grandes empresas, as grandes indústrias, então a classe média ganha status considerável na sociedade; e os trabalhadores, os peões, o povo, os camponeses, mesmo, brasileiros, que continuavam nessa situação.
Heleny Guariba

Ela conseguiu transmitir isso bem no espetáculo, porque havia debates com os estudantes, depois da apresentação, e isso ficava claro. Tanto é que a última crítica do Décio para o Estadão foi elogiando o George Dandin – aliás, foi a última crítica dele, que se aposentou depois – enquanto que tinha também uma crítica desse espetáculo feita pelo Paulo Mendonça, ele não desdenha do espetáculo, a crítica não fala mal do espetáculo, mas ele faz uma gozação com a Heleny, já no título da crítica, que é "Até Molière colabora", dizendo mais ou menos que "buscar nesses clássicos essa referência atual e social, ninguém tinha pensado e nem imaginado usar como arma uma obra do Molière", e tal.

Fizemos em Santo André, num teatrinho de Santo André, e aí nós fomos para o Teatro Anchieta, que estava sendo inaugurado, era o comecinho do Teatro Anchieta [atualmente o Sesc Vila Nova].

Um quase-trabalho com Boal

Eu trabalhei um pouco com o Boal. Um pouco, mas trabalhei. Eu só não continuei o trabalho com o Boal porque ele foi preso. Era o seguinte: o Teatro de Arena estava numa draga desgraçada. Num miserê danado. E eu tinha acabado de fazer George Dandin, e o Boal me convida pra fazer uma peça argentina do Carlos Gorostiza, lá no Arena, que se chamava Os Próximos, que aqui foi dado o nome de "O que é que nós vamos fazer esta noite?". Essa peça ia ser dirigida pelo Boal. O elenco formado pelo Boal era eu, Boldrin, Lilian Lemmertz, Abraão Farc, uma atriz do Rio, uma senhora, esqueci, e mais uma garotinha que era uma estreante de teatro. Bom, e quem ia dirigir essa peça era o Boal. E aí acontece todo aquele problema político, e vem do Rio de Janeiro o Luís... , um grande teórico, que toda a obra dele, que ele escreveu, era sobre a contra-cultura, enfim, ele veio pra socorrer o Boal, porque o Boal já estava preso, e esse Arena Conta Bolívar foi um pouco antes, por isso estava aquela desgraceira toda, por isso fomos fazer esse espetáculo do Gorostiza. Lembro-me de ter feito exercícios com o Boal. Aquelas improvisações, nós começamos a fazer e de repente o Boal foi preso. Na cela vizinha à da Heleny, aliás.

Ponto de Partida

O Ponto de Partida eu acabei substituindo o Sérgio Ricardo, porque o que aconteceu na verdade é que o Sérgio, me parece que tinha assumido esse compromisso porque tinha feito a música e estava envolvido na produção e nos ensaios desse espetáculo, com o grupo Maria Déia. Eles trabalharam toda a parte musical do espetáculo. Agora, nunca me constou que o Sérgio Ricardo fosse ator. Porque essa coisa de ser ator é uma coisa meio complicada, principalmente pra teatro, né, porque você tem que estar disponível para o espetáculo... na época a gente fazia o espetáculo de – não tenho idéia, não lembro – mas eu tenho a impressão que era de terça, ou quarta, até domingo, sendo que sábado duas sessões, domingo, duas sessões, e depois excursionando, e enfim, depois de 1 mês do espetáculo em cartaz, fui convidado para substituí-lo. O Othon me convidou, claro, com a autorização do Fernando Peixoto, aí eu comecei a ensaiar o espetáculo. Aquilo que o Sérgio tinha de facilidade de cantar aquelas músicas, eu tinha uma certa dificuldade. Já tinha cantado, e tal, mas nada assim, e eu pra te dizer a verdade eu nem sei dizer se eu cantava bem ou se cantava mal. O que eu sei é que nunca recebi uma crítica desfavorável nessa área. Tinha o meu momento do encontro com a Maíra, e a canção do Ferreiro. Uma música difícil, mas o grupo Maria Déia era um pessoal muito legal, um pessoal muito bacana, então correu tudo muito bem.

A menina, Sônia Loureiro, é que cantava melhor. A Sônia cantava bem, e ela já vinha do espetáculo desde o começo, então me ajudou muito. Depois, quando saiu a Sônia – ela teve um problema de acidente com uma motocicleta, ela se queimou, teve que sair do espetáculo, e aí entrou a irmã da Sônia Braga, Aninha Braga – pensei que a dinâmica musical que eu tinha com a Sônia seria perdida, mas o espetáculo era tão poderoso, tão forte, que essa parte do canto não chegava a comprometer, mesmo se a gente fazia mal.

Minha canção, o "Menino Pássaro", tem uma parte, algumas frases que são cantadas, e algumas outras tantas, que são faladas em cima da música, então acho que por aí é que a gente não teve problema. Provavelmente, quando eu entrei, aquilo tanto que o Sérgio cantava, eu acabei declamando em cima da música, talvez até mais dramático. Mas essa peça ficou aqui no Tahib um tempo grande, um sucesso absoluto, lotado todas as noites, num teatro que quase nunca ninguém... nem sabe, acho que hoje está às moscas, nem funciona mais, mas lotava toda noite. Aí fomos pro Rio de Janeiro, e no Rio é que foi, assim, o auge do sucesso, porque ela foi feita ali no Teatro João Caetano, ali na Praça Tiradentes, então era uma multidão em frente àquele teatro, querendo entrar no espetáculo. E o teatro tinha mil lugares, e esses números nunca mais eu esqueci, porque nós fizemos lá 12 apresentações, e nós tivemos lá mais de 12 mil espectadores. No primeiro dia já vendeu tudo. Foi uma coisa... no dia da estréia, a Praça Tiradentes ficou uma mar de gente.

Foi feita uma gravação do áudio do espetáculo. Isso eu me lembro que foi feito no Teatro Municipal de Santo André, porque era um teatro com condições acústicas boas, excelentes, e foi feito com o intuito de se comercializar, tanto é que nós, atores, acabamos assinando um documento para que se pudesse comercializar aquilo. Agora, que fim levou aquilo, não tenho a mínima idéia. Nunca se lançou. Pelo menos eu não sei.
 
Quem poderia provavelmente te dar alguma indicação melhor é o Othon Bastos, que era o produtor. Ele e a Martha eram os produtores. Agora, eu me lembro muito que eles colocaram vários microfones no palco, naquela noite, e uma equipe na coxia, com um equipamento anormal, para uma gravação, porque era uma coisa profissional. Nós assinamos um documento, dizendo qualquer coisa como "na venda você terá um percentual tal, autorizo", e tal. Se aquilo foi transformado em Long Play, não tenho idéia, mas foi feito.

Repressão e Censura

Eu me lembro que teve um fato quando estava a peça aqui em São Paulo, no Teatro Municipal. Porque naquela época se fazia uma coisa chamada "Mês Teatral". Então o que era o mês teatral? Era a escolha de algumas peças de sucesso do ano que ia terminar, pra se apresentar a preço popular no Teatro Municipal. Bom, então o Ponto de Partida participou do mês teatral, então a gente fez uma semana no Municipal. A semana toda, e também com lotação esgotada. E teve um dia em que ocorreu uma manifestação de passeatas, àquela época estávamos sob a ditadura, teve uma manifestação na cidade, várias passeatas que aconteceram na cidade, eu digo várias porque de cada ponto da cidade saía um grupo protestando, porque assim a polícia não ficava concentrada só num lugar, então tinha que se dispersar, era uma tática que se usava. E eu me lembro que eu estava numa dessas passeatas, que começou no Largo São Francisco, e tivemos que correr da polícia, foi uma coisa terrível, porque a gente corria, eles jogavam bombas de efeito moral, e eu acabei até pulando um muro, uma coisa assim, quase que arrebento o pé, ali perto da igreja da consolação, tinha um terreno ali do lado da igreja, e a gente acabou se escondendo ali.

Bom, aí eu fui para o Teatro Municipal, e eu me lembro que a Praça Ramos de Azevedo estava um caos de sujeira, porque toda a cavalaria que ficava correndo atrás das passeatas, eles estacionaram ali com os cavalos, e os cavalos cagaram em volta do Teatro Municipal inteiro! Uma coisa tenebrosa. Aí quando eu cheguei no teatro, conversando com o Othon e com o Guarnieri, já disse "hoje não vai ter ninguém, porque quem é que vai sair de casa hoje pra vir no teatro com a cidade inteira conturbada, essa coisa toda de polícia e essa sujeira toda em volta do Municipal", e qual não foi nossa surpresa que o teatro esteve lotado, lotado, e nesse dia, os estudantes, antes de abrir o pano, leram um manifesto contra o governo. Eles queriam que se lesse no palco, por algum de nós, principalmente o Guarnieri ou o Othon, mas aí os dois foram ameaçados de que se eles fizessem isso a direção do teatro não ia permitir a realização da peça e suspenderia a semana, então eles falaram "olha, o melhor é vocês mesmo lerem, porque a gente tem essa ameaça", e tal, então antes de abrir o pano, eles mesmo vieram na frente do palco e leram o manifesto que eles tinham que ler, e logo em seguida a gente fez o espetáculo. Então teve essa coisa pitoresca que aconteceu quando a gente estava no Municipal. Era coisa de estudante, contra o governo, contra a ditadura, não tenho lembrança agora mas cada um tinha um propósito, provavelmente tinha sido por prisão de algum líder, invasão de faculdade, não lembro.

A peça fez São Paulo, Santo André e Rio. Não deu pra continuar porque... na verdade... essas coisas... como você não é o produtor, nem sempre você fica sabendo do por que disso ou daquilo, eu era contratado, agora, eu tenho uma certa impressão de que havia uma dificuldade do Guarnieri viajar, ele tinha compromissos com a televisão, deve ter sido isso.

O Guarnieri era problemático às vezes, porque bebia muito. Então tinha essas dificuldades. Ele era maravilhoso no trato pessoal, mas quando tinha bebida no meio, ele ficava ausente. Por exemplo, na temporada carioca, uma noite nós fomos todos pro "Plataforma", depois do espetáculo. E o Guarnieri vai e pede uma garrafa de um dos melhores whiskys escoceses. Eu já fiquei apavorado porque o negócio é caríssimo, mas deixei pra lá. E o Guarnieri foi bebendo, bebendo, bebendo, e ao mesmo tempo o pessoal foi indo embora, então de repente eu me vejo no meio da madrugada no Plataforma, em frente a uma garrafa de whisky vazia e do meu lado o Guarnieri dormindo e roncando a sono solto. E pra melhorar, o garçom vem e joga a conta em cima de mim (rs).

Eu fiquei numa situação terrível porque naquela altura acho que nem uma bomba acordava o Guarnieri, e eu era simples contratado da companhia do Othon e da Martha, não tinha dinheiro pra pagar nem metade daquele valor. Aí eu fui com o maior constrangimento e expliquei a coisa pro Alberico, o português lá que é dono, o cara foi de uma simpatia ímpar comigo, "fica tranqüilo, eu entendo, não se preocupe", e pela manhã eu fui e expliquei o negócio pro Othon, afinal tinha dinheiro no meio, alguém tinha que explicar, e ele fez aquela cara de que não era a primeira vez que acontecia uma coisa assim (rs), mas ficou tudo numa boa. Era difícil alguém conseguir ficar puto com o Guarnieri (rs).

(Petrin inicialmente me pediu para não incluir essa história em seu depoimento, com medo de que as pessoas a interpretassem de forma errada, como se ele estivesse falando mal do amigo querido, coisa que ele não faria jamais. No fim, pude convencê-lo de que a história é saborosíssima e longe de macular a imagem de Guarnieri, apenas elabora sobre uma faceta dele que praticamente todo mundo já conhece, e que só faz aumentar o carinho que todos sentimos por ele.)


Quando eu não estava em cena, eu estava nos bastidores assistindo o Guarnieri. Veja bem: um grande ator, que você vê a magia dele, quando você está junto, contracenando, não dá pra você apreciar o trabalho do outro, porque você tem que desenvolver o teu, então são dois personagens se batendo ali. Mas o genial é quando você podia sair de cena e ficar olhando o colega. Quando isso acontece é coisa rara no teatro! E o Guarnieri era desses. O Guarnieri era de uma qualidade de ator, que você falava assim "mas"... porque ele era... como vou dizer... ele tinha uma naturalidade, que às vezes, se você fosse observar claramente nos cânones de uma interpretação, aquilo lá às vezes não saía da nota 5. (imita) "Ti – ti – ti – nha um – uma forma até meio...", pra dizer as coisas. Mas isso tudo era falado, sabe, e saía com uma verdade inacreditável. Então o Guarnieri era desses atores que entravam e executavam como se aquilo fosse a coisa mais fácil do mundo. Nada era dificuldade. Você não via uma tensão em nenhuma parte do corpo. Que é o grande segredo para o grande intérprete é quando o corpo está solto como nós estamos aqui. Por isso que a voz sai facilmente, e tal.

Se a gente pudesse... aliás, o Stanislavski tem esse exemplo, né? Ele coloca na cena um casal de velhinhos conversando, e do outro lado uma cena quase que circense, fazendo milhões de malabarismos, e os dois velhinhos ali conversando. A platéia esquece o malabarismo, fica olhando o casal de velhinhos, tal é a naturalidade com que eles estão representando, porque aquilo não é uma coisa ensaiada. Ensaiaram aquele salto, ensaiaram aqueles pulos, aquela coisa toda, não, o que é legal é aquilo ali. E o Guarnieri era esse tipo. Você podia fazer acontecer chuva de prata aqui, e você colocava ele dizendo qualquer texto, você ficava nele, esquecia a chuva de prata. E eu fazia a mesma coisa com o Grande Otelo. Eu fazia uma peça, O Homem de la Mancha, eu, Paulo Autran, Grande Otelo, Bibi Ferreira. Eu saía de cena e ficava vendo Grande Otelo representar. De tanto que era essa coisa, essa coisa natural, mas não aquele natural pensado, "olha como eu sou natural", não, aquela coisa espontânea, era aquilo.

O Ponto de Partida foi o meu primeiro trabalho com o Guarnieri. O trabalho, mesmo, foi lá, mas a gente mantinha um relacionamento, ele veio conhecer a gente em Santo André, tanto é que quando eu fui trabalhar com ele no Ponto de Partida ele já conhecia minha trajetória de lá, que eu já tinha tido problemas com polícia, essa coisa toda do DOPS, por causa também da Heleny, então tivemos um entrosamento maravilhoso.

Filme O Jogo da Vida

Bom, então, O Jogo da Vida era do Capovilla. Maurice Capovilla. Era com o Guarnieri, o Lima e o Mauricio do Valle. Esse filme teve origem num livro do falecido João Antônio chamado "Malagueta, Perus e Bacanaço", e aí o Capovilla fez uma adaptação cinematográfica desse livro.

Maurício do Valle, Guarnieri e Lima no filme Jogo da Vida

Nesse filme, claro, eu já conhecia todos eles. Com o Maurício eu ainda fui trabalhar com ele depois na televisão, na Tupi do Rio. O Maurício era uma pessoa... porque a gente tem sempre uma imagem, e imagino que esse seja o teu caso também... eu aprendi uma vez uma frase que é o seguinte, você nunca queira conhecer na intimidade o seu ídolo, o seu escritor, porque você corre o risco de se decepcionar. Ou admirar ainda mais, mas você sempre corre algum risco. Assim como você e como qualquer um, quando eu via Maurício do Valle fazendo Deus e o Diabo, quando você vê o Othon Bastos fazendo o Corisco, esses personagens, você tem esse encantamento por essas obras, e a vida leva você a conhecer na intimidade essas pessoas. Foi assim quando eu conheci o Othon Bastos, quer dizer, ali, (imita perfeitamente o personagem de Othon no filme de Glauber) "o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão", essa é uma imagem poderosa, e aí você olha e fala "porra, mas eu pensei que você era o jagunço que falava desse jeito, e você é esta merda (rs), quase um viado" (rs), eu brinco, porque o Othon é meu amigo, e a gente se diverte muito. E o Maurício do Valle – só por causa disso que eu estou falando – o Maurício do Valle era uma pessoa absolutamente alienada. Era absolutamente alienado. E só falava de mulheres!
 
Ele tinha um tique assim (imita hilariamente o tique corporal de Maurício), entende, e tinha aquela figura. E tinha uma puta dificuldade, na televisão, de decorar. Então toda vez que tinha cena com o Maurício do Valle, era complicado, porque ele nunca sabia decór a cena, porque ele era um cara da noite, um beberrão, tanto é que morreu por causa dessas merdas todas, né, então era uma pessoa maravilhosa, mas não tem nada a ver com o Antônio das Mortes, que é aquela puta figura, com aquela capa...

No filme do Capovilla tinha um certo improviso na cena da sinuca, aquela brincadeira do Guarnieri com o Maurício, mas também não posso te afirmar o que era improviso e o que era de roteiro, mas é que se tinha uma certa liberdade por ser uma coisa de sinuca, então se usam termos, mas aquelas saídas para São Paulo, aquela coisa toda, eu acho que faz parte do livro, mesmo. O Capovilla não era de viajar, esses diretores eram todos metódicos, não tinham essa coisa que tem hoje, não, os caras tinham roteiro. É a mesma coisa que se pegar o João Batista de Andrade, agora, é um diretor que tem um roteiro, vai em cima desse roteiro... é da antiga.

Eles não usam Black-Tie na Fundart

Eu fiz uma experiência lá na Fundação das Artes de São Caetano. Nós estávamos num momento de ascensão do Lula como metalúrgico, presidente do sindicato, e os sindicalistas estavam participando muito. Então eu recebi uma proposta da Fundart, de fazer um espetáculo com as pessoas da comunidade. Na Fundart, porque a escola precisava se abrir pra comunidade, e tal, aquela história política. A Fundart então divulgou que eu ia fazer um espetáculo e que preferencialmente os candidatos a trabalhar fossem operários. Não fossem estudantes, etc., aí juntou um monte de gente dentro, na Fundação e eu dei uma selecionada e acabei selecionando umas dez, doze pessoas, e fiz o quê? Eu falei "eu vou fazer o Eles não usam Black-Tie".
 
Eles eram operários, conheciam toda aquela coisa da greve, aquela discussão toda, então eu selecionei, peguei cada um deles e comecei um processo, um trabalho longo com eles de prepará-los para eles poderem fazer esse espetáculo. E assim acabou acontecendo.

Nesse processo aconteceu uma coisa muito interessante: quando eu comecei a trabalhar com eles, nos primeiros momentos, que eu mostrei o texto, logo na primeira semana eu fiz um trabalho que resultou numa coisa muito legal; eu fiz com que eles servissem de juiz para a questão do Tião. O Tião, por ele furar a greve, ele deve ser absolvido ou ele deve ser condenado? Então vamos discutir esse assunto, e discutimos o fato por um bom tempo, um belo debate, e eles absolveram o Tião. Bom, eu não quis interferir nessa opinião deles, deixei. Aí comecei os ensaios. Ensaiar a peça, ensaiar a peça, ensaiar a peça... e claro, nesse processo todo, você discute tudo, eles vão discutindo, "por que é que o personagem age dessa maneira", "por que é que age daquela", por que o Otávio faz isso", "por que o Tião faz aquilo", "por que a Maria faz isso", "por que a Romana tem essa atitude", essa coisa toda, e vamos estrear a peça. Aconteceu um fato histórico: no momento da estréia da peça, o Lula consegue fazer a primeira greve. Se estabelece a primeira greve contra tudo aquilo que a polícia e a ditadura estava impedindo, então no mesmo tempo que começa a greve, esses rapazes que estão trabalhando na peça comigo, lá, entram em greve também nas suas fábricas, General Motors, tal e tal. Bom, na semana da estréia da peça, eu coloco de novo em julgamento o Tião. E aí ele é condenado. Então o processo foi muito legal, porque eles tomaram a consciência do por que a gente não pode trair uma classe, então isto foi muito evidente.

O Guarnieri não esteve presente, já não lembro por que, mas o Flavinho, sim. E aí, depois, por alguns anos, toda vez que eu cruzava com alguns desses rapazes que participaram do espetáculo, eles me confessavam que a coisa mais importante que tinha acontecido na vida deles foi aquele espetáculo, então esse trabalho serviu pra ficar por um longo tempo na cabeça deles, e provavelmente até hoje eles ainda trazem na memória.

Filme Eles não usam Black-Tie

Acima: Petrin com Francisco Milani, no centro
com Milton Gonçalves, Guarnieri e Fernandona,
e abaixo com Guarnieri

O Leon caçou em São Paulo todo mundo que, de uma certa forma, tinha alguma coisa ligada com o Black Tie. Tanto é que aquele grupo que participa do filme, todo mundo fez alguma coisa na montagem original. O Guarnieri, a Lélia, Milton Gonçalves, Migliaccio, todo mundo. Só não está o Kusnet porque já tinha morrido, na época. Eu não tenho muita recordação porque na verdade eu tinha apenas um papel de figurante, era um dos operários. A imagem que eu tenho do Hirzman é de uma pessoa muito intensa, dirigia muito bem, tudo, era uma pessoa meio... eu tinha uma admiração muito grande por ele, pelo prestígio dele, o diretor que vem do Rio de Janeiro para fazer aquelas coisas em São Paulo.

Eu me lembro que a gente foi filmar numa vila desgraçada, lá na Brasilândia, era um problema porque tinha um momento em que eu e o Milton Gonçalves íamos fazer uma visita ao Otávio na casa, parece que tinha uma cena assim, tal, e depois as cenas nossas eram todas mais na fábrica, eu me lembro muito bem do Milani, que aí virei muito amigo do Milani, nesse momento, depois nos tornamos muito amigos, mas enfim, eu não tenho muita lembrança do Leon Hirzman como diretor.

Leitura de A Semente (década de 90)

Outro momento foi nessas leituras que houve aqui em São Paulo, lá na Nestor Pestana, a Gastão Tojeiro, onde era o restaurante Eduardo, perto ali do Cultura Artística. Aí me pediram pra dirigir a peça do Guarnieri, A Semente. Bom, era um elenco enorme, um elenco enorme, eu cheguei a ficar com medo daquela leitura, porque é uma peça... uma coisa maravilhosa.

Aí, Guarnieri presente na leitura. Eu reuni um puta dum elenco, um elenco grande, e falei "olha, essa peça só tem uma maneira de fazer, é botar todas as emoções, todas as vontades", e tal, porque numa leitura é aquela coisa... e aí nós fizemos essa leitura. Foi uma das coisas mais inacreditáveis que eu vi na minha carreira. Vi o Guarnieri, sentado, em frente, aos prantos! Quando terminou, eu nunca me esqueço porque a minha neta, que era uma menininha, estava assistindo a leitura. Ela... foi uma emoção geral. E foi um grande momento. Não esqueço do Guarnieri me abraçando, falando assim "você hoje me deu uma das maiores emoções da minha vida".

Especial A Festa do Nonno - 2004

A Globo fez um especial em homenagem aos 450 anos de São Paulo escrito pelo Sílvio de Abreu, que era assim: tinha um restaurante, o dono do restaurante, eu era o dono, e a família era composta de todos os membros de várias raças que compõe essa grande Paulicéia, e o "Nonno" dessa cantina era o Guarnieri.

Guarnieri, em cena de O Nonno

Então eu de repente vejo o Guarnieri entrando em cadeira-de-rodas, cara. Aquilo me doeu... aí e eu "pô, Guarnica!", e tal, a gente faz aquela festa, "e aí, Petrin!", "e aí, Guarnica!", bom, e fomos gravar, e eu pensei assim comigo "o Guarnieri não vai conseguir dizer o texto", porque ele estava muito debilitado, e o desgraçado fez o texto, fez maravilhosamente bem! Emocionou todo mundo, foi uma beleza. Era um grande artista.

Leitura do Ponto de Partida - provavelmente em 2002

Petrin e a esposa Rosália

E a segunda foi quando a gente leu Ponto de Partida no Banco do Brasil, com ele presente e o Flavinho lendo o papel do Dodô, do pai dele. Eu fazia o Félix e quem fez o Ferreiro foi o Walter Breda. A Estér Góes fazia a Aida. Porra, foi uma puta duma ovação. A peça já não tem como você... aliás, por isso que o Guarnieri é esse autor que ele é. Porque ele não tem nenhuma peça dele, pelo menos que eu me lembre, que não venha cheia de emoção. Que ela não traga grandes temáticas pra se discutir. Não é esse teatro de hoje, que nós fazemos, todos nós estamos fazendo, que ficamos discutindo as relações.

Eu já estou com o saco cheio de ver peças, de ouvir leituras, aliás eu acabei de ver uma aqui, esta semana, de pessoas, de dramaturgos, que vêm e escrevem sobre relações. Da mulher com o homem, com o filho, não sei o quê, e tal, aquela coisa assim bem pequeno-burguesa, discutindo o óbvio, o nada, e acha que a platéia gosta de ir no teatro para ficar vendo essas coisas. O teatro do Guarnieri tinha reivindicação. "Nós estamos fazendo essa peça porque nós queremos alcançar isto". Além de ter uma qualidade artística, né? Então ter grandes personagens, quer dizer, quando você pega esse personagem do Ponto de Partida, o Dô... Dôdo, Doido, Dodô, aquela brincadeira até que inclusive ele faz, aquilo é um personagem! Você pega esse personagem e você põe ele aonde você quer, você põe ele até na novela das 8, ele funciona, põe ele na novela das 6, aquele personagem, ele age maravilhosamente em qualquer situação que você criar. Isto é saber fazer personagem. Porque o grande problema dos dramaturgos de hoje não é escrever uma história. O grande problema da dramaturgia de hoje é criar grandes personagens, porque se você criar um grande personagem, você conta a história que você quiser, desde que você tenha o grande personagem. A gente descobre isso ao longo da vida, porque na verdade todos nós estamos preocupados, e os dramaturgos também, com contar uma história, e se esquecem de contar uma história através de grandes personagens, então quando os personagens são pequenos, você não tem como contar uma grande história. Você só consegue contar uma grande história com grandes personagens. Se você tem este personagem, tem uma carne, tem uma alma, tem coração, tem algo que você fala "ali é gente", então você coloca ele em qualquer situação dramática que ele vai dar conta do recado. Quando não, é toda essa coisa rasa que está no nosso teatro hoje.
 
Há uma grande discussão de que quando a gente vai para o teatro político, então costuma se falar "outra vez falando de política?", mas nós, brasileiros, nós ainda não saímos do estágio da reivindicação social. Você vê um país que hoje, cada dia a bolsa sobe mais, mais, mais, mas a pobreza continua igual. As dificuldades sociais continuam as mesmas, e o nosso teatro não está reivindicando isso. Mas por quê? Porque fazem falta esses autores.
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OBRIGADO, querido Mestre Petrin!

terça-feira, 13 de abril de 2010

Jânio Quadros, Cid Franco e a Vila Maria

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Meus caros, em 2008 escrevi dois artigos sobre a relação de Jânio Quadros com a Vila Maria para uma modesta publicação local. Tenho procurado não colocar artigos sobre Jânio neste blog, porque estou na fase de conclusão de sua biografia - trabalho que me acompanha há dez anos - e quero evitar spoilers. Entretanto, como o livro todo virá transbordando de fatos inéditos, não me furto de dar-lhes este aperitivo.
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Vila Maria deve ser havido
como substantivo comum, não próprio.
Estamos todos cercados de Vilas Maria. Todos.
(Jânio, 1976)


Há políticos cuja identificação com sua cidade ou seu Estado é notável. Não se fala de Rodrigues Alves sem pensar em Guaratinguetá, de Getúlio sem pensar em São Borja ou em Juscelino sem pensar em Diamantina. Da mesma forma, é difícil dissociar líderes como José Américo, da Paraíba, Vitorino Freire, do Maranhão e João Café Filho, do Rio Grande do Norte.

Adhemar de Barros, por exemplo, era tido como “o leão de São Manoel”, no interior de São Paulo, embora fosse originalmente de Piracicaba, e Washington Luís era o “paulista de Macaé”, por ter nascido naquela cidade do interior fluminense e feito sua notável carreira política em solo bandeirante. Poucos são os políticos de prestígio nacional, entretanto, que concentraram, e pelos anos souberam manter, a popularidade que granjearam inicialmente em um único bairro.

Jânio Quadros é o único que se enquadra em todas essas categorias, e ao mesmo tempo não se enquadra em nenhuma. Nasceu em Campo Grande, antigo Mato Grosso e atual Mato Grosso do Sul, com 1 ano de idade já estava em Curitiba, no Paraná, e aos 13 mudou-se com a família para a Capital de São Paulo. Nos 17 anos que separam a chegada de Jânio à Paulicéia, do pleito em que se candidatou a vereador, em 9 de novembro de 1947, viveu no Cambuci, na Aclimação, na Saúde e na Liberdade. Não representava, portanto, qualquer bairro citadino. Sua candidatura era um tiro no escuro e ele, quando muito, participava da eleição como professor de português e de geografia de dois educandários, o Dante, nos Jardins, e o Vera Cruz, no Brás.

Durante a campanha, Jânio foi atrás de seus velhos colegas de ginásio e faculdade, em busca de votos. Na zona norte, teve o apoio inesperado de José Lourenço, seu amigo desde o Arquidiocesano. O rapaz voltara no ano anterior do Rio de Janeiro, onde cursou a Faculdade de Medicina, e agora estava instalado na longínqua Vila Maria. O bairro nascera em 17 de janeiro de 1917 – oito dias mais velho que Jânio – do consórcio entre Eduardo, Guilherme e Paulo Cotching, Rafael Sampaio e Alberto Byington, sócios na Companhia Paulista de Terrenos S.A. Os cinco haviam incorporado uma propriedade de mil quilômetros às margens do rio Tietê, chegando a Guarulhos, a fim de dividi-la em lotes e vendê-los. O antigo Sítio Bela Vista, de Manoel Dias da Silva, se transformou, então, em bairro. Seu nome, sugerido por Eduardo Cotching: Vila Maria.

Jânio e a Vila Maria contavam 30 anos em 1947, só que enquanto o jovem mato-grossense começava com garra e energia uma carreira vitoriosa na política, o bairro permanecia esquecido pelas sucessivas administrações municipais e era lembrado como um “pântano”, ou como um “brejo”, pelo estado em que ficava depois de qualquer chuva.

O candidato visitou o bairro e fez contatos. Eleito vereador, não esqueceu a Vila Maria. Fez côro com vereadores como Décio Grisi, Cid Franco, Derville Allegretti e João Fairbanks, clamando por melhorias no local e em outubro de 48 veio sua primeira Indicação sobre o assunto, que assinou em conjunto com o vereador Ângelo Bôrtolo: “Indicamos ao Sr. Prefeito verificar as condições infames das ruas de Vila Maria e, em particular, Rua Catumbí, Avenida Cotching e perpendiculares. Tais ruas, visitadas por mim e por ilustre colega desta Câmara, representam viva ameaça à saúde dos moradores, quer pela água empoçada no leito e nos passeios, quer pelas fossas que extravasam. Sala das Sessões, 11 de outubro de 1948. Jânio Quadros e Ângelo Bôrtolo”.

Levou três fotos do local para ilustrar a Indicação, e a descrição do que viu é apocalíptica: “Eis aqui em minhas mãos, Sr. Presidente e meus colegas, três fotografias daquilo que se convencionou chamar ‘rua’, naquele bairro. Uma delas mostra-nos um valo repleto de água pútrida, infecta, pestilenta, a correr ao longo da artéria, de um extremo a outro, enquanto o leito, o passeio, é, a um simples lance d’olhos, visivelmente intransitável. A segunda fotografia foi tomada na Avenida Cotching, que como Vv. Excias. não ignoram, é a principal da Vila Maria. Por toda parte, também ao longo dessa avenida, o mesmo e sistemático empoçamento se contata, tornando quase irrespirável o ambiente, maximé quando se tem em consideração as fossas, e quase todas, de há muito extravasam, exalando fétido, que faz da vida quotidiana daquela gente um verdadeiro martírio, um sacrifício sem fim. (...) O excremento que se acumula às ruas, forma uma espessa camada em todos os pontos nos quais se encontram fossas, e essas fossas situam-se a pequena distância umas das outras, de sorte que a artéria, por igual, ao correr da linha do bonde, é uma verdadeira esterqueira, não podendo, quer eu quer meu colega, compreender como isso seria possível em rua oficial, em avenida; e mais, na rua mais importante de todo um bairro e a única pavimentada”.

O discurso guardava uma alfinetada no argumento governista de que todos os bairros experimentavam as mesmas deficiências: “Vejam Vv. Excias. se cabem, então, observações que ocasionalmente ouço, segundo as quais, esses problemas são comuns a toda a cidade. Não, positivamente não! Alguns distritos possuem peculiaridades, tais que estão reclamando medidas que lhes sejam próprias, exclusivas, urgentes, inadiáveis, sob pena de grave ameaça à saúde coletiva. Os que se acham em Vila Maria, por infelicidade, encontram-se nessa posição: recebem já dos Poderes Públicos amostras de zelo, alguma atenção, alguns cuidados ou uma epidemia, ou uma enfermidade contagiosa propaga-se logo, porque a sua iminência é patente mesmo a um leigo”.

A referência seguinte ao “lamaçal tremendo” reabilitava o apelido de “brejo”, dado ao bairro na época: “A terceira fotografia mostra a Rua Catumbí pavimentada apenas de um dos lados. É tal o critério econômico que preside às atividades do Executivo que, um Prefeito qualquer cujo nome ignoro, mandou asfaltá-la pela metade no sentido longitudinal, deixando a outra porção do leito transformada em um lamaçal tremendo, como se os habitantes que nela residem, para ela têm voltadas suas casas, não possuíssem os mesmos direitos, não possuíssem os reclamos e não tivessem razão para exigir dos governantes a atenção que os vizinhos receberam fronteiriços mereceram”.

A partir daí, o político e o bairro nunca mais se separaram. Eleito deputado estadual 3 anos depois, com exatamente dez vezes o número de votos que obteve para a vereança, Jânio e a Vila Maria tornaram-se indissociáveis. Deputado estadual, prefeito, governador, presidente e prefeito novamente, Jânio bateu-se incansavelmente pelo progresso do bairro e pela melhoria nas condições gerais de todos os moradores da região. Diria, certa ocasião, durante o ostracismo que viveu depois do golpe de 64, que se quisesse voltar à política, não precisaria nem sair de casa. Bastava avisar, na Vila Maria, que era candidato, e já estaria eleito. Mais sério, observaria que a Vila Maria não era mais apenas um bairro, mas um indicativo das necessidades populares e um exemplo do povo obreiro e esforçado que seguia à margem das realizações governamentais: “Tenho a impressão de que Vilas Maria andam crescendo, ao invés de diminuir, crescendo nas necessidades fundamentais, básicas, que têm crescido no seio do povo”.

Jânio, entretanto, enquanto esteve no governo jamais esqueceu-se da Vila Maria. E a recíproca foi sempre verdadeira. O bairro foi e continua sendo um reduto janista, no sentido mais puro e verdadeiro do termo. Não um curral de politicagem e benesses, mas um agrupamento demográfico de cidadãos que foram prestigiados por um político, e devolveram esse prestígio em forma de votos. E hoje, de saudade.
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Vila Maria é um inferno para inúmeros dos seus moradores, privados de calçamento,
rede de esgotos, água pura.
(Cid Franco, agosto de 1948)

Muito já se falou sobre Jânio Quadros e a Vila Maria. De fato, nunca houve um homem público tão ligado, seja por laços políticos ou afetivos, ao operoso bairro da Zona Norte. Tais ligações datam de 1947, quando, em campanha para a vereança, Jânio foi levado ao bairro por seu ex-colega de ginásio e médico recém-formado, José Lourenço. Eleito, a aproximação de Jânio com a região foi tímida e somente no décimo mês de mandato surgiu sua primeira Indicação sobre a Vila Maria, que vinha acompanhada de três fotos tiradas no bairro. Essa Indicação tinha não apenas a sua gênese, mas sua completa inspiração numa Indicação anterior, discutida nos dias 11 e 18 de agosto de 1948. O autor dessa Indicação era um vereador do Partido Socialista Brasileiro. Seu nome: Cid Franco.
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Nascido em Petrópolis em 1904, Cid se formou advogado pelo Largo São Francisco em 1928. Pouco advogou, entretanto, dedicando-se de corpo e alma à carreira radiofônica, que abraçou a partir de 1933. Misturando programas literários e culturais com outros de fundo religioso e assistencial, foi despindo-se do materialismo marxista, que professou intensamente na juventude, para abraçar uma forma de socialismo espiritualizado. Segundo ele mesmo dizia, na Câmara dos Vereadores, “sou hoje um espiritualista convicto que luta pelo socialismo, luta contra a ganância capitalista, por meios legais, parlamentares, democráticos. Ideologicamente e praticamente não aceito nenhuma espécie de ditadura. Oponho-me à ditadura proletária dos russos, que surgiu como provisória e se tornou definitiva. Prezando acima de tudo a liberdade de pensamento e palavra, considero um erro e um perigo, a política de perseguições e prisões por idéias. As idéias combatem-se com idéias e não com a força, não com a violência”.

Foi esse interesse fundamental pelo ser humano que o fez voltar os olhos para a pobre e pacata Vila Maria, que na época encontrava-se inteiramente esquecida pelos poderes públicos. A Zona Norte tinha representantes de grande valor, como Valério Giulli e Cantídio Sampaio, mas ambos concentravam seus esforços no bairro de Santana, então a Vila Maria seguia sem o seu patrono na Câmara. Indicações e Requerimentos sobre aquela vizinhança apareciam de vez em quando, alguns pedindo a troca de lâmpadas, outros solicitando a construção de um cemitério, mas ninguém justificara tais pedidos com um discurso. Cid foi o primeiro.


No dia 11 de agosto de 1948, munido de três fotos, ele subiu à tribuna e ouviu o secretário Anis Aidar ler sua Indicação: “Indico ao Sr. Prefeito a necessidade de urgentes melhoramentos no bairro de Vila Maria, onde existem ruas sem as condições mais elementares de higiene e conforto para os moradores, como por exemplo, ruas Curuçá, Itapurá, Ely e outras”. Exibindo uma foto da rua Curuçá, o socialista comentou:

- Vejam o grupo de crianças. Brincam por ali à beira da sarjeta permanentemente cheia de água podre. Dia e noite aquela água empesteando o ambiente. A lama da rua é também visível na fotografia. Como essa, há outras ruas no bairro proletário. Vila Maria é um inferno para inúmeros dos seus moradores, privados de calçamento, rede de esgotos, água pura. Muitos mandam buscar baldes de água longe de casa, com receio da fossa que está perto do poço.

Quando o socialista mostrou a fotografia da Rua Ely, Jânio Quadros aparteou: “É um pântano, não é uma rua”. A Vila Maria, que como se viu, já era conhecida de Jânio, ainda não figurava com destaque em sua lista de bairros a serem visitados e varejados com urgência. O pronunciamento de Cid fez com que isso mudasse. Além disso, foi devidamente anotada pelo futuro presidente a extrema conveniência da exibição de fotos na apresentação dos Requerimentos ou Indicações, pois provocavam a curiosidade no plenário e prendiam a atenção dos vereadores, durante o discurso.

No fim do seu discurso, Cid prometeu levar à Câmara um pedaço de pano que era usado como filtro em uma das residências do bairro. Esperava apenas receber o resultado do exame que encomendara ao Instituto Adolfo Lutz, sobre as substâncias contidas no farrapo. Quando o documento lhe foi entregue, uma semana depois, no dia 18, ele voltou à tribuna.


- Na recente visita que fiz ao bairro de Vila Maria, como narrei em sessão de 11 deste mês, realizei um trabalho de pesquisa domiciliar. Na residência da Rua Itapurá, nº 24, pedi aos moradores que me cedessem, para eu exibir à Câmara como documento, o pano que estava amarrado à torneira do tanque.

Jânio, fundamente impressionado com o discurso anterior de Cid, aproximou-se da tribuna e ouviu com a máxima atenção. Raios e trovões saíram da boca do socialista, que acusava a situação calamitosa do fornecimento de água, em Vila Maria:

- Vejam bem: é isto. – disse Cid, mostrando o pano imundo – Este pedaço de pano foi atado à torneira como coador, como filtro improvisado. Em pouco tempo a sujeira da água o deixou desta cor. Água de poço. Os moradores não a bebem, não podem bebê-la. Mandam buscar baldes de água num posto de gasolina. Este pedaço de pano devia ser visto e cheirado pelos capitalistas gananciosos, que pouco se preocupam com a situação da gente pobre. Devia ser visto e cheirado pelos homens e mulheres para quem a vida é um mar de champanha! Devia ser visto e cheirado pelos velhos e novos ricos da política, homens para quem a população humilde foi e continua sendo apenas um trampolim eleitoral!

- Chupadas um pouquinho, também, se V. Excia. me permite. – brincou Jânio, acompanhando o discurso e tomando nota, mentalmente, do extraordinário efeito de se trazer um objeto visível e palpável para a Câmara, na justificação de um requerimento. Era mais um, de muitos expedientes utilizados ingenuamente por Cid, que Jânio incorporaria a seu próprio repertório parlamentar, transformando-os em arte tempos depois.

Sem os dois discursos de Cid Franco, Jânio provavelmente não haveria atentado para a Vila Maria com a rapidez que o fez. A semente plantada involuntariamente pelo socialista começou a dar frutos exatamente dois meses depois, em 11 de outubro. Jânio apresentou junto ao republicano Ângelo Bôrtolo sua primeira Indicação sobre a Vila Maria. E qual a maneira usada por Jânio para ilustrar a proposição? Três fotos. Não se pode dizer, entretanto, que tenha sido plágio, pois suas primeiras palavras foram para lembrar a Indicação do socialista: “Vou ser breve, também, sobretudo depois da Indicação oferecida a este plenário pelo nobre colega Cid Franco, que, de alguma forma, consubstancia a que tenho a honra de produzir”.

No dia 27 de dezembro, mais um requerimento, desta vez perguntando qual a “razão do desaparecimento das duas bancas de peixes do mercado distrital de Vila Maria, substituídas por bancas de carne”. Também perguntava sobre “a ausência absoluta de fiscalização de higiene e de preços”, bem como “a razão do estado de imundície do recinto, que jamais foi lavado em 14 meses e, em particular, das instalações sanitárias, cujas bacias estão entupidas e transbordantes de excrementos”.

Os vereadores, dispersos, imediatamente voltaram sua atenção a Jânio quando o viram dirigir-se à tribuna com um pacote mal-amarrado. O mato-grossense estava prestes a criar sensação com a invenção de Cid, que pouco efeito provocara durante o pronunciamento do próprio socialista. Jânio começou em seu já conhecido estilo:

- Hoje, como sempre, procurando conhecer a real situação dos mercadinhos, passei a manhã, Sr. Presidente, meus colegas, no de Vila Maria, do qual trago impressão penosíssima. (...) Vila Maria, distrito humilde, proletário de nossa cidade, já se ressente de uma porção de falhas, já se ressente de uma porção de necessidades nunca atendidas e viu, então, neste mercadinho, uma esperança de facilidades na aquisição de alimentos, uma força reguladora do custo das mercadorias, um elemento suavizador da existência das camadas pobres do nosso povo.

Em seguida, Jânio desembrulhou o pacote e deixou à mostra do plenário um pedaço enorme de carne podre:

- Os refrigeradores, desligados. Um deles, Excelências, de madeira, desatendendo completamente as disposições do Serviço Sanitário. (...) Abri alguns desses refrigeradores desligados, sempre nos boxes destinados ao comércio de carne verde, e retirei deles carne destinada ao comércio, ao consumo da população, retirei uma posta indistintamente, ao azar, das muitas que lá existiam. Retirei, possivelmente, um quilo dentre dezenas de quilos, e trouxe-o para que Vv. Excias. o vissem: completamente podre, completamente pútrido, podre a ponto de não poderem Vv. Excias. sequer aproximar-se desta carne, em franca decomposição, violácea, desintegrando-se, e, não obstante, negociável pela falta de escrúpulos de um concessionário de banca, pela negligencia criminosa de um administrador que deverá, por este simples fato, sofrer inquérito administrativo rigoroso e receber punição exemplar.

Brasil Bandecchi

Nenhum Vereador atrevia-se a apartear, tal o inusitado de Jânio diante de um quilo de carne estragada. Brasil Bandecchi, vereador situacionista, tentou eximir o secretário de Higiene de qualquer culpa, que caberia à fiscalização da carne que saía do velho Tendal da Lapa. Jânio não aceitou a argumentação:

- V. Excia. me perdoe, a culpa é mesmo da Secretaria de Higiene, mas deve associar-se a ela de maneira indissolúvel esse administrador, porque a carne que eu encontrei, para a verificação do seu estado, não reclama cultura, mas exige apenas olfato, exige nariz. O mau cheiro que dela se exala é irreprimível e convido V. Excia. que é intemerato defensor do povo, da Bancada do Partido Social Progressista a examiná-la, embora à distância, neste recinto, agora, para que V. Excia. veja...

- Já vi, Excelência. – respondeu Bandecchi, encabuladíssimo.

- ... e permita aos colegas de V. Excia. verem o que anda acontecendo nos mercadinhos do Sr. Adhemar de Barros [governador, na época], destinados a favorecer o povo. (...) Aí tem V. Excia. a questão. Eu desafio qualquer um de Vv. Excias. a se aproximar sequer dela. (...) Eu não tive dúvidas em trazer esta carne a este recinto, porque se esta carne serve para o povo, serve para os representantes do povo. – concluiu Jânio, justificando haver trazido aquela porcaria para o plenário com palavras que poderiam tranqüilamente ter saído do discurso de Cid Franco, meses antes.

Cid e Jânio foram eleitos deputados estaduais em outubro de 1950. Deixaram a Câmara juntos e juntos entraram na Assembléia Legislativa, em março de 1951. Jânio subiu aos píncaros do êxito político. Cid montou sua trincheira na Assembléia, onde permaneceu por vários anos. A ascensão meteórica de Jânio contou com Cid em alguns momentos, e em outros fez dele um adversário. Em 1964 estavam separados e em lados opostos na arena política. Quando Jânio foi cassado, Cid verberou contra o ato governamental, na Assembléia. Pouco depois foi a vez de Cid perder o mandato para a revolução. Perguntado se aceitaria voltar à vida pública no caso de ser revertida sua cassação, Jânio respondeu que só aceitaria no momento em que fossem restituídos os direitos políticos de Cid Franco e dos outros cassados. O socialista comoveu-se com a atitude do velho colega. E morreu poucos anos depois.
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Combativo, valente e por vezes temerário, Cid chegou a ser alvo de atentados. Na foto o vemos no hospital, recuperando-se de um deles, e recebendo a visita do amigo e colega de Assembléia, Farabulini Jr.

Na lembrança de seus oponentes, ficou a imagem de um político radical, que defendia seus pontos de vista com um ardor por vezes excessivo. Mas na memória de quem vê a política de forma insuspeita, como uma atividade exercida única e exclusivamente para o bem da coletividade, Cid Franco foi o político mais puro, generoso e honesto que São Paulo já viu. Morreu mais pobre do que era quando entrou para a vida pública. Mas deixou para sua família um nome coberto de honra e de serviços prestados ao próximo. E a Indicação de agosto de 1948, que desencadeou o progresso da Vila Maria.
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