quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Sobre a minissérie SOM E FÚRIA


O que se obtém da junção de uma série de TV canadense adaptada por um cineasta brasileiro, onde atores paulistanos de teatro são interpretados por cariocas que só trabalharam em novela? A minissérie de Fernando Meirelles, “Som e Fúria”.

Ver o comercial da minissérie foi suficiente para que eu não a assistisse. Ela veio, foi, e sua existência passou em brancas nuvens até que duas amigas me falaram bem da produção. Pelo respeito que tenho à opinião delas, e aproveitando que um filme foi feito a partir da minissérie, resolvi assistir. O resultado? Meu respeito pela opinião delas sofreu um baque violento.

“Som e Fúria” vem de uma série canadense chamada “Slings and arrows”. O título em inglês faz referência ao monólogo do “ser ou não ser”, de Hamlet, e o brasileiro se refere ao monólogo “a vida não é mais do que uma sombra ambulante”, de Macbeth. Na TV canadense, o formato era de série e teve três temporadas, cada uma com seis episódios. Fernando Meirelles adaptou as duas primeiras temporadas e fez uma minissérie de doze episódios. Vamos às razões de meu desgosto:

Em geral, acredito que a teledramaturgia brasileira está há alguns anos em um buraco do qual não consegue sair. Novelas, séries, minisséries, programas cômicos, programas dramáticos, nada tem qualidade. Produção nota dez. Criação nota zero. O outrora celebérrimo padrão Globo de qualidade já não existe mais e o que se faz na Globo pode muito bem ser comparado aos produtos de segunda feitos pela Record, Bandeirantes, SBT e Rede TV. Entretanto, a idéia de passar recibo de nossa própria falta de imaginação e ir buscar no Canadá o argumento para uma minissérie me entristece. Ainda creio que se é para fazer porcaria, que ela seja pelo menos brasileira.

“Slings and arrows” é sobre uma companhia estável de teatro na cidade fictícia de New Burbage. É, em tudo e por tudo, calcada nos ingleses Old Vic e RSC, que trabalham a um tempo com o governo e a iniciativa privada em temporadas anuais onde são levadas peças de Shakespeare e de outros dramaturgos clássicos. E é aí que começa o problema.
 
Ao transpor a história toda para São Paulo, Fernando Meirelles simplesmente ignorou o fato de que esse tipo de companhia não existe por aqui e desencadeou uma série interminável de incongruências. Não existe companhia de teatro clássico estável no nosso pobre Municipal. A Secretaria de Cultura é um órgão burocrático, inoperante, que mais parece uma repartição pública e seus fomentos ao teatro são poucos e pessimamente gerenciados, o que joga por terra, por inexistentes, os papéis de Dan Stulbach, Regina Casé, Haydée Bittecourt e todo aquele conselho esquisitíssimo de engravatados que lê O GLOBO em plena capital paulista e se reúne para decidir os destinos do teatro em São Paulo. Ver a executiva rica e gananciosa de Regina Casé em um stair master falando no celular ou recitando mantras motivacionais dentro de seu carro importado não têm rigorosamente NADA a ver com o nosso teatro. Tem, sim, com a realidade empresarial do teatro, do cinema e das artes na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas jamais caberia em São Paulo.


No mais, é natural para os atores ingleses fazerem o mesmo papel de Shakespeare mais de uma vez em suas carreiras. John Gielgud fez cinco Hamlets, quatro Lears, quatro Prósperos, Olivier fez dois Hamlets, dois Coriolanos, fez Iago e Othello, Mercúcio e Romeu, e assim por diante. Só que Andréa Beltrão dizendo que aquela era sua quarta montagem de Sonho de uma noite de verão ou Daniel Dantas fazendo seu “terceiro Macbeth” soa mais falso do que o “Bar Falstaff”, onde se reúne essa cultíssima classe teatral, em contraste com nossos pobres e desinformados atores, que provavelmente morrerão sem saber quem é Falstaff. É quase tão absurdo quanto um teatro de periferia chamado Sans Argent (“sem dinheiro”), piadinha que deve ter feito muito sucesso no Canadá, onde se fala francês e inglês, mas que no Brasil fica entre o incompreensível e o implausível. A figura do crítico teatral capaz de destruir carreiras com seus artigos já caiu em desuso até mesmo no hemisfério norte, e a regra pela qual um ator sindicalizado não trabalha nem um minuto após as cinco e meia da tarde é algo que o Brasil nunca viu, e muito menos os atores de teatro, que geralmente trabalham por prazer e até de graça. Há inúmeras outras bobagens desse tipo, como a agência de propaganda de Rodrigo Santoro, que anda de helicóptero mas ainda manda fax, ou os problemas de Andréa Beltrão com o Imposto de Renda, que é draconiano nos Estados Unidos e já levou milionários à cadeia, mas que no Brasil é um trâmite rápido e sem importância.

O segundo problema é a adaptação em si, do inglês para o português. Fernando Meirelles deve estar esquecendo-se de nosso idioma, porque traduziu de forma literal expressões que não têm paralelo em português, como deal with it, (que fazendo um trapézio idiomático, seria algo como um taxativo “acostumem-se com isso”) traduzido como “lidem com isso”; ou get back on that horse, talvez semelhante ao “dar a volta por cima” ou “voltar para o jogo”, traduzido como “montar esse cavalo”. Healing process, “processo de cura”, virou “processo de cicatrização” e Daniel de Oliveira tenta seduzir Maria Flor oferecendo-lhe nachos, que no Brasil não gozam de toda essa fama e só se conhecem pelo nome de “Doritos”. São tropeços inexplicáveis, porque poderiam ser adaptados para o português com a maior facilidade. O que não se perdoa é que Dan Stulbach chame Titus Andronicus de Titus Andrômedo ou Felipe Camargo repita três vezes Trólio e Créssida. Aí saímos do erro de adaptação para a ignorância pura e simples sobre a obra de Shakespeare, e sendo o bardo pedra angular da série, não teria sido ruim que roteiristas e elenco fizessem um intensivão sobre ele e suas peças.

O terceiro problema é trazer o enredo para São Paulo. À primeira vista, se a adaptação fosse melhor, ou, por outra, se fosse de fato uma adaptação, e não simplesmente uma tradução que só mudou nomes dos locais e de pessoas, não haveria qualquer problema em ambientar a série na capital paulista, que tem uma produção teatral respeitável. Mas para isso seria necessário um diretor que soubesse o que é esta cidade e parasse de mostrar o viaduto do Chá, o Anhangabaú, o Minhocão e todo o centro como se fossem lugares onde paulistanos perambulam tranqüilamente de madrugada, contemplativos e meditabundos, falando em celulares, sob as luzes de uma metrópole que vive à noite. No mundo real, Pedro Paulo Rangel teria seu celular roubado antes de ser atropelado. Equívoco horrendo cometido, aliás, à saciedade por outra minissérie recente, “Alice”, da HBO. Isso pode ser muito bonitinho para os turistas, mas é uma visão estupidamente glamourizada e totalmente inverídica. Tão inverídica quanto Maria Flor perguntar ao cobrador o tempo que demora para chegar ao Municipal, coisa que qualquer paulistano que pega ônibus, conhece o trânsito, e sobretudo ela, que já era atriz da companhia e fazia supostamente o mesmo percurso todos os dias, deveria saber.

Seria interessante também que Meirelles tivesse sido informado de que o atual prefeito baixou uma lei idiota e inútil que acabou com os outdoors, o que torna inverossímil a cena de Dan Stulbach olhando para uma enorme propaganda na lateral de um prédio. Da mesma forma, espero que algum dia as pessoas compreendam que em São Paulo ninguém diz “vamos dar um rolé", e sim “um rolê"; que a classe teatral paulistana é paupérrima e nunca teria dinheiro para happy hours diários em barzinhos chiques e descolados; e que se Andréa Beltrão um dia morar em São Paulo e colocar sua chave “debaixo do tapete”, arrisca-se a voltar no fim do dia e encontrar apenas uma clareira onde antes costumava estar sua casa. São Paulo não é Londres e aqui ninguém deixa chave em lugar nenhum, ninguém em sã consciência anda pelo centro de madrugada e muito menos falando no celular.

Acima de tudo, gostaria que Fernando Meirelles, que por sinal é paulistano, tivesse chamado pelo menos UM ator paulistano para trabalhar nessa série. O único é Dan Stulbach, que é coadjuvante (Paulo Betti é de Sorocaba e está há 30 anos fazendo novelas no Rio. Cecília Homem de Mello é de Amparo e pouco trabalhou como atriz, sendo produtora de elenco de Fernando Meirelles). Felipe Camargo é conhecido pelo carioquêsshhh puxadíssimo. Andréa Beltrão era o símbolo da “Armação Ilimitada”, dos surfistas e das praias cariocas, Regina Casé nem se fala, Maria Flor, Daniel Dantas, Pedro Paulo Rangel e assim por diante. Daniel de Oliveira é mineiro mas pelo tempo que passa no Rio já fala num híbrido de mineirês com o carioquês, situação idêntica à de Débora Falabella e Leonardo Miggiorin. Isso nos leva ao quarto problema: o elenco.

Felipe Camargo e Gilliard
Foram necessários 25 anos de carreira para que Felipe Camargo aprendesse a atuar um pouco. Continua sendo medíocre mas pelo menos deixou de ser aquele canastrão abominável, fanho e inexpressivo dos primeiros trabalhos que cometeu na TV, como “Anos Dourados” e “Roda de Fogo”. Seu Dante é passável e no decorrer da série até se torna simpático, mas não convence como um ex-ator shakespeariano. Não com aquela voz. E não com aquele cabelo. Nos flashbacks em que interpreta o malfadado Hamlet que acabou com sua carreira Camargo está parecendo o cantor Gilliard. Na atualidade, parece que um poodle desgrenhado caiu em sua cabeça e ele ainda não reparou. Esse detalhe realmente começa a incomodar depois de um tempo.

Andréa Beltrão é caso mais ou menos semelhante. Assisto-a desde “Armação Ilimitada” e, quase 30 anos depois, este é o primeiro trabalho dela em que me convence como boa atriz. Está muito bem na pseudo-diva chata e desequilibrada.

Maria Flor é um caso à parte. Trata-se de uma força da natureza. Ela é 100% carisma. Como atriz ainda mostra-se limitada, tem interpretado todos os seus personagens mais ou menos da mesma maneira doce e brejeira (e convenhamos aqui, a bem da justiça, que os papéis que lhe foram dados até hoje não são muito diferentes entre si), e no entanto sua presença vale cada episódio de que participou.


O mesmo se pode dizer das lamentáveis novelas em que esteve, dos filmes horrorosos que fez (com exceção de “Chega de Saudade” que é muito bom) e até dessa inqualificável bobagem que acaba de terminar, chamada “Aline”. Não há como classificá-la. Ela é puro carisma. Qualquer coisa que fizer será um prazer absoluto assisti-la.

Daniel de Oliveira, Débora Falabella e Leonardo Miggiorin não se sobressaem nem para o bem nem para o mal, mas vale dizer que Daniel como Hamlet é forçar demais a barra. Sei que o propósito da série é justamente o de mostrar os preconceitos enfrentados por um ator de novela que faz um clássico, mas essa seria realmente uma espécie de versão “Malhação” para o Hamlet. Quanto à Débora, é muito bonita mas seus trinta anos de idade tornaram sua Julieta um pouco madurinha demais.
Já Daniel Dantas como Macbeth é uma piada! Dantas, com sua eterna expressão de sonâmbulo alegre (que já lhe valeu uma comparação ao Mr. Bean), sua voz pastosa e sua dicção de bêbado, não seria jamais um Macbeth nem aqui nem na China. Sua escolha para interpretar um consumado ator de teatro para mim é incompreensível. Por que não chamar o maravilhoso Luís Melo - um ator de VERDADE e o melhor Macbeth brasileiro de todos os tempos - para esse papel, ao qual traria experiência e, a um tempo, desespero e humor?

Na parte positiva, Dan Stulbach mostra ótima veia cômica no seu Ricardo, Pedro Paulo Rangel empresta seu sólido talento ao fantasma Oliveira, mas quem rouba a cena é Cecília Homem de Mello, no papel da eficiente secretária e assistente Ana. Seu timing de comédia é esplêndido! Ela se desincumbe de todas as suas cenas com notável competência e protagoniza talvez os melhores momentos da produção.

Dan Stulbach, Pedro Paulo Rangel e Cecília Homem de Mello
Aqui vale outro parêntese: além de não ter priorizado atores paulistanos, Meirelles também não priorizou verdadeiros atores de teatro. Com exceção de Rangel, todo o elenco tem 99% de sua carreira na televisão e os que fizeram teatro aqui e ali não possuem qualquer trabalho que valha recordação. É uma pena. Um elenco de feras do teatro paulistano poderia ter elevado ao cubo a qualidade dramática da série.

O quinto e último problema é um que acaba anulando qualquer possibilidade de brilhantismo por parte do elenco: o roteiro. A idéia de uma companhia teatral que está tentando a duras penas montar um Hamlet e no meio do caminho são mostradas as alegrias e tristezas pessoais de toda a equipe envolvida não é de forma nenhuma original, mas se bem realizada pode render um trabalho interessante, como parece ter sido o caso da série canadense, bastante premiada. A fórmula derrapou feio por aqui, não apenas pela total falta de identidade da história com São Paulo e o nosso país, mas porque há momentos em que o texto peca pela baixa qualidade.

Os diálogos entre Maria Flor e Daniel de Oliveira são constrangedores, ridículos. O casal não empolga, a traminha da menina que é acusada de estar transando com o galãzinho televisivo famoso não convence e a própria noção de que o povo de teatro está se lixando para o que dizem sobre fulano estar transando com beltrana dentro de um elenco é de um puritanismo patético. O desfecho, em que ela abandona a possibilidade de fazer Julieta para acompanhar o menino em seu próximo trabalho na TV, é ainda pior; ela pretendia ficar e é convencida a ir embora com 5 minutos de um papinho furado de Andréa Beltrão, que a chama pelo mimoso apelido de “sua merdinha” (o proverbial little shit, que pode até possuir uma conotação amigável em inglês, mas em português é apenas ofensivo).

Os seis últimos episódios (segunda temporada da série canadense) têm menos equívocos na área dos diálogos. Erram talvez nas soluções piegas e improváveis, como da funcionária que é fã de Beltrão e recita versos shakespearianos em plena repartição da Receita Federal, o gayzinho que vira hetero pela intensidade do texto de Romeu e Julieta, e a transformação do outro diretor, que deixa de ser alternativo e esquisito. Aliás, esse personagem, o de “Oswald Thomas”, cretino e prepotente, sem a menor competência e sem o menor conhecimento de teatro, cuspindo idiotices em inglês e alemão – alusão direta, perfeita e irretocável a Gerald Thomas – é um dos pontos mais altos da minissérie.

“Som e Fúria” não foi ruim. Me pareceu mais um esforço na direção errada. Seria como montar uma minissérie sobre as agruras de uma Escola de Samba em Washington DC. Seu pecado principal está na base, e por isso acaba comprometendo todo o resto. Não dá a vontade de ver a terceira temporada da série canadense, onde o grupo monta o Rei Lear, e sim um desejo imenso de um dia assistir uma minissérie em que brasileiros vão falar sobre as alegrias e tristezas de um grupo de teatro autenticamente brasileiro. E se for em São Paulo, melhor ainda. A fauna teatral bandeirante é das mais ricas e daria material para uma série divertidíssima, que com toda a certeza faria rir e chorar.

domingo, 22 de novembro de 2009

Encontro com Laerte


Desde criança assisti Laerte Morrone na TV. Não tenho lembranças de seu Garibaldo, que despareceu quando eu tinha apenas 3 anos, mas suas participações em novelas da Globo na década de 80 eu guardo com muito carinho. Ironicamente, o hoje celebérrimo Vitório, Conde de Parma, seu personagem em "A Gata Comeu", não me marcou. A própria novela, a bem da verdade, não chegou a me empolgar. Na faixa das 7, eu gostava mesmo era das novelas de Cassiano Gabus Mendes e Sílvio de Abreu, e foi de Sílvio a primeira novela em que a participação de Laerte realmente me chamou a atenção: "Sassaricando", de 1987.

Laerte interpretava o apalermado Aprígio, irmão de Aparício Varela, interpretado por Paulo Autran. Os dois eram casados com duas irmãs, Lucrécia e Teodora. A Teodora de Jandira Martini, mulher de Paulo, morre nos primeiros capítulos. A dupla de Laerte com a Lucrécia de Maria Alice Vergueiro, entretanto, brilhou a novela inteira. "Sassaricando" foi uma novela irregular, com um enredo mal-amarrado, situações rocambolescas, soluções mirabolantes e um determinado núcleo com atores extremamente medíocres (defeito recorrente nas novelas de Sílvio de Abreu, aliás). Mas na soma de seus elementos, os positivos sobrepujaram os negativos e o elenco mais experiente da novela tapou os buracos do roteiro. Com efeito, era simplesmente impossível ver num mesmo cenário atores como Paulo Autran, Tônia Carrero, Laerte Morrone, Maria Alice Vergueiro, Eva Wilma, Carlos Zara, Irene Ravache, Célia Biar, Ileana Kwasinski, Lolita Rodrigues e tantos outros, e não apreciar.

Em 1989 veio a magnífica "Que Rei sou Eu?", de Cassiano Gabus Mendes. Essa novela provavelmente encerra o grande ciclo das novelas brasileiras iniciado com "Beto Rockfeller", também de Cassiano, embora começada por Bráulio Pedroso. Pela última vez vimos uma grande história, roteiro brilhante, diálogos inteligentes, a direção precisa de Jorge Fernando, e um elenco absolutamente primoroso: Jorge Dória, Tereza Raquel, Laerte Morrone, Giulia Gam, Osvaldo Loureiro, Antônio Abujamra, Carlos Augusto Strazzer, Zilka Salaberry, Stênio Garcia, Ítala Nandi, Edney Giovenazzi, Natália do Vale, John Herbert, Vera Holtz, Daniel Filho e tantos outros. Desta vez Laerte interpretou o acanalhado conselheiro Gerard Laugier, acossado pelos problemas políticos, suas armações no reino de Avilan e uma impotência intermitente que atrapalhava sua vida conjugal com a fogosa esposa Lucy, interpretada por Ísis de Oliveira. Era de dar gosto ver as reuniões do conselho. Um conselho de mestres do teatro. Dória, Loureiro e Morrone davam aulas de interpretação todos os dias. Dória trazia a comédia francesa e seu escracho no sangue; Laerte trazia a intensidade das óperas italianas em cada batida de seu coração e Loureiro misturava a tragicidade de quem interpretou dois Creontes, com a complexidade e o talento de quem cantou a "Ópera dos 3 Vinténs" de Brecht e Kurt Weill. Um espetáculo. Talento sólido, depurado, testado e consagrado, que nada tem a ver com a porcaria que vemos nas novelas de hoje. Humor finíssimo, daqueles que só a cabeça privilegiada de Cassiano poderia conceber, e só a competência de três titãs como esses poderia executar. E isso sem falar de Tereza Raquel, que é assunto para um livro.

Depois dessa novela, um sucesso gigantesco, o que é que a Globo faz para recompensar Laerte? Chama-o para uma coadjuvância insignificante na inteiramente esquecida "Gente Fina", em 1990. Foi a última vez que trabalhou na Globo. Talvez sentindo o frio de uma possível geladeira e empolgado com o desafio, Laerte aceitou o convite de Walter Avancini e foi de mala e cuia para o SBT, aceitando um papel na horrenda e malfadada "Brasileiros e Brasileiras".

Decepcionado, Laerte vai trabalhar com Alda Marco Antônio na Secretaria do Menor, promovendo espetáculos teatrais. E foi numa pausa desse trabalho junto ao governo de São Paulo que tive a oportunidade de ver Laerte no palco. No segundo semestre de 1993 ele foi dirigido por Elvira Gentil numa peça chamada O Montador., de Décio Gentil e Adir de Lima. O elenco que o coadjuvava parecia ser amador; possivelmente gente que vinha dos projetos de Laerte junto à Secretaria do Menor. O espaço escolhido foi surrealista: a sala no segundo andar do TBC, quando o teatro inteiro ainda se encontrava praticamente em escombros. E assim, em 10 de dezembro de 93, fui assistir a peça. O espetáculo era esquisito, lembro-me de muito pouco, mas uma cena em que Laerte contracenava com um garoto ficou gravada em minha memória. Ele estava sentado e apenas ouvia o garoto falar. Nunca esquecerei a expressão de seu rosto. Quanta emoção ele podia transmitir, quando queria. Senti o mesmo quando vi Jofre Soares no teatro, uma vez: ele e Laerte eram como pontos de luz no meio daquela garotada. A simples presença de Laerte iluminava aquele sótão do TBC.


No fim do espetáculo fui falar com Laerte. A simpatia de seu sorriso de mil dentes era exatamente a mesma em frente e atrás das câmeras, bem como no palco e nos bastidores. Foi encantador, tratou-me com toda a gentileza e quando lhe pedi seu telefone, a fim de poder conversar com ele mais vezes, deu sem qualquer problema. Dias depois liguei para saber o que pretendia fazer depois do Montador. Disse-me que pretendia remontar um espetáculo que já montara em 1957, O Diálogo das Carmelitas, drama sobre a Revolução Francesa que George Bernanos escreveu baseado em um livro de Gertrude Le Forte (La Dernière à l'Échafaud).
 
Dias depois vi Laerte na televisão com seu pai, o famoso Luiz Morrone, escultor dos bustos de vários governadores de São Paulo, com obras espalhadas por todo Estado, e ele repetiu a informação. Pelo que soube, a peça realmente foi montada, num curso que Laerte ministrou aos sábados, em Bauru.
 
Por um tempo não falei mais com ele. Em 95 ele voltou a trabalhar com Avancini em uma coadjuvância medíocre de "Tocaia Grande", mais uma dessas novelas da Manchete fadadas ao fracasso por trazerem o canastrão Victor Wagner inexplicavelmente como protagonista. Em 96 a Globo transmitiu a primeira das sagas ítalo-brasileiras de Benedito Ruy Barbosa, "O Rei do Gado", sobre as famílias de imigrantes italianos Mezenga e Berdinazzi. Os diretores se arrastaram por Paulo Autran para o papel do velho Berdinazzi. Paulo, firme em sua decisão de não fazer mais novelas, declinou o convite. Laerte, perfeito para qualquer um dos personagens, não foi chamado. O papel ficou com Raul Cortez.
 
Em 97 Laerte voltou ao SBT, desta vez com o velho amigo Abujamra, num remake da novela de Jorge Andrade "Os ossos do Barão". Mais uma coadjuvância pouco memorável, mas pelo menos desta vez ele tinha um elenco competente a seu lado. Foi tb o último trabalho do grande escritor Walter George Durst, que morreu no mesmo ano. Em 1997 Laerte ainda teve tempo de trabalhar numa minissérie que fazia parte de um dos ressurgimentos do núcleo de dramaturgia da Record, chamada "O Desafio de Elias", que sinceramente eu nunca nem ouvi falar, embora trouxesse em seu elenco figuras como Othon Bastos e Leonardo Villar. E foi ficando na Record.

Seus dois últimos trabalhos foram as melancólicas novelas da Record "Estrela de Fogo" e "Tiro & Queda", em 98 e 99. Nesse mesmo 99, a Globo punha no ar o segundo dramalhão italiano de Benedito Ruy Barbosa, "Terra Nostra". Mais uma vez Laerte foi deixado de lado. Além disso, a Manchete já deixara de existir e os núcleos de dramaturgia do SBT e da Record foram novamente desmantelados.

Em 2001, depois de dois anos do mais injusto e cruel ostracismo, a Globo resolveu reprisar "A Gata Comeu", no Vale a Pena Ver de Novo. Mais uma vez a novela foi um sucesso. A título de curiosidade, o Video Show passou a mostrar entrevistas com os atores que participaram da novela, 16 anos antes. Laerte deu um pequeno depoimento à emissora onde não trabalhava fazia 11 anos. Estava muito envelhecido. Nesse meio tempo, seu pai morrera e sua enfisema, que o incomodava há tempos, recrudesceu. Mas o depoimento à Globo foi curto e sem qualquer importância.
 
Reveladora, mesmo, é a entrevista que deu ao Jornal da Tarde, em setembro desse ano. Primeiramente falou do prazer de dar vida a Garibaldo: "Garibaldo foi o melhor papel da minha vida, apesar de já ter feito antes, no teatro, vários musicais infantis. Vila Sésamo foi o primeiro programa a tratar as crianças com imenso respeito. Foi um trabalho adorável". Depois falou das novelas que fez na Globo, mas deixou para o fim seu desabafo:
 
- Adoro fazer televisão. Não sei o que aconteceu, mas caí no esquecimento e os convites sumiram. Não sei fazer outra coisa na vida. Sou ator. Posso até não ser o melhor, mas foi o que eu fiz até agora. (...) Não tenho preferências por nenhum autor em especial, mas o único que me convidava para suas novelas era o Cassiano Gabus Mendes e, infelizmente, ele já morreu.

A mágoa de Laerte fez ainda com que ele cogitasse de sair do Brasil, para um lugar onde seu talento fosse apreciado, talvez Portugal: "Lá, o respeito com o artista brasileiro é enorme e com certeza não ficarei desempregado". O plano não se concretizou, provavelmente por conta da saúde de Laerte, que ia ficando precária.

No fim desse ano eu telefonei para ele. Conversei com a empregada da casa, cujo nome me foge, mas creio que era Francisca. Mais do que uma empregada, era um membro da família, pois já trabalhava com os Morrone há pelo menos 30 anos. Disse-me que o estado de Laerte era delicado, por conta de sua última crise de enfisema. Fiquei bastante preocupado, mas preferi esperar mais um tempo. Só fui ligar de novo 1 ano depois, já no início de 2003. O próprio Laerte atendeu. Estava com a voz boa. Não fazia a menor idéia de quem eu era, evidentemente, mas foi doce, como sempre, e me disse que de fato havia estado adoentado, mas que já estava melhor. Falei-lhe, como não podia deixar de ser, da tristeza de não vê-lo na TV. Ele disse que era assim mesmo, que era necessário abrir campos de trabalho fora da Globo. Falamos de Ewerton de Castro, seu velho colega, que, cansado de ser chamado para coadjuvâncias insignificantes, não esperou nem que a Globo o congelasse; ele próprio rescindiu seu contrato e foi dar aula de teatro.

Aproveitando que "Esperança", a terceira - e por sinal desastrosa - novela italiana de Benedito Ruy Barbosa estava terminando, comentei com ele a estupidez da Globo de não chamá-lo. Ele me fez uma revelação interessante: "Para essa última eles me chamaram, faz pouco tempo. Mas agora eu não quero mais. Não tem nenhum cabimento". Fiquei satisfeito por Laerte não ter aceito. Seria sua volta à Globo e sua última aparição televisiva, mas a que preço? Coadjuvando Reinaldo Gianechini? A nota mais leve ficou por conta de sua lembrança da amiga Lélia Abramo, que em entrevistas por aí, não fazia qualquer segredo de sua mágoa por não ter sido chamado para essas novelas italianas. Laerte obtemperou: "Eu amo a Lélia, mas a coisa aí é mais embaixo. Ela teve seus problemas com a Globo, mas o que ela tem de talento ela tem de geniosa, e não é nada fácil trabalhar com ela". Nos despedimos e fiquei de ligar novamente em breve para conversarmos mais.

Meu último telefonema a ele ocorreu depois do Natal do ano passado. A Cultura reprisou um teleteatro da década de 70 em que Laerte trabalhou com Renato Borghi. Aproveitei a oportunidade para ver como ele estava. Mais uma vez, ele mesmo atendeu. Estava tranqüilo, não parecia de forma nenhuma doente e falamos por uns dez minutos. Revelou surpresa ao saber que a Cultura reprisara novamente o teleteatro, e fez considerações elogiosas a seu diretor, Ademar Guerra. Eu quis ser gentil e perguntei-lhe se tinha projetos para breve; disse-me que estava "aposentadinho". Talvez sua saúde já não permitisse mais que ele trabalhasse. Sua enfermidade não transparecia na voz, mas eu o senti um pouco apático. Já não estava tão doce como sempre. Mesmo assim, usei os últimos minutos de nossa conversa para dizer-lhe de minha admiração por seu talento, e do quanto ele foi uma influência extraordinária em minha vida. Ele agradeceu. Um agradecimento distante. Não mais o agradecimento do teatro, quando devolveu meu abraço como o ídolo que abraça o fã, mas um aceno, de longe.

Quatro meses depois ele morreu.

É um misto de desprezo, revolta e resignação o que sinto quando penso no que aconteceu nos últimos anos da carreira de Laerte. Mas também tenho um certo sossego na alma por ter podido dizer a ele o quanto seu talento era superior, e o quanto ele era admirado pelos amantes do bom teatro. (03/06/2005)

sábado, 21 de novembro de 2009

Recordando Paulo Autran

Uma semana após a morte de Paulo Autran, em outubro de 2007, escrevi sobre ele alguns textos no orkut, que transcrevo aqui, acrescidos de outros que publiquei depois de assisti-lo em variadas leituras e entrevistas.

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I.

O maior e mais completo ator brasileiro de todos os tempos

Paulo vai ao Fecomércio assistir o
ensaio de "Às Favas com os Escrúpulos",
de Juca de Oliveira, com Bibi Ferreira
Difícil falar de Paulo tendo que escrever rápido e em poucas palavras. Vi-o pela última vez em maio, no ensaio final da peça Às favas com os escrúpulos, de Juca de Oliveira, estrelada por Bibi Ferreira. Tomo a liberdade de transcrever aqui trechos do que escrevi naquela ocasião, lembrando que o texto completo encontra-se na comunidade de Bibi Ferreira:

O primeiro "ensaio corrido" (jargão teatral que representa o ensaio sem interrupções, do início ao fim, sem interferências do diretor, com figurino pronto, som, iluminação, etc.) não foi divulgado e ocorreu basicamente para que Paulo Autran e "a trupe do Avarento" (nas palavras de Juca) pudessem assistir, já que o velho mestre está em cartaz no Cultura Artística e não poderia assistir a temporada regular da peça. Por conta disso, o Fecomércio estava quase vazio, com apenas 15 ou 20 pessoas.

Jandira Martini foi talvez a única "artista" presente e chegou sozinha, pouco antes de Paulo Autran, que veio com sua entourage habitual, formada pela esposa Karin Rodrigues e por seu chevalier servant de todas as horas, o ator Elias Andreato. Com eles parecia também estar a atriz Ariêta Corrêa, a única da trupe de "O Avarento". Foi impossível ver Paulo e Jandira juntos e não rir, relembrando o trabalho de ambos há 20 anos nos primeiros capítulos de "Sassaricando", com o malfadado casal Aparício e Teodora Varella.

(...) A primeira em cena é Neusa Faro, no papel da fiel empregada "Das Dores". Veterana, Neusa dá conta do recado com relativa facilidade, embora houvesse um certo titubeio por parte de praticamente todo elenco, como sói ocorrer em qualquer primeiro ensaio corrido. Bibi foi a segunda a entrar. Não é necessário descrever a corrente elétrica maravilhosa que se criou lá a partir de então, com o Rei e a Rainha do teatro brasileiro juntos no mesmo recinto, separados por poucos metros de distância. Paulo assistia Bibi atentamente, não regateando risos e gargalhadas para a performance da atriz, de volta à comédia de costumes depois de nada menos que 54 anos (segundo Jô).

(...) No fim da peça presencio o abraço afetuoso de Paulo e Bibi. Os dois se acarinham e conversam com a intimidade proveniente de 45 anos de amizade, desde "My Fair Lady". Só lamento não ter uma câmera, no momento, para registrar encontro tão maravilhoso. Para quem esteve presente, não seria demais dizer que sobre o palco do Fecomércio estava o próprio Teatro Brasileiro.

Foi a última vez que o vi. Ele estava envelhecido. A moléstia e as recentes internações haviam entrado em ação, mas sem dar qualquer sinal de declínio irreversível ou aposentadoria. Seu olhos não tinham o brilho crepuscular que vi nos olhos de Guarnieri, por exemplo, quando encontrei este amado mestre, uns 5 ou 6 meses antes de sua morte. Quando soube que depois das internações, e mesmo depois do fim da temporada do Avarento, ele ainda comparecera a um evento no SESC (Pinheiros, creio) para acompanhar a inauguração de uma sala com seu nome, fiquei aliviado. Vi suas fotos na coluna de Mônica Bérgamo, satisfeito, beijado e abraçado por seus pares e amigos, e julguei que estava tudo bem e que muito breve ele partiria para seu projeto seguinte. Chegou até a fazer um comercial e uma dublagem para comercial, mas o projeto futuro não se deu.

Paulo e o companheiro de "Homem de la Mancha", Antônio Petrin, na inauguração de uma sala com seu nome, no SESC

Vi Paulo inúmeras vezes, nestes últimos 17 anos. Paulo podia negar que era um gênio ou um rei do teatro, mas não podia negar sua condição intrínseca de gênio, ou a humildade extraordinária e por vezes excessiva de que vêm imbuídos os verdadeiros mestres e grandes homens em geral. Ao contrário de tanta gente de quinta, metida e inacessível, Paulo era uma figura fácil, podia ser encontrado sempre, não se negava a falar com quem quer que fosse, era absolutamente desprovido de preconceitos, dava entrevistas para qualquer programa e comparecia a qualquer evento se fosse convidado.

Uma das últimas vezes que o vi, quando assisti O Avarento, fui falar-lhe no bastidor. Esperei que ele cumprimentasse mais ou menos uma centena de pessoas, inclusive a maravilhosa Cristina Mutarelli, que não escondia as lágrimas em seus olhos, e quando me aproximei, finalmente, ele me disse à queima-roupa: "E você, trouxe a câmera?", aludindo, com sua extraordinária e irretocável memória às vezes em que nos fotografamos juntos, e à vez em que fotografei o público cumprimentando-o, depois da curtíssima temporada de A Tempestade, em São Paulo.

No trato pessoal, como já tive chance de dizê-lo, aqui na comunidade, era afável e doce, sem ser meloso e falso. Paulo gostava de conversar e de ser elogiado, mas desde que esses elogios tivessem o necessário acompanhamento de uma base e de uma razão plausível. O elogio fácil ele desprezava. O elogio por seus trabalhos em TV ele recebia sem maior prazer. Mas adorava receber um elogio bem feito e bem elaborado sobre uma performance sua no teatro. Aí ele sorria, falava, conversava, objetava, opinava e se soltava, como o causèr inigualável que era, capaz de discorrer sobre todos os assuntos do mundo, com o poder de raciocínio e síntese que provavelmente guardou de sua época de bacharel do Largo São Francisco. O curioso é que esta comunidade lhe acompanhou a carreira religiosamente nestes últimos três anos. Nesse período, estive com ele dezenas de vezes. E nunca lhe falei do orkut. Não vi necessidade. Sabia que Paulo não era afeito à computação ou aos computadores, e não vi ensejo em passar minutos preciosos tentando explicar. Preferi que a comunidade fosse de admiração sincera e verdadeira, sem qualquer necessidade de trombetear isso por aí. É assim que Paulo gostava de ser admirado. Com sentimento de mais, e cartaz de menos.

É cedo para falar de quem representou tanto para mim, de quem forjou 90% de minha persona teatral, de quem era considerado o maior ator do Brasil, de quem me recebeu em sua casa, de quem representou para o Brasil o que ele representou. No momento digo que estou triste. Lamento muito. O Brasil perdeu Guarnieri no ano passado. Perdeu Paulo, agora. Nosso repertório de mestres está rareando.


E digo, sobretudo, que vou sentir sua falta. Porque Paulo era uma figura benéfica e benemérita. Presente a nossas casas, conhecido por todos. Sentirei falta de sua sinceridade cortante. De sua elegância. De sua risada asmática. Da tranqüilidade e da autoridade com que dizia que "Oriundi" foi uma porcaria. Que adorou Ivanov, do Tapa. Que detestou Gata em teto de zinco quente com Vera Fischer. Que considerava a performance de Gianfrancesco Guarnieri em Ponto de Partida o maior momento de um ator em todos os tempos. Que gostava muito de Simon Khoury e Alberto Guzik, mas sentia, fundamentalmente, que deu a mesma entrevista durante 50 anos. Que morrer era a coroação da vida. E lembrarei que quando fui falar-lhe, depois de O Avarento, abracei-o, beijei-o, e disse: "Mesmo sabendo que você é ateu, DEUS TE ABENÇOE". E ele riu, com seus lábios finos, os olhos cheios de bonomia por trás dos óculos, e a personalidade magnífica, tão adorável e inesquecível.
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II.


A verdadeira grandeza de Paulo não era apenas seu talento superior, mas a longevidade de sua carreira e seu extraordinário discernimento na escolha de textos para interpretar. Façamos um pequeno retrospecto:

Antes de Paulo tivemos Procópio Ferreira e antes de Procópio tivemos Leopoldo Fróes. Fróes, o primeiro ator brasileiro a experimentar a glória total e irrestrita no século 20 teve sua carreira aniquilada pela tuberculose com pouco menos de 50 anos, em 1932. Enquanto viveu, brilhou em comédias francesas ou brasileiras e ostentava o título de primeiro ator. Não creio que tenha feito uma tragédia em toda sua vida. Sua carreira, entretanto, é pioneira e ele abriu a picada para que em suas pegadas (ou pégadas, como dizia Jânio) nascesse Procópio, na década de 20.

Procópio expandiu o repertório de Fróes e enfrentou galhardamente todos os desafios que lhe apareceram. Saudável, menos boêmio e inconseqüente do que Fróes, Procópio viveu o suficiente para lapidar e forjar um talento sólido, concreto, substancioso, maiúsculo que o levou por diversos gêneros da dramaturgia. Não pôde ser tão eclético quanto desejava, entretanto; seu sonho era representar Cyrano. Não teve a possibilidade. Não fez nenhum Shakespeare. Mas brilhou intensamente com Molière. Tivesse vivido seu apogeu nas décadas de 50 e 60, e teria feito todos os maiores papéis da dramaturgia, porque então encontraria o terreno propício para isso. Paradoxalmente, sem ele não teria havido a década de 50 e 60 que tivemos, de forma que a genialidade de Procópio se cristaliza nas décadas de 30 e 40.

Paulo nasceu teatralmente quando Procópio estava no auge. Mas a existência de Fróes e Procópio - e Dulcina, Itália Fausta, Jayme Costa, Abigail Maia, Lucília Peres, Delorges Caminha e outros - ampliaram os horizontes do espetáculo teatral, e com meros dez anos de carreira, Paulo já tinha feito um Shakespeare, um Sófocles e um Anouilh. Com efeito, não venceria jamais Procópio no quesito "mambembagem", mas curiosamente podia dizer que sua bagagem artística era mais volumosa que a de Procópio. Com 20 anos de carreira, Paulo já tinha feito comédias de Guilherme Figueiredo e Molière, tragédias de Sófocles, musicais da Alan Jay Lerner, dramas de Brecht, teatro do absurdo de Pirandello e o engajadíssimo Liberdade Liberdade, de que Paulo tanto gostava. A chave de seu justíssimo reconhecimento, como se vê - e ele próprio sabia e dizia isso de quando em quando - era o discernimento para escolher seu repertório. Por 99% de sua carreira, fugiu das bobagens teatrais como o diabo foge da cruz. Enquanto os cariocas fumavam maconha e tomavam ácido no Teatro Ipanema, Paulo fazia Édipo de Sófocles ou o Burguês Fidalgo, de Molière. Na década de 70, enquanto os autores nacionais mais conservadores se retraíam e se sobressaía a coragem e o talento de Vianinha e Guarnieri, Paulo não hesitava em montar peças do cenário mais vanguardista internacional, como Equus, de Peter Schaeffer, ou dirigir Fagundes e Ewerton de Castro em O Homem Elefante, de Bernard Pomerance.

A escolhas brilhantes seguiram em sua maturidade, nas década de 80 e 90, com os respeitáveis melodramas Tributo e O Céu Tem que Esperar. E sempre encontrava espaço para um Molière, ou um Pinter ou um Arthur Miller, e tudo de melhor que houvesse por aí.


Com o autor deste texto, em 1991

Na década de 90 penso que sentiu pela primeira vez com alguma seriedade a velhice. Montou dois Shakespeares, voltou ao velho amigo Pirandello na terceira montagem de Seis Personagens à procura de um autor e terminou a década de 90 cheio de vigor e vontade de trabalhar. E é nesse momento que me dou a liberdade de discordar de algumas de suas escolhas; não digo que O Crime do Dr. AlvarengaSr. Green e Adivinhe quem vem para rezar sejam peças ruins, de baixa qualidade, mas sinceramente, depois de ver Paulo naquela dobradinha Próspero - Lear, era pra lá de difícil vê-lo em peças fáceis e de um apelo emocional raso. Minha impressão foi sempre de que Paulo estava num momento tão iluminado de sua vida - velho, e como o vinho, cada vez melhor - que deveria ter se atirado de cabeça nos desafios mais extraordinários e improváveis de sua vida. Fê-lo, por fim, com O Avarento, mas gostaria que o primeiro lustro do novo século tivesse sido palco para um display inigualável de talento aliado à experiência.

Paulo disse no Roda Viva que adorava desafios. E é a pura verdade. Mas eu sonhei com Paulo no papel de James Tyrone desde 1990 e não fiz segredo disso a ele mesmo, com a ressalva de que era uma magnífica oportunidade para ele trabalhar novamente com Bibi, que seria magnífica no papel da esposa viciada em morfina, retratada com tamanha realidade por Eugene O'Neill. Ele me respondeu que não pensava em fazer esse espetáculo porque as duas tentativas anteriores da peça haviam resultado não num fracasso, mas num insucesso financeiro. E logo depois Cleyde e Sérgio Britto montaram essa peça, com sucesso maciço, em São Paulo. Certa vez lhe disse também que gostaria de vê-lo no Beckett de Anouilh. Para minha surpresa, disse-me que considerou montar essa peça na década de 60, alternando os papéis de Beckett e Henry II com ninguém menos do que seu colega de Terra em Transe, Jardel Filho. Fiquei naquele misto de basbaque e tristeza profunda por constatar a maravilha que teria sido esse projeto que não se realizou, e que naquela altura já não poderia mais se realizar.

Enfim, gostaria de ter visto Paulo em papéis que fizessem jus à sua posição no teatro brasileiro. A posição de mestre dos mestres, do maior, mais talentoso e mais completo de todos. Ele foi Harpagon em sua despedida, para minha suprema alegria. Mas poderia ter sido tantas outras coisas. Poderia ter sido tudo. E no fundo, é o que foi, por dentro. E por isso, provavelmente, que nem precisou sê-lo, também, por fora.
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No fim de 2005, Paulo participou de dois encontros com o público de São Paulo. O primeiro foi uma sabatina no Teatro Folha, em 28/11 e o segundo no SESI, em 15/12. Tive o prazer de estar presente em ambas as ocasiões e anotei detalhes que hoje são preciosos, pois a cobertura dos dois eventos foi superficial. Os textos foram escritos por mim na época e não precisam de atualização. Divirtam-se!
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III.

Sabatina com Paulo no Teatro Folha – 28/11/2005


Bem, acabo de voltar da sabatina. Ela ocorreu no simpático Teatro Folha, dentro do Shopping Higienópolis, em São Paulo. O formato dessas sabatinas, organizadas com freqüência pela Folha, é simples: um mediador, três entrevistadores e a partir da segunda hora, perguntas do público, anotadas num bloco e escolhidas pelo mediador. O time da sabatina de hoje, infelizmente, deixou muito, mas MUITO a desejar: o mediador foi o crítico Nelson de Sá e os entrevistadores foram os críticos Sérgio Coelho, Aimar Labaki e a filha de Raul Cortez, Lígia.

Aimar foi o melhor, com perguntas pertinentes e conhecimento sólido de teatro. Lígia e Coelho se anularam desde o primeiro minuto, deslumbrados e genuflexos diante da presença imponente e majestosa de Autran (imagem essa que não poderia contrastar mais com sua personalidade, maravilhosamente simples e humilde). Nelson de Sá foi desastroso. O estilo prolixo e cansativo de seus artigos é um reflexo perfeito de sua maneira de falar em público. Não soube apresentar Autran, não soube citar peças, errou datas e até sua roupa - terninho e gravata surradíssimos - era inadequada, em meio ao vestuário descontraído e elegante do resto. Suas trapalhadas estavam só começando. O pior ainda estava por vir.

Das 3 às 4 da tarde os entrevistadores fizeram perguntas para Autran. Lígia e Coelho se perderam rapidamente em sua idolatria por Paulo. Aimar trouxe o assunto do céu para a Terra, de volta, e fez a melhor pergunta da sabatina, pedindo a Paulo que falasse um pouco sobre 4 grandes figuras do teatro paulista com quem ele conviveu muito: Abílio Pereira de Almeida, Madalena Nicol, Margarida Rey e Benedito Corsi. O comentário de Paulo é valiosíssimo, embora as 4 histórias tenham um final triste.

Abílio Pereira de Almeida
Paulo começou falando de Abílio, a quem sempre considerou o maior dramaturgo paulista. Explicou que Abílio era rico, advogado competentíssimo, com banca privilegiada, e que de uma hora para a outra decidiu se tornar ator e autor. Suas peças , satirizando o high-society de maneira mordaz e com gosto fino e sofisticado, caíram nas graças do público, mas lhe valeram a inveja de toda a crítica, que a despeito de suas peças serem justamente para criticar a alta sociedade, o acoimaram de um escritor de peças fáceis e comerciais. Abílio desfrutou sempre de sucesso comercial, mas nuca teve o respeito da crítica e isso foi uma coisa com a qual ele não se conformou. Amargurado, triste e sentindo-se injustiçado, ele se suicidou aos 70 anos.

Madalena foi companheira de Paulo ainda no teatro amador, antes mesmo de Tônia, mas Paulo observou que seu gênio era tão difícil, que ela acabou estremecida com a cúpula do TBC e resolveu fazer teatro na Europa. Paulo falou do acidente que ela teve em plena coxia de um teatro francês, contou de tê-la visto em Rosa Tatuada, de Tennessee Williams, em Londres, com direção do americano Sam Wanamaker, e do reencontro profissional dos dois no início da década de 70, no Macbeth que Paulo fez com Fauzi Arap. Terminou falando da morte igualmente triste de Nicol, que estava aposentada, em uma casa de repouso. Depois de tomar alguns comprimidos para dormir, deitou-se mas não apagou o cigarro que tinha nos dedos. Morreu queimada no incêndio provocado pelo cigarro.

O Macbeth de Paulo e Tônia

Paulo elogiou muito Margarida Rey, que segundo ele era um atriz capaz de fazer qualquer papel. Mas tinha um pequeno defeito, que com o tempo foi crescendo: o vício do álcool. No começo Margarida contentava-se com um gole de conhaque antes das peças. Depois de um tempo o gole se transformou em uma garrafa inteira, e quando o dinheiro acabou, o vício aumentou, o conhaque se transformou em pinga e deixou de ser apenas antes do espetáculo, para se tornar num hábito que começava de manhã e só terminava antes dela cair na cama. Paulo e Tônia chegaram a interná-la, ela teve uma belíssima recuperação, mas pouco depois acabou tendo uma recaída, e dessa recaída não se recuperou mais.

Benedito Corsi foi descoberto por Cacilda. Paulo se referiu a ele como um diretor excelente, criador de grandes espetáculos. Falou especificamente sobre sua montagem de A Megera Domada, com Marília Pêra e Gracindo Júnior, e aproveitou para fazer um paralelo com a montagem da mesma peça, dirigida por Antunes Filho (com Eva Wilma e Armando Bógus):

"A imprensa ficou extasiada porque o Antunes colocou uma garrafa de Coca-Cola no cenário (risos). Falou da grande inovação, etc. O Corsi não precisou fazer nada. Os cenários eram elizabetanos, os figurinos eram elizabetanos, mas a linguagem era moderna, a direção era moderna, sem mudar uma vírgula do texto".

Paulo foi visitar Corsi anos depois, quando este amargava um ostracismo terrível, e teve a triste surpresa de encontrá-lo morto.

Depois das extraordinárias e deliciosas lembranças de Paulo sobre esses 4 amigos, veio a decepcionante pergunta de Nelson de Sá. O crítico pediu a Paulo que contasse - pela milésima vez - sua briga com o jornalista Paulo Francis. Assunto gasto, esgotado, que já não interessa a mais ninguém. Paulo, visivelmente contrafeito, chegou a comentar que não via qualquer benefício em contar essa história novamente, mas como sempre educado, contou.


As perguntas do público começaram, escolhidas por Nelson. Mais um desastre. O que já é penoso ler, é ainda pior ao vivo. Nelson tem uma verbalização horrível e articula tão mal as palavras que demorava um tempo interminável apenas para ler o que tinha em suas mãos. Em determinado momento Paulo não se agüentou e lhe chamou a atenção: "Leia as perguntas antes, enquanto eu respondo, assim você não demora meia hora para ler!", arrancando gargalhadas do público, que estava enfadadíssimo com o péssimo mediador. E as perguntas foram ainda piores. A mesma papagaiada das novelas, que Paulo responde em absolutamente TODAS as entrevistas que dá. Nesta não foi diferente. Com expressão de saco-cheíssimo, Paulo voltou a repetir: fez 3 novelas e na terceira ele se encheu, blá, blá, blá. Outras perguntas totalmente desinteressantes, sobre leis de incentivo, produção e patrocínio, que Nelson incluiu, provocando bocejos no público, Paulo descartou logo de cara: "Não tenho como responder porque não sou produtor".

Nelson Rodrigues
Perguntado por que nunca havia montado nada do Nelson Rodrigues, e o que pensava dele, Paulo declarou que em sua juventude admirava Nelson como dramaturgo mas o desprezava por suas posições políticas de direita (que freqüentemente colocavam Nelson em conflito com amigos de Paulo, como Flávio Rangel e Vianinha). E quando veio a maturidade e a política foi posta em segundo plano, Paulo já estava velho e não encontrou papéis para atores de sua idade. "O Nelson não tem papéis bons para os velhos". Dessa forma, infelizmente ficaremos privados de ver Paulo interpretando Nelson.

Paulo falou sobre Geraldo Thomas, que há 20 anos o convida para trabalhar com ele, levando um "não" atrás do outro. Disse que no último encontro dos dois, Geraldo o convidou para fazer Édipo Rei com ele. Foi hilária a resposta de Paulo ao absurdo convite: "Geraldo, esse papel não é mais para mim, porque a Henriqueta Brieba, que era a única atriz que poderia interpretar minha mãe, já morreu".

Denise Stoklos
Professou grande admiração por Denise Stoklos. "Ela está fora da bitola. É uma artista única". Fez o público rir muito quando comentou uma entrevista escrita de Denise. "Não entendi uma palavra sequer do que ela disse, mas sei que o forte dela está no palco, mesmo, onde é fantástica, e não nas entrevistas".

Alguém perguntou quando é que ele finalmente trabalharia no teatro, com Fernanda. Eu mesmo já perguntei isto a Paulo algumas vezes e ele sempre respondeu com total sinceridade, mas esta foi a primeira vez que o vi falar sobre o assunto numa entrevista. "Aliás, só comento porque a própria Fernanda já disse isto em entrevistas", ressalvou.

"Uma vez convidei Fernanda para trabalharmos juntos. Ela me respondeu 'Paulo, você lota teatro, eu loto teatro, se nós trabalharmos juntos estaremos ganhando apenas meia casa'. Diante desse argumento irrespondível, eu desisti", disse Paulo, em meio às gargalhadas do público. Mas deu-nos uma ponta de esperança: "Ela foi assistir ao Visitando Sr. Green e depois da peça veio falar comigo: 'Paulo, vamos trabalhar juntos?', então acho que desta vez vai".

Paulo e Fernanda durante a novela "Guerra dos Sexos"

A grande revelação da noite foi a de que em julho de 2006 o Paulo começa os ensaios de O Avarento, de Molière. Só podemos esperar e torcer para que tudo dê certo.


Perguntado sobre o que achava de José Celso Martinez Corrêa, diretor do Teatro Oficina, Paulo fez o segundo melhor comentário da noite. Disse que José Celso foi a grande revelação da dramaturgia brasileira. Paulo parecia emocionado ao falar sobre Zé. Disse que a montagem do Oficina para Os Pequenos Burgueses, de Gorki, foi "uma das melhores peças que vi na minha vida, no mundo inteiro!" Falou também do quanto adorara as montagens de Andorra, de Max Frisch, e Roda Viva, de Chico Buarque. "Depois desse período", continuou Paulo, "ele fez algumas coisas muito ruins, e recentemente voltou, com uma nova proposta". A nova proposta de Zé Celso, a do grupo Uzyna Uzona, "não me interessa em nada", acrescentou Paulo. "Você entra no teatro e vê dois homens se masturbando. Não tenho o menor interesse em ver gente se masturbando". Mas esta tarde Paulo não poupou elogios a Zé. Arrematou dizendo: "José Celso é o maior diretor brasileiro de teatro que já houve neste país", deixando uma brecha para incluir o italiano Adolfo Celli - seu diretor preferido - como o número 1.

Folha errou lamentavelmente na escolha de Nelson de Sá para mediar um encontro, e especialmente um encontro com um mestre da magnitude de Paulo. Mas, como eu sempre digo, estar na presença do Paulo é um prazer em qualquer circunstância.
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Agora vamos ao texto que escrevi sobre o encontro de Paulo com o público que foi vê-lo no SESI, em 15/12/2005. É ainda mais importante, porque ao contrário da Folha, que comentou (superficialmente e sem qualquer aprofundamento) a sabatina, o SESI não tem nenhuma publicação e o evento efetivamente não foi registrado. Paulo estava particularmente inspirado. Divirtam-se!
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IV.

Bate-Papo com Paulo no SESI – 15/12/2005


Meus caros, hoje ocorreu o bate-papo de Paulo no SESI, aqui em São Paulo. Ao invés de ser no mezanino, como originalmente agendado, o bate-papo foi no teatro, mesmo, onde puderam ser acomodadas as (talvez) 200 ou 300 pessoas que lá compareceram.

Paulo na juventude
Diferente da insípida sabatina da Folha, em que o público é mero coadjuvante e obrigado a engolir as perguntas horrendas e repetitivas de uma equipe mal-organizada e não raro despreparada, o bate-papo do SESI teve microfones dos dois lados da platéia, e o público ficou livre para andar até eles e perguntar o que quisesse. Paulo entrou pontualmente às 19:00h. Depois de sonoro aplauso, ele foi rápido em seu cumprimento inicial: "Não vim aqui para fazer conferência, então podem começar a perguntar".

Uma das primeiras perguntas veio de uma senhora que estava na primeira fila. Indagava se Paulo se lembrava dela, e que tinham sido amigos de infância, na cidade de Espírito Santo do Pinhal, no interior de São Paulo, onde, de fato, o pai de Paulo, Walter Autran, tinha sido delegado. Bem-humorado, Paulo deu-lhe um banho de água fria: "Infelizmente você está enganada, porque eu saí de Espírito Santo do Pinhal com apenas alguns meses, portanto não posso ter sido seu amigo". A mulher insistiu, dizendo que muitas vezes brincou com ele em lugares tal e tal. Paulo redargüia, rindo: "Eu era um bebê quando saí da cidade, você se enganou". Como a mulher - uma senhora de 80 anos - não desistisse, Paulo arrematou, sempre tranqüilo e sorridente: "Olha, não era eu, mas se te deixa feliz pensar que fomos amigos de infância, então tudo bem. Era eu mesmo", e vieram as primeiras palmas e gargalhadas do público.

Tônia Carrero
A seguir, um bacharelando do Largo São Francisco (pela qual Paulo se formou advogado) lhe perguntou de que forma enfrentara o dilema de optar pela profissão de ator, quando já advogava há alguns anos. "Pra mim não houve dilema nenhum", começou Paulo.

"Eu ia ao fórum, levava papeladas pra cá e pra lá, e abri meu próprio escritório. Só que cada vez que entrava um cliente novo, ao invés de eu ficar feliz com a possibilidade de um novo trabalho, eu ficava triste...", lembrou Paulo, ao som das gargalhadas do público. "Só de pensar que eu ia ter que resolver mais uma briga... porque na advocacia o que você faz é decidir disputas entre partes que estão em conflito. Então não houve dilema nenhum. Quando eu avisei meu pai que largaria o escritório para fazer teatro profissional, ele me olhou, suspirou e disse: 'Deve ser algum rabo-de-saia'...". O público gargalhava e se deliciava com as histórias de Paulo, e sobretudo com a maneira saborosíssima que ele tem de contá-las. "Assim que fui chamado pela Tônia para fazer teatro, tirei meu anel de advogado do dedo e dei para uma amiga minha da época".

Inezita Barroso
Pedi a Paulo que situasse no tempo os trabalhos que realizou com a querida Inezita Barroso e com Madalena Nicol. Paulo esclareceu tudo e falou de Inezita com carinho: "Eu era amigo de infância - colégio e depois faculdade - do marido da Inezita, Adolfo Barroso, e era muito amigo de Inezita também, que além de já tocar muito bem o violão, tinha aquela voz lindíssima, que aliás ainda tem. Inezita tocava todos os tipos de música, naquela época. E havia um clube, que já não existe mais, na rua Augusta, e nós decidimos que iríamos nos apresentar lá. Só que não seria uma apresentação musical. Nós resolvemos escrever uma peça infantil, que se chamou Pedro, o Esperto. Eu, claro, fazia o Pedro (risos) e a Inezita fazia absolutamente todos os personagens femininos. Então a Inezita fazia a bruxa, a a rainha, a boazinha (gargalhadas), tudo era ela. E tivemos uma única apresentação naquele clube, e essa é, efetivamente, minha primeira experiência em teatro. Com a Madalena já foi um grupo, mesmo, uma coisa muito séria, e nós nos apresentamos no Teatro Municipal, como acontecia com todos os grupos amadores da época. E foi minha estréia em teatro amador".

Adolfo Celli
Perguntado se tivera influência de Laurence Olivier em seu início de carreira, Paulo foi taxativo: "Nunca tive um ator que eu olhasse e dissesse: 'Eu quero ser como ele, quero interpretar como ele'. Nunca. Eu admiro profundamente o Laurence Olivier, que foi um grande ator, depois dirigiu grandes filmes; seu Hamlet é uma referência para qualquer ator, mas nunca fui influenciado por este ou aquele ator. Se há alguém que me ensinou mais do que qualquer um, nesta profissão, foi um diretor chamado Adolfo Celli. Ele me ensinou muito, sabia tudo de teatro e inclusive foi o primeiro a usar o método de Stanislavski no Brasil. As pessoas costumam dizer que foi Eugênio Kusnet, mas não foi. O Celli já usava todos esses métodos, mas simplesmente não dava nomes, não dizia que era desta ou daquela escola". Paulo falou com reverência sobre Celli: "Quando eu comecei minha carreira, fiz papéis de homens mais velhos, mas desejava sempre fazer os galãzinhos. Eu era jovem, queria fazer papéis que tivessem a ver com essa juventude. E foi o Celli que me demoveu de tudo isso".

Um momento de hilariedade foi a aproximação de uma menina que não teria mais do que uns 12 anos ao microfone. Ela tentava fazer a pergunta, mas Paulo não ouvia. Ela repetia a pergunta, mas ninguém ouvia nada, até que alguém gritou: "Fala no microfone!" A resposta da menina, imediata, fez o público gargalhar e aplaudi-la: "Mas eu não alcanço...". Paulo, sorrindo, disse a ela que abaixasse um pouco o microfone até sua altura. A menina o fez e conseguiu finalmente indagar a Paulo sobre seus atritos no teatro. Paulo disse que não tivera maiores atritos com atores. Lembrou rapidamente sua já vergastadíssima rusga com Paulo Francis, e com isso me deu a oportunidade de perguntar sobre uma outra briga da qual ele raramente fala em entrevistas. A desavença com o crítico João Apolinário.

João Apolinário
Ao contrário do que acontecera com Francis, com quem Paulo brigou por culpa das ofensas que o jornalista fez à Tônia Carrero, o que aconteceu foi que Apolinário escreveu um artigo em que criticava a dicção de Paulo na peça Édipo. Paulo assimilou o golpe e seguiu em frente. Novo artigo de Apolinário, agora sobre a interpretação de Paulo na peça de Molière, O Burguês Fidalgo. O crítico zombava do Sr. Jourdain de Paulo, comparando a criação do ator a uma criação do saudoso comediante Costinha. Paulo não se melindrou: "A crítica não me chateou, porque embora eu realmente nunca tivesse visto o trabalho do Costinha, a minha interpretação era de fato num tom rasgado, de comédia brasileira, talvez no estilo do Oscarito, que era um grande ator cômico". Paulo mais uma vez deixou passar.

Paulo, como o Sr. Jourdain
Só que quando veio o espetáculo seguinte, tempos depois, Apolinário partiu para a mais gratuita agressão. Ignorando completamente os méritos do espetáculo, ele escreveu que Paulo "só aportava seu navio onde houvesse dinheiro", em alusão a um patrocínio mínimo, simbólico, que Paulo recebera do então governador do Paraná, Paulo Pimentel. E disse barbaridades, escreveu calúnias e ofensas inteiramente desnecessárias. Paulo ficou ultrajado porque jamais trabalhara com dinheiro do governo, sempre fizera empréstimos no banco em que tinha conta para pagar suas produções, e não deixou barato. A exemplo do que fez com Francis, mandou avisar Apolinário que lhe cuspiria na cara se o encontrasse pessoalmente. O encontro ocorreu, Apolinário levou a cusparada, houve rápido desforço físico entre ambos, e a coisa parou por aí.

A seguir, dois momentos divertidíssimos. Uma mulher perguntou a Paulo se fôra ele o ator a contracenar com Bibi Ferreira no Pigmaleão de Bernard Shaw. Paulo corrige, dizendo que a peça era na verdade o musical My Fair Lady, inspirado no Pigmaleão de Shaw. A mulher continuou, perguntando se Paulo fizera a temporada paulista num teatro situado na avenida Rio Branco.

Bibi e Paulo em "My Fair Lady"
"Não", respondeu Paulo, com perfeita memória, "a temporada paulista nós fizemos no antigo Teatro Paramount, que atualmente é o Teatro Abril". A mulher não se deu por satisfeita: "Mas Paulo, você tem certeza de que não foi num teatro lá da Rio Branco, que...", e Paulo a interrompeu, já em meio ao riso do público: "Não, meu bem. Se vc viu o My Fair Lady em São Paulo, viu no Paramount, que já foi até cinema, e hoje é o Teatro Abril".

O riso do público nem arrefecera, e vai uma senhora paraense ao microfone:

- Paulo, você lembra da temporada que você fez em Belém do Pará, interpretando poemas do Bocage?
- Quem? - pergunta Paulo.
- Bocage, Manuel Maria Barbosa Bocage (poeta português do século 18).

Paulo vira lentamente para o público e diz, arrasado: "Vocês estão vendo?... Eu nunca fiz NADA do Bocage!" O teatro vem abaixo em gargalhadas. A mulher ainda insiste: "Mas não tinha uma peça em que você fazia um trecho, um poema...?", e Paulo, irredutível: "Eu nunca fiz nada do Bocage. Você me faz lembrar a vez em que eu estava em um restaurante e vem um senhor, na minha frente: 'Olha, minha esposa adora o senhor, é sua fã', e logo em seguida vem a mulher: 'Paulo, sou tua fã número 1! Você não fez aquele musical com a Bibi, o Alô Dolly?? Respondi a ela que não, que eu tinha feito My Fair Lady com a Bibi. Ela me olhou feio... (risos) 'Não, não, você fez o Alô Dolly, eu lembro perfeitamente!!!' (gargalhadas) As pessoas às vezes querem lembrar melhor do que eu o que eu fiz".

Paulo visita Bibi
no camarim de Alô Dolly

Um jovem se aproximou e disse a Paulo que nunca o havia assistido no teatro, porque o ingresso era caríssimo. Paulo concordou que os ingressos eram caros, mas fez um comentário brilhante: "Você economiza para ir a shows de rock, economiza para comprar cds, economiza para tudo, mas não economiza para ir ao teatro".

Alguém perguntou a Paulo o que ele pensava das companhias de teatro. Paulo pronunciou-se favoravelmente a elas, mas fez uma ressalva muito interessante: "Os grupos de teatro têm uma duração limitada. Não há grupos que perdurem por décadas, por exemplo. O grupo de teatro sobrevive enquanto sobrevive a FÉ. Enquanto existe fé em uma idéia comum, em uma realização coletiva, o grupo existe. Quando termina a fé, o grupo se desfaz".

Perguntado sobre a dicotomia teatro arte x teatro comercial, Paulo revelou não ter preconceitos: "Tudo é teatro. Se o público é entretido por uma comédia simples e divertida, o objetivo do teatro foi alcançado".

Paulo em cena de "O Avarento"
O delicioso bate-papo começou a se encaminhar para o encerramento. Perguntado se pretendia remontar clássicos de seu repertório teatral, Paulo não compreendeu, a princípio, e achou que a pergunta era se ele pretendia "montar" algum clássico. Falou que sua próxima peça seria O Avarento, de Molière, o que, a exemplo do que já acontecera na sabatina da Folha, provocou vivas na platéia. Quando entendeu a pergunta, disse que não poderia remontar os clássicos que interpretara por não ter mais idade. Citou o Coriolano de Shakespeare, que montou em 76, e fez a platéia rir de novo: "O Coriolano anda com as pernas de fora, naqueles trajes romanos. E minhas pernas hoje estão uma tristeza!"

Bárbara Heliodora
Ficou para o fim uma questão extremamente desagradável. Na sabatina da Folha, Paulo fez um comentário sobre José Celso Martinez Corrêa, diretor do grupo Oficina. Disse que o considerava "o maior diretor brasileiro de teatro que já houve neste país" e elogiou copiosamente algumas das montagens do Oficina no final da década de 60. Disse, entretanto, que o teatro de Zé Celso atualmente não o interessava "em nada". Paulo falou que não tinha interesse de "entrar em um teatro em ver homens se masturbando". A Folha publicou o comentário em artigo que comentava a sabatina, no dia seguinte, e na segunda passada (dia 12), Zé teve direito de resposta. O artigo, intitulado "Quem tem medo de masturbação masculina", é de uma agressividade estúpida. Ignorando os elogios de Paulo, Zé desce ao esgoto para responder; escreve verdadeira ode à masturbação, refere-se a Paulo como um "cabação" e assim conclui seu artigo: "Além dos lugares-comuns da mais escrota classe média de suas posições sobre o governo, sobre nós, os diretores de teatro etc., mais que sua burrice, me escandalizou o choque, pela revelação, junto com Bárbara Heliodora, (ela tem a mesma posição sobre a masturbação e o teatro), do Primeiro Ator do Brasil estar aliado aos ataques mais asquerosos ao amor libido no mundo. Meus pêsames."

Perguntado sobre o que achava da réplica de Zé Celso, Paulo simplesmente sorriu: "Eu vi que ele me xingou, me ofendeu... não tenho nada a dizer. Tenho um pouco de pena do Zé".

Hora de concluir: "Comecei a ensaiar uma peça que vou dirigir com a Marília Gabriela e o Edson Celulari", adiantou Paulo. "Hoje estou aqui com vocês. Ontem fiz minha peça em Jundiaí. Eu preciso descansar um pouco (risos). Agora no dia 18 minha peça encerra temporada em São Paulo e já no dia 6 estréia no Rio. Quer dizer, eu vou ter duas semanas para não fazer absolu-ta-men-te na-da! (risos)"

Mas o melhor ele guardava para o fim: "Vou apresentar a vocês um pedaço do meu espetáculo. Quadrante". E nos deu de presente o momento do Quadrante em que demonstra as três maneiras em que se pode recitar um poema: a maneira livre, sem qualquer entonação; a maneira tonitruante e dramática dos declamadores do século 19, e a maneira que ele, Paulo, achava a mais adequada. Seria bobagem tentar explicar uma coisa que tem que ser vista para ser apreciada. Mas o poema que Paulo escolheu para esse sketch do Quadrante foi "Quero me casar", de Drummond:

Quero me casar
na noite na rua
no mar ou no céu
quero me casar.

Procuro uma noiva
loura morena
preta ou azul
uma noiva verde

uma noiva no ar
como um passarinho
Depressa, que o amor
não pode esperar!

Debaixo de uma chuva de aplausos, ele deixou o palco. Que prazer imenso poder vê-lo!
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Nesta curiosa lida de "promotor cultural", não conheci muita gente verdadeiramente interessada na divulgação da cultura. Alguns gostam do agito e do burburinho, outros se satisfazem com a rebarba do meio artístico, e há aqueles, ainda, que procuram auferir lucro de uma classe que em geral conta suas moedas para sobreviver. Conheci todos os tipos. Mas conheci também pessoas honestas, que realmente amam o teatro e que se dedicam abnegadamente à divulgação de espetáculos que, de outra forma, passariam forçosamente despercebidos. Dentre este último tipo, o exemplo perfeito é Nanda Rovere. Sozinha ou acompanhada, faça chuva ou faça sol, feriado ou dia útil, na periferia ou no centro, dia ou noite, ela está sempre varejando os teatros, assistindo peças, coletando impressões, e divulgando as peças em cartaz.

Nanda com Paulo, Guarnica e Gabriel Vilela

 Seu trabalho é sutil, discreto, silencioso e constante. Por isso mesmo vem há anos realizando-o e tornando-se ferramenta indispensável aos encenadores. Seu e-mail vem no meio de outros, sem destaque. O primeiro é esquecido. O segundo é devidamente carimbado para leitura posterior, mas acaba engolido no meio de dezenas de outros. O terceiro é finalmente lido. E dali em diante ele nunca mais é ignorado. Suas listas de recomendações culturais são, hoje, para mim, mais importantes e indispensáveis do que qualquer guia oficial da internet. As análises podem ser rápidas ou profundas, mas contém a segurança e o discernimento de quem há anos assiste o que há de melhor em cartaz. O valor de suas recomendações vêm justamente da maneira inteligente com que ela separa o joio do trigo, ou seja, a parte fútil que envolve a produção de qualquer espetáculo - e que costuma atrair aquele grupo de tietes abobalhados que nada sabe de teatro - da área criativa, intelectual e artística, aquela que o encenador deseja ver absorvida pelo público. E o faz sempre com humildade e boa vontade, razão pela qual é estimada e bem vinda em qualquer lugar onde vai.

Os textos a seguir são de três ocasiões em que recebi suas valiosas dicas. Três leituras que contaram com a presença iluminada de Paulo Autran. Em duas delas (na Casa do Saber e na Folha) estávamos juntos. Nossos encontros já geraram conversas que duraram SEIS horas. E mesmo assim, é só o começo. Nanda, um grande abraço e continue esse trabalho excelente!
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V.

Paulo na Casa do Saber – 6/9/2005

Meus caros, acabo de voltar da Casa do Saber, onde ocorreu a leitura do texto Kate e Grace, de Trish Vradenburg, com direção de Paulo e assistência de Elias Andreatto. Trish foi redatora de sitcoms, o que fez com que a peça - sobre a relação de uma filha com a mãe que é diagnosticada com o mal de Alzheimer - fosse leve e entretida, cheia de tiradas inteligentes e cômicas, mas sem perder a profundidade ou a seriedade inerente ao difícil tema. A Casa do Saber anunciou que Paulo apenas dirigiria a leitura, que contaria com Karin Rodrigues, Cristina Mutarelli, Graziela Moretto e Tuna Duek, além de Daniel Boaventura e Elias Andreatto. Portanto foi com grande prazer e surpresa que em cima da hora fomos avisados que ele leria para o papel de Jack, marido de Grace (Karin), pai de Kate (Grazi) e futuro amante de Lorna (Cristina). Na platéia, vale registrar, a altíssima Maria Fernanda Cândido, uma das idealizadoras do projeto da Casa do Saber.

Karin e Grazi estavam extraordinárias como mãe e filha. O talento sólido e consumado de Karin encontrava espelho perfeito na competência jovem e vibrante de Grazi. Um pingue-pongue redondo, que dava prazer assistir. Mas de fato, nada superou a deliciosa química entre Paulo e Cristina Mutarelli. Os dois se conheceram há anos: em meados da década de 80 dividiram o palco quando Paulo montou Tartufo e Feliz Páscoa ao mesmo tempo, com direção de José Possi Neto; em 1990, Paulo ocupava a grande sala do Cultura Artística com Tônia, enquanto Mutarelli ocupava a sala menor, com o monólogo Big Loira; e tempos depois, Paulo dirigiu O Pai, texto de Mutarelli protagonizado por Bete Coelho. Os dois roubaram a cena, como os fogosos amantes de outono Jack e Lorna. Quanto talento!

Cristina passeava pelo texto, deslizava por ele, dando humor e comicidade à cada linha. Uma comediante perfeita. E Paulo parecia matar a saudade do gênero que há tempos não leva ao teatro, e que o deixou famoso na TV, nos anos 80. Foi um privilégio poder vê-lo, como sempre. E por esse privilégio agradeço à querida amiga Nanda Rovere.
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Paulo dirige leitura na Folha – 23/11/2005

Hoje Paulo dirigiu na Folha a leitura do texto O Funil do Brasil, de Sérgio Roveri. No elenco, Cláudio Fontana, Elias Andreatto, Vera Mancini, Matheus Carrieri, Vera Zimmerman e Priscila Carvalho, entre outros. A peça satiriza o Big Brother. Fontana faz o apresentador Roberto e o resto de elenco é o cast do BBB, que na peça chama-se O Funil do Brasil: Matheus é Lauro, o marombeiro que passa o dia se exercitando na academia da casa; Vera Mancini é Gislaine, que utiliza sua gravidez para provocar simpatia no público; Vera Zimmerman é Tatiana, a amante de Roberto que pretende ganhar um programa infantil; Priscila Carvalho é Regina, a gostosa que quer posar para a Playboy; Elias é Homero, o zero à esquerda que não tem nada a oferecer, etc. A ação se passa no dia da eliminação, em que estão no paredão Homero e Gislaine. Na batalha pela audiência, Roberto faz tudo para que os podres da casa sejam jogados no ventilador durante a transmissão do programa. Eliminado, Homero decide não sair da casa, e provoca uma verdadeira balbúrdia.

A peça é engraçadinha, mas o que surpreende é a atuação de Elias Andreato, que com absoluta economia de gestos e emoções, engole o resto do elenco. Nem mesmo a extraordinária Vera Mancini foi páreo para Elias, que brilhou intensamente com seu patético Homero. Cláudio também teve uma performance muito boa como o atrabiliário Roberto.

Paulo convalescendo

Mas o melhor momento, como sempre, esteve na hora de conversar com Paulo. Mostrei-lhe o velho programa de My Fair Lady que tenho comigo. Ele sorriu, falou do acidente que o confinou a uma cama de hospital durante 10 meses, obrigando-o a deixar a peça e ser substituído por Edson França. Falou também da "pessoa maravilhosa" que era Jayme Costa, ator da infância de Paulo. A vida se encarregou de colocar o professor e o aluno no mesmo palco, Paulo como Henry Higgins e Jayme como o pai de Bibi. Segunda que vem haverá uma sabatina com Paulo na Folha. Aproveitarei para perguntar-lhe mais sobre My Fair Lady e outros espetáculos.
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Paulo Autran no Masp – 10/10/2006

Meus caros, hoje tive - mais uma vez por recomendação da antenada amiga Nanda Rovere - a oportunidade agradável e preciosa de ver Paulo no palco. Trata-se de um projeto de leituras dramáticas que ocorre todas as segundas, desde março, no auditório do Masp, e chama-se "Letras em Cena". A peça lida hoje - Mãe é Carma - foi a estréia do ator e diretor Elias Andreato na dramaturgia. A direção coube a Nilton Bicudo e o elenco trouxe os colegas de Elias em O Avarento, Paulo, Karin Rodrigues e Cláudia Missura, além de Cláudio Fontana, a quem Elias dirigiu no espetáculo anterior de Paulo, Adivinhe quem vem para rezar.

Andreato tem mais de 30 anos de carreira e seu primeiro texto é extremamente inteligente, embora nada original. As agruras enfrentadas por um casal da terceira-idade, seus problemas com a vida cotidiana, com um mundo feito para os jovens, a nostalgia do sexo, a proximidade da morte, as questões com o filho, a empregada engraçada são tema recorrente em dezenas de textos. O único diferencial de Andreato está certamente na qualidade excepcional de seus diálogos.

Karin estava soberba no papel da mãe, embora o humor imundo da personagem por vezes beirasse o mau-gosto. Cláudio como sempre muito bom, corretíssimo no papel do filho, comedidamente cômico e escada perfeita para o humor de Karin. Mas o show ficou nas mãos de Paulo e Cláudia. Não porque fossem papéis dados a rasgos de genialidade, mas porque nos proporcionaram 3 grandes momentos, 2 separados e um juntos.

1 - Raul, o personagem de Paulo, sonhava em ser ator mas acabou tornando-se advogado (por sinal, exatamente o contrário que aconteceu com Paulo, que sonhava ser advogado e se tornou ator). Por conta disso, deixava seu talento reprimido fluir em situações cotidianas, recitando sonetos de Shakespeare. E dessa forma, o público do Masp teve o prazer de ver Paulo recitar o soneto 116 do Bardo:

Que na união de espíritos puros
Eu não aceite impedimentos. Não é amor
O amor que muda quando mudanças encontra,
Ou se curva a quem quer extingui-lo.

Oh não! O amor é um marco eterno
Que inabalável enfrenta as tormentas,
É a estrela de todo barco errante.
De brilho certo, mas valor inestimável.

O amor não é joguete do tempo,
Embora ao envelhecer os lábios nos entorte.
O amor não muda conforme o dia e a hora,

Mas chega inalterado até o fim dos tempos.
Se me provarem que isto está errado, então
Nunca escrevi nem ninguém jamais amou.


2 - Cláudia Missura interpretou a empregada analfabeta Cida. Procurando novo alento para sua velhice, Dora - a personagem de Karin - aproveita que foi professora a vida toda e resolve a ensiná-la a ler. E a primeira coisa que ela aprende é "A Canção da Vida", de Mário Quintana. Em dois momentos a poesia é recitada; uma vez por Cláudia e uma vez por Karin. A emoção é inteiramente diferente em ambas, mas são momento lindos e extremamente marcantes da peça.

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando em torno a ti:
Como eu sou bela,
amor!
Entra em mim,
como em uma tela de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

3 - De seu flerte juvenil frustrado com o teatro, Raul guardou uma velha e embolorada edição de Hamlet. Aprendendo a ler, Cida resolve dar uma folheada no livro e os dois decidem interpretar juntos uma colagem da cena 2 do segundo ato e a cena 2 do terceiro ato:

HAMLET (Cláudia) - Bem, Deus seja louvado.

POLÔNIO (Paulo) - O que está lendo, meu príncipe?

H - Palavras, palavras, palavras.

P - Mas, e qual é a intriga, meu senhor?

H - Intriga de quem?

P - Me refiro à trama do que lê, meu Príncipe.

H - Calúnias, meu amigo. O cínico sem-vergonha diz aqui que os velhos tem barba grisalha e pele enrugada; que os olhos dele purgam goma de âmbar e resina de ameixa; que não possuem nem sombra de juízo e que têm bunda mole! É claro, meu senhor, que embora tudo isso seja verdadeiro, e eu acredite piamente em tudo, não aprovo nem acho decente pôr isso no papel

P - (À parte) Loucura embora, tem lá seu método. Vou deixá-lo agora e arranjar logo um encontro entre ele e minha filha. (Para Hamlet)

H — Estais vendo aquela nuvem em forma de camelo?

P — Pela Santa Missa! Parece, de fato, um camelo!

H — Creio que parece mais uma fuinha.

P — É certo; parece mais uma fuinha.

H — Ou uma baleia?

P — Uma baleia, realmente; muito semelhante.

H — Bem; se assim é, irei ter com minha mãe neste momento. (À parte) Esses velhos chatos brincam de doido comigo, ao ponto de arrebentar-me a paciência.

P - Meu honrado príncipe, não quero mais roubar seu tempo.

H - Não há nada que o senhor me roubasse que me fizesse menos falta. Exceto a vida, exceto a vida, exceto a vida!

Há muito anos eu acalentava o sonho de ver Diogo Vilela no papel de Hamlet, num elenco estelar que incluísse Walmor Chagas como Claudius, Marília Pêra como Gertrude, Giulia Gam como Ofélia, e Paulo como... Polônio! O Hamlet de Diogo veio (bem diferente do que em meu sonho, rs), mas o Polônio de Paulo ficou na imaginação. Até hoje, quando recebi esse presente de poder ver Paulo representando, mesmo que poucas falas, desse papel maravilhoso de Shakespeare. Chegou a ser um pouco vergonhoso, porque a cena era cômica e todos riam, mas eu estava emocionado às lágrimas e as pessoas me olharam com bastante estranheza. Mas o fato é que foi um momento lindíssimo e uma performance inesquecível de Paulo e Cláudia.

Depois da peça houve pequeno debate, onde fiz questão de lembrar a Paulo a semelhança das agruras do casal Raul/Dora, com as agruras enfrentadas pelo casal Souza/Lu na peça Em Família, de Vianinha, que Paulo fez com Carmen Silva, direção de Antunes Filho, em 72. Paulo lembrou que o público chorava copiosamente no espetáculo, e que quando iam falar com ele nos bastidores, o primeiro comentário não era para elogiar a peça ou texto, mas para dizer invariavelmente "eu chorei muito".

Terminado o debate, o prazer e o privilégio de abraçar Paulo, que ficou no palco junto ao elenco, recebendo em pé, incansavelmente, os cumprimentos de todos. E mais uma vez agradeço a amiga Nanda por me haver avisado.
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